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ESPAÇOS DE MEMÓRIA: CONHECER NOSSA HISTÓRIA PARA ENTENDER O PRESENTE E PREPARAR O FUTURO

Quais espaços de memória você se recorda ter visitado com a escola? Quais desejaria visitar com seus estudantes?

Museu da Memória e dos Direitos Humanos, Santiago, Chile. Fonte: acervo pessoal da autora.

Cecília de Oliveira Prado

Em recente viagem de férias ao Chile, tive a oportunidade de visitar a Cordilheira e vinhedos, locais sobre os quais teria muito o que contar, mas, algo que muito chamou-me atenção foram duas visitas realizadas: uma ao Estádio Nacional e outra ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, oportunidade em que, além de conhecer os assombros causados pelo golpe militar e burguês desencadeado a partir de 11 de setembro de 1973, pude refletir sobre a importância de espaços de memória como locais destinados não só a conhecer os acontecimentos, mas especialmente de se proclamar “Um Pueblo sin memoria es um Pueblo sin futuro” – Um povo sem memória é um povo sem futuro.

No Estádio Nacional, um espaço que não está destinado a ser apenas mais um estádio de futebol, mas também um complexo esportivo, pude conhecer um dos mais de 2.000 locais transformados em prisão após o golpe. Espaços como o Estádio Nacional serviram de prisão (onde ocorreram inúmeras sessões de tortura e mortes) de profissionais de educação e de operários sindicalizados entre outros cidadãos considerados pelo governo militar como subversivos e nocivos ao grupo que se auto intitulou governo, a partir do golpe.

Arquibancada do Estádio Nacional preservado como em 1973, nunca ocupado em dias de jogos para mostrar para o mundo as atrocidades que lá foram cometidas. Fonte: Acervo pessoal da autora.

 

 

 

 

 

 

No museu da Memória e dos Direitos Humanos instalações audiovisuais montadas com vídeos, áudios, jornais e fotos dão visibilidade às violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado Chileno no período entre os anos de 1973 e 1990.

Os exemplos citados, se referem a dois dos mais famosos. Faltou muito a conhecer e pelo que pude saber, no Museu dos Direitos Humanos, no país como um todo espalham-se mais de 200 espaços com objetivos de preservação de memória.

Ainda impactada com a importância que o povo chileno dá a sua memória para situações que violem os direitos humanos com reflexos diretos na perda do convívio democrático e, na luta de um povo para que tais fatos não se repitam, fui surpreendida com críticas de nosso Presidente da República que tanto tem demonstrado, através de suas declarações, ser antidemocrático, expor-se também contra a ex-presidente chilena e alta comissária da ONU, atacando seu pai, um militar que foi torturado – morrendo em decorrência disto, por ter se recusado a apoiar o golpe militar liderado por Augusto Pinochet.

Suponho que ao fazer tais críticas, esperava nosso algoz que o atual governo chileno, por ter orientação de direita como nosso presidente, compactuasse com a barbárie pelo simples fato de ofender pessoas com alinhamento político divergente. Enganou-se. No Chile houve uma gritaria geral, da extrema direita a extrema esquerda, que combateram tais declarações por violarem princípios democráticos, tão caros a qualquer povo. Um senador chileno chegou a sugerir que nosso maior mandatário fosse declarado persona non grata no Chile.

Aqui em nosso país, declarações homofóbicas e racistas muitas vezes são combatidas somente pelos adversários de quem as proclamou. Um erro! Devemos aprender com o povo chileno que ataques ao Estado democrático de direito não podem ser tolerados em hipótese alguma, pois abrem portas para a barbárie da ditadura e violência de um grupo sobre outro.

Lugares de memórias, são locais de proteção da história de um povo. Servem para que demonstremos, especialmente para os que ainda não eram nascidos, até onde uma ditadura pode chegar.

Na cidade de São Paulo, busca-se constituir um roteiro de lugares de memórias da ditadura civil militar, que durou aproximadamente de 1964 a 1985. Até o momento (dados de 2017), o Programa de Pesquisa – Lugares de Memória da instituição, inventariou 185 locais, através dos critérios de resistência e repressão.

Memórias póstumas que também são consideradas como parte do roteiro de memória da ditadura, como o Ato para Carlos Marighella (04 de novembro) e Ato para Santos Dias da Silva (30 de outubro), que reúnem há muitos anos militantes de todas as idades, não fizeram parte do inventário acima citado.

Vemos, com certo desanimo, que muitas escolas, ao organizarem saídas com seus estudantes levam os mesmos para cinema com pipoca, geralmente para assistir filme de caráter lúdico com a alegação que de outra forma seus alunos não teriam acesso a esse tipo de cultura. Nenhum problema a priori que a escola dê acesso à cultura, ofertar cultura, aliás é seu papel, mas… onde é mais provável que nossos alunos se dirijam para uma atividade de lazer com seus amigos ou familiares: a um cinema ou a um espaço de memória que os leve a conhecer seu passado para entender seu presente e modificar seu futuro?

Se respondemos afirmativamente a segunda opção devemos buscar conhecer roteiros e locais que fortaleçam junto a nossos estudantes os ideais democráticos que desejamos ser vivenciados pelo conjunto de nossa população, e que ampliem o pobre repertório ofertado historicamente no que se refere aos considerados “vencidos”, grupos minoritários e ignorados pelo conteúdo escolar.

Quais espaços de memória você se recorda ter visitado com a escola? Quais desejaria visitar com seus estudantes?

Memorial da Resistência, São Paulo, SP. Fonte: Brasil de Fato.

Memorial da Resistência de São Paulo

Largo General Osório, 66 • Santa Ifigênia • São Paulo • SP
Telefone: 55 11 3335-4990 • Entrada Gratuita
Aberto de quarta a segunda (fechado às terças), das 10h00 às 17h30
faleconosco@memorialdaresistenciasp.org.br

REFERÊNCIAS

Guterres defende alta comissária da ONU após ataques de Bolsonaro.  https://www.dn.pt/mundo/interior/guterres-defende-alta-comissaria-da-onu-apos-ataques-de-bolsonaro-11283843.html acesso me 11/09/2019..

NÚCLEO DE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA POLÍTICA. Uma trajetória na busca por verdade, memória e justiça: memória institucional do Núcleo de Preservação da Memória Política (2009/2017) / Núcleo de Preservação da Memória Política; Coordenação Maurice Politi; Organização: Oswaldo de Oliveira Santos Júnior [e] Paula Ribeiro Salles – São Paulo: Núcleo de Memória, 2017.

Cecília de Oliveira Prado é Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação e Especialista em Tecnologias Interativas Aplicada a Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Especialista em Gestão Educacional pela Fundação de Apoio à Faculdade de Educação da USP, FAFE/SP. Atua em redes públicas como gestora e professora desde 1991. Professora universitária, assessora pedagógica e tutora do Curso de Educação em Direitos Humanos (UFABC).

 

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