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Consumo e Educação

Certamente na sociedade contemporânea o consumo de bens, serviços e produtos tornou raros os objetos que se oferecem isolados, sem o contexto de outras circunstâncias significativas, ou seja, consumimos isso em função daquilo; e normalmente para adquirimos mais projeção social e imagem poderosa.

Cultuamos e admiramos o novo, o que provoca o surgimento de objetos em grande velocidade, e chamamos a isso “sociedade do desperdício”, pois pelo novo dilapidamos, gastamos e jogamos fora aquilo que nem terminamos de entender e saber utilizar, como é o caso de novos celulares, substituídos bem antes de utilizarmos com eficiência os mais antigos. Outro nome para este fenômeno é Sociedade de Consumo, aquela cujo prazer está ostentação, na riqueza, no desperdício. Nossas roupas vão mudando a cada ano, e cada estação tem tendências diferentes, artifícios que persuadem o consumidor a comprar outros produtos, de certa forma moldando os próprios processos sociais, e até mesmo o consumo da cultura é atropelado pela propaganda e modismos.

Evidentemente o sistema educacional não pode escapar desta engrenagem, pois este também constitui fator de singularização de pessoas e grupos, é criação de uma certa comunidade, reflete seus valores, suas atitudes e formas de comportamento, e define os parâmetros do que é desejável ou não para esta sociedade específica, e até o que ela denomina arte. O consumo de massa determina o desejo dos jovens, e o novo, seja ele qual for, tem a predominância da sensação de que o mundo é ilimitado em seus recursos, e poderemos consumir desenfreadamente.

 

As motivações e atitudes dos mais jovens, julgadas por eles como pessoais e únicas, revelam normalmente serem consequência e expressão das respectivas vivências familiares através das gerações. A história vivida de forma geral corresponde à história genealógica, pois é ali que adquirimos hábitos alimentares, de vestuário, de diversão, de convivência social, que levaremos às escolas e mais tarde ao mundo do trabalho.

O desejo é a mola propulsora da vida, e certamente as mudanças sociais relevantes deveriam ser despertadas pela escola, dado que as grandes transformações dificilmente se originam de grandes acontecimentos – talvez com exceção dos profundamente dramáticos -, mas sim de pequenas ações cotidianas, simples e persistentes. Se a escola deve despertar no aluno a capacidade de compreender e atuar no mundo em que vive, uma das primeiras noções deve ser a capacidade de refletir sobre suas reais necessidades, a diferença entre seus desejos e seus reais direitos.

Aprender a respeitar normas escolares, as regras e leis comunitárias é repensar o mundo. O efetivo aprendizado escolar é relacionado a muitos fatores, e oscilamos entre o excesso e a total carência dentro dos ambientes escolares, dependendo da região em que se instalam. Mas é inegável que mesmo nas comunidades de baixo poder aquisitivo o consumo está preenchendo uma função acima e além daquela de satisfação de necessidades materiais e de reprodução social, tendo adquirido na sociedade contemporânea uma dimensão e um espaço que provoca exibições nas mídias sociais até de comportamentos ilícitos e perigosos, pelo desejo de fama, de demonstração de poderio econômico ou social.

Um certo despego da cultura tradicional acelera o processo, pois não mais desejamos sobressair pelo conhecimento, e sim pela posse de bens materiais e acesso a tudo o que for desejado pela maioria. A educação trabalha na transmissão de categorias tão distintas como literatura, herança cultural, música, esportes, estilos de lazer. Num país de profundas desigualdades muito raramente ela tem efetivamente diminuído as diferenças e promovido inclusão, pois apenas uma boa qualidade instrutiva poderia alcançar estes objetivos.

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É educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil, e assina a Coluna Educação & Cotidiano.

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