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Mitologias, síntese e ação: “Deus, Pátria e Família”

Marcia Regina da Silva Ramos Carneiro é Doutora em História Social e Professora Associada lotada no Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos das Direitas e dos Autoritarismos e do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência da UFF/Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro.

Mitologias, síntese e ação: “Deus, Pátria e Família”

ou

Deus, Pátria e Família”: Mitologias, ação e síntese e a construção de um “Falso absoluto” político nos tempos atuais.

Marcia Regina da Silva Ramos Carneiro

Neste artigo pretende-se trazer ao debate as perspectivas dos “ideais” e práticas de dois partidos políticos que, em dois momentos diversos da história do Brasil, evocam um apelo à uma “ordem” cristã, cujo suporte é a família nuclear clássica, a “sociedade conjugal que une os esposos”, assim concebida pela Doutrina Social Católica e pela tradição cristã reformada. E, como apelo à ordem, limitam-se concepções de mundo possíveis, em contextos diversos e com perspectivas diferentes. Recuperando a crítica de Marx à ideia hegeliana de que fatos e personagens ocorrem duas vezes na História, e concluindo que, se a história se repete, seria, primeiro, como tragédia e, mais tarde, como farsa, considera-se, neste texto, a necessidade de se recorrer à análise de dois partidos brasileiros que, apelando às míticas atuações de seus líderes, tratados como heróis: Plínio Salgado (Chefe integralista morto em 1975) e o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, emergem, na atualidade, como condutores de uma “nova” sociedade brasileira, fundada nos “valores cristãos”. Estes líderes, tratados como heróis,  mesmo o falecido, reúnem seguidores que os consideram capazes de enfrentar os labirintos de uma “desordem moral nacional”, de libertarem definitivamente o Brasil do “Minotauro esquerdista”. Neste sentido, os heróis vestem, simbolicamente, roupagens diferentes: o mais antigo é o apóstolo; o atual, o soldado. Nas construções ideológicas dos dois partidos, o apelo à moral cristã que suporta uma cultura mística popular brasileira. Este artigo sustenta sua análise por meio da concepção dialética da História, na Filosofia da Praxis.

O desenvolvimento da análise como “expressão consciente das contradições existentes na história e na sociedade” (GRAMSCI, A., Q 10, 1320 (…) in SEMERADO, 2006, p. 10) pressupõe algumas questões a partir da constatação das múltiplas contradições que se expressam em elementos de subjugação e de impedimento à subjetivação, enquanto relação vivida/vivenciada pelos sujeitos da e na História.  A construção de sobredeterminações morais com limites definidos, cujos referenciais culturais estão presentes na sociedade brasileira, como ideia de Verdade, antecipam, em ambos os casos, o modo de ação dos Partidos. A “Verdade”, tratada como domínio do absoluto pelos heróis-mitos,  teria a função de limitar parâmetros ideológicos e comportamentais da vida brasileira conforme costumes culturais enraizados tratados aprioristicamente como moral inquestionável.

A síntese contida no lema “Deus, Pátria e Família” é significativa para a tradição religiosa no Brasil em que a colonização portuguesa, no projeto contrarreformador, impôs, por violência física e simbólica, a concepção de mundo europeia aos povoadores da terra, entre nativos, cativos e colonos: o sistema cristão de organização social. Assim, diante da tradição cristã construída que serviu de suporte ao poder, o cristianismo, no Brasil, sincretizou-se e foi sincretizado à outras crenças populares por adequações, tanto culturais, quanto políticas e mesmo  por determinações jurídicas.

I. Os Partidos, seus tempos, seus heróis:

  1. Sobre o conceito de Partido:

Em consideração ao método de análise neste artigo, apoia-se em Gramsci ao observar que o papel do historiador, ao analisar partidos, deve ser a de dar “a cada coisa a importância que se tem no quadro geral” (GRAMSCI, 1978, p. 25), acentuando, sobretudo, a “eficiência real do partido, a sua força determinante, positiva e negativa, a sua contribuição para criar um acontecimento e também para impedir que outros acontecimentos se verifiquem.”(GRAMSCI, 1978, p. 25).E, tomando da análise histórico-dialética a percepção da síntese da totalidade, sustentada pelas relações econômicas, políticas e sociais que caracterizam o Estado de tipo Ocidental, Gramsci propõe a análise na perspectiva do Estado ampliado. Visto de modo ampliado, segundo a acepção gramsciana, o Estado é entendido como “espaço de disputa no qual se interrelacionam no confronto dialético, sociedade civil, sociedade política e infra-estrutura (CARNEIRO, 2007, p. 13).

Uma análise das múltiplas relações contextuais que acompanham o surgimento dos dois partidos devem demonstrar que, com suas especificidades ideológicas e organizativas, os dois partidos se distinguem mais amplamente que se aproximam, embora os tempos atuais aparentem coincidências, que são evocadas por alguns grupos atuais, apoiadores do atual presidentes, em nome de uma “tradição” reconhecida e uma “legitimidade” moral que o integralismo representaria para setores religiosos conservadores. No entanto,  a formação da militância e o projeto integralista é radicalmente antagônico ao do Partido Aliança pelo Brasil. Embora ambos contenham o apelo escatológico em que se anuncia um fim dos tempos e o apelo à ação da juventude, os discursos contra o inimigo comum: o comunismo,  também é ressignificado nos tempos atuais. Atualmente, qualquer referência à políticas públicas que beneficiam o trabalhador, é atacada como “de esquerda” e “comunista”. O inimigo torna-se não apenas os que reivindicam direitos, mas também seus beneficiados.

Outra diferença essencial entre os dois partidos é quanto a crítica do integralismo ao liberalismo e à democracia liberal burguesa, enquanto o atual governo sustenta-se sobre a agenda neoliberal, ainda que a característica autoritária esteja presente em ambos os partidos. A ideia de Estado forte também se distingue. O Estado forte integralista se baseia na ideia de unidade nacional, da defesa do território e de uma identidade “racial” brasileira. Como liderança partidária e detentor da Verdade, o atual presidente demonstra que seu nacionalismo se resume a um ideal patriótico de exaltação aos símbolos nacionais pela simples oposição a outros símbolos,  até mesmo à cor vermelha,  retendo os significados dos ” simbolos da pátria” à uma ” bandeira de luta” contra os seus opositores.

Quando Plínio Salgado, em 1944, escreve “Salvemos a Democracia pelo espírito”, ele discorre sobre sua origem “materialista-agnóstica” (SALGADO, 1955, p. 97), propondo que sua correção deve começar por esta origem, considerando que, deste modo, a democracia estaria condenada a auto-destruição. Por outro lado, se sua origem for espiritualista, traria consigo “elementos da perenidade” (SALGADO, 1955, p.98). Cabe ressaltar que o teor de espiritualidade invocado por Salgado não corresponderia ao uso utilitário que o atual presidente concede à religião, ainda que se possa conferir a alguns de seus apoiadores a fidelidade honesta às suas crenças.

Enquanto projetos autoritários, os dois partidos instauram uma “cultura da síntese”,como “reforma moral”, segundo uma das acepções gramscianas para “cultura”. Refazem, como projeção reacionária, a construção de um passado mítico como num presente heróico de um ethos popular em que a identidade nacional, sinteticamente produzida, exclui as diferenças, segundo critérios estipulados por produtores e promotores de cultura, cuja base atenda as características predeterminadas, ou pré-conceitos da ideologia pequeno-burguesa, profundamente religiosa, transmutada em cultura nacional. Embora a construção da síntese dos dois partidos seja determinada pela exclusão, os itens excluídos são diferentes quanto à ideia de  “povo”, principalmente. No integralismo, a unidade nacional é identificada com uma identidade nacional que se que remete ao surgimento da “nação” a partir de um “matrimônio cósmico” entre o português Martim Afonso de Souza (o colonizador) e uma índia guaianá do litoral paulista, segundo Plínio Salgado, o Chefe Nacional da AIB.  No caso atual, a ideia de povo iguala-se a de consumidor de classe média e, no caso do ” indígena” fundador, sua representação é propagada como a daquele que impede o progresso, entendido como a destruição ambiental necessária  à expansão do agronegócio.

Nas análises sobre o movimento integralista do início do século XX, as pesquisas de Hélgio Trindade, Marilena Chauí e Maria Sylvia Carvalho Franco apontam para o destinatário do discurso integralista: a classe média brasileira, ainda em construção. Se o acesso ao consumo, através de política de incentivo ao financiamento privado para a compra de bens e produtos levou à criação de uma “nova classe média” nas últimas décadas, esta assumiria postura racionaria, impulsionada por uma extensiva propaganda antipopular, em que a mídia hegemônica,  as igrejas de viés conservador, entre católica, protestantes tradicionais e neo-pentecostais, investem num projeto moralizador. E a sociedade do espetáculo não tem a pretensão de criar relações entre culturas reconhecíveis tais como elementos identitários que contenham significados originais, do contexto de sua produção. Mesmo aquelas relações construídas ao longo de séculos sobre a concepção de humanidade: a razão, o cogito, a cultura, mesmo as pseudos-ciências evolucionistas perdem seus elos da continuidade histórica dos “ancestrais comuns”. Mesmo as criaturas de Deus não se entendem mais relacionadas ao “Fiat Lux”. As semanas de sete dias perdem o sentido de tempo da natureza. E o homem dominador da natureza não se envergonha de ser seu destruidor: o futuro é o presente. Teria a ideia de Popper, um dos ideólogos do neoliberalismo, alcançado sua antirealização racionalista quando o mutável se torna permanente, opondo-se à própria concepção antihistoricista e tornando-se, enquanto tendência finalista, uma distopia.

Sobrepondo a “política” à quaisquer outras manifestações ideológicas e as relações multialéticas da totalidade, ou mesmo elegendo a religião como o único “ópio” do povo, a “cultura”, como produto mercantil, é o mais eficiente promotor de “novas” identidades, ou “cópias”. A religião também se mercantiliza e, ao reproduzir cópias de templos e paródias de outras religiões, se torna mais um falso absoluto entre outros ópios dos povos e o Partido torna-se este legitimador do falso absoluto, pois excludente.

Partindo da premissa de que Partidos se referem, a princípio, em um meio de organização coletiva para construção de um projeto em vistas alcançar a hegemonia, também, percebe-se a fragilidade do novo partido que se organiza neste fim de ano, o Aliança pelo Brasil, pautado mais pelos humores do que por um projeto político do seu mentor, o presidente da República.

Para Gramsci, os partidos se apresentam de duas formas: o que é constituído por uma elite de homens de cultura, que têm a função de dirigir do ponto de vista da cultura, da ideologia em geral, um grande movimento de partidos afins (na realidade, frações de um mesmo partido orgânico); e no período mais recente, o partido de não-elite, mas de massas, que como  massas não têm outra função política que de uma fidelidade  genérica, de tipo militar, a de um centro político visível ou invisível (frequentemente o centro visível é o mecanismo de  comando de forças que não desejam mostrar-se à plena luz,mas apenas operar indiretamente por interposta pessoa e  por ‘interposta ideologia’). A massa é simplesmente de ‘manobra’ e é ‘conquistada’ com pregações morais, estímulos  sentimentais, mitos messiânicos de expectativa de idades  fabulosas, nas quais todas as contradições e misérias do  presente serão sanadas. (GRAMSCI, 1978,pp. 23-24).

Constatando que, segundo Gramsci, o Partido Político é o Príncipe, enfrenta-se uma questão importante no contexto atual brasileiro em que, o protagonismo do presidente atual, tomando a frente a fundação de um Partido por um “heroísmo pessoal”, ele mesmo incorpora a figura do Príncipe, o condottiero,  sustentado, por uma expressão coletiva que não o cria, mas que o segue.

Outra questão relevante a destacar é que tais expressões características se confundem nos dois partidos analisados. Enquanto a Ação Integralista Brasileira foi ativa politicamente entre 1932 e 1937, mantendo-se, enquanto movimento de massa durante o período de sua legalidade política rompida com a instalação do Estado Novo varguista, em 10 de novembro de 1937. O integralismo permanece “como ideia” até a atualidade, impulsionado pela fidelidade à Doutrina do Sigma, organicamente construída por seus intelectuais que se organizaram, enquanto elite, conforme a definição de Gramsci, enquanto movimento composto por “frações de um mesmo partido orgânico”. A elite intelectual deste movimento político que apenas aderiu ao simbolismo democrata-liberal, o Partido, em períodos da história brasileira em que se dispôs a participar das eleições republicanas, era composta, nos períodos iniciais (1932-1937 e mesmo posteriores (1946-1960), por importantes pensadores brasileiros, cujas produções apresentavam alto grau de conhecimento da produção intelectual ocidental.

Considera-se a produção integralista em duas fases: a da época inicial, em que intelectuais como Plínio Salgado, Gustavo Barroso e Miguel Reale organizavam,  instruíam, delimitavam os fundamentos do ideário integralista brasileiro e abrigavam nas páginas dos seus periódicos outros intelectuais, ora como produtores de reflexões absorvidas pela síntese doutrinária, ou aqueles que consideravam “mentores da nacionalidade”, como Alberto Torres, Euclides da Cunha, e a fase de publicação da Enciclopédia Integralista, dirigida por Gumercindo Rocha Dória, na década de 1950. Com forte influência doutrinária do catecismo católico, a AIB distingue-se do projeto de construção da adesão pela assimilação do Partido do atual presidente quanto ao apelo cristão.

O Partido Aliança pelo Brasil se estruturaria de acordo com, somente, a segunda definição, enquanto partido de não-elite, de massas.

Conforme a análise de Jorge Pinheiro e Naira Pinheiro, ao refletirem sobre  Religião e Governo Militar (PINHEIRO & PINHEIRO, 2014), de acordo com  o pensamento batista no Brasil, o modelo também pode servir ao novo Partido:

“os batistas no Brasil forjaram, à luz da tradição , seu pensamento político matriz liberal conservador, que facilitou penderem para uma aliança não explícita com o bonapartismo militar, a partir de suas relações históricas e ideais com os Estados Unidos.” (PINHEIRO & PINHEIRO, 2014, p. 206).

O partido criado pelo atual presidente, Aliança pelo Brasil, está, no momento em que se publica este texto, em processo de aprovação, dependendo da reunião de, pelo menos, 491.967 assinaturas devidamente checadas e validadas pelos cartórios eleitorais (0,5 % de votos válidos da última eleição para a Câmara dos Deputados) para sua aprovação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não sendo um partido criado pela massa, pretende representar os anseios de uma “massa” moralista, conservadora, com apoio de alguns líderes pentecostais.

Segundo o Programa do Partido do atual

“Há, na vida de uma Nação, momentos privilegiados, em que a vocação de um povo se descortina diante de seus olhos. Consciente de sua identidade, o povo inteiro se move, escolhendo seus próprios caminhos, na luta contra a injustiça e a tirania, para libertar-se do jugo da mentira por meio do conhecimento da verdade, cujo autor é Deus, que dotou todos os homens de direitos inalienáveis e fundamentais. De fato, o povo brasileiro reencontrou sua própria voz e, com ela, bradou contra a opressão daqueles que, não satisfeitos em assaltar os cofres públicos, queriam até mesmo roubar-lhe a identidade e o espírito.”

Ao confrontarmos o projeto da Aliança pelo Brasil com o Integralismo, pode-se apontar duas razões opostas incontornáveis. O integralismo é antiliberal, defensor de uma democracia orgânica (corporativista), caudatário da Doutrina Social da Igreja Católica, especialmente ao que se refere à da Encíclica Papal Rerum Novarum para a ordenação do mundo, pelo controle moral, tendo a família cristã como suporte primeiro, sustentando toda a sociedade. Por outro lado, o novo Partido, sem projeto que o fundamente, apoia-se na fé neo-pentecostal e reproduz, como política de Estado, o retorno dos judeus à Terra Prometida como alinhamento ao sionismo. Além desta medida, que representa simbolicamente uma nova cruzada contra os  “infiéis” do mundo muçulmano,  outros “infiéis” são apontados na sociedade brasileira como inimigos da moralidade cristã.

Como aponta Francisco Carlos Teixeira da Silva, utilizando-se da análise de Alberto Burgio, pode-se identificar um continuum fascista nos discursos de ódio dos apoiadores do atual governo. Discursos de ódio porque insistem em deslegitimar qualquer ação dos governos anteriores, além de reduzirem seus discursos a “sintagmas mobilizadores” (TEIXEIRA DA SILVA, 2019, p, 48). Trazendo a análise de Burgio, através de Da Silva, para  o caso brasileiro atual, estes “sintagmas mobilizadores” teriam como eixos: o anti-marxismo, a inferioridade e sensualidade da mulher, o risco da homossexualidade e “atraso regional” nordestino, o racismo contra negros e indígenas.

Outra característica que sustenta o discurso do atual governo seria, seguindo a análise de Umberto Eco,  uma neolíngua, que se compõe de  léxico pobre e de  sintaxe elementar ,  objetiva, justamente, limitar o raciocínio complexo e crítico.

lI. Mitologias: o lema “Deus, Pátria e Família” e suas interpretações.

A relação entre Mito e Religião não é, necessariamente, auto-refente, mas tende a ser um axioma de referência que, no entender de Searle, ocorre quando “há dois axiomas que são geralmente reconhecidos, que dizem respeito à referência e a expressões referenciais.” (SEARLE, 1984, p. 104). Assim sendo, Mito e Religião não são necessariamente vinculáveis quanto à origem. Mas a interpretação do Mito, e seu uso, pode adquirir caráter místico e simbólico, não somente para a comunidade pela qual e para a qual foi produzido, como elemento fundador e referência identitária, mas para sociedades que lhes conferem significados civilizatórios universais. O poder do pensamento mítico decorreriam, segundo Cassirer, de uma “ingenuidade primitiva” que impregna todas as sociedades, exigindo-se, aos estudos dos mitos, a análise racional.

A professora Maria do Céu Fialho, especialista em Estudos Clássicos, chama a atenção para a constatação, através de Plutarco (historiador do primeiro século da Era Cristã), para a dificuldade em “discutir figuras cuja existência se afastava da factualidade histórica” (FIALHO, 2010, p. 7). A preocupação de Plutarco é dividida conosco, neste ainda inicial século XXI: “Seja-me, então, permitido submeter o elemento mítico (to mythodes) à depuração da razão (logoi) de modo a assumir assim, uma perspectiva de história.” (PLUTARCO apud FIALHO, 2010, p.8).

Conforme Mircea Eliade, a “solidariedade mística” entre o homem e a natureza requereria sacrifícios. Ainda que a “queda” não provocasse a ruptura entre o Homo faber e o Homo ludens, sapiens e religiosus, a ideia da ruptura provocada pela desobediência humana ainda permanece na desconfiança até os dias de hoje, numa crença subterrânea, ou mesmo explícita, de que os acontecimentos escatológicos anunciados pelo Novo Testamento estão em curso. E este é um dos efeitos que pretende-se provocar quando Religião e Política são colocadas mo mesmo patamar ou mesmo confundidas em suas funções. O mito é mistificado e lhe é concedida a tarefa de reequilibrar o cosmos.

Nos dias atuais, as palavras, ou neolíngua, tornam-se mágicas, pois, trazidas pela tradição, são elevadas ao domínio dos deuses quando ditas ou twiteadas pelo mito. O sentido se reduz à interpretação do mito. Resumir o dito e o sentido ao significado que lhe dá o mito representa reduzir destinatários do discurso, recriando uma identidade brasileira nova, a de uma unidade sem qualquer diferença pela eliminação da diferença, mesmo física. O discurso de ódio que se propaga se materializa em violência e a unidade pregada se definem ela exclusão, demonstrada pelo genocídio indígena, pelo racismo e ataque à população negra e pobre, conferindo aos bairros miseráveis a condição de guetos e condenando permanentemente a pobreza à uma auto-degradação.

E a mitologia construída em torno do pilar “Deus, Pátria e Família” assume distintas interpretações, também, para os dois partidos.

Conforme a própria “lenda” integralista. “Deus, Pátria e Família” teriam sido as últimas palavras do presidente Afonso Penna (1847-1909) e que governou o Brasil de 15 de novembro de 1906 a 14 de junho de 1909, data de sua morte.
Para Plínio Salgado, fundador da AIB, e Chefe Nacional integralista:
“É isso que se chama ‘ordem espiritual e moral’, confraternização de ‘todos os que, acreditando num Deus, fazem d’Êle o fundamento de toda ordem social’, conforme diz a Encíclica de Pio XI, cujo texto foi compreendido pelos Integralistas tanto católicos, como luteranos, presbiterianos e espíritas, pois hoje formamos a frente única espiritual, arrebatada pela bandeira de Deus, da Pátria e da Família, disposta a todos os sacrifícios para salvar a Nação das garras do materialismo do século. “(SALGADO, 1955, p. 196, apud CAZETTA, 2011, p. 251).

Enquanto  “sucessor mítico” de um projeto explicitamente autoritário, de “retorno a um tempo de antes”, o Partido do presidente Bolsonaro,  de modo relativista, carregaria  o apelo da Reforma Protestante. E, reformado, invocaria o Velho Testamento, se referindo à ancestralidade cristã. Retoma a Lei Mosaica, construindo politicamente um retorno simbólico ao Eretz  Israel sionista.

E o lema “Deus, Pátria e Família” perde o sentido teológico, tornando-se utilitário e comportamental. Esvazia-se a síntese que os integralistas propunham estabelecer entre os pilares da sociedade, a égide divina e a ação militante. O “Deus, Pátria e Família” atual reduz-se ao apelo moral cristão, cujo conteúdo se desloca do sentido e o lema torna-se instrumento da exclusão violenta de quaisquer oposições, ideias e ações.

III. Ação:

Os dois partidos, em comum, advogam para si a representação de uma cultura Moral brasileira.

Haveria, em ambos, o sentido escatológico nas percepções de um mundo à beira do caos social. A “espiritualização da política” iniciada, segundo Mannheim da tentativa revolucionária dos anabatistas alemães liderada por Thomas Münzer no século XVI, dava à tensão social a mentalidade utópica. E, nesta época de busca de definições sobre o devir da humanidade, que implicava sentidos revolucionários, várias formas de mentalidade utópica, a partir das mais variadas correntes ideológicas, estavam sendo colocadas à discussão – idéias para dar, ou superar, a finitude de uma era.
Assim, os acontecimentos na Europa de fins do século XIX e início do XX influenciariam definitivamente as tomadas de posição pela intelectualidade representante das classes proprietárias e trabalhadoras no resto do mundo em direção à construção de suas utopias. Na onda da economia de mercado, as ideias atingiam o Brasil e transitavam pelas vielas das percepções culturais e classistas dos homens sobre o mundo.

Como mostra Ginzburg , apoiado em Bakhtin, não há passividade na recepção das ideias, seja de que parte ela venha da sociedade. A circularidade de ideias se percebe na identificação de influências recíprocas entre as classes sociais, no que tange as culturas e produções de ideologias ou utopias. E a adesão a uma ideia representa, também, a resposta dos homens as necessidades de verem seus anseios (culturais e classistas) serem delineados em forma de utopias. Entre estas, em disputa e conflito, estão as que pretendem a transformação radical (socialismo) e as que pretendem prender no tempo um mundo idealizado da ordem divina.

O fascismo, como o vê Gramsci quando analisa o processo iniciado no Risorgimento italiano, se constrói ao longo do processo de formação de uma concepção de Estado e que, sob condições históricas e culturais que lhe dão suporte, vai se constituindo como força de contenção alternativa à ação dos trabalhadores. No caso brasileiro, o integralismo, incorporando ideias de controle da luta de classes pela imposição hierárquica e dominante de uma ordem organizacional inquestionável da Chefia do movimento, influenciado pelo fascismo, incorpora também os elementos de religiosidade que concebe como característica do povo brasileiro às definições de sociedade ideal delineadas pela Igreja Católica nesse momento.

Ao próprio termo revolução impingia-se definições para diferentes gostos. Do que significaria retorno cíclico aos tempos de antes, e no sentido de transformação radical, de destruição do velho e do nascimento de um novo mundo.

Assim como demonstrou Bakhtin, ao analisar a incorporação do popular no âmbito do privado e da cultura dita erudita, era preciso conter o movimento de ideias revolucionárias surgidas dos questionamentos daqueles que se antagonizavam com o poder hegemônico. A relação de exploração que marca a dicotomia burguesia – proletariado não se definira para grande parte dos trabalhadores, tal como ainda é hoje.

A ação da militância integralista se fazia, nos inícios do século XX, como realização da síntese integralista e em defesa do status quo. A revolução integralista deveria ser espiritual, individual e coletiva, em torno do projeto do Estado Integral que deveria ser produto e realização do advento da Quarta Humanidade, a obra suprema e universal, católica, cuja origem seria o Brasil que, na ruptura provocada por uma última erupção da história[i], que se instalaria, com todos seus militantes, os vivos e os mortos, que na “Militância do Além” aguardam o juízo final, a ressurreição da carne e a vida eterna no Império do Cordeiro.

Por meio das “bandeiras”, as marchas pelo interior brasileiro, que reunia a militância uniformizada, como suas camisas verdes, para os homens, e blusas verdes, para as mulheres, tinha-se por objetivo a divulgação do movimento integralista que só se fazia conhecido no interior pelos jornais e revistas impressos, por rádio e pelas marchas. A cor verde remetia-se à bandeira nacional e a referência às marchas como bandeiras objetivavam recorrer à tradição histórica paulista que exemplifica, na figura dos bandeirantes dos tempos coloniais, o desbravamento do interior brasileiro.

Nestas últimas semanas, que correspondem às semanas do mês de novembro de 2019, o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, um ex capitão do Exército brasileiro, eleito por vias democráticas, por representação partidária, demonstrando descontentamento com seu Partido político de origem, criou um novo Partido que, no seu entender, representaria a especificidade da sua forma de governar e um “estilo” de governo. O Programa do Partido “Aliança pelo Brasil” foi lançado ontem, dia 21 de novembro de 2019.

A ação empreendida pelo atual presidente para a aglutinação em torno do seu novo partido é da de se opor ideologicamente a qualquer outra manifestação que lhe seja contrária. Segundo os jornais de hoje, com publicação virtual de ontem, 21 de novembro, o número escolhido pelo presidente, para o Partido é o 38, pois “fácil de lembrar”.Segundo a jornalista Angela Boldrini, do Jornal Folha de São Paulo, o número 38 é uma “referência ao calibre de um dos revólveres mais conhecidos no país”. Ainda que estas informações do “calor da hora” não possam ser imediatamente comprovadas, no Programa do novo Partido indica a aprovação do uso de armas que, segundo os partidários, deve ser usada para a “defesa do cidadão”.

Segundo Mircea Eliade, o ritual pagão da Europa Ocidental, cultuava as armas de caça: “O valor mágico de um arma – de madeira, pedra, metal – sobrevive ainda entre as populações rurais europeias,  não somente no seu folclore.” (ELIADE, 1978, p. 23). Parece  que no Brasil, também isto acontece.

Embora se possa discutir a alusão ao uso de armas como uma das principais bandeiras do novo Partido, não se pode duvidar que este é um apelo importante da prática política de uma “cultura política” bem atual no Brasil em que as distinções entre a população se reproduz por uma lógica econômica que estabelece relações  de oposição radical, pelo menos ideologicamente,  entre aqueles cujas condições  econômicas lhes permitam o acesso a “bens” e seus consumidores e aqueles que não dispõem de iguais condições econômicas.

No caso brasileiro, a caça “ancestral” volta-se para a própria comunidade que, na construção de uma identidade, visa excluir os “diferentes”. A banalização dos extermínios de negros, índios e pobres, histórica  diariamente vilipendiados, extrai, contraditoriamente da sociedade brasileira, qualquer vínculo mítico/religioso, posto que o mito pressupõe a hominização do divino.

O mito de Teseu, como herói libertador dos jovens de Atenas do sacrifício ao Minotauro, pode ser revisitado: Quem pretende-se o Teseu dos dois séculos brasileiros?

Quanto a Salgado, é ele o Teseu que, no navio divide o martírio nacional, um apóstolo bandeirante, nacionalista, defensor das riquezas naturais do Brasil, que via no índio, o suporte genético do povo brasileiro. Juntamente com aqueles denominados pelo Movimento como “Mentores da nacionalidade”, sábios conselheiros para o Projeto do Estado Integral,  estariam todos no mesmo navio que leva ao sacrifício aquele que iria vencer com inteligência o Minotauro e libertar a pátria: Plínio Salgado/Teseu. Considerando o navio do herói Teseu como o integralismo na sua continuidade, a viagem no tempo, coloca-se uma questão para a atualidade do movimento, cujos membros, em suas manifestações públicas, tornam conhecidas pela imprensa física e virtual, os uniformes e rituais integralistas surgidos na década de 1930. Pode-se usar o exercício lógico do paradoxo do navio de Teseu proposto por Plutarco: Se o navio de Teseu passa por consertos e modificações durante viagem de Atenas a Creta, ainda é o mesmo navio da parida? . Como o “paradoxo do navio de Teseu”, a Doutrina do Sigma tem sido reestruturada ao longo de 87 anos, desde o lançamento do Manifesto Integralista, em 1932.  Os “novos integralistas” do século XXI mantêm as críticas à democracia liberal e defendem a “democracia orgânica”, persistência de tendências do corporativismo como alternativa autoritária e antiliberal que se distinguiria do modelo fascista ou tornaram-se, pragmaticamente, soldados de um novo Teseu?

O novo, como o velho integralismo, traz a bordo a defesa da propriedade dos meios de produção contra o “inimigo comum”: o comunismo. Mas, a Doutrina do Sigma é a mesma no Porto de chegada? O integralismo persiste? O lema “Deus, Pátria e Família” ainda representa a síntese da década de 1930 até os dez primeiros anos do século XXI?

Do processo democrático liberal, surge um novo Teseu. O do século XXI, é um herói solitário, conforme atesta o projeto de criação do Partido Aliança para o Brasil, pela inspiração de um herói “não compreendido” por seus pares, mas outorgado por metade da população brasileira. Com o objetivo de “ser diferente”, evocando diretrizes que conquistam brasileiros: “Família, Religião de Defesa da Vida”. Atualmente, a força religiosa preponderante, no Brasil, sustenta-se no Pentecostalismo. São as linhas protestantes as que tem maior incidência desta corrente religiosa, mas grupos católicos também consideram o pentecostalismo como um meio de construção de uma experiência de fé diretamente com o Deus cristão. Conforme escreve Fernando Albano:
“A doutrina da justificação pela fé é um dos pilares da fé protestante e das igrejas que simpatizam com os princípios expostos pelos reformadores do século XVI. Entre essas igrejas podem-se citar as igrejas pentecostais clássicas, tendo como maior representante as Assembleias de Deus. A essência desta doutrina é basicamente a crença de que obras humanas não podem salvar, mas apenas a fé como meio de recepção da graça salvífica é que determina a nova relação com Deus.” (ALBANO, 2014, p. 2).

Se o mito funda, cria, seria preciso resgatar a ordem rompida. O mito sempre será evocado para fundar uma nova ordem, ainda que se proclame seu retorno. É possível?

Em O Anti-Édipo, Gilles Deleuse e Félix Guattari criticam as re-produções míticas e trágicas. E questionam: “Por que retornar ao mito?” (DELEUSE & GUATTARI, 2011, p. 393).

Por outro ponto de vista, é um outro Portelli, Alessandro, que responde:

“um mito não é necessariamente uma história falsa ou inventada: é, isso sim, uma história que se torna significativa na medida em que amplia o significado de um acontecimento individual (factual ou não), transformando-o na formalização simbólica e narrativa das auto-representações partilhadas por uma cultura.” (PORTELLI, A, 2006, pp. 120-121).

Ao leitor, cabe avaliar.

Notas:

[1] Emmanuel Mounier, o pensador existencialista cristão e militante antifascista, chamou de “erupções” as rupturas históricas que se completam pelo início de outro ciclo. Aos contemporâneos dos tempos findos, a aparência é a apocalíptica

Bibliografia:

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Professora Doutora do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT) e do Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA). Membro do Grupo de Estudos do Integralismo (GEINT).

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