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Terra e Teologia nos movimentos sociais do campo: uma reflexão histórica

ANNA PAULA PEDRA

Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) – Campos dos Goytacazes – (2018); Mestranda em Políticas Sociais na Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Integrante do Coletivo Casa Comum.

 

Terra e Teologia nos movimentos sociais do campo: uma reflexão histórica
Anna Paula Pedra

Resumo: As funções sociais das religiões não estão necessariamente fixas a priori, sendo influenciadas pelas distintas conjunturas políticas e construídas socialmente. Ao se analisar o aspecto social das religiões, podemos identificar a igreja enquanto defensora ou reprodutora do status quo, demonstrando que a religião faz parte de uma demanda social. No Brasil, podemos perceber a influencia da religião nos conflitos sociais rurais. A partir de mudanças no posicionamento do catolicismo latino-americano, podemos observar a influência da igreja católica no debate da questão agrária brasileira a partir do período da ditadura militar. Pretende-se apontar a importância do elemento ideológico na gênese do MST, advindo principalmente pelo trabalho pastoral da igreja católica e da igreja luterana. A igreja brasileira é a única da América Latina sob a qual a Teologia da Libertação (TDL) e seus segmentos pastorais conseguiram exercer uma influência decisiva. Estruturas e movimentos políticos e sociais foram influenciados por crenças e formas de organização originadas nas comunidades de base e nas teologias da libertação. As lutas sociais são teologicamente interpretadas através de uma leitura bíblica inovadora, carregada de historicidade social que é transmitida aos segmentos populares através das CEBS. O surgimento da Comissão Pastoral da Terra em Goiânia no ano de 1985 foi muito importante para a organização do movimento sem terra, visto que esta consistia em um movimento de bispos, padres e agentes que se movimentaram em plena ditadura contra o modelo de exploração do campo. Foi uma aplicação prática daquilo que foi definido no Concílio Vaticano II e consequentemente uma aplicação prática da TDL, que acabou contribuindo positivamente para a construção ideológica dos camponeses. A crítica das consequências sociais da introdução do capitalismo no campo como a fome, a expulsão dos camponeses do campo, a pobreza e o êxodo rural, são características centrais na constituição tanto da CPT, quanto do MST.

Palavras chaves: Religião, movimentos sociais rurais, Teologia da Libertação, CPT, MST.

Introdução

As funções sociais das religiões não estão necessariamente fixas a priori, sendo influenciadas pelas distintas conjunturas políticas e construídas socialmente. Ao se analisar o aspecto social das religiões, podemos identificar a igreja enquanto defensora ou reprodutora do status quo, demonstrando que a religião faz parte de a demandas sociais. No Brasil, podemos perceber a influencia da religião nos conflitos sociais rurais. A partir de mudanças no posicionamento do catolicismo latinoamericano, por exemplo, podemos observar a influência da igreja católica no debate da questão agrária brasileira no período da ditadura militar. De acordo com o cientista social Lucas Henrique Pinto (2014), a partir da definição do conceito de religião, a sociologia pode ilustrar o fenômeno religioso e suas implicações nos fenômenos políticos sociais.

Este trabalho busca ressaltar a importância do elemento religioso na gênese do MST, advindo principalmente pelo trabalho pastoral da Igreja católica e da Igreja luterana. A Igreja brasileira é a única da América Latina sob a qual a Teologia da Libertação (TDL) e seus segmentos pastorais conseguiram exercer uma influência decisiva, tal como escreveu Michael Lowy, em sua obra “O que é cristianismo da Libertação?” (2016). Além do MST, pode-se afirmar que a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT) também são produtos da atividade de cristãos, agentes de pastorais e comunidades cristãs. A TDL nasceria contra a dominação externa imperialista no contexto dos anos 1960/1970, e contra a dominação social e econômica realizada pelos EUA aos países da periferia do capitalismo. Para entender esse movimento da Igreja Católica é necessário voltar às conferências do CELAM – Conferência do Episcopado Latino Americano – que ocorreu em Medellin em 1986. Nessa conferência, o grito dos povos latino americanos foi escutado. Esse foi o resultado de um movimento que já vinha se corporificando desde o Concílio Vaticano II, momento em que se começou a estabelecer conexões com o povo através das comunidades de base (PY e CARVALHAES, 2017, p.341).

Estruturas e movimentos políticos e sociais foram influenciados por crenças e formas de organização originadas nas comunidades de base e nas teologias da libertação. As lutas sociais são teologicamente interpretadas através de uma leitura bíblica inovadora, carregada de historicidade social que é transmitida aos segmentos populares através das Comunidades Eclesiais de Base (PY e CARVALHAES, 2017, p.342).
Nesse contexto, o surgimento da CPT (Comissão Pastoral da Terra) em Goiânia no ano de 1985 foi muito importante para a organização do movimento sem terra, visto que esta consistia em um movimento de bispos, padres e agentes que se movimentaram em plena ditadura contra o modelo de exploração do campo (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.6). Foi uma aplicação prática daquilo que foi definido no Concílio Vaticano II e consequentemente uma aplicação prática da TDL, que acabou contribuindo positivamente para a construção crítica dos camponeses em relação à situação de exploração do campesinato sob o latifúndio, já que os padres, agentes pastorais e religiosos, dialogavam com os camponeses mostrando a necessidade deles se organizarem.
A crítica das consequências sociais da introdução do capitalismo no campo, como a fome, a expulsão dos camponeses do campo, a pobreza e o êxodo rural, são características centrais na constituição tanto da CPT, quanto do MST. A atuação da CPT parte do principal postulado da TDL , a afirmação de que os pobres são sujeitos de sua própria história, logo, ela estabelece como seu objetivo principal o fortalecimento da auto-organização dos trabalhadores rurais, respeitando a autonomia e secularização dos movimentos sociais (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.6).
Apesar de se constituir enquanto um movimento secular e não confessional, é inegável que a grande maioria de militantes ativos do MST tem origem na CPT e nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Podemos ver essa influência através de um elemento fundamental na organização do MST, a mística, uma prática desenvolvida pelo movimento, funcionando como seu alimento ideológico de esperança e de solidariedade, um elemento de experiências, conhecimentos e práticas que atua de forma positiva na obtenção da unidade entre os participantes (COELHO, 2010, p.19). Dentro do que se entende sobre mística, é importante considerar os símbolos do MST que compõem o cenário da mística, como a bandeira, o hino, as palavras de ordem, as ferramentas de trabalho, os frutos do trabalho no campo, aparecendo também nas músicas, no boné ou nas faixas.

Dessa forma, não há como compreender a origem do MST sem se referir ao papel da igreja brasileira, em particular a CPT, visto que o movimento, assim como tantos outros, fixam suas raízes nas origens sociorreligiosas da TDL.

1. Igreja brasileira e a política – TDL e a opção preferencial pelos pobres da terra

A partir da abertura do Concílio Vaticano II, em 1962, a Igreja quis responder aos problemas da modernidade dialogando com as ciências, principalmente, sociais (COMBLIN, 2002, p.96). A Igreja procurava dar respostas litúrgicas e pastorais ao ser humano contemporâneo, não mais levando em consideração que a modernidade seja má, logo, de certa forma esse Concílio superou o clericalismo, recuperando o sentido globalizador da Igreja (COMBLIN, 2002, p.96). Esse novo olhar trouxe consequências eclesiológicas e sociológicas, pois a instituição muda a visão que tem sobre si mesmo e sobre a sociedade.
De acordo com Leonardo Boff (1986), a TDL logo ganhou força e espaço no continente e exerceu uma enorme influência na produção dos documentos gerados na Conferência Geral do Episcopado Latino Americano, promovido pelo Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM) de 1968, em Medellin (BOFF, 1986, p.54). Esse encontro foi realizado para discutir os problemas do homem e da mulher latino-americanos e da Igreja frente aos desafios dos tempos atuais, ou seja, foi quando começou o grande movimento teológico do continente Medellin teve forte influência dos Concílios Papais produzidos pelo Papa João XXIII e pelo Papa Paulo VI, apontando os males estruturais da América Latina e ao mesmo tempo a necessidade de supera-los, mas foi em Medellin que a opção preferencial pelos pobres ficou definitivamente mais clara (BOFF, 1986, p.54). Ela tornou-se um marco milenário para a TDL confundindo-se com o seu próprio nascimento, foi nela que se levantou claramente a bandeira da libertação alimentando a teologia dessa inspiração (BOFF, 1986, p.54).

Um dos mais importantes desdobramentos provenientes do novo olhar e da nova postura adotada por parte da igreja católica no continente latino-americano foram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que se trata da própria igreja na base do povo e não apenas de um movimento dentro da igreja (BOFF, 1986):

“Não se trata de um movimento dentro da Igreja. Com as comunidades, se trata de algo mais fundamental: Da própria Igreja na base do povo. As comunidades respondem a questão: como se encarna e se estrutura a vivência comunitária da fé apostólica nas condições do povo que no Brasil como no resto da América Latina, é simultaneamente religioso e oprimido ? As comunidades eclesiais como o enfatizou o papa em sua saudação a elas em Manaus, são verdadeiramente Igreja, Igreja que assimila as características do povo, Igreja na qual o povo pode expressar sua fé no registro próprio de sua cultura, de seus valores e de sua ânsia por libertação para a participação e comunhão na justiça” (BOFF, 1986, p.72)

As CEBs respondem a questão de como se encarna a vivência comunitária da fé nas condições do povo que em nossa região é um povo religioso e oprimido. São consideradas verdadeiramente Igrejas por assimilarem as características do povo, na qual o povo pode expressar sua fé de acordo com sua própria cultura e seus próprios valores. Para Leonardo Boff, em seu livro “E a igreja se fez povo” (1986), a igreja não pode deixar de se fazer popular se quiser evangelizar o povo dos pobres, pois caso contrário os cristãos ficariam reduzidos a uma massa sem maior participação na constituição da própria igreja.
A partir dessa breve análise do histórico de formação da TDL no Brasil, podemos entender de onde vem a opção preferencial da igreja pelos pobres da terra, momento no qual a igreja vê na luta pela terra um grande valor teológico (LOWY, 2016, p.152) . Mas isso não quer dizer que esse processo se deu a partir da teoria proposta pela TDL, mas pela própria realidade que se mostrava como um fenômeno histórico social de valor teológico.

Foi Dom Helder Câmara que reforçou na década de 1950 uma metodologia que consistia em realizar estudos bíblicos em comunhão com o estudo e análises históricas da condição social do país e da realidade das comunidades em que o estudo ocorria (LOWY, 2016, p.91). A leitura do Êxodo, por exemplo, que revelava a libertação do povo hebreu em busca da terra prometida servia como analogia a situação social dos camponeses e trabalhadores rurais sem terra e é dessa forma que a situação de carência dos sem terra passa a ser comparada com a situação do povo hebreu (LOWY, 2016, p.153).Essas analogias acabaram por se tornar um elemento comum dos grupos sociais encontrado na leitura do evangelho que servia como um incentivador a luta da opressão vivida por essas comunidades, partindo principalmente da compreensão de que o próprio Jesus de Nazaré era um camponês sem terra (LOWY, 2016, p.153).

Marco Antônio Mitidiero (2008), afirma que o significado bíblico e teológico da terra ajudou na compreensão ao direito divino a terra para trabalhar tanto dos agentes pastorais quanto dos camponeses sem terra, entendendo a terra como um elo de ligação entre Deus e o ser humano. Com isso, a resistência dos movimentos sociais camponeses se articula com base na destinação universal dos bens da terra e o princípio dos direitos dos pobres de se apropriarem dos bens necessários a vida.
No contexto latino americano, a igreja brasileira conseguiu colocar em prática efetivamente a TDL, a partir da influência decisiva de seus agentes pastorais (PY e PEDLOWSKI, 2018). Isso pode ser visto a partir dos novos movimentos sociais e partidos formados a partir da década de 1960, como a CUT, o MST e o PT, que são produtos das atividades de cristãos engajados, agentes leigos e das pastorais inspirados pela TDL (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.5). Em uma greve de metalúrgicos que ocorreu em São Bernardo em 1980, por exemplo, enquanto a polícia avançava contra os manifestantes, estes tiveram que buscar asilo na igreja, que foi aberta pelo bispo local para recebê-los (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.5)

2. Igreja e os problemas da Terra – CPT e as lutas no campo

A década de 1950 foi um período de forte desigualdade social no campo. Nesse período anterior a ditadura militar se agravou as desigualdades sociais, com o aprofundamento do processo de concentração de renda, do qual se originou a questão fundiária (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.5). É nesse contexto que surgem as Ligas Camponesas, cujo principal objetivo era avançar a luta pela reforma agrária (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.5). Antes do MST, principalmente entre 1954 e 1962, as Ligas Camponesas consistiu no movimento social que nasceu das lutas dos pequenos agricultores e não proprietários contra a tentativa de expulsão das terras onde trabalhavam. O movimento era liderado por Francisco Julião², mas acabaram sendo perseguidas e desarticuladas na ditadura militar em 1964 (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.5). O marco inicial das Ligas Camponesas é o ano de 1954, ano em que ocorreu a lutapelas terras do Engenho da Galiléia, localizado no município de Vitória de Santo Antão em Pernambuco (PY e PEDLOWISK, 2018, p.4).

Como se podem observar as Ligas Camponesas são um dos principais movimentos sociais rurais que influenciaram a formação do MST, assim como a CPT e as CEBs, todos eles situados por uma luta constante pela democratização da propriedade da terra. Na década de 1970 a Igreja Católica, contando com a liderança de Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduino redigiram uma série de documentos que mostravam os excessos praticados pela ditadura (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.5). Os militares se aliaram aos grandes latifundiários para manter o domínio sobre o campo. Alguns membros da igreja católica foram inclusive perseguidos e torturados pela polícia militar (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.5).

O documento “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o Latifúndio e a marginalização social” redigido por Dom Pedro Casaldáliga em 1973 movimentou não só a igreja, quanto o Estado, ao expor como o capitalismo estava afetando diretamente o campo, eliminando completamente a justiça social que poderia ali existir (MITIDIERO, 2008, p.148). Desse modo surgiu a ideia de se fundar uma pastoral de apoio aos camponeses e trabalhadores rurais, contribuindo na autopromoção destes sujeitos (MITIDIERO, 2008, p.148). Esse contexto, somado a intensa exploração do campo e aspéssimas condições de trabalho, proporcionaram o surgimento da Comissão Pastoral da Terra em 22 de junho de 1975 durante o Encontro de Pastoral da Amazônia em Goiânia organizado pela CNBB (MITIDIERO, 2008, p.148). Dessa forma a CPT não se colocava somente como apoio a esses trabalhadores e posseiros, mas se posicionavam claramente contra o regime militar e contra os interesses capitalistas (MITIDIERO, 2008, p.149). Sua forma de atuação foi se unindo as CEBs, nas pequenas paróquias rurais, rompendo o isolamento com o campo.

De acordo com Mitidiero (2008), antes do surgimento da CPT, as instituições e organizações da igreja que atuavam no campo eram a Juventude Agrária Católica (JAC), o Movimento de Educação de Base (MEB), e a Pastoral Rural (MITIDIERO, 2008, p.148). Mas foi o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) fundado em 1972, trabalhando na articulação dos povos indígenas contra as opressões a que eram vítimas, que mais influenciou o surgimento da CPT (MITIDIERO, 2008, p.148).A CNBB reconheceu a CPT como um órgão oficial ligado a linha missionária, mas com autonomia em relação a sua organização e atuação. A palavra “Comissão” concerne esse caráter teológico a CPT, indicando que sua mobilização parte também da fé cristã que os impulsionam a estarem ao lado dos pobres do campo (MITIDIERO, 2008, p.148). Para Mitidiero:
“Em minha concepção, o status de comissão garante uma maior autonomia na abertura de contatos exteriores a Igreja, como, por exemplo, a interação com as teses e conceitos científicos, com a realidade política, com a valorização das diversas culturas e com o ecumenismo. Além disso, a CPT, definida como uma pastoral de conflito, esta integrada, portanto, aos acontecimentos imediatos da cena política, diferente dos movimentos religiosos que estão mais distantes dos fatos históricos imediatos.” (MITIDIERO,2008, p.157)
O ecumenismo é uma exigência da CPT, visto que os problemas da terra atingem pessoas que pertencem a diversas religiões, não sendo possível fragmentar o significado da terra para essas pessoas que dependem dela para sobreviver (MITIDIERO, 2008, p.157). Foi por conta desse ecumenismo que a direção nacional da CPT pode contar com a presença de diversos pastores luteranos em sua formação, por exemplo, podendo contar principalmente com os membros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana (IECLB – PY e PEDLOWSKI, 2018, p.7). De acordo com Py e Pedlowski (2018) a IECLB sempre esteve envolvida com a formação da luta camponesapela terra do Brasil (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.7). Importante dizer que uma das principais atividades incentivadas pela CPT era a ocupação de terras: em diversas ocupações a CPT se mobilizou junto aos trabalhadores rurais fazendo pressão frente a questão do latifúndio improdutivo, contando inclusive com luteranos em sua organização atuando frente a articulação dessas atividades (PY e PEDLOWSKI, 2018, p.7).

É válido ressaltar que as Romarias da Terra promovidas pela CPT, demonstram o potencial da mística existente frente aos conflitos no campo, recorte que será abordado no capitulo seguinte. De acordo com Mitidiero:
“Nos anos de 1990, com a CPT em meio às lutas organizadas, o forte elo entre as suas ações e o seu fundamento pastoral foi a recorrente prática da mística. Ou seja, ligar o religioso às lutas imediatas por meio de simbologias e liturgias católicas, mesclado com símbolos e atos litúrgicos “inventados” pelo próprio povo. Conforme Yasbeck (2004), o potencial dos recursos organizativos da CPT está baseado principalmente em estratégias que põem a mística e a educação popular como formas de alimentar a esperança do povo nos momentos difíceis.” (MITIDIERO, 2008, p. 237)

O documento “A Igreja e os problemas da Terra”, aprovado e divulgado pela CNBB em 1980, na 18º Conferência Nacional em Itaici (SP), é o texto mais institucional que analisa os problemas do campo e a postura da Igreja (MITIDIERO, 2008, p. 237). Com isso, a questão da terra deixava de ser uma demanda de um grupo específico de determinados bispos e padres, passando a ser uma demanda de toda a igreja, que assinava um documento de repúdio contra a situação social das áreas rurais do Brasil (MITIDIERO, 2008, p.192).

Pode-se dizer que um dos principais exemplos de impacto social proporcionado pela TDL foi a criação do MST, que mesmo sendo não confessional acaba por fixar suas raízes na cultura sociorreligiosa desse cristianismo (MITIDIERO, 2008, p.192). Não há como falar do MST sem considerar o movimento da igreja brasileira, em especial a CPT (LOWY, 2016, p.226). Partindo do principal legado da TDL, de que os pobres são sujeitos de sua própria história, a CPT tem como objetivo ajudar na organização dos trabalhadores do campo, respeitando a autonomia dos movimentos sociais e sua secularização (MITIDIERO, 2008, p.194). A intenção da CPT é puramente encorajar osDepois disso, pouco a pouco a CPT foi se desvencilhando da organização do MST, respeitando sua autonomia enquanto movimento se tornava cada vez mais independente. Diante disso, Lowy afirma:

“O MST então se constitui enquanto movimento independente – e muito cioso de sua independência! – secular e não confessional (aberto a católicos e protestantes), crentes e não crentes (é preciso dizer que esses últimos são raros na zona rural e se encontram sobretudo entre os numerosos militantes políticos urbanos que cooperam com o MST). Apesar dessa “desconfecionalização”, não é segredo para quase ninguém que a grande maioria dos militantes ativos do MST tem origem na CPT e nas CEBS; alguns guardam ligações com suas estruturas, mas todos extraíram do Cristianismo da Libertação e da sua cultura sociorreligiosa e a motivação ética mais profunda para seu engajamento.” (LOWY, 2016, p.230).

Para abordar as origens sociorreligiosas do MST, o autor Michael Lowy (2016) se volta aos movimentos sociais rurais primitivos que constituem um movimento milenarista, na medida em que o socialismo era visto pelos camponeses como uma nova religião que anunciava a vinda de um novo mundo. Para Lowy (2016) esse milenarismo se configura no Brasil como a mística do MST, na qual a utopia do Cristianismo da Libertação está presente nos diversos rituais que animam também a luta dos que estão nos acampamentos do MST (LOWY, 2016, p.232). Mas ainda assim, “essa mística engloba também a cultura sociopolítica secular do MST, uma espécie de “mística laica” que estão presentes nos discursos e na formação política dos militantes”(LOWY, 2016, p.232). Isso acaba fazendo do MST não somente uma expressão dos trabalhadores rurais sem terra em busca de reforma agrária, mas de toda a sociedade civil como sindicatos, igrejas e partidos de esquerda (LOWY, 2016, p.232).

3. MST – CPT enquanto elemento ideológico do movimento

No histórico brasileiro de luta pela terra o Movimento Sem Terra traz junto consigo características muito próprias de sua organização (STÉDILE, 1999, p.11). A primeira delas é a ocupação da terra, seja ela produtiva ou improdutiva, que se tornou tão marcante na história nacional a ponto da legislação hoje incorporar a ocupação como forma de propriedade e o que existe hoje de Reforma Agrária parte justamente dessas ocupações (STÉDILE, 1999, p. 11). A segunda característica é a produção como peça chave do movimento, partindo da experiência concreta de divisão do trabalho associado a divisão da renda (STÉDILE, 1999, p.11). A terceira característica é a mística enquanto influência para a construção da historia da igreja no Brasil, que funciona como uma abertura para o dialogo religioso que os livrou das restrições de quem poderia ou não participar do movimento, assumindo um caráter de massa, ou seja, assumindo os desafios de todo o povo brasileiro e não somente da luta pela terra em si (STÉDILE, 1999, p.11).

De acordo com Stédile (1999), outro elemento muito importante, além do socioeconômico, na gênese do MST é o ideológico, por conta do trabalho pastoral, principalmente da Igreja Católica e Luterana. Nesse contexto, “o surgimento da CPT (Comissão Pastoral da Terra) em Goiânia no ano de 1985 foi muito importante para a organização do movimento” (STÉDILE,1999,p.22). Primeiro, a CPT reuniu os bispos da Amazônia que identificavam o grande risco que corriam os posseiros daquela região, tendo assim inicialmente uma motivação regional. A CPT representou um apoio ideológico ao movimento, pois sua existência surgiu também de uma autocrítica ao apoio da Igreja Católica ao Golpe Militar e a repressão dos camponeses (STÉDILE, 1999, p.22).

A CPT, como já foi visto, constitui um movimento de bispos, padres e agentes que se movimentam em plena ditadura contra o modelo de exploração do campo. Pode-se dizer que foi uma aplicação prática daquilo que foi definido no Concílio Vaticano II e“consequentemente uma aplicação prática da Teologia da Libertação, que acabou contribuindo positivamente para a construção ideológica dos camponeses, já que os padres, agentes pastorais e religiosos dialogavam com os camponeses mostrando a necessidade deles se organizarem” (STÉDILE, 1999, p.22). Com esse movimento, a igreja para de realizar um trabalho puramente messiânico dizendo ao camponês que ele terá terra e tesouros no céu e passando a dizer que é necessário a organização para lutarem e resolverem seus problemas aqui na terra, pois “o reino de Deus começa aqui”, atuando diretamente no processo de conscientização dos camponeses (STÉDILE, 1999, p.22).
Podemos considerar então que um grande motivador da gênese do MST foi justamente o caráter ideológico proveniente do trabalho da CPT, pois foi uma força que contribuiu para a construção de um movimento único de caráter nacional, rompendo com o regionalismo gaúcho (STÉDILE, 1999, p.24).
O próprio movimento considera janeiro de 1984 a data de fundação do MST, momento em que se se formalizou como um movimento de abrangência nacional. Nesse mesmo ano aconteceu o “I Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, contando com 80 representantes de 13 Estados, no qual foram definidos os princípios, as formas de organização e as reivindicações, já estando presentes fortes ideias quanto a estrutura e formas de luta” (STÉDILE, 1999, p.39). A palavra de ordem nesse ano de fundação era: “Terra para quem nela trabalha”, que veio da CPT, junto com “Terra não se ganha, Terra se conquista”. No ano seguinte, em 1985 foi realizado o Primeiro Congresso Nacional em Curitiba (PR) contando com 1.600 delegados, no qual a principal pauta foi a não ilusão com a Nova República que surgia, pois sabiam que mesmo com o novo governo vigente não dava para contar com decisões vindas das autoridades, mas que o povo deveria pressionar. Foi justamente dessa necessidade de pressão que surgiu a bandeira de luta “Ocupação é a única solução” (STÉDILE,1999,p.39).

4. Mística da Terra – força na organização da igreja brasileira

A nova organização social gerada pelo MST recebe a contribuição da mística, como um elemento de experiências, conhecimentos e práticas que atua de formapositiva na obtenção da unidade entre os participantes (STÉDILE, 1999, p.132). Stédile (1999), diz que “se incorpora a mística como uma prática social que garante uma tranquilidade e faz com que as pessoas se sintam confortáveis em participar da luta, além de proporcionar a aplicação de seus princípios organizativos” (STÉDILE, 1999, p.132). Pode-se dizer que o MST traz essas duas novidades em seu movimento que podem ser assimiladas por outros movimentos, a mística e os princípios organizativos. Esses elementos acabam trazendo uma sustentação ideológica e política para a militância do MST. Os sacrifícios das caminhadas, dos longos anos de acampamento que se submetem as famílias são sustentados não só porque a terra é necessária, mas por conta da mística e dos princípios organizativos (STÉDILE,1999, p.132).
Pode-se afirmar que a mística é uma prática desenvolvida pelo movimento, funcionando como seu alimento ideológico de esperança e de solidariedade, constituindo um ritual de celebração permanente (GASPAR, 2010 p.132). Para Stédile, a mística vai, além disso. No início do movimento, até mesmo pela influência da Igreja, a mística ainda vinha carregada de muita liturgia e com o passar do tempo identificaram que “quanto mais a mística vai se formalizando, mais ela vai deixando de existir, pois ela só faz sentido se fizer parte da vida do indivíduo” (STÉDILE, 1999,p.132). Logo, deixaram de realizar a mística somente em momentos específicos como Encontros ou Congressos, mas passaram a pratica-la em todos os eventos que existe um grupo de pessoas reunidas, já que a mística é exatamente uma forma de manifestação coletiva de um sentimento em comum. Esse sentimento em comum não deve funcionar como uma obrigação, como quando acontece com um caráter litúrgico, mas um como um sentimento em direção a um ideal comum (STÉDILE, 1999, p.132).
Falar sobre a mística como elemento essencial para a organização do movimento nos leva a analisar qual a relação que o MST possui com a religiosidade. É interessante analisar esse aspecto, pois a sociedade acaba questionando como que um movimento de esquerda permanece seu vínculo com a igreja, indo a missa e rezando (STÉDILE,1999,p.133). Diante disso, Stédile (1999) diz que a base que compõe o movimento utiliza-se de sua fé religiosa para se fortalecerem e fomentarem a luta, que é uma luta de esquerda e principalmente contra o Estado e o capital. O MST chegou a elaborar uma cartilha com escritos de autores religiosos como o Leonardo Boff eRanulfoPelloso, sobre as razões da existência da mística ou sobre as origens da mística no pensamento humano (STÉDILE, 1999, p.133).

Dentro do que se entende sobre mística, é importante considerar os símbolos do MST que compõem o cenário da mística, como a bandeira, o hino, as palavras de ordem, as ferramentas de trabalho, os frutos do trabalho no campo, aparecendo também nas músicas, no boné ou nas faixas (STÉDILE, 1999, p.134). As músicas e as palavras de ordem são em sua maioria usadas para recuperar a história do movimento, pois registram o momento. Entendendo que não é o discurso que proporciona a unidade das pessoas, procuram construir essa unidade a partir da ideologia da visão política da realidade e dos símbolos que vão materializando a identidade e essa unidade invisível (STÉDILE, 1999, p.134).
De acordo com Fabiano Coelho (2010), a mística como prática do MST possui formas particulares de se manifestar, funcionando principalmente como uma espécie de ritual e celebração que acontece de diversas maneiras e com significados e sentidos variados (COELHO, 2010, p.19). A prática da mística está presente desde suas primeiras mobilizações no início da década de 1980 e teve como principais incentivadores os agentes religiosos que apoiavam e prestavam assessoria ao MST em seus primeiros anos de existência (COELHO, 2010, p.19). O espaço da prática da mística se dá nos mais variados lugares, como acampamentos, assentamentos, congressos e encontros, em geral praticada em através das músicas, dos teatros e das poesias, além dos diversos elementos que simbolizam a luta pela terra dentro do movimento (COELHO, 2010, p.22). Essa mística que há tanto tempo se se encontra sistematizada dentro do MST está relacionada com o cotidiano dos sujeitos e sobretudo com os objetivos e visões de mundo que permeiam o movimento (COELHO, 2010, p.24). Utilizando-se as contribuições de Bourdieu e Chartier, Fabiano Coelho analisa a mística como uma prática “cultural e política”:

“A partir desses autores compreendo a mística como uma prática cultural e política no MST, e sendo uma prática o seu fazer se torna um momento privilegiado em que se processam “construção de representações” como construções sociais da realidade em que os sujeitos e seus respectivos grupos fundamentam o seu mundo. A mística se configuraria como uma prática muito importante e estratégica na organização do movimento, pois contribuiria para construir visões de mundo, valores, representar o que espera de seus integrantes e estabelecer os aliados e adversários na luta pela terra, bem como criar representações sobre a realidade que está por vir com a luta e resistência dos sujeitos” (COELHO, 2010, p.24)
A luta pela Reforma Agrária está canalizada também para questionar o modelo político e econômico adotado pelo governo. O MST surge a partir da necessidade de efetivação da Reforma Agrária, promovendo a articulação de um movimento social em prol da luta pela terra e dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do campo (COELHO, 2010, p.24). Nesse momento, pode-se afirmar que a Igreja passou a ser um elemento fundamental de apoio a luta, partindo do princípio de que viver o evangelho não era apenas viver em busca de uma dimensão espiritual, mas viver o evangelho se encontrava também no engajamento político, apoiando a luta pela libertação dos oprimidos (COELHO, 2010, p.24).

Conclusão

O surgimento da CPT (Comissão Pastoral da Terra) em Goiânia no ano de 1985 foi muito importante para a organização do movimento sem terra, visto que esta consistia em um movimento de bispos, padres e agentes que se movimentaram em plena ditadura contra o modelo de exploração do campo. Foi uma aplicação prática daquilo que foi definido no Concílio Vaticano II e consequentemente uma aplicação prática da TDL, que acabou contribuindo positivamente para a construção ideológica dos camponeses, já que os padres, agentes pastorais e religiosos dialogavam com os camponeses mostrando a necessidade deles se organizarem. A crítica das consequências sociais da introdução do capitalismo no campo como a fome, a expulsão dos camponeses do campo, a pobreza e o êxodo rural, são características centrais na constituição tanto da CPT, quanto do MST. A atuação da CPT parte do principal postulado da Teologia da Libertação, a afirmação de que os pobres são sujeitos de sua própria história, logo ela estabelece como seu objetivo principal o fortalecimento da auto-organização dos trabalhadores rurais, respeitando a autonomia e secularização dos movimentos sociais.

Apesar de se constituir enquanto um movimento secular e não confessional, é inegável que a grande maioria de seus militantes ativos tem origem na CPT e nas Comunidades Eclesiais de Base. Podemos ver essa influência através de um elemento
fundamental na organização do MST, a mística, uma prática desenvolvida pelo movimento, funcionando como seu alimento ideológico de esperança e de solidariedade, um elemento de experiências, conhecimentos e práticas que atua de forma positiva na obtenção da unidade entre os participantes. Dentro do que se entende sobre mística, é importante considerar os símbolos do MST que compõem o cenário da mística, como a bandeira, o hino, as palavras de ordem, as ferramentas de trabalho, os frutos do trabalho no campo, aparecendo também nas músicas, no boné ou nas faixas. As músicas e as palavras de ordem são em sua maioria usadas para recuperar a história do movimento, pois registram o momento. Falar sobre a mística como elemento essencial para a organização do movimento nos leva a analisar qual a relação que o MST possui com a religiosidade.

Stédile (1999) diz que a base que compõe o movimento utiliza-se de sua fé religiosa para se fortalecerem e fomentar a luta, que é uma luta de esquerda e principalmente contra o Estado e o capital. Michael Lowy (2016), discorre sobre a presença marcante da fé na contribuição do advento de uma nova sociedade, diferente do capitalismo e que pode ser vista no MST:

“Esta síntese bem sucedida de utopia e realismo, tem sem dúvida contribuído para fazer do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não somente a expressão organizada da luta dos pobres do campo por reforma agrária radical, mas também a referência central de todas as forças da sociedade civil brasileira – sindicatos, igrejas, partidos de esquerda, associações profissionais e universidades que lutam contra o neoliberalismo” (LOWY, 2016)

Diante das análises realizadas, pode-se concluir que não há como compreender a origem do MST, sem se referir ao papel da igreja brasileira, em particular a CPT, visto que o movimento, assim como tantos outros, fixam suas raízes nas origens sociorreligiosas da TDL.

Referências Bibliográficas

BOFF, Leonardo. E a Igreja se fez Povo. Petrópolis: Vozes,1986.

COELHO, Fabiano. A prática da mística e a luta pela terra no MST. Dissertação mestrado em História (UFGD), Dourados, 2010.

CONBLIN, José. O povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2002.

CNBB. Igreja e os problemas da terra: Documento aprovado pela 18° Assembléia da CNBB – Itaici,14 de fevereiro de 1980. Itaici: Edições Paulinas, 1980.

GASPAR, Marco Aurélio. A falta que faz a mística. São Paulo, 2010.

LIBÂNIO, João Bastista. Teologia da Libertação: Roteiro Didático para um estudo. São Paulo: Edições Loyola, 1987.

LOWY, Michael. O que é Cristianismo da Libertação: religião e política na América Latina, São Paulo: Expressão Popular, 2016.

MARTINS, José de Souza. “Reforma agrária – o impossível diálogo sobre a História possível”. Tempo Social; Revista Sociologia USP, 1999, p. 97-128.

MITIDIERO, Marco Antônio. A ação territorial de uma igreja radical: Teologia da Libertação, Luta pela Terra e Atuação da Comissão Pastoral da Terra no Estado da Paraíba. São Paulo: Paulinas, 2011.

MOTTA, Márcia. “O rural na História do Brasil (dos anos 80 aos trabalhos mais recentes)”. Revista Portuguesa de História, 2010, p.175-191.

PY, Fábio e PEDLOWSKI, Marcos. “Atuação de religiosos luteranos nos movimentos sociais rurais no Brasil (1975-1985)”, Tempo, v.58, 2018.

PY, Fábio e CARVALHAES,Cláudio. “Teologia da Libertação: História, Temas e Nomes”. Crosscurrents, n.45, 2017, p.340-354.

STÉDILE, João Pedro e Mançano, Bernardo Fernandes. Brava gente: a trajetória do MST e da luta pela terra no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 1999

 

Professora Doutora do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT) e do Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA). Membro do Grupo de Estudos do Integralismo (GEINT).

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