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A teoria da classe ociosa: uma análise de Thorstein Veblen sobre a dominação socioeconômica entre classes.

Gabriel Motta Costa
Técnico Mecânico pelo  Instituto Federal Fluminense

Graduando de Bacharelado em História na Universidade Federal Fluminense (UFF)

Integrante do Laboratório de História do Poder e das Ideologias (LAHISPI/UFF)

 

A teoria da classe ociosa: uma análise de Thorstein Veblen sobre a dominação socioeconômica entre classes.

 

           Gabriel Motta Costa

 

O sociólogo e economista americano Thorstein Veblen (1857-1929) foi um dos fundadores da Escola institucional de economia[i]. Veblen cursou a Universidade de Yale na graduação e no doutorado, onde se doutorou em filosofia. Tornou-se professor das universidades de Chicago, Stanford, Missuori e da New Scholl for Social Research, em Nova Iorque. O foco de seu estudo estava relacionado à produção de massa, às grandes empresas e ao capitalismo financeiro. Veblen criticou veemente o sistema econômico norte americano. Seus trabalhos tomaram maior importância após a crise de 1929 e da recessão econômica de 1930, depois da sua morte. Dentre seus diversos trabalhos destacam-se: “A Teoria da Classe Ociosa” (1899), “The Theory of Business Enterprise” (1904) e “The Engineers and the Price System” (1921). Veblen foi um crítico do sistema capitalista norte americano e um cético quanto às virtudes do socialismo. O legado de seu pensamento se cristalizaria nas reflexões sobre a sociedade de consumo.

Thorstein Veblen traz em sua obra A teoria da classe ociosa, do capítulo I ao V analisados para esse trabalho, a discussão sobre a origem de uma classe ociosa. Classe esta que não está inserida diretamente no seio da burguesia detentora dos meios de produção e muito menos no meio da classe trabalhadora, mas que mesmo distante do trabalho e de que o circunda, goza de privilégios e acumula riquezas. Logo nas primeiras linhas do prefácio desta obra, Veblen sintetiza o intento de sua investigação “o propósito é discutir o lugar e o valor da classe ociosa em sua qualidade de fator econômico da vida moderna” [ii]. O autor também faz uso de uma abordagem que tenta encontrar evidências nos objetos, roupas, ritos, rituais e dentre outros, para a estruturação e a confirmação de uma classe ociosa como um fator econômico. “Foi necessário dar uma certa dose de atenção à origem e a à linha de derivação dessa instituição, bem como às características da vida social não comumente classificadas como econômicas”[iii].

As questões que Veblen coloca são: qual é e como surgiu a classe ociosa? Para revelar a consolidação da condição ociosa por uma determinada camada social, Veblen retorna a um período em que as relações entre os homens seriam primitivas e o fator econômico não exerceria influência sobre estas. A partir desse ponto, Veblen buscava expor como a instituição de uma classe ociosa reportada ao período feudal, em que as classes mais altas eram alheias ao trabalho manual e estavam somente ligadas às funções honoríficas: reis, nobres, sacerdotes e agregados.

Para o autor, o costume, fator cultural, influenciou diretamente a consolidação desse ideário de afastamento da atividade manual e da marginalização do trabalho, por uma determinada classe. O trabalho era visto e tratado como uma forma de inferioridade e humilhação, já que existia a sujeição de um indivíduo a um senhor. Às classes superiores a abstenção de qualquer forma de trabalho produtivo, porém, somente o abandono do trabalho não constitui uma classe ociosa.

Segundo Veblen, o fator cultural e a descriminação do trabalho mostram-se como a base ideológica e prática para a estruturação da ociosidade de uma determinada camada social. Atrelado esses fatores, estaria o estabelecimento da propriedade privada. Veblen entendera que a classe ociosa seria consequência da propriedade individual. Num estágio primitivo, a propriedade individual estava relacionada à posse do homem sobre a mulher e de artigos úteis. Mesmo em sua forma embrionária a instituição da propriedade privada teria o caráter de uma luta entre homens pela posse de bens[iv]. Neste primeiro momento, sob o aspecto da teoria econômica, a acumulação e aquisição de bens é o seu consumo direto, proporcionando conforto material aos indivíduos. A análise de Veblen propõe uma perspectiva complementar a teoria econômica. Pode-se notar o caráter antropológico em sua visão ao sustentar que o consumo de bens não é um fator que levará invariavelmente à acumulação. Para Veblen a justificativa para o estabelecimento da propriedade privada é a emulação, a competição. A propriedade toma uma nova conotação, a de acumulação de riquezas, tendo como fundamento o incentivo à distinção odiosa ligada à riqueza, relação entre possuidor e aquele que não as possui; a riqueza toma um caráter de troféu. A posse de riqueza confere honra[v].

Pela sua própria natureza, o desejo de riquezas nunca se extingue em indivíduo algum, e evidentemente está fora de questão uma saciedade do desejo geral ou médio de riqueza. Nenhum aumento geral de riqueza na comunidade ao estancamento das necessidades individuais, porque o fundamento de tais necessidades é o desejo de cada um de sobrepujar todos os outros na acumulação de bens.[vi]

 

Veblen entende que nas sociedades industriais a acumulação de riquezas e de propriedade de bens estaria relacionada à estima social, os bens materiais tornarse-se-iam a base convencional da honorabilidade e a riqueza confere a seu possuidor além de honra, poder. Com isso, ter mais bens que os outros indivíduos de sua classe, confere poder àquele que se sobressai. A confirmação de superioridade para com o outro, se dá na prática da ostentação como demonstração de poder. Reafirmando a sentença do autor: a classe ociosa é sustentada na propriedade privada. Veblen percebe que a relação com o trabalho tem um caráter contrário nas classes inferiores, onde o trabalho não é vergonhoso ou visto como algo vil e, é a única forma de emulação que é permitida a esta classe. “Sendo o trabalho o seu modo de vida reconhecido e aceito, os indivíduos se orgulham da eficiência no trabalho por ser esta a única maneira de emulação que lhes é permitida” [vii]. Contrastando a esse princípio, a classe ociosa se abstém de qualquer forma de trabalho produtivo, incentivada pela diligência de suas riquezas e poupanças. Para Veblen a classe ociosa se beneficia de estruturas do passado que não foram dissolvidas para manter-se no poder sem que haja alteração de seus princípios econômicos básicos, “a desnecessidade conspícua de trabalhar se torna a marca convencional de uma superior realização pecuniária e o índice aceito de respeitabilidade” [viii].

Em sua análise, Veblen identifica outro fator que está ligado à forma de dominação da classe ociosa sobre as demais classes e, que perpassa a distinção entre a acumulação de riquezas. Através do consumo conspícuo, a classe ociosa dita às funções de gastar, afirma parâmetros de comportamento e de bom gosto para os demais estratos sociais. Veblen ressalta que a criação da etiqueta para consumir certos produtos expressa formas de manipulação, distanciamento social e confirmação de poder. Também aborda como o consumo afirma a distinção social dentro da própria classe ociosa e que atinge as classes inferiores. Para o autor, o consumo conspícuo se afasta da primazia de satisfazer as necessidades materiais dos indivíduos para sua subsistência. Veblen assinala um novo sentido para o consumo, o relacionando a afirmação de um status social. Àqueles que podem consumir determinados produtos, que não são adquiridos por todos ou por uma parcela mais abastada, são superiores economicamente e socialmente que os demais. Veblen entende o consumo como um aparato de coerção social.

Sintetizando o estudo de Veblen nos capítulos tratados neste trabalho, a classe ociosa apesar de estar afastada do trabalho, por fatores sociais, históricos, culturais, dentre outras causas; consegue acumular riquezas que a possibilita ocupar um estrato social privilegiado e que a permite influenciar todas as demais camadas sociais. A dinâmica capitalista não interferiu na sua permanente ociosidade e nem em sua base econômica, pelo contrário, possibilitou seu afastamento das classes inferiores. A classe ociosa através da riqueza acumulada durante os anos e pela diferenciação social que o capitalismo exprime, garante a sua sobrevivência na sociedade industrial. Dando novos sentidos às formas como a propriedade privada, riqueza e consumo são expressos socialmente, tendo ela o controle sobre os parâmetros de estima social, a classe ociosa consolidou a sua permanência na sociedade.

 

[i]  New School for Social Research. Modelo que compreende o sistema econômico como um todo, dando ênfase em suas instituições.

 

[ii] Cf. VLEBEN, Thorstein. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo, Nova Cultural, 1987. p. 3.

 

[iii] Ibid.p. 16.

 

[iv] Ibid.p. 15

 

[v] Ibid.p. 18.

 

[vi] Ibid. p. 19.

 

[vii] Ibid. p. 21

 

[viii] Ibid. p. 23

 

 

Referência bibliográfica:

VLEBEN, Thorstein. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituiçõescap. I, II, III, IV e V. São Paulo, Nova Cultural, 1987.

Netsaber Biografias.

Disponível em: http://biografias.netsaber.com.br/biografia3242/biografia-de-thorstein-bunde-veblen. Acesso em: 24 abr. 2020.

 

 

 

Professora Doutora do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT) e do Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA). Membro do Grupo de Estudos do Integralismo (GEINT).

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