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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS

“Uma das vertentes mais importantes da educação em Direitos Humanos é a prevenção. Afinal, Direitos Humanos não é uma invenção para defesa de bandidos”.

Capa do Livro: Pipo e Fifi, de Caroline Arcari, Iustrações de Isabela Santos, Editora Caqui. Fonte: https://www.pipoefifi.com.br/

Sexualidade e abuso infantil. Só a família é quem deve tratar do tema? Cabe a escola participar de uma discussão desse tipo? A partir de que idade discutimos sexualidade? O que a Educação em Direitos Humanos tem a ver com isso?

O risco de o tema não chegar as escolas, é uma negativa a realidade vivida por muitas crianças. E sim, a Educação em Direitos Humanos visa não só combater, mas enfrentar e prevenir situações que podem vir a atacar os Direitos Fundamentais de crianças, razão pela qual têm estreita relação com Educação em Direitos Humanos e o papel da escola na prevenção e enfrentamento do tema.

Uma das vertentes mais importantes da educação em Direitos Humanos é a prevenção. Afinal, Direitos Humanos não é uma invenção para defesa de bandidos. Se não dermos conta de prevenir precisaremos mediar e resolver os direitos violados que podem acometer os ditos cidadãos de “bem” e os ditos cidadão do “mau” e no caso em que aqui discutimos crianças cidadãs de direitos.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais colocam temas como orientação sexual, educação para a saúde, ética, pluralidade cultural, meio ambiente como temas transversais que devem ser tratados durante toda a escolaridade. Quando o professor pede para as crianças escovarem os dentes e a torneira fica aberta, ele está trabalhando o tema transversal meio ambiente, mas com o desperdício. Quando ele trabalha a sexualidade, um dos conteúdos a serem abordados é o do “respeito ao próprio corpo e ao corpo do outro”, momento em que ele pode estar prevenindo situações de abuso infantil, que infelizmente são mais corriqueiros do que se queira dentro do âmbito familiar.

E com qual faixa etária devemos iniciar tal reflexão? A rigor, pode-se trabalhar a temática da sexualidade em qualquer situação do convívio escolar. O professor deve estar atento às diferentes formas de expressão dos alunos. Muitas vezes a repetição de brincadeiras, produções escrita ou gráfico-plástica (desenho) podem significar uma necessidade não verbalizada de discussão e compreensão do tema. Mas é importante que se eleja um (ou mais) momentos em que o tema seja diretamente abordado, como trabalho planejado e sistematizado, e é sobre um momento desses que vamos falar a seguir,  de um projeto desenvolvido numa escola pública do Grande ABC e compartilhado por uma grande educadora de um terceiro ano do ensino fundamental (antiga segunda série), o que pode se transformar numa luz a outros educadores que poderão facilmente adaptá-la à sua realidade.

No desenvolvimento do tema, a professora optou por partir de uma pesquisa na Internet, selecionou vídeos e livro, próprios a faixa etária com que atua (crianças em torno de 07 anos) que estimulam a uma discussão aberta sobre o tema (relacionados ao final da página), e a partir de então levantou os conhecimentos prévios, problematizou e questionou-se como forma de ampliar o leque de conhecimentos.

No desenvolvimento do trabalho perguntas anônimas puderam ser encaminhadas para professora e posteriormente discutidas por todo o grupo. Texto coletivo foi produzido tendo a professora como escriba. Parodia musical foi criada. Junto com as famílias puderam assistir novamente os vídeos trabalhado com os alunos e conversar um pouco a respeito, finalizando com uma atividade em que os familiares pintaram, recortaram e vestiram bonecos de papel que levaram para suas casas.

Texto coletivo produzido pelas crianças. Fonte: acervo pessoal.

 

O maior produto do trabalho foi a conscientização, mas destaca-se um produto físico, pela professora denominado de “Defenda-se” – uma apostila preenchida pelas crianças em que completavam com dados extraídos de sua realidade de acordo com suas possibilidades de expressão com informações a partir de comandas:

Capa Desenho das pessoas que mais ama no mundo Desenho de um lugar onde se sentem seguros Pintura da parte do corpo que consideram íntima

(a página incluía a figura de uma criança nua, do sexo feminino para meninas e masculino para meninos

Como você se sente? Alegre ou triste

(a página incluía um rosto para a criança completar com a expressão que desejava demonstrar)

Desenho de um carinho que gosta de receber Desenho de uma pessoa especial na qual confia Passos que podem ajudar a te manter seguro, se desenhe fazendo cada um deles.

Diga não em voz alta
Conte para alguém de confiança

 

Falar de educação combate a violência infantil é ter ciência de que abuso infantil existe e que devemos prevenir e combater através do diálogo, ensinando as crianças a dizer não, a não ter segredos e a expor seus sentimentos. Problematizar e ampliar o leque de conhecimento sobre abuso sexual é uma temática que pode e deve ser desenvolvida dentro do limite de ação pedagógica, sem invadir a intimidade de alunos e professor cuidando do que pode ser compartilhado no grupo e o que deve ser mantido como vivência individual.

Avançar nas discussões sobre violência sexual nas escolas pode ser, para muitas crianças, uma questão de vida ou morte. Ter orientações que favoreçam o entendimento e não se sentir vulnerável: culpada ou amedrontada quando exposta a situações de violência é papel tanto da família quanto da escola que não pode e não deve se furtar de seu papel com relação a proteção de nossos pequenos.

 

REFERÊNCIAS:

ARCARI, Caroline. Pipo e Fifa: Prevenção da violência sexual na infância – Caroline Arcari. Caqui Editora.

BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural: orientação sexual / Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Brasília: A Secretaria, 2001.

Vídeos:

Como conversar com crianças sobre nudez? Guia para adultos bacanas e responsáveis  – https://docs.wixstatic.com/ugd/5117a5_dc61270940974548aa8078f2fd46eb54.pdf

“Defenda-se” criado com fim educacional  pela Campanha de Enfrentamento à violência sexual cometido contra crianças, disponível em http://www.youtube.com.br/watch?v=hMPgg1vwVus

Não esconda de ninguém – Quebrando o Silêncio, vídeo da série de desenhos do Quebrando o Silêncio infantil.  http://www.youtube.com.br/watch?v=uyeJvRS-ItM

Cecília de Oliveira Prado é Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação e Especialista em Tecnologias Interativas Aplicada a Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Especialista em Gestão Educacional pela Fundação de Apoio à Faculdade de Educação da USP, FAFE/SP. Atua em redes públicas como gestora e professora desde 1991. Professora universitária, assessora pedagógica e tutora do Curso de Educação em Direitos Humanos (UFABC).

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2 Comments

  1. Maria Alice Durso Patricio disse:

    Parabéns, Cecília!!! Excelente texto!!!
    Tema muito importante que deve ser trabalhado com os pequenos tanto no seio da família como na escola!!!

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