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Author: Ana Dietrich

Carnaval

Quase seis horas, mas vai ainda visitá-lo, o amigo pintor, recém-chegado de viagem. Passa pelo jardim, apanha raminhos de manjericão cheiroso, há sempre alguma orquídea  aberta a apreciar pelo caminho… Chega ao ateliê, gosta de apreciar o “Orquidário”, tela de rara beleza, onde o amigo reproduziu a perfeita beleza das orquídeas do jardim, agora ao lado da outra, um fantástico “Carnaval”, que suas mãos talentosas criaram com máscaras coloridas. Um carnaval tantas vezes intensamente vivido, mas que se fora para sempre da vida dele.

Quer fotografar as duas telas, o amigo entre elas, Tinha-as visto nos esboços, tomando lentamente as cores, as formas se aprimorando, até chegarem à plenitude, com sua beleza contagiante, vencendo concursos, despertando admiração. E retornadas agora das viagens, das exposições, um rastro de beleza deixado pelos caminhos.

Consulta o relógio: seis horas.  Tem pouco tempo, tantos os compromissos. Liga mais luzes, quer plena claridade, prepara o flash, dispara. Mas, com ele, máscaras escapam da tela, ganham corpo e vida, se atropelam, multiplicando-se às dezenas. Quer ser racional, buscar explicações sensatas, mas os foliões a envolvem, invadem o “Orquidário”,  colhem as flores, esvaziam a tela.

Cruzam-se serpentinas, tudo é alegria. Mal pode vislumbrar o amigo pintor nos braços foliões, rindo e dançando. Pensa no vinho que ele lhe serviu, nos brindes ao sucesso. Quem sabe ali a explicação, talvez um pequeno exagero. Ou a existência se redefinindo em enigmáticas paragens? Não importa. Entra no clima, tromba com arlequins e pierrôs, canta também marchinhas de tantos carnavais passados. Flutuam todos no espaço dilatado, a luz jorra de ignotas fontes…

Estranhamente, não se movem os ponteiros do relógio.

Mas o vento frio da madrugada entra pela janela. Murcham as orquídeas, foliões se reduzem a máscaras, as esgarçadas fantasias se diluem no ateliê. A alegria se vai. Voltam lentamente às telas, máscaras e flores.

Consulta o relógio: seis horas. O tempo não escorrera? E lá está o amigo pintor, o sorriso bondoso, nenhuma perplexidade. Não teria vivenciado tais momentos? Melhor se calar, quem sabe passageira alucinação. Ou feitiço daquelas telas encantadoras?

Despede-se. Sai à rua. Nada acontecera. Não há carnaval, apenas a rotina. Faz frio. Enfia as mãos nos bolsos do casaco. Confetes?

 

Maria Apparecida Sanches Coquemala

Autora licenciada em Letras, especializada em Linguística, pedagoga. Premiada pela UBE, Rio com A Gruta Azul e Carnaval, 2º e 3º lugares; e pelo Governo da Paraíba, Correio das Artes, com À Espera e pela Ed. Porto de Lenha, Gramado, ambos 1º lugar, todos  coletâneas de  contos e crônicas.  Na literatura infanto-juvenil, publicou Naná e o Beija-flor; na poesia, À margem da vida e Pulsar, este já na 3º ed. Autora também de Círculo Vicioso, O Último Desejo, Além dos Sentidos e Flashes, coletâneas de contos e crônicas; Participa de antologias no Brasil,  Portugal e Itália. Cronista de O Guarani, jornal  de  Itararé, SP, cidade onde reside.

Email para contato: maria-13@uol.com.br

 

O PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS E A MÍDIA

Alan Aparecido Gonçalves

Marcos Costa

Sandra Felix Santos

Sandra Salerno

Thiago Augusto Pestana

Pesquisadores do Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos/ UFABC

Ana Maria Dietrich

Orientadora/ Docente UFABC

Resumo
O presente trabalho busca uma reflexão acerca dos desafios da efetivação da preservação dos Direitos Humanos na mídia. Para isso, buscamos esboçar um histórico da transformação que ocorreu na mídia e propor estratégias de difusão de informações importantes para dificultar a violação dos mesmos, seja por conta de racismo, sexismo, discriminação ou preconceitos.

Introdução

A Declaração Universal de Direitos Humanos completará 70 anos em 10 de dezembro de 2018. Essa comemoração nos faz refletir sobre como nossa sociedade, ainda reproduz injustiças e desigualdades, que, por conseguinte faz parte de retrocessos bastante acentuados e antagônicos à proposta da Declaração. Atualmente estamos em um momento crítico, e presenciamos diariamente manifestações de ódio, informações manipuladas e discriminação, principalmente através da mídia.

Sabemos que o conhecimento é a ferramenta que permite às pessoas a mudança, então, acreditamos que a melhor maneira de evitar que essas violações evoluam seja a difusão das informações e dos direitos de forma a envolver todas as pessoas com clareza e ciência sobre aquilo que é necessário falar. No Brasil, de acordo com a pesquisa feita pelo Ibope a pedido da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República em 2013, as pessoas passam em torno de 3h39min diariamente conectados à internet[1] e nesse caso, é importante ressaltar sob qual a forma que as pessoas assimilam os conteúdos fornecidos pela internet e qual seu posicionamento acerca das veracidades ali propostas. Temos como pressuposto, incitar pesquisas mais aprofundadas sobre determinadas questões no intuito de problematizar e confrontar notícias em busca de uma versão mais fiel à realidade proposta em um primeiro plano.

Em 2007, foi lançado no Brasil, o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos que propõe, entre outras coisas, diretrizes para a inclusão de ações educativas na mídia, capazes de penetrar nas regiões mais longínquas dos Estados e do país, fortalecendo a cidadania e os Direitos Humanos (BRASIL, 2007).

Além disso, temos previsto em nossa legislação vários trechos específicos que visam garantir a proteção dos direitos, da dignidade e da cidadania, como a nossa Constituição Federal de 1988, a Lei de Proteção ao Consumidor (Lei Nº 8.078, DE 11 DE SETEMBRO DE 1990) e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

O objetivo deste trabalho é analisar as mudanças que já vem ocorrendo na mídia neste sentido para que seja possível propor estratégias que contribuam com a efetiva execução das diretrizes propostas no Plano Nacional de Direitos Humanos no que se relaciona à mídia.

Acreditamos que, se utilizada de forma adequada, a mídia pode ser um grande aliado à preservação dos Direitos Humanos.

A transformação da mídia

Através da pesquisa sobre os anúncios de publicidade, pudemos observar que muitas mudanças positivas vêm acontecendo gradativamente e muitos questionamentos a respeito da violação de direitos e discriminação. Entendemos que as propagandas eram fruto de pessoas com vistas à sua época, e nesse caso, cabe a nós uma reflexão que considere isso no presente.

Pudemos observar que, mesmo após a Declaração Universal de Direitos Humanos, ainda era frequente a divulgação de anúncios agressivos, discriminatórios e preconceituosos, como pode ser observado nas figuras abaixo:

Figura 1 – Anúncio racista da Fairbank Company (1900)

 

Figura 2 – Anúncio sexista da empresa Chase & Sanborn (1950)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No entanto, pouco a pouco, as mudanças começaram a surgir e atualmente, não apenas se tornou incomum a divulgação de anúncios com essas características, como também existem questionamentos que tem como objetivo alertar a insensatez dessas imagens, como o exemplo do trabalho do fotógrafo Eli Rezkallah, de Beirute, no Líbano, com uma série chamada “In A Parallel Universe”[2]:

Trabalho de Eli Rezkallah

 

Nesse sentido, analisando a teoria frankfurtiana de “indústria cultural” e “cultura de massa” de Adorno e Horkheimer, fica clara a percepção e preocupação destes teóricos em relação às banalidades que os conhecimentos fora dos moldes tradicionais podem oferecer. A propaganda nesse aspecto busca a síntese de imagens, disposição de cores e mensagens que podem estar bem além daquilo que se pode considerar como inofensivo. Walter Benjamins da mesma “escola” supracitada, já pensa que a reprodução de imagens pode favorecer o conhecimento de maneira democrática sem limites de espaços mais é preciso o domínio ético acerca daquilo que está sendo reproduzido e qual sua finalidade e objetivo. Sugere-se então com essas teorias que as mídias acabam por fomentar grande parte das informações consumidas em todo globo terrestre e se tornou um instrumento de difusão de saberes e de dominação seja por ordem do capital ou por questões políticas e ideológicas.

Sem dúvida, as mídias chegaram para ficar e cabe aqui refletir sobre como elas estão sendo tratadas e assimiladas pela massa. Partiremos da análise das mensagens e imagens popularmente chamada de Fake News que busca difundir informações deturpadas que fomentam discursos de ódio acarretando instabilidades sociais em todos os campos da sociedade. A exemplo disso, a vereadora Marielle Franco (PSOL) que foi assassinada junto a seu motorista Anderson Pedro Gomes no dia 14 de março de 2018 teve sua imagem associada a facções criminosas gerando a revolta de populares e entes próximos que sabiam que tal envolvimento era uma farsa. Esse exemplo nos aponta indícios de que forma algumas pessoas deturpam as informações e buscam a reprodução imediata destas inverdades nas redes sociais principalmente. Analisar a mídia é um exercício de resistência. É buscar a verdade acima de tudo e difundir conhecimento através dela e não advogar a favor de pessoas ou grupos como estratagema de dominação das mentalidades. Trata-se, portanto, de divulgar os Direitos Humanos, buscar resgatar a identidade das pessoas perdidas pela mentira das redes e convidá-las a reflexão sobre a verdade e a mentira. A educação salva aquilo que estão tentando assassinar e manipular: o conhecimento.

[1] Informação disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/brasileiro-passa-mais-tempo-na-internet-que-na-tv-diz-pesquisa-11810499; Acesso em: 20 mai. 2018.

[2] Disponível em: https://hypescience.com/fotografo-inverte-os-papeis-de-genero-em-propagandas-vintage-sexistas-e-os-homens-nao-vao-gostar-do-resultado/; Acesso em: 22 mai. 2018

 

Referências Bibliográficas

BENJAMIN, Walter, 1892-1940. – A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica / Walter Benjamin; organização e apresentação Márcio Seligmann-Silva; tradução Gabriel Valladão Silva. – 1. ed. – Porto Alegre, RS: L&PM,2013. 160 p.; 21 cm.

BRASIL, Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos / Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. – Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2007, 76 p.

BOURDIEU, Pierre, 1930-2002. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino / Pierre Bourdieu, Jean-Claude Passeron; tradução de Reynaldo Bairão; revisão de Pedro Benjamin Garcia e Ana Maria Baeta. 6. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

ORWELL, George, 1903-1950. – 1984 / George Orwell; tradução; de Wilson Velloso. – 17. ed. – São Paulo: Ed. Nacional, 1984. (Biblioteca do espírito moderno; série 4.: Literatura; v.24).
SETTON, Maria da Graça. Mídia e educação / Maria da Graça Setton. – 1.ed..1ª reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2011.

Referência Virtual

COSTA, Thiago Augusto Pestana da. EDUCAÇÃO, ESPELHO DA SOCIEDADE OU REFLEXO DA MÍDIA? Disponível em: http://conic-semesp.org.br/anais/files/2014/trabalho-1000018369.pdf; Acesso em: 07 abr. 2018.

Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos / Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. – Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2007. pp. 53-59. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=2191-plano-nacional-pdf&category_slug=dezembro-2009-pdf&Itemid=30192; Acesso em: 08 abr. 2018.

 

Educação em Direitos Humanos na Educação não formal

Anaelisa A. Magalhães

Dione M. M. Costa

Fátima Bezerra

Iris de Franco

Mara T. Machado

Rodrigo Torres

Pesquisadores do Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos/ UFABC

Ana Maria Dietrich

Orientadora/ Docente UFABC

Anunciar e promover Direitos Humanos, primordialmente em atendimento ao grande exército de excluídos, é um exercício de alteridade constante que deve ser incluído no processo educativo.

O fortalecimento democrático da sociedade, clama por um elo intrínseco do conhecimento por parte dos cidadãos da sua condição de sujeitos de direito, isto implica conhecer e compreender os processos e construções históricas, sejam das conquistas ou das derrotas que envolveram as lutas pela criação, efetivação e ampliação dos direitos e deveres dos diversos povos no mundo.

Há tempos a esperança vem regando os jardins da educação em seus desafios, sobretudo, na construção da criticidade e da autonomia dos indivíduos conscientes do seu papel transformador.

Fonte: COSTA et al., (2018)

Em questões de Direitos Humanos, a luta é similar e um pouco mais desafiadora, principalmente, quando nos deparamos com visões distorcidas produzidas pelas forças dominantes, as mesmas que também lutam, porém, pela manutenção do fosso das desigualdades sociais.

No Brasil, apesar de ser um país signatário de princípios internacionais de Direitos Humanos e ter avanços significativos na produção legislativa dos mesmos, ainda mantem uma distância muito grande entre teoria e prática, uma lacuna a mais, jogada para as margens dos excluídos.

Fonte: COSTA et al., (2018)

 

Fonte: COSTA et al., (2018)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porém, tais avanços de base legal, constituem uma das vertentes impulsionadoras das iniciativas que comungam a construção de uma sociedade democrática e justa. O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), concluído em 2006, se traduz como política pública na consolidação de uma cultura de direitos humanos em seus cinco eixos de atuação, dentre eles, a Educação Não-Formal (BRASIL, 2007).

Educar na informalidade, é estar livre das avaliações, das normas, da padronização. É um estado de desprendimento que pode levar a um maior comprometimento e compartilhamento dos indivíduos em suas comunidades e na sociedade de modo geral. Segundo Gadotti (2005), a educação não-formal tem uma burocracia menor, é menos hierárquica e por sua vez, é mais difusa.

A construção da educação não formal no mundo atual decorre do fim da Segunda Guerra Mundial, com destaque para dois pontos principais: a ruptura na relação oferta e demanda, o aumento do número de alunos com insuficiência de vagas; e a insatisfação quanto ao ensino ministrado nas escolas, principalmente no tocante às novas demandas tecnológicas apresentadas com o advento da Guerra Fria. Tal conjuntura, impulsionou o movimento da educação não formal, construindo em sua prática uma maneira diferente de vivenciar como também compreender o processo ensino-aprendizagem.

Com relação ao desenvolvimento e ao empenho de diversos atores no universo da Educação não formal, Rodrigues e Tamanini (2012, p. 4) destacam Paulo Freire abrindo “os caminhos para a reflexão sobre o papel do conhecimento, e a responsabilidade social e política do educador e, sobretudo, do sentido emancipatório da educação pública”.

O PNEDH, destaca a importância da educação não formal, uma vez que a aquisição e produção de conhecimento não ocorre apenas nos espaços formais, mas também na família, no trabalho, nos movimentos sociais, nas ONGs, e em todos os lugares de convivência dos indivíduos. Orienta e propõe ações programáticas dentre as quais destacamos: “promover cursos de educação em direitos humanos (EDH); incorporar a temática da (EDH) nos programas de inclusão digital e de educação à distância; propor a incorporação da temática da (EDH) nos programas e projetos de esporte, lazer e cultura como instrumentos de inclusão social” (Brasil, 2007, p. 45,46). Assim, somos todos convidados ao estudo, à compreensão e à disseminação da cultura de direitos humanos por uma sociedade e um mundo muito melhor.

Fonte: COSTA et al., (2018)

Referências

BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Ministério da Educação. Ministério da Justiça. UNESCO. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de
Educação em Direitos Humanos. Brasília: 2007.

COSTA, Agnes M.; GUIMARÃES, Ana P. O.; ALONSO, Barbara P.; CRUZ, Caroline C.; LIMA, Carla C. P.; SILVA, Giovana U.; OLIVEIRA, Tamires S.; SILVA, Thais S. A interação do homem com os Direitos Humanos. Faculdade de São Bernardo do Campo/Pedagogia. Políticas Educacionais I. 19 p. 1° ano. 2018.

GADOTTI, Moacir. A Questão da Educação Formal/ Não-Formal. www.paulo.freire.org/pub/Institu/Substitucional203023491lt003PS02/Educação, 2005. pdf.

RODRIGUES, Denusa Luzia. TAMANINI, Elisabete. Educação não formal e movimentos sociais – práticas educativas nos espaços não escolares. Seminário de Pesquisa em Educação da região Sul – IX ANPED SUL 2012. Disponível em: http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/anpedsul/9anpedsul/paper/viewFile/1178/78. Acesso: 03 abr. 2018.