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A vida dos mortos está na memória dos vivos – André Mattos

André Luiz Reis Mattos

 

Oliver Abel, no prefácio do livro Vivo até a Morte de Paul Ricoeur, afirma que este autor dizia “que havia duas coisas difíceis de aceitar na vida, de aceitar verdadeiramente: a primeira é que somos mortais; a segunda, que não podemos ser amados por todo o mundo.” (ABEL. 2012, prefácio p. IX)  Com relação à primeira, a dificuldade estaria na impossibilidade concreta de “figurar o que são e onde estão agora nossos próximos já mortos”, (Ibidem) e, principalmente, de nos imaginarmos mortos.

Philippe Ariès, que na obra História da Morte no Ocidente, estuda os costumes ante a morte nas culturas cristãs ocidentais, motivado pela “importância, para a sensibilidade contemporânea dos anos de 1950-1960, da visita ao cemitério, da devoção aos mortos e da veneração aos túmulos” (ARIÈS. 2012, p 19). Ariès busca na sua pesquisa, entre outros aspectos, entender a dificuldade humana de tratar com a perda do ente próximo, porque a “morte do outro” sinaliza a sua própria condição de sujeito mortal.

Fotografia 1: Jazido perpétuo com retratos de familiares enterrados no mesmo espaço. Os túmulos são lugares de lembranças e de culto aos que faleceram. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

Os mortos permanecem na memória dos vivos e nos lugares de lembrança destes: os cemitérios com seus mausoléus, túmulos, as inscrições funerárias, os espaços de culto (também organizados por alguns em seus lares), as imagens sacras e os retratos dos mortos. “O imaginário procede por deslocamento e generalização: meu morto, nossos mortos, os mortos”; (RICOEUR. 2012, p. 8) eu morto (nosso destaque).  

A experiência de quem sobrevive à morte de um ente querido é na verdade o encontro com a sua própria realidade de ser finito, percebendo-se irremediavelmente mortal; é “a consciência de si e do outro, o sentido da destinação individual ou do grande destino coletivo.” (ARIÈS. 2012, p. 23)

Fotografia 2: Nesta imagem além da fotografia do ser amado, têm-se a identificação do batismo  católico (registrado na data entre o nascimento e a morte) como ação que possibilita a “conquista” de um  lugar “na grande família de Jesus” (figura incorporada a imagem), reafirmando desta forma, a crença na sobrevivência do ser além da morte. O retrato funciona aqui como um atestado da morte e da esperança na continuidade da vida. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

A memória dos vivos e a lembrança dos mortos funcionam então, como a lembrança do que há de vir, “o caminho da antecipação da iminência de ser tragado por minha vez a massa perdida” (RICOEUR. 2012, p. 31) e assim, não se desejando estabilizar no lugar de esquecimento dos que permanecerão vivos após a própria morte, estabelece-se no imaginário  e em suas representações, os lugares e objetos de lembranças dos mortos.

Uma memória irredutível à passeidade do “não-mais” de certo modo exaltada em preservação do ter-si, o “ainda-presente” do passado “salvo” do não-mais, fazendo contrapeso e simetria ao “já-presente” do futuro, salvo do “ainda-não”.

 

O uso das fotografias dos mortos nos túmulos e mausoléus dos cemitérios relaciona-se a necessidade não só de possuir, de reter a imagem dos que amamos, mas de tornar eterno o que na memória garante as lembranças, evitando-se o esquecimento indesejável (do outro e de si), aparecendo neste contexto, como o objeto capaz de atender em grande parte este imperativo tão humano: o de vencer a morte e tornar as pessoas “eternas”. Sujeitos que permanecem “vivos” na expressão material da imagem registrada, para que o tempo, inexorável inimigo da vida, pois nos conduz invariavelmente a morte, seja vencido. É a relação permanente entre vida, morte, memória, religiosidade, lembrança e esquecimento, com a fotografia se tornando o próprio signo de que somos mortais e os fotógrafos, verdadeiros agentes da Morte.

Fotografia 3: No retrato, uma foto-montagem, o casal “unido” após a morte, e ao fundo a imagem do céu, lugar desejado/esperado para a vida após morte. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

É esta condição de poder “ludibriar a morte” que concede a fotografia a sua aura de objeto místico, mágico, “fonte da juventude”, conservando “algo da temporalidade vivida (passado, presente, futuro),” (RICOEUR. 2012, p. 45) como um objeto de identidade; criando-se então, ao olhar a imagem impressa (como as que apresento), uma lembrança pela similaridade com as próprias memórias, mesmo que a realidade na fotografia não tenha sido vivenciada.

É possível que, no desenvolvimento cotidiano das fotos, as mil formas de interesse que elas parecem suscitar, o noema “Isso-foi” seja, não recalcado (um noema não pode sê-lo), mas vivido com indiferença, como um traço que não precisa explicação. É dessa indiferença que a Foto do Jardim de Inverno () acabava de me despertar. Seguindo uma ordem paradoxal, já que costumeiramente asseguramo-nos das coisas antes de declara-las “verdadeiras”, sob o efeito de uma experiência nova, a da intensidade, eu induziria, da verdade da imagem, a realidade de sua origem; eu confundiria verdade e realidade em uma emoção única; na qual eu colocava doravante a natureza – o gênio – da Fotografia, já que nenhum retrato pintado, supondo que ele me parecesse “verdadeiro”, podia impor-me que seu referente tivesse realmente existido.

 

É esse “Isso-foi” que conduz inicialmente todo o olhar que repousa na imagem relacionando a fotografia com a verdade e a realidade, ao ponto de ser aceito o referente sem necessidade de elucidação. Mas quando do trato do registro fotográfico enquanto fonte em pesquisas, a visão deve superar metodologicamente esta percepção comum às pessoas, para adentrar ao campo da análise e da interpretação, alcançando o máximo das informações presentes na imagem, conduzindo o pesquisador a uma interdependência de conceitos e aplicações teóricas, permitindo que a fotografia seja empregada em análises diversas por campos de ciências múltiplas.

Fotografia 4: Toda uma vida apresenta-se nos diversos momentos registrados em imagens que foram “unidas” nesta foto-montagem. A lembrança não se restringe apenas a um retrato, estende-se pela temporalidade da existência, desde o nascimento, passando pelas idades primeiras, a escola, a festa junina, a infância, a adolescência e a morte no início da maturidade. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

A vida dos mortos fragmenta-se na fotografia e na memória, retomando seu ritmo, quando a percepção repousa sobre a imagem e esta desperta lembranças – saudades pousadas em retratos -, e movimenta a memória no instante que vence a distância temporal entre o corte fotográfico e a observação do referente imagético. Somente a imagem fotográfica e a imagem da memória são capazes de lidar com tempo interrompendo e retomando o seu fluxo através da lembrança, impedindo o esquecimento dos mortos que são, e do morto que sei que serei um dia.

 

Bibliografia:

ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2012.

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira. 2008.

RICOEUR, Paul. Vivo até a Morte. São Paulo. WMF Martins Fontes Ltda. 1ª edição, 2012.

 

André Luiz Reis Mattos,bacharel em Administração pela UFRural/RJ, Mestre em História Cultural pela Universidade de Vassouras/RJ (Orientadora: Profa Doutora Ana Maria Dietrich); servidor da justiça estadual, ex-professor das disciplinas História da Educação, História da Arte, Arte e Educação e Teoria do Currículo no curso de Pedagogia da Faeterj – Três Rios/RJ; e-mail:alreismattos@gmail.com.

Bruno Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. Estagiário no curso de Educação em Direitos Humanos na Universidade Federal do ABC – UFABC e editor-assistente nas Revistas ContemporArtes e Contemporâneos.

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