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Zumbi dos Palmares: A história de um legado

 

Samara de Miranda Argolo, graduada em licenciatura em história pela Universidade Federal Fluminense. Professora de ensino fundamental II na rede particular de ensino; professora voluntária no pré vestibular da Superintendência de Igualdade Racial (SUPIR). Membro do Núcleo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Educação (NEEPEd), estuda e pesquisa o ensino de história e as relações étnico-raciais com ênfase em educação.

Zumbi dos Palmares: A história de um legado

Resenha do livro Três Vezes Zumbi: a construção de um herói brasileiro FRANÇA, Jean Marcel; FERREIRA, Ricardo Alexandre. Três vezes Zumbi: a construção de um herói brasileiro. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

 

Poderíamos considerar contraditório o fato de que apesar das várias narrativas acerca de sua história, Zumbi dos Palmares não possua uma biografia historicamente comprovada? Analisar tais narrativas, atentando-se, principalmente, às suas ressignificações, nos diz muito mais sobre o imaginário social construído em diferentes contextos e temporalidades do que sobre a história do próprio Zumbi. Em sua obra intitulada “3 vezes Zumbi: a construção de um herói brasileiro”, os autores Ferreira e França (2012), discorrem sobre a construção de uma biografia de Zumbi e apresentam as diversas faces de um homem que para uns foi guerreiro, herói e até revolucionário. Vale destacar que para os autores (2002, p. 15): Não é a história da vida de um homem, de um herói ou de um líder, mas a história da construção da verdade acerca de um acontecimento do passado que compactuamos com o nacional, um acontecimento constituinte do que gostamos de denominar “identidade brasileira”.

Dito isso, iniciemos a discussão apresentando o começo da construção dessa identidade histórica com o Zumbi dos “colonos”, como definem Ferreira e França (2012). A contextualização do período é um elemento chave para a compreensão sobre o tema, uma vez que investigar quem era Zumbi para os seus conterrâneos só é possível através de relatos documentados que possam transmitir as imagens e impressões que se tinham sobre o Quilombo dos Palmares. No período colonial, a América Portuguesa era a maior importadora de africanos nas Américas, ou seja, a presença dos negros na sociedade passou a ser motivo de preocupação. Nesse sentido, a adoção de métodos diretos como a coerção, ou indiretos, como o incentivo a rivalidades étnicas entre os próprios escravizados, por exemplo, legitimava a manutenção e permanência do sistema escravista. A igreja católica tem um papel central nesse contexto, pois, justificava e aceitava a escravidão negra, mas, considerava um erro o comportamento pouco cristão dos senhores. Os escravizados tornaram-se, a contragosto, integrantes indispensáveis na sociedade (FERREIRA E FRANÇA, 2002. p.27) e por isso, questões sobre as atitudes que um cristão deveria ter em relação aos escravizados foram levantadas.

A escolha de seguir os passos dos autores de remontar o contexto histórico desse período é importante porque dentre as tentativas de regrar a escravidão e a relação entre senhores e escravizados, o lema “pau, pão e pano”, no qual o castigo e violência serviam como mecanismo de correção legítimo, serviu como motivo de conflitos e tensões: a fuga dos cativos como resposta às condições de vida hostis nos leva até a formação de Palmares, e, consequentemente a Zumbi, que se por um lado teve uma aparição tardia nos escritos da época, de outro encontrava-se na posição de um agente transformador que representava uma verdadeira ameaça para a Coroa e para a sociedade escravista. Nesse sentido, Zumbi é considerado um guerreiro “bárbaro” cuja rebeldia e insubordinação gerava temor e disposição para derrota-lo em nome da estabilidade e da ordem. Em seu livro A História da América Portuguesa, Rocha Pita menciona o Zumbi dos séculos XVII e XVIII referindo-se a ele como Zambi ou Zombi, que segundo o autor significa “diabo”, tratando-se de um título e não de um nome próprio, reforçando o caráter guerreiro do mesmo. A morte de Zumbi foi descrita com seu suicídio como recusa a render-se a escravidão quando foi capturado. Segundo os autores

Mais do que isso não iremos encontrar nos escritos coloniais, os quais […] estavam interessados antes em relatar os sucessos alcançados pelos colonos e seus “capitães” no combate ao quilombo do que glossar o dia a dia dos rebelados ou as virtudes e defeitos de seus líderes.  (p. 56).

A partir da vinda da família real em 1808 e da promoção de colônia a Reino Unido a Portugal em 1815, surgiu a necessidade de se pensar o Brasil como uma nação, nesse sentido, diversos intelectuais buscaram construir um ideal de cultura nacional. No segundo capítulo, referindo-se ao Zumbi do período imperial, os autores enfatizam que José Bonifácio foi um dos que defendia a integração do negro na sociedade, propondo também a gradativa abolição da escravidão e a educação dos escravizados para que estes se tornassem civilizados e dignos de liberdade (2002, p.60). As propostas de Bonifácio não foram a diante, isso porque os negros eram vistos como incapazes, indolentes, viciosos e “instintivos” pela sociedade, ou seja, não havia lugar para eles na construção de uma nação, tampouco para o reconhecimento de sua história, que não se encaixava no perfil do brasileiro que se pretendiam criar. Nas palavras dos autores, “fontes de tantos males os negros e mulatos, naturalmente não figuravam nos mitos fundadores da nação que emergia” (2000, p. 62). É inegável, entretanto, a influência do Quilombo e Zumbi dos Palmares na sociedade colonial, tendo sido motivo de expedições oficiais e preocupação geral. Apesar disso, Palmares e Zumbi despertaram pouca atenção na sociedade imperial, que, em busca de criar uma história nacional, enfatizava a destruição dos quilombos como símbolo de sua vitória e domínio realizado pelos verdadeiros heróis da nação.

Segundo os autores, a partir de 1842 Palmares e Zumbi ganharam espaço nas revistas dos institutos históricos que passaram a divulgar documentos referentes a Palmares, e em 1861 foram incluídos nos livros didáticos. Conforme já foi dito, o foco dessas produções visava enaltecer a destruição de Palmares, no qual o protagonismo de Jorge Velho não só ganha um caráter heroico em contraposição a insubordinação do líder Zumbi, mas também o reconhecimento de entrar para a história. A partir de 1880 o caráter de resistência é associado a Palmares e a zumbi, atribuindo ao último um tom heroico por ter escolhido a morte como forma de protesto. O tom de heroísmo dado a Zumbi talvez seja uma das atribuições mais marcantes sobre a sua história no século XIX, pois, as documentações e estudos sobre Palmares do período possuíam narrativas breves, repetitivas e pobres sobre o assunto. Segundo os autores

Palmares e Zumbi ocuparam no repertório intelectual de grande parte dos brasileiros […] um lugar diminuto: um incidente, sem dúvida preocupante para uma sociedade escravista, mas nada que o poder dos senhores de então, encarnado no herói paulista, não soubesse bem contornar. (p. 82)

No último capítulo do livro, denominado o “zumbi dos oprimidos”, podemos identificar mais uma das atribuições feitas a Zumbi e suas metamorfoses ao longo dos séculos XX e XXI. Diferentemente de um zumbi esquecido pelo império, reinterpretações sobre a história de Palmares surgem nos anos iniciais da república com o padre Rafael M. Galanti, que desmistifica o suicídio político de Zumbi afirmando que o mesmo teve a cabeça cortada. Mais tarde, em 1905, Nina Rodrigues, a fim de alcançar uma verdade “menos discutível” mapeou as produções sobre Palmares que, segundo ele, era uma organização africana e inculta que sofria influência da cultura Banto. O cientificismo de Nina Rodrigues contribuiu para a formação de uma hipótese de que Palmares representou um empecilho para o avanço da civilização. Nesse sentido, a discussão sobre o papel dos negros na sociedade do séc. XX demonstra que a integração proposta por José Bonifácio ainda não havia se concretizado. A imigração europeia, segundo os pensadores da época, resolveria a questão da mestiçagem e embranqueceria, a longo prazo, a população. A presença de um número crescente negros era considerada um atraso para o avanço da civilização brasileira desde o período imperial, explicando o porquê de a maioria dos homens letrados do séc. XIX nem mesmo se preocuparem em encontrar lugar para os negros nos mitos fundadores da nação. (2000, p. 88).

Em 1914, ao buscar enfatizar a importância histórica da cidade Viçosa do Alagoas, Brandão descreve Zumbi como um líder ousado e orgulhoso (p.94), utilizando da linguagem política para valorizar um ideal de liberdade em Palmares e seu líder. A partir da década de 1920, Palmares e Zumbi passaram a ter uma entonação de viés marxista, em que intelectuais como Arthur Ramos, Edson Carneiro e Décio Freitas consolidaram a figura de Zumbi como um herói que lutou pela liberdade, evidenciando as contradições de classe e as associando com o conflito entre o Quilombo e a sociedade escravista, ou seja, o heroísmo de Zumbi, para Décio Freitas (1971), serviu como resposta à dominação. Também foi Décio Freitas quem descreveu uma infância para Zumbi, criado como Francisco por um padre, no entanto, essa parte de sua infância jamais foi comprovada ou documentada nos escritos da época ou posteriormente.

A partir do séc. XXI, Zumbi surge como um herói em contraposição a Jorge Velho, considerado o vilão por representar e legitimar a manutenção do sistema escravista. É importante mencionar a contribuição da literatura e produções cinematográficas para que o senso comum acerca de Zumbi fosse cristalizado como um herói e símbolo da consciência negra, no qual a demanda por reconhecimento do dia 20 de novembro pelos ativistas negros demonstra o resgate e construção de uma memória negra nacional. Além do mais, o século XXI é marcado pelo multiculturalismo e a concepção de que Zumbi representa o porta voz dos oprimidos e dos que se colocam contra o sistema, um símbolo de contestação ao status quo, seja ele qual for. Por fim, os autores apresentam os principais pilares da construção sobre Zumbi dos Palmares nesse contexto, que são: posição antissistema; valorização da ação dos oprimidos; perspectiva romântica do heroísmo.

Apresentamos aqui inúmeras ‘verdades’ construídas por diversos atores em seus tempos, imersos em seus contextos e ideologias que cristalizaram as narrativas acerca da história de Zumbi dos Palmares, atualmente reconhecido e considerado um mito cuja simbologia contribui para a promoção de uma coesão social da população negra politizada, vale ressaltar. Concluo lembrando de um dos pressupostos do historiador, que é o questionamento, logo, o intuito investigativo acerca da história de Zumbi dos Palmares nos permite conhecer não somente sua história, mas também o que ela representa e, principalmente, o lugar que ela ocupa na construção do que é comum chamarmos de nação.

Professora Doutora do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT) e do Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA). Membro do Grupo de Estudos do Integralismo (GEINT).

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