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INTOLERÂNCIA E VIOLÊNCIA IDEOLÓGICA: DIREITOS HUMANOS A PARTIR DO OLHAR DA PSICOLOGIA.

Autores do campo da Psicologia e Direitos Humanos nos ajudam a tecer uma compreensão contextualizada e engajada na construção de relações sociais mais justas e inclusivas, preocupadas com a construção da cultura da paz para novas gerações.

Mosaico de imagens de fiéis e lideranças religiosas de diferentes credos. Foto: ONU/Rick Bajornas Disponível em https://nacoesunidas.org/chefe-da-onu-alerta-para-avanco-do-discurso-de-odio-e-da-intolerancia-religiosa-no-mundo/

Cristina Miyuki Hashizume

Pensando nos Direitos Humanos como campo da reflexão sobre uma vida digna, igualitária e solidária, podemos problematizar a atuação da Psicologia no que se refere à intersecção entre Direitos Humanos, ideologias e seus impactos na subjetividade da vida cotidiana dos brasileiros, eis aqui o propósito deste artigo.

A ideologia já foi estudada por diferentes filósofos, dentre eles Chauí (2007; 2008), que entendem se tratar de um discurso que oculta aspectos da realidade e se constrói a partir de uma lógica mais lógica e convincente, dando um encadeamento e coerência para o entendimento sobre um fenômeno social, que, infelizmente, não é possível ser entendido em sua complexidade dessa forma. Tal discurso, ideológico, se constrói em função de interesses de um grupo social situado historicamente. Estudos sobre o nazismo e  seu discurso autoritário, por exemplo, mostraram que as estratégias mais detalhadas de destruição do povo judeu eram discutidas nos bastidores, apenas entre a cúpula gestora do exército nacional (Maluschke, 2004), propagando-se um discurso que se declarava progressista e pelo bem da humanidade, o que lhe permitiu ter ampla adesão da população como um todo.

No Brasil dos governos militares, também havia um discurso ideológico que pregava a moralidade, a importância da família e associava ao comunismo (outra ideologia em alta na época) o “Mal” que destruiria a sociedade. Nesse sentido, o senso comum passa a ser conduzido e convencido de que um governo extremamente ditatorial, que garantisse a “moral e os bons costumes” pelo bem da população brasileira, seria a melhor maneira de salvar a sociedade brasileira. Psicólogos de diferentes vertentes da área realizaram estudos sobre os efeitos traumáticos da tortura do regime militar nas vítimas de violações de Direitos Humanos e também de seus familiares (Coimbra, 2009). Em nome de uma ideologia e de um discurso intolerante de gestores com personalidades autoritárias (Adorno, 2005), levou-se à risca um projeto desenvolvimentista atrelado a uma ideologia de supremacia de valores hegemônicos na sociedade da época. Tal visão de mundo defende como parâmetro “ideal” o homem branco, ocidental, racional e eurocêntrico. Tal construção ideológica abriu margem para que esse discurso da supremacia a todo custo fosse importado por outros países, que mesmo estando fora do discurso hegemônico dos países europeus, propunham o eugenismo como forma de progresso científico e social (Dietrich, 2007/ 2019).

Assim, apresenta-se a seguir, breve reflexão sobre a construção ideológica de discursos aparentemente neutros que, posteriormente, servem para embasar práticas e políticas de intolerância às minorias não hegemônicas na sociedade, buscando também, apresentar a relação entre práticas de intolerância na atual conformação social binária, na qual a sociedade tem se posicionado de forma contundente em cenas do cotidiano.

Autores do campo da Psicologia e Direitos Humanos nos ajudam a tecer uma compreensão contextualizada e engajada na construção de relações sociais mais justas e inclusivas, preocupadas com a construção da cultura da paz para novas gerações.

Os discursos intolerantes explicitam processos e modos de pensar que, fundamentados em valores transitórios da atual sociedade capitalista pós moderna, rompem com valores como solidariedade, empatia,  reconhecimento da humanidade alheia e, portanto, buscam justificar “a eliminação de qualquer trato humanizado” em relação à diferença (Butler, 2011, p. 13). Além de reificar o indivíduo que é vítima de violação de direitos, a visão individualizante de mundo faz com que as pessoas acreditem que o mundo é construído a partir de opiniões particulares e individualmente construídas como ponto de vistas. O posicionamento em relação à violência e violações deixa de ser um posicionamento político e engajado a partir de um referencial epistemológico sobre o homem, coletividade e sociedade, e passa a ser tratado como opinião pessoal, neutra e ética. Dentro desse cenário de não respaldo em estudos qualificados já desenvolvidos em diferentes espaços, acadêmicos ou não, temos presenciado autoridades e grupos se posicionarem livremente defendendo ações que vão de encontro a uma cultura da paz, mas por outro lado, a intolerância tem encontrado eco em espaços os mais diversos, uma vez que os grupos sociais têm se polarizado em progressistas e conservadores, que se opõe e não se toleram. Esse cenário explosivo tem quebrado o mito do brasileiro como homem cordial receptivo. Os discursos de intolerância têm tolhido a possibilidade de um debate mais amplo e formativo sobre os dilemas da vida humana: políticas sociais, educacionais, de saúde, de articulação de conselhos. Uma visão pragmática de resolução de problemas no âmbito público têm esgarçado ainda mais as possibilidades de discussão coletiva sobre assuntos de interesse comum.

Movimentos intolerantes tem aumentado frente à polarização social no Brasil. Foto disponível em https://envolverde.cartacapital.com.br/onu-diz-que-declaracao-dos-direitos-humanos-combate-intolerancia/

 

Esse contexto polarizado, porém, tem trazido algumas reflexões para profissionais da Psicologia e Psicologia Social: como lidar com o sofrimento e assédio decorrente da intolerância político-social entre esses dois grupos polarizados? Como a “desafiliação social” tem incentivado posições radicais e irredutíveis sobre temas que deveriam minimamente garantir Direitos Humanos? Como conceituar esse novo fenômeno social que vem nos afligindo e criminalizando movimentos, posições e práticas que se proponham a amparar aqueles que não têm acesso a mínimos direitos como saúde, educação, moradia, segurança, dentre outros aspectos? Como cuidar de segmentos que alguns psicólogos sociais têm defendido estarem passando por bullying? São questões para refletirmos em médio prazo.

Recuperar as memórias do mundo e do Brasil é importante para que a Psicologia e seus estudos sobre os governos totalitários nos permitam concluir que a humanidade, quando leva às últimas consequências seus ódio e intolerância, pode se aproximar da barbárie: reificando as pessoas e as minorias ou violando direitos em nome de um fim, aparentemente, “mais nobre”. Nesse sentido, a Psicologia tem importante responsabilidade na construção de laços sociais que sejam mais ancorados na cultura da paz, investindo em intervenções e problematizações em grupos, em comunidades e na sociedade em geral, sem patologizar nem “interpretar” tais radicalismos como sintomas individuais, como temos visto acontecer.

Charge: contradições cotidianas. Como lidar?
Disponível em https://blogdoabdul.wordpress.com/2013/03/12/a-marcha-da-intolerancia/

 

Nesse sentido, a capacitação de psicólogos passa a ser imprescindível na construção de um outro olhar sobre a realidade social, promovendo debates, alianças e vínculos que enalteçam valores como a solidariedade, lealdade, altruísmo e ética.

 

Referências

ADORNO, T.W. . “Preconceito: relações com a ideologia e com a personalidade.” Estudos de Psicologia. Campinas, v. 22, n. 3, p. 309-319, 2005.

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

BUTLER, J. Vida precária. Contemporânea. Dossiê Diferenças e Des (Igualdades). n.1, p. 13-33. Jan-Jun, 2011.

CHAUÍ, M. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 2008.

_____ . O discurso competente e outras falas. São Paulo: Cortez, 2007.

COIMBRA, C.M.B. Os guardiães da ordem. Tese (doutorado em Psicologia – USP). São Paulo: Oficina do autor, 1995.

COIMBRA, C.M.B.; LOBO, L.F.; NASCIMENTO, M.L.. Por uma invenção ética para os Direitos Humanos. Psicologia Clínica. RIO DE JANEIRO, vol. 20, n. 2, p. 89-102, 2008.

DIETRICH, A.M. Nazismo tropical? O partido Nazista no Brasil. TESE (Doutorado) Programa de Pós Graduação em História Social. FFLCH-USP, 2007.

FOLLONE,R.A.& RODRIGUES,R.S. Direito e educação: o caminho para a efetividade dos direitos humanos e da cidadania. In: FINOTTI,L.F.T.; TOMAZ,L.C.L.;

Formação e cidadania.  Disponível em: <https://www.instagram.com/ugurgallen/?hl=pt-br> Acesso em: 29 mai. 2019.

TOMAZ,R.A.F.(Orgs.). Educação e interdisciplinaridade: diálogos com a Psicologia, a Filosofia e o Direito. Uberlândia: Composer, 2015.

MALUSCHKE, G. As ideologias como fonte de violência. In: MALUSCHKE, G e HERMANNS, K. (2004). Direitos Humanos e Violência: Desafios da Ciência e da Prática. Fortaleza: Fundação Konrad e Adenauer, 2004.

NOZU, W.C.S.; LONGO, M.P.; BRUNO, M.M.G. Direitos humanos e inclusão: discursos e práticas sociais. Campo Grande, EDUFMS, 2014.

 

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Professora do Programa Strictu Sensu (M/D) em Educação- UMESP e do Programa de Pós Graduação em Psicologia Educacional do UNIFIEO. Mestre (2003) e Doutora (2010) em Psicologia Escolar (USP). Desenvolve pesquisas focando educação, saúde e precarização das condições de trabalho e Direitos Humanos. É autora dos livros “Formação de Pedagogos e Cotidiano Escolar” (2009); Educação e Direitos Humanos: no chão da escola (EDUFABC,2017); “Trabalho docente e precarização nas relações laborais na educação” (APPRIS,2018) e seis livros paradidáticos em Educação e Direitos Humanos (2019). Autora de artigos em revistas indexadas em Educação e Sociologia, além de nove de capítulos de livros nas áreas de Psicologia e Educação.

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