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DESORDEM E REGRESSO

Sobre a terça parte do lema e as palavras presas no revês da moeda.

Cadê a palavra amor na bandeira brasileira? Ordem sem amor é violência, porque o adestramento não define a educação e uma educação amorosa é incompatível com a organização autoritária da vida. Progresso sem amor é deterioração ambiental, desumanização.

José Pacheco

No dia 08 de junho de 2019, o professor José Pacheco publicou, na Revista Educação, um texto breve intitulado “Amor, ordem e progresso”. Ao iniciar o primeiro parágrafo, Pacheco chama-nos a atenção para o “Fundador da República Brasileira”, Benjamim Constant, um personagem bastante apagado na história nacional, e para o lema positivista por ele adotado: “Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por finalidade”.

Dois terços do “lema” parecerão familiares, certamente, para a grande maioria dos brasileiros, pois aparecem sobre a faixa branca da bandeira nacional, um dos elementos que compõem o modelo vigente, idealizado por Raimundo Teixeira Mendes, desenhado pelo artista Décio Villares, e utilizado, pela primeira vez, em 1889. No entanto, causará estranheza, aos que tiverem alguma intimidade com a ordem e o progresso, a primeira parte, o “Amor por princípio”, uma vez que, desde sempre, suprimiu-se

O lema, em sua totalidade, aponta para a obra Système de politique positive, de Auguste Comte, e reproduz, de forma bastante clara, a seguinte passagem: “Em cada fase ou modo de nossa existência, individual ou coletiva, devemos sempre aplicar a fórmula sagrada dos positivistas: Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por meta”. (COMTE, p. 19)[1].

Em seu livro, Comte expõe a relação entre os três elementos da seguinte forma: “(…) o amor procura ordem e empurra para o progresso; a ordem consolida o amor e dirige o progresso; finalmente, o progresso desenvolve ordem e traz de volta ao amor.[2] (COMTE, p. 19). A falta de qualquer um dos pilares que compõem a tríade seria o suficiente para o desarranjo total da estrutura, para o desalinho, transformando a ordem em desordem e o progresso, através da inversão dos destinos, em declínio, atraso, regresso.

Num país tão polarizado, com milhões de pessoas analfabetas, 731 mil crianças – ainda – fora da escola, 17.907 mortes violentas entre janeiro e maio, cerca de 13,2 milhões de trabalhadores desempregados, 53º lugar em educação entre 65 países avaliados no PISA (Programme for International Student Assessment), com tantos outros problemas de maior e menor grandeza, o que parece substituir o “amor” omitido, dando sequência, no revês da vista, a um lema obscuro, é o ódio por princípio, que garante, por sua vez, a desordem por base e o atraso por meta. O atual presidente da república, Jair Messias Bolsonaro, eleito com 57.797.847, ou seja, 55,13% dos válidos, não deve ser apontado como a única razão, a causa maior do caos instaurado. A sua vitória é sintomática e precisa ser encarada com a seriedade que a situação exige. Ninguém pode ou deve deixar de fora o fato de que, em primeiro lugar, o povo elegeu um candidato de extrema-direita que tinha por lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”[3], e, em segundo, de que nós – com os nossos vizinhos, amigos, parentes, colegas de profissão e de trabalho – somos o povo. O “fenômeno Bolsonaro”, o bolsonarismo, antecede, em muitos e muitos anos, o próprio Bolsonaro e sobrevive, de forma silenciosa, subcutânea, em cada um de nós, na forma como escrevemos e lemos a nossa cultura e a nossa sociedade.

 

Referências bibliográficas

COMTE, Auguste. Système de politique positive. Canadá: Jean-Marie Tremblay, 2002. Disponível em: http://anthropomada.com/bibliotheque/COMTE-auguste-Systeme-de-politique-positive.pdf. Acesso em: 03 jul. 2019.

PACHECO, José. “Amor, ordem e progresso”. Revista Educação. Disponível em: https://www.revistaeducacao.com.br/amor-ordem-e-progresso/.Acesso em: 10 jun. 2019.

[1] A chaque phase ou mode quelconques de notre existence, individuelle ou collective, on doit toujours appliquer la formule sacrée des positivistes: L’Amour pour principe, l’Ordre pour base, et le Progrès pour but. (COMTE, 2002, p. 19)

[2] Car, l’amour cherche l’ordre et pousse au progrès; l’ordre consolide l’amour et dirige le progrès; enfin, le progrès développe l’ordre et ramène à l’amour. (COMTE, 2002, p. 19)

[3] O lema quer dizer mais do que, numa leitura despretensiosa, diz, porque carrega, nos elementos que o compõem, todo um ideário, uma ideia de nação, de moral, de cidadão (de bem ou não), etc.

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Lucca Tartaglia é doutorando em Letras Vernáculas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Letras (Estudos Literários) pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (2014) e graduação em Letras (Língua Portuguesa / Literaturas de Língua Portuguesa) pela mesma instituição (2013). É colaborador, como membro estudante, do Núcleo de Estudos Portugueses (NEP) - atuando na linha de pesquisa Literatura, Cultura e Sociedade - e, como pesquisador, no grupo Formação de Professores de Línguas e Literatura (FORPROLL), linha de pesquisa Estudos de cultura, linguagens e suas manifestações, ambos vinculados ao CNPq.

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