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A FESTA PENUMBRISTA DE CECÍLIA MEIRELES

Em 1927, um grupo formado por Tássio da Silveira, Andrade Muricy, Adelino Magalhães, Barreto Filho, Murilo Araújo entre outros, juntamente com Cecília Meireles e na casa desta criou a revista Festa reconhecida como a manifestação modernista carioca. Muito influenciados pelo Simbolismo, esses poetas, críticos e ensaístas que se organizaram em torno da revista, são vistos por alguns críticos literários como um grupo de transição entre o Simbolismo e o Modernismo. Afrânio Coutinho, em sua obra Introdução à Literatura Brasileira, identifica esse grupo como uma corrente herdeira do espiritualismo simbolista, ligados ao crítico Nestor Vítor e, por conta dessa relação entre a tradição e a novidade, manifestam uma estética batizada como penumbrismo.

Norma Goldstein, em sua obra Do Penumbrismo ao Modernismo, define esse conceito na Literatura como a manifestação poética que se caracteriza por uma melancolia agridoce, por temas ligados ao cotidiano, por uma morbidez velada e, principalmente, por uma atenuação de sentimentos. (GOLDSTEIN, 1983, p. 5). O meio tom formal que se manifesta a partir desses elementos faz com que se crie o que a autora chama de uma estética da atenuação, isto é, tudo tratado à meia luz, sob uma névoa constante, atenua a visão, o ambiente, os elementos formais e principalmente os sentimentos, mantendo nessa atenuação fortes elementos do simbolismo, mas também novas características que já são presentes nos poetas modernistas.

Como Goldstein observa, essa estética da atenuação se reflete sob vários aspectos na poesia penumbrista. E, para tanto, evidencia cinco diferentes formas de atenuação que denomina como: psicológica, sensorial, sintática, sonora e temática. Tanto a atenuação psicológica quanto temática, evidenciam uma revelação atenuada do eu-lírico diante do mundo seja por meio da expressão dos sentimentos, da recordação do passado, do esvaimento e languidez; por sua vez, a atenuação sonora, sintática e sensorial manifesta-se por meio dos elementos formais e das imagens invocadas e, com isso, evidenciam um certo rompimento com a poesia produzida até o momento. Desse modo, a presença de versos polimétricos e do encavalgamento (enjambements) dos versos possibilitam uma leitura mais fluída e coloquial das estrofes, bem como a acentuação tônica nos decassílabos que se desloca para a 4ª e 10ª sílaba poética, evidenciando a novidade na poesia penumbrista.

Como figura importante desse grupo carioca, Cecília Meireles, de forma mais autônoma e inovadora, manifesta esses elementos desde o lançamento de sua primeira obra poética, Espectros, em 1919. No primeiro soneto da obra, com o mesmo título, evidencia-se os encavalgamentos entre os versos, como também as imagens de meio tom de luz na noite tempestuosa:

 

Nas noites tempestuosas, sobretudo

Quando lá fora o vendaval estronda

E do pélago iroso à voz hedionda

Os céus respondem e estremece tudo,

 

Do alfarrábio, que esta alma ávida sonda,

Erguendo o olhar, exausto de tanto estudo,

Vejo ante mim, no aposento mudo,

Passarem lentos, em morosa ronda,

 

Da lâmpada à inconstante claridade,

(que, ao vento, ora esmorece, ora se aviva

Em largas sombras e esplendor de sóis)

 

Silenciosos fantasmas de outra idade,

À sugestão da noite rediviva,

Deuses, demônios, monstros, reis e heróis.

 

Em Nunca mais… e Poema dos poemas, publicados em 1923, a presença do território íntimo lacrimejado pela melancolia evidencia a presença dessa atenuação observada por Goldstein sobretudo nos poemas Chove chuva e À hora em que os cisnes cantam. Mas é o poema Carnaval, publicado na edição de número 5 dessa revista em fevereiro de 1928, que expressa tanto a melancolia agridoce, quanto a morbidez vela pela lembrança de um amor do passado que se evidencia por meio da atenuação sonora e sintática e que expressa bem o projeto estético dessa Festa penumbrista que marca o grupo carioca:

 

CARNAVAL

 

Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,

Modela a minha máscara, modela-a…

E veste-me com essas roupas encantadas

Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

 

Põe nos meus lábios essa voz

Que só constrói perguntas;

E, à aparência com que me encobrires,

Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer…

 

Eu irei pelas tuas ruas

Cantando e dançando…

E lá, onde ninguém se reconhece,

Ninguém saberá quem sou,

À luz do teu carnaval.

 

Modela a minha máscara!

Veste-me essas roupas!

 

Mas deixa na minha face a eternidade

Dos teus dedos de silencioso tempo.

Mas deixa na minha roupa a saudade das tuas formas

E põe na minha dança o teu ritmo

Que possa me conduzir…

 

A invocação do Carnaval ambienta o eu-lírico na lembrança do amor feito de tempo silencioso. Esta expressão marca o contraste recorrente na poética de Meireles no jogo do presente e do passado que se faz eterno como memória, conforme se vê no décimo sexto verso: Mas deixa na minha face a eternidade dos teus dedos de silencioso tempo. Conforme observa Camilo Cavalcanti em seu artigo Gênesis de Cecília Meireles, embora com uma maturidade estética muito mais refinada em sua obra publicada a partir de 1939 com Viagens, já se entrevê este estilo apreendido do simbolismo e ressignificado de forma autônoma e rica que marca sua poesia na Literatura Brasileira.

Professor de Teoria Literária, autor do livro de contos "Candelabro" e apaixonado por Literatura.

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