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Author: Ana Valéria Celestino

“Quem não tem cão, caça com gato…”

Por conta de um amigo de infância, comecei a prestar atenção num tipo específico de moto, a scooter/motoneta. Vespa e Lambreta são as marcas mais conhecidas. Para mim, todas as motonetas eram “lambretas”, até ser esclarecida pelo amigo que “não era bem assim”. Ele é dono de uma vespa…

Jornais já estão noticiando o boom deste tipo de veículo também no Brasil. Já sabiam os italianos, uma ótima opção para a locomoção na cidade. Berlim segue a tendência, a frota de motonetas vem crescendo cada vez mais com modelos novos, variados em preços, cilindradas e qualidade. Existe até a possibilidade de alugar uma destas para passear e também o sistema de sharing com as scooters.

Schwalbe costumizada, o boom das scooters

Bom, como falei, o amigo que me apresentou a este mundo me falou também das Schwalbe, a versão alemã das motonetas fabricadas pela Simson, fábrica que depois da divisão do país passou a ser a marca da antiga Alemanha Oriental. Mais um prova da eficiência e vantagem deste tipo de veículo, os comunistas fizeram a sua própria versão. Hoje, com o aumentou do número de vespas e scooters de todas as sortes, aumentou também o número de Schwalbe, que reapareceram completando o cenário da cidade.

Fotografando uma destas belezas para o amigo, conversei com seu dono que me contou que a polícia alemã patrulhava a cidade com estas motonetas. Ele, orgulhoso, me explica que a sua schwalbe foi uma desta.

 

Schwalbe, a motoneta alemã

Schwalbe, motoneta versão alemã.

Este dias dei de cara com uma, que me fez lembrar de um dos paralelos entre brasileiros e alemães orientais. Se tem algo interessante é observar os dois jeitos de ser dos alemães. Entre outras coisas a pessoinha socializada no lado comunista é mais relaxada, espontânea, direta e com menos trava (atenção generalização!!!!) Já a socializada no lado capitalista… bom, é diferente.
Uma das diferenças que aproxima o antigo comunista do brasileiro é a veia criativa. Filha da necessidade a criatividade em dar um jeitinho para concertar as coisas, a famosa “gambiarra”, também faz parte da cultura destes alemães. Devido à escassez de “coisas”, eles eram obrigados improvisar na hora da precisão. Um jogo de cintura bem conhecido nosso, que o alemão do outro lado nem sonha em ter! Estes vão simplesmente  à loja comprar a peça que falta ou que está quebrada e substituí-la.
Há meses testo a paciência do meu caríssimo Túlio enviando fotos de vespas e schwalben que encontro nas ruas da cidade. Tinha decidido fazer uma pausa, mas eis que me deparo na rua com esta pérola. O camarada não deve ter tido tanta grana para um retrovisor chique, como o dono da outra…

É uma ideia, quem sabe vira moda…

 

Berlim tem uma imagem a zelar

Berlim não é a “maior” cidade da Alemanha, Berlim é a única “cidade grande” na Alemanha.

Berlim tem muitos problemas, é suja, e pobre, é violenta e é perigosa (na visão dos Alemães). Berlim está construindo um aeroporto internacional há 11 anos, bem na tradição e estilo das obras do metrô de São Paulo…  Aqui as coisas não são tão “sérias” como no resto do país, nem a separação do lixo é tão rigorosa. Pasmem!

Pra um futuro próximo, o aeroporto internacional de Berlim.

 

Resumindo, Berlim não funciona como a “Alemanha”. Berlim tem seu charme no jeito “curto e grosso” no trato entre as pessoas, no humor direto e na desconfiança no outro, típica das cidades grandes. Isso poucos alemães entendem, já que só Berlim foi e é uma cidade grande… Esta semana foram assunto na mídia, dois causos que mostram bem o que é Berlim.

Um vizinho da Kulturbrauerei – uma antiga fábrica de cerveja que há mais de 20 anos abriga um complexo cultural com teatro, casa de shows, cinema, discotecas e lojas – resolveu colocar nas ruas uma carta explicando tudo o que se pode fazer contra o barulho noturno importuno, inclusive o telefone da delegacia mais próxima e as formas jurídicas para a denúncia, além dos nomes dos clubes…  Este é um problema típico das mudanças que ocorrem na cidade, os antigos bairros do lado comunistas estão se tornando bairros de luxo, atraindo os “caretas endinheirados” do interior do País.

 

Carta colocada na rua, orientando os vizinhos como e onde reclamarem do barulho noturno.

O escritor Michael Nast, berlinense da gema, postou no face a tal carta, e a reação dos “pro Berlim-raiz” foi imediata e em massa, mostrando bem os ânimos acirrados entre antigos e novos moradores. Prenzlauer Berg, onde está o Kulturbrauerei,  é um bairro que vem sofrendo muito com esta transformação… Uma dica, quer viver Berlim-raiz, vá para Kreuzberg!

Nesta toada de festas e barulhos importunos, o outro causo. Devido à reunião do Grupo dos 20, policias berlineses foram chamados para Hamburgo. Por puro tédio os berlinenses fizeram uma festa no alojamento e 3 deles acabaram se excedendo. O mesmo folhetim que escreveu sobre o o vizinho careta denunciou os festeiros. A farra acabou num escândalo quase nacional, e os 3 rapazes “excessivos” foram enviados de volta pra casa. A policia teve de ir à TV para se desculpar e se justificar.

Mais uma vez a reação rápida dos berlinenses,  o partido Die Partei chamou um evento fictício pelo face, em solidariedade aos policiais, com o tema:  “Os berlinenses podem fazer isso!”. O evento deveria estar acontecendo exatamente agora, enquanto escrevo.

A “Club Comission”, que luta pelos clubes da cidade, elogiou em um texto em tom jocoso a ação dos policiais em Hamburgo, que como bons berlinenses organizaram a festa de abertura da reunião do G-20: “tradicionalmente fantasiados em seus uniformes, com música alta e live-performances excessivas. Os colegas de Hamburgo, conhecidos “caretas”,  foram barrados na festa e, por isso, se vingaram vazando fotos do alojamento.”  Em agradecimento, o Club Comission oferece aos policiais, que trabalharam em Hamburgo com tanto afinco pela imagem da cidade to, ingressos grátis para o clube de sua preferência.

 

Foto vazada da festas dos policiais berlinenses.

 

Apesar da “invasão dos alemães”, Berlim resiste e tenho fé que conseguirá mater sua alma libertária e os berlinenses sua fama. Berlim é única, e como disse ex-prefeito Klaus Wowereit “Berlim é pobre, mas é sexy!”

 

 

 

 

 

Museu do temporário – Urban Nation, Berlim

Já ha tempos venho ensaiando escrever sobre Urban Nation, em Berlim.  Desde 2013 esta associação convida “grafiteiros” para criarem nas fachadas e paredes de prédios, e em outros locais nas ruas de Berlim.  O projeto tem a participação de jovens artistas contemporâneos urbanos, formando uma rede internacional. Quem está sempre por aqui é o brasileiro Crânio. Das ruas para um espaço fechado, em setembro deste no está prevista a abertura do Museu de Arte contemporânea Urbana. Deixo aqui o link do projeto para quem quiser saber mais. https://www.urban-nation.com/about/

Urban Nation, Berlim

 

Toda a fachada do prédio da associação e seus alguns de seus vizinhas estão decoradas com trabalhos fantásticos que, é claro, de tempos em tempos, são substituídos por novos. Uma das grandes características desta arte é a sua vida curta, e sua fragilidade. Não é raro um lindo desenho ser “estragado” por uma pichação. Mas nesta discussão eu nem quero entrar…

Urban Nation, Berlim

 

Hoje a arte de rua contemporânea já é reconhecida mundialmente, saiu das ruas para entrar no mercado. O artista expõem em galerias e quer e precisa vender seu trabalho. E porque não!? Interessante é observar uma arte, que ainda vive na proposta do efêmero, ser transformada em “eterna”, já que com certeza irá servir como investimento para o dinheiro acumulado por poucos. Outro tema também que daria uma boa troca de opiniões!

Urban Nation, Berlim

 

Mas enquanto isso, Berlim está cheia de obras fantásticas que podem ser até vistas em passeios turísticos especializados. Aqui tem obras de brasileiros como Os Gêmeos e, como falei, o Crânio. Se algum leitor souber de mais alguém que andou por aqui, por favor, nos informe!

Não podendo evitar a comparação…

Enquanto a política de Berlim estimula e vê na arte de rua  – aqui de maneira mais ampla que os grafites – como enriquecimento cultural, atração turística, embelezamento do espaço urbano e como uma forma de destacar-se no cenário mundial. A política de São Paulo, oposta à de seu antecessor, aposta na criminalização e na exclusão desta arte. Talvez, percebendo a bola fora, foi lá o prefake pintar um coração murcho que é bem o que ele representa. Vão levar rapidinho esse coração, prefake!!!

Crânio, Urban Nation, Berlim.

São Paulo aposta em parar no tempo, ou melhor em “voltar pra trás” (o pleonasmo aqui intensifica atitude tacanha!). Ao meu ver é um retrato fiel de boa parte dos brasileiros, ainda agarrados aos seus valores conservadores….