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Narciso diante do Espelho

“Ah, se houvesse apenas um olhar, o olhar de um sujeito”. Barthes.

O olhar de um fotógrafo determina o “destino” de uma fotografia? Ou qualquer destino como lembrança, como arte, como vida, como memória e história, depende das respostas que concedo a qualquer obra de arte ao indagar o que está simulado, como aconteceu, de que forma percebo, e principalmente, como reajo e o que muda em mim?

“Com a fotografia, não nos é mais possível pensar a imagem fora do ato que a faz ser” (Dubois) e da ação e realidade que representa, pois sou por ela levado a instantes de contemplação, de indagações, de lembranças, enfim, de emoções.

O “destino” da Fotografia segundo Barthes, é que ao fazer crer ela efetiva a desordem entre a realidade (“Isso foi”) e a verdade (É isso!), e provoca movimentos de memória, me aproximando do que sou.

Dubois em seu livro O Ato Fotográfico, assinala um escrito de Leone-Battista Alberti em Della Pittura, onde “convoca a figura (e toda a fábula) de Narciso”, transcrevendo a seguinte passagem:

Sendo assim, tenho o hábito de dizer a meus amigos, de acordo com a fórmula dos poetas, que é Narciso, aquele que foi transformado em flor, que teria sido o inventor da pintura (inventore della pittura). E, aliás, se a pintura é a flor de qualquer arte (la pittura fiori d’ogni arte), toda a história de Narciso (tutta la storia di N.) cabe bem aqui. Dirás com efeito que pintar seja algo além de abraçar (abbracciare) desse modo, com arte, essa superfície, aqui, da fonte (quella ivi superfície de fonte)? (Alberti)

Narciso tem o seu momento de “mito” quando, ao se dobrar sobre uma límpida fonte de água, percebe seu rosto refletido como num “espelho”, encantando-se com a imagem; fascinado, percorreu com o olhar todos os detalhes do reflexo, contemplando e se apaixonando pelos belos delineies da figura, sem ter conhecimento que era a sua própria imagem refletida. Para alguns sofistas, Narciso se deitou no leito do rio e absorto com o que via, assim permaneceu até a morte, para outro cometeu suicídio, e para Flávio Filostráto, ele tentou abraçar a imagem, caindo na água e, se afogando.

É pelo ato de abraçar com o olhar, envolvendo-me por completo, refletindo sobre o que vejo nos instantes desertos de contemplação de uma imagem fotográfica (“a vida é, assim, feita de golpes de pequenas solidões” – Barthes), que pretendo percorrer o campo da Fotografia como a Arte que afeta a individualidade: história, memória, vida, morte e humanidades.

Narciso não pode ser entendido apenas como o símbolo da vaidade, segundo L. C. Galahad, seu gesto demonstra “o quão dramática é a individualidade e como é profundo quando um indivíduo toma consciência de si mesmo, experimentando seus próprios dramas humanos”.

É este o destino da fotografia;(?) o de conduzir-me a consciência de meus próprios dramas ao olhar no espelho a imagem da vida do outro? “POIS A FOTOGRAFIA É O ADVENTO DE MIM MESMO COMO OUTRO [ou o outro]: UMA DISSOCIAÇÃO ASTUCIOSA DA CONSCIÊNCIA DE IDENTIDADE”. (Barthes)

Imagem 1: Pai e filha morrem antes de chegar ao território americano – 24/06/2019 (Julia Le Duc/AP). Disponível no site:< https://veja.abril.com.br/mundo/foto-de-pai-e-filha-afogados-expoe-drama-da-imigracao-para-os-eua/> Acesso em jun de 2019.

Óscar Alberto Martínez Ramírez e Angie Valeria Martínez Ávalos, de El Salvador, pereceram afogados ao buscar cruzar o Rio Grande, na divisa do México com os EUA. A tragédia fim desta ação aparece na imagem fotográfica que há pouco mais de um mês percorreu o mundo causando diferentes reações, e assinalando o drama de migrantes que procuram refugio nos EUA fugindo da pobreza e da violência de países como Guatemala, Honduras e El Salvador.

Pai e filha, o braço direito da menina sobre a cabeça do pai e sua camisa servindo de sudário para os dois. O que eu vejo? Solidão, tristeza, indignação; o que submerge do meu olhar (?), angústias, culpa de outros, vida e morte, direito negado e deveres infringidos, revolta.

Não é apenas um olhar, o olhar de um sujeito. É assim: “há Narciso diante da fonte; há o espectador diante do quadro; e é a mesma relação que, em cada caso, une um ao outro.” (Dubois)

Reflexo de outra crise migratória, esta ocorrendo entre o norte da África e o sul da Europa, a fotografia seguinte registra uma realidade que se perpetua, pois de acordo com a ONG Save the Childen, um ano após a morte de Alan Kurdi, 423 menores de idade pereceram na tentativa de suas famílias de atravessar o Mediterrâneo. Na época olhares “pertubados” – a imagem observada na fonte por Narciso é o seu próprio reflexo -, reagiram de diversas formas, mas em algumas, a arte foi o mecanismo encontrado para a expressão dos sentimentos de seus autores.

Imagem 2: Fotografia do menino sírio Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia da Turquia, registrado em 02/09/2015 pela fotógrafa Nilüfer Demir, que cobria a crise migratória em Bodrum para a agência de notícias Dogan. Disponível no site:<https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/09/05/europa-um-ano-apos-foto-iconica-423-criancas-morreram-no-mar/> Acesso em jun. de 2019.

É o que se vê na reportagem publicada no site G1 Sorocaba/Jundiaí, da Globo.com em 04/09/2015, sem autor definido, intitulada Grafite em Sorocaba faz homenagem a menino sírio morto após naufrágio.

“Um grafite do menino sírio Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia da Turquia, surpreendeu moradores da zona industrial de Sorocaba (SP) na manhã desta sexta-feira (4). O registro do desenho foi feito por uma motorista que passava pela Rua Paulo Varchavtchik, no bairro de Aparecidinha. A arte foi feita pelo grafiteiro sorocabano Rafael Sudário em um painel próximo a uma área de chácara ocupada com algumas casas construídas de forma improvisada. O grafite mostra a criança deitada de bruços, da mesma forma como foi encontrada na praia da cidade turca de Bodrum. Em volta do desenho do menino a palavra “paz” foi escrita diversas vezes, ao lado de “abandonados”.

Imagem 3: Fotografia disponível no site: <http://g1.globo.com/sao-paulo/sorocaba-jundiai/noticia/2015/09/grafite-em-sorocaba-faz-homenagem-menino-sirio-morto-apos-naufragio.html.> Acesso em jul. de 2019.

O grafite refletiu os sentimentos do espectador, o grafiteiro Rafael Sudário, que observou a fotografia e nela se observou… e reagiu, assim, pela arte.

“Sou, (como) Narciso: acredito ver um outro, mas é sempre uma imagem de mim mesmo (…) A relação narcísica opera aqui na enunciação, no discurso pictural; e não estamos mais cortados dessa relação; ao contrário, nela estamos plena e realmente implicados; o face a face com o quadro [e a imagem fotográfica] posiciona-nos como protagonistas por inteiro (“eu” diante de nosso “tu”)”. (Dubois)

É sempre, então, o NARCISO DIANTE DO ESPELHO.

Referencias:

DUBOIS, Philippe. O Ato Fotográfico. 12ª Edição, Papirus Editora, Campinas/SP, 2009.

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. 12ª Impressão. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro/RJ, 2008.

GALAHAD, L. C. Narciso, o espelho e ele mesmo. Disponível no site:<https://mitologiagrega.net.br/narciso-o-espelho-e-ele-mesmo/>. Acesso jul de 2019.

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Bacharel em Administração pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro , Licenciado em História pela Universidade de Uberaba, Pós-Graduado em Docência do Ensino Superior pela Faculdades Integradas de Jacarepaguá, Mestre em História Social - linha de pesquisa em História Cultural pela Universidade de Vassouras/RJ. Foi Presidente da Fundação Educacional de Três Rios/RJ, e Professor dos cursos de Pedagogia (História da Educação, História da Arte, Arte e Educação) e Logística (Comercio Exterior) da Faetec de Três Rios/RJ.

6 Comments

  1. Aurelio Fernandes disse:

    Bem interessante a reflexão do Narciso diante do espelho.

  2. Sabrina Miranda disse:

    Ótima leitura! Reflexão muito interessante.

  3. Estér Mota disse:

    Bom dia, amigo!
    Quando você estiver pelo Rio participando das palestras, me avisa! É muito gratificante o seu trabalho…. Você é especial, um ser de luz!
    Forte abraço!

    • André Luiz Reis Mattos disse:

      Sdds… vou pouco ao Rio infelizmente… mas se vc vier ao interior rs me procure… espero que continue lendo os artigos desta revista sem igual, bjs.

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