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Criatividade e Ajustamento Criativo: Contribuições da Gestalt-terapia.

O objetivo de trazer essa perspectiva e sua consequente reflexão está na exigência mercadológica da criatividade. Engana-se quem acredita ser uma capacidade exigida exclusivamente por profissionais envolvidos com o setor criativo.

A saúde mental dos trabalhadores sempre foi um tema abordado por essa coluna. Muitas vezes trago conteúdos específicos da rotina dos colaboradores e relações diretas com gestores. Porém, algumas ocasiões, para que possamos nos adaptar ao mercado e suas exigências necessitamos procurar ajuda de profissionais qualificados e com um olhar mais completo do nosso funcionamento psíquico. Nesse texto o leitor conhecerá uma parte do trabalho de uma das abordagens da Psicologia: a Gestalt-terapia.

O objetivo de trazer essa perspectiva e sua consequente reflexão está na exigência mercadológica da criatividade. Engana-se quem acredita ser uma capacidade exigida única e exclusivamente por profissionais diretamente envolvidos com o setor criativo. Aliás, engana-se quem crê ser um recurso somente do mundo do trabalho!  Veremos a seguir que a criatividade pode ser a chave para conflitos pessoais e consequentemente, laborais.

De acordo com Lima (2009) a Gestalt terapia é uma abordagem que preza a atribuição da criatividade como sendo um dos recursos fundamentais ao processo da auto-regulação organísmica. Este conceito é originário da Teoria Organísmica de Kurt Goldstein. Ele define a auto-regulação organísmica como sendo uma forma do organismo interagir com o mundo, nele o organismo é capaz de se atualizar. Para que isso aconteça, é preciso que o sujeito tenha respostas novas para as situações as quais vivencia em sua interação com o meio.

[…] concebe a criatividade como um atributo essencial e vital do ser humano, um romper de barreiras, uma afirmação da vida, de nossa integridade, de nossa natureza intrínseca e de nossa própria essência como seres humanos (ZINKER, 2001, p.10).

Segundo Zinker (2007) criatividade é a celebração da grandeza de uma pessoa, a sensação de que ela pode tornar qualquer coisa possível. É um ato de coragem que o sujeito se põe disposto a arriscar-se ao ridículo e ao fracasso, para experimentar este momento como uma novidade, algo inédito. O processo criativo começa com a compreensão do que existe ali: a essência, a clareza e o impacto do que está a nossa volta, e não somente a concepção, é o ato em si, a realização de algo que precisa ser anunciado e que se torna urgente, uma vez que as experiências, muitas vezes, nos exigem respostas:

A criatividade parece envolver certas capacidades mentais. Estas abrangem a capacidade de mudar a maneira pela qual cada pessoa aborda um problema, de produzir ideias relevantes e ao mesmo tempo inusitadas, de ver além da situação imediata e de redefinir o problema ou algum aspecto dele (KNELLER, 1965, p.26 APUD CIORNAI, 2004, p.66).

Ainda segundo Zinker (2007) um processo criativo permite colocar para fora tudo aquilo que se encontra em nosso interior, e com isso, o tamanho da vida, se faz do tamanho que damos a ela e quanto mais recursos o sujeito possui, cada vez mais ele passa a se conhecer e construir maiores possibilidades de viver o mundo de uma maneira agradável e saudável. Porque uma vida com uma grande limitação de exposição possibilita pouco espaço para a criatividade.

Para Cardella (2014) o ajustamento criativo é uma característica fundamental da condição humana básica. Se ajustar criativamente implica em “deixar sua marca” nos acontecimentos da vida, é vivenciá-los e torná-los próprios. O sujeito é dono de seu destino, pois é ele quem escolhe ser responsável por como vive as experiências. É preciso ser capaz de recriar aquilo que já é conhecido, vivido e até que já se tornou tradicional. Ajustamento criativo é então a capacidade de pessoalizar, subjetivar e se apropriar das experiências que acontecem no encontro com a diversidade.

A autora completa dizendo entender que ao falar de ajustamento criativo, estamos falando de algo contínuo, de mudança, de inserir o novo naquilo que é velho para formar um novo formato. Sugere a superação de relações que não são funcionais ou saudáveis e a percepção da realidade como algo flexível que pode ser transformada (CARDELLA, 2014).

Aqui, podemos perceber que, além do mercado estar cobrando novas atuações, inúmeras vezes teremos que nos ajustar em nossa vida pessoal para que possamos encontrar caminhos que serão mais satisfatórios e assim, refletir nas nossas competências.

Mesmo a experiência sendo um fluxo constante, ela também enfrenta algumas resistências internas. O sujeito ao resistir, acredita que está agindo para se preservar, manter e promover a integridade, porém muitas das vezes ela se apresenta como sendo uma hesitação de mudar a maneira pela qual sempre se comportou ou agiu. (ZINKER, 2007).

Para Lehmkuhl (2015) o contato criativo possibilita o crescimento, pois pensar em criatividade é compreender a possibilidade de estabelecer distintas concepções que estão sempre em constante mudança e transformação. Um funcionamento saudável do organismo é um fluxo contínuo de percepção completa, porém quando nossas respostas se repetem e não alcançamos um equilíbrio, ou nossa necessidade real não é satisfeita, pode-se afirmar que está ocorrendo um funcionamento não saudável do organismo, tornando o contato do sujeito com o meio, um contato não criativo.

Creio que o ambiente de trabalho, incontáveis vezes, pode ser um ambiente tóxico que dificulta a relação natural da criatividade. Estar nesse lugar limitante pode afetar diretamente nossos recursos e assim, criar limitações, resistências e diversos transtornos de saúde mental. Atentar-se à criatividade é também se implicar em seu caminho pessoal e, por vezes, a atuação de um (a) psicólogo (a) será crucial para o encontro dessa e outras potencialidades.

 

REFERÊNCIAS

CARDELLA, B. Ajustamento criativo e hierarquia de valores ou necessidades. In: FRAZÃO, L; FUKUMITSU, K (Orgs). Gestalt-terapia: conceitos fundamentais. São Paulo: Sammus, 2014.

 

CIORNAI, S. Percursos em arteterapia: arteterapia gestáltica, arte em psicoterapia, supervisão em arteterapia. São Paulo: Summus, 2004.

 

LEHMKUHL, L. A criatividade como potencializadora do processo gestalt- terapêutico. Revista IGT na Rede. Rio de Janeiro, v.12, n.23, p. 315-326, 2015. Disponível em < http://www.igt.psc.br/ojs/viewarticle.php?id=526&layout=html> Acesso em 12 set 2018.

 

LIMA, P. Criatividade na Gestalt-terapia. Estudos e pesquisas em psicologia, Rio de Janeiro, v.9 n.1, abr. 2009. Disponível em <htttp://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sei_arttext&pid=S1808-42812009000100008>. Acesso em: 11 set 2018.

 

ZINKER, J. Processo criativo em Gestalt- terapia. São Paulo: Summus, 2007.

 

______. A busca da elegância em psicoterapia: uma abordagem gestáltica com casais, famílias e sistemas íntimos. São Paulo: Summus, 2001.

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Psicólogo pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (2017); especialista em Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico pelo Instituto Brasileiro de Formação (2018); especializando-se em Gestão de Pessoas pela PUC Minas; estagiou na Secretaria Municipal de Educação em Juiz de Fora no Departamento de Apoio ao Estudante; foi monitor das disciplinas " Anatomofisiologia", "Neuroanatomofisiologia" e " Fundamentos da Avaliação Psicológica" no CES/JF; foi psicopedagogo na Doctum Caratinga. Tem interesse nos temas: saúde do trabalhador; processos gerenciais; saúde mental; Psicologia clínica e Psicologia escolar.

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