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História Colonial e Ensino de História: experiências de pesquisa em uma universidade pública, gratuita e de qualidade na região amazônica.

Universidade Federal de Roraima, campus Paricarana, Boa Vista/RR (Imagem disponível em https://www.vestibulandoweb.com.br/educacao/aprovados/resultado-ufrr-2019/, acesso 28/05/2019)

Monalisa Pavonne Oliveira

“Hacer optativo el estudio de la historia empobrece nuestro mundo y el futuro, achata nuestra visión de la experiencia de la humanidad, lesiona nuestra capacidad de pensar críticamente y nos limita en la posibilidad de aprender en un sentido más amplio y variado, restringiendo la curiosidad y ese amor a la vida que distingue a esta disciplina que se centra en el ser humano y sus possibilidades”.

(Claudio Rolle,

Historiador Pontificia Universidad Católica de Chile)

 

Hoje, 28 de maio de 2019, treze dias após as importantíssimas e retumbantes manifestações em defesa da educação que aconteceram em todo o país, e a menos de 48 horas da próxima mobilização de professores, estudantes e técnicos-administrativos que tem como pauta principal a revogação do corte de verbas na Educação Básica e Superior impingida por parte do governo de Jair Bolsonaro (PSL), todos nos sentimos na missão, mais do que nunca, de apresentar para a sociedade brasileira a função social da universidade, composta pelo tripé: ensino, pesquisa e extensão.

A maior parte da pesquisa produzida no país é realizada nas universidades públicas, que estão entre as melhores do país, e, também, compõem os rankings das melhores do mundo. Desse modo, o presente texto visa apresentar os resultados parciais das atividades e estudos desenvolvidos pelos membros do grupo de pesquisa “História Colonial e Ensino de História”, cadastrado na Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal de Roraima (PRPPG/UFRR) e no Diretório de Grupos do CNPq.

Sendo assim, o grupo de pesquisa História Colonial e Ensino de História tem como objetivo central:

 

foco na aproximação da pesquisa acadêmica com a Educação Básica, a partir do entendimento da produção do conhecimento histórico escolar sobre a colonização portuguesa na América. Pretende-se viabilizar a elaboração de materiais que auxiliem educadores e educandos, principalmente, com a introdução de fontes na sala de aula, na tentativa de estimular a pesquisa em âmbito escolar, e contribuir para a compreensão e aprofundamento dos estudos relacionados ao período colonial. (História Colonial e Ensino de História, Diretório de Grupos CNPq)

 

No âmbito do grupo de pesquisa, foram desenvolvidos três subprojetos de pesquisa vinculados ao Programa de Iniciação Científica da UFRR, dois deles com financiamento, ou seja, duas alunas são bolsistas PIC-UFRR, e um projeto desenvolvido voluntariamente por um aluno. Este, desenvolvido com o mesmo empenho e seriedade que os subprojetos que contam com o financiamento.

Os subprojetos visam atender as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, a partir da produção de materiais didáticos, mais especificamente, propostas de planos de aula embasados pelas discussões clássicas e mais recentes da historiografia acerca da história indígena, africana e afrodescendente, bem como os principais pressupostos teórico-metodológicos utilizados pelos historiadores na atualidade, relativos ao Ensino de História e à História Colonial, aliados à introdução de fontes nas salas de aula.

O grupo de pesquisa foi criado no final do ano de 2017, quando se iniciaram as leituras e discussões do grupo, composto inicialmente por mim e quatro alunos do curso de licenciatura em História da UFRR. No final do primeiro semestre de 2018, submetemos as propostas de três subprojetos de pesquisa ao PIC, a saber: História Colonial e Ensino de História: interlocuções com a História da África e dos afrodescendentes no Brasil; História Colonial e Ensino de História: protagonismo indígena; História Colonial e Ensino de História: mulheres afrodescendentes e indígenas. Os dois primeiros subprojetos foram os contemplados com bolsas de pesquisa.

Atualmente, o grupo cadastrado no Diretório de Grupos do CNPq conta com quatro docentes, sendo dois da UFRR, um da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA); e, um do Instituto Federal de Rondônia (IFRO); e cinco discentes, todos da UFRR.

Os objetivos dos subprojetos do grupo que submetemos ao PIC concentravam-se, inicialmente, em conhecer a historiografia clássica do oitocentos e da primeira metade do novecentos acerca das interpretações do período colonial, a partir das obras: Como se deve escrever a História do Brasil, de Karl Friedrich Von Martius (1843); História Geral do Brasil antes de sua separação e Independência, de Francisco Adolfo de Varnhagen (1877); Capítulos de História Colonial, de Capistrano de Abreu (1907); Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (1933); Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1936); e, finalmente, Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. (1942).

Posteriormente, nos debruçamos sobre a historiografia da segunda metade do século XX e primeiras décadas do XXI, atentando para as diferentes perspectivas e propostas de abordagens teórico-metodológicas, especialmente aquelas relacionadas à escravidão negra e indígena, e a história destes segmentos sociais. Todo este arcabouço viabilizou a busca por fontes históricas de diversas naturezas para comporem as propostas de planos de aula, atendendo não somente as legislações acerca das relações étnico-raciais, mas, também, as demandas levantadas pelas mais recentes produções relativas ao Ensino de História, e a construção do conhecimento histórico em âmbito escolar.

A criação do grupo se concretizou a partir da percepção de uma lacuna com relação à produção discente, em particular os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), que abrangessem o período colonial, defendidos no curso de Licenciatura em História da UFRR. Verificamos que o maior volume da produção acadêmica dedicou-se predominantemente a recortes estabelecidos na História Contemporânea, principalmente à segunda metade do século XX.

Desse modo, a iniciativa de contemplar uma baliza cronológica não muito abordada pelos discentes, mostra que o campo da História Colonial merece atenção e pesquisa por parte dos discentes e docentes da UFRR. Além disso, percebemos uma dificuldade relativa à aplicação das leis 10.639/2003 e 11.645/ 2008, que estabelecem a obrigatoriedade do ensino de História da África, afrodescendentes e História Indígena, que atualmente não fazem parte do currículo do curso. No entanto, o Núcleo Docente Estruturante está trabalhando na atualização da grade de disciplinas e na inserção dessas temáticas no currículo.

Embora a academia reconheça como fundamentais o ensino e aprendizagem da História da África, afrodescentes e indígenas para a compreensão da formação da sociedade brasileira, e a desconstrução de estereótipos na tentativa de combater o preconceito sofrido por uma grande parcela da nossa sociedade, o período colonial, ou seja, os mais de três séculos responsáveis pela organização das bases da nossa sociedade, não despertam interesse nos acadêmicos da UFRR. A escravidão, por sua vez, que prolongou-se por mais de sessenta anos, após da proclamação da independência em 1822, é, igualmente, pouco abordada.

Nessa perspectiva, a pesquisa que desenvolvemos ao longo de quase um ano e meio, e mais especificamente um ano no âmbito do PIC, teve como foco, a discussão da formação do Brasil a partir de suas raízes no período colonial, contemplando agentes históricos que foram por muito tempo silenciados pela historiografia, principalmente: mulheres, negros e indígenas.

Desde a década de 1980, a partir de um grande impulso da História Cultural e Social, os novos agentes históricos vêm em alguma medida sendo contemplados, por reconhecermos que todos participamos e construímos a História, afastando-nos de um ideal historiográfico oitocentista em que se privilegiava os grandes episódios e, por conseguinte, os personagens de vulto desses episódios, em geral, homens brancos.

Nessa direção, observamos que no nosso panteão de heróis nacionais figuram poucos representantes daqueles que compõem a história vista de baixo (Thompson, 2001), sendo o maior deles Tiradentes. Apenas a partir de 2003 com a promulgação da Lei 10.639, podemos contar com o mito da resistência negra nesse rol de heróis, o Zumbi dos Palmares.

Sem embargo, Zumbi dos Palmares é um mito que causa muitas controvérsias, principalmente por representar um segmento da população que foi durante décadas sistematicamente excluído dos livros didáticos, ou quando são incluídos, não lhes é atribuída a condição de agente histórico. Independentemente das resistências à aceitação de Zumbi no que se refere às suas contradições com relação à escravidão, devemos compreender que todo mito é uma construção, que reúne os anseios de um determinado grupo por representação, e Zumbi representa a luta contra escravidão, e nos dias de hoje, a luta por igualdade e contra o preconceito. Sendo assim, todo mito e todo herói, enquanto ser humano, guarda inerentemente as contradições humanas, bem como nosso maior símbolo, Tiradentes.

Poucos mitos são tão questionados como Zumbi, por isso, faz-se necessário empreender estudos que contribuam para o conhecimento e compreensão de nossa sociedade e os diferentes grupos que a constitui. Não afirmamos que deva ser negado o questionamento a mitos ou sua não aceitação, mas construir um ambiente, no qual possamos elaborar perguntas que questionem a recusa a símbolos negros, indígenas e femininos. Em outras palavras: por que esses símbolos são menos aceitos? Qual construção histórica nos permite a aceitar um determinado tipo de mito e negar outro?

Nessa perspectiva, podemos estender para diferentes âmbitos da sociedade: por que privilegiamos um tipo de forma de estudar História com determinados recortes espaciais e temporais em detrimento de outros?

A intenção do grupo de pesquisa, portanto, foi analisar e discutir a trajetória de determinados segmentos da sociedade – mulheres, negros e indígenas –, tendo como recorte principal o período colonial, e como esse período foi analisado pelos diversos autores que se dedicaram a interpretar o Brasil. Além disso, buscamos a partir desse enfoque compreender como o Brasil Colônia vem sendo trabalhado nos livros didáticos, materiais paradidáticos e outros meios de comunicação, que são os meios que em grande medida formam a nossa consciência histórica e constituem as nossas representações sociais.

Em linhas gerais, nos dedicamos ao estudo da trajetória dos segmentos sociais supracitados a partir da historiografia relativa à história social e cultural, na intenção de compreender como os estereótipos acerca desses sujeitos são construídos e largamente reproduzidos. Assim, tencionamos realizar uma interlocução com a construção do saber histórico no ambiente escolar, tendo como objetos de estudo os materiais didáticos, diversos meios de comunicação, linguagens e a historiografia clássica referentes aos intérpretes do Brasil.

Empreendemos, portanto, o desafio mais do que premente da aproximação da pesquisa acadêmica com a Educação Básica, a partir do entendimento de que a produção do conhecimento histórico escolar sobre a colonização portuguesa na América é imprescindível para a compreensão da sociedade em que vivemos, principalmente para o combate ao preconceito com vistas à refutar estereótipos cristalizados, por parte da literatura clássica oitocentista e os inúmeros meios de comunicação.

Nesse sentido, nosso intuito foi viabilizar a elaboração de materiais que auxiliem educadores e educandos, principalmente, com a introdução de fontes na sala de aula, na tentativa de estimular a pesquisa em âmbito escolar, e contribuir para a compreensão e aprofundamento dos estudos relacionados ao período colonial. Sendo assim, o resultado que almejamos alcançar, além do intenso aprendizado e a produção de textos acadêmicos, bem como a participação em eventos, foi a elaboração de planos de aula, embasados na bibliografia atual pertinente e com a utilização de fontes primárias.

Até o presente momento, tivemos a satisfação de apresentar os resultados parciais da nossa pesquisa no I Encontro Estadual de História da Anpuh/RR, em outubro de 2018, que culminou na publicação de um capítulo de livro intitulado “O papel socioeconômico da mulher negra escrava no Brasil Colônia (1500-1822)”, no livro Desigualdade, violência e relações de poder na História, publicado em 2019 em formato eBook de acesso livre, pela Editora da UFRR, organizado pela Comissão Organizadora do evento, da qual tive o prazer de participar como membro.

No mês de novembro de 2018, participamos do IV Seminário Internacional: Sociedade e Fronteiras, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteira da UFRR, com o trabalho “Onde você guarda seu racismo? Uma proposta de plano de aula: cotas e racismo”.

Nosso grupo desenvolveu também no mês de novembro de 2018, atividades acerca da Consciência Negra em quatro escolas públicas no estado de Roraima, duas em Boa Vista, uma em Bonfim e outra em Amajari. O resultado da atividade foi publicado nesta revista, Contemporartes, em dezembro do mesmo ano sob o título “O mês da Consciência Negra e o direito à História”.

Para encerrar, ao concluir quase um ano de PIC recebemos as cartas de aceite de dois trabalhos para a apresentação de banner no 30º Simpósio Nacional de História da Anpuh: História e o Futuro da Educação no Brasil, a saber: “Histórias Cruzadas entre África e Brasil: a trajetória da princesa Aqualtune” e “Ajuricaba: Trajetória e Protagonismo na Amazônia Colonial”.

Finalmente, com os resultados parciais do projeto de pesquisa aqui apresentados, visamos reforçar a vitalidade e importância da universidade pública brasileira, como espaço de produção de conhecimento plural, democrático, diverso e universalista.

Portanto, agradeço aos membros do grupo que participam ativamente e, especialmente, aos que participaram desde o princípio, e ajudaram a criá-lo e a fazê-lo caminhar, meus orientandos: Mariangela Aguiar de Oliveira, Ana Carolina Oliveira de Sousa Lima e João Lucas Nery Costa, que ingressaram na UFRR no mesmo ano que eu, em 2017.

Que venham mais trabalhos e participantes!

Em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade!

 

Referências

ABREU, Martha; SOIHET, Rachel (Orgs.). Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

BRASIL, Lei 11.645 de 10 de março de 2008, História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena (Disponível http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm, acesso 26/04/2018).

CAIMI, Flávia Eloísa. Fontes históricas na sala de aula: uma possibilidade de produção de conhecimento histórico escolar? In:  Anos 90, Porto Alegre, v. 15, n. 28, dez. 2008, p.129-150.

CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (Orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

CERRI, Luiz Fernando. Ensino de História e Consciência Histórica. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011.

GOMES, Nilma Lino. DIVERSIDADE ÉTNICO-RACIAL, INCLUSÃO E EQUIDADE NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA: DESAFIOS, POLÍTICAS E PRÁTICAS. In: RBPAE – v.27, n.1, p. 109-121, jan./abr. 2011.

LIMA, A. C. O. S. ; COSTA, J. L. N. ; OLIVEIRA, M. A. ; OLIVEIRA, Monalisa Pavonne . O papel socioeconômico da mulher negra escrava no Brasil Colônia (1500-1822). In: REIS, Tiago Siqueira; OLIVEIRA, Monalisa Pavonne; SOUZA, Carla Monteiro de. (Org.). Desigualdade, violência e relações de poder na História. 1ed.Boa Vista: Editora da UFRR, 2019, v. 1, p. 295-323. (Disponível em http://ufrr.br/editora/index.php/ebook, acesso 28/05/2019)

NEGRO, Antonio Luigi; SILVA, Sérgio (Orgs.). THOMPSON, E.P.. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas/ SP: Editora da UNICAMP, 2001.

OLIVEIRA, Monalisa Pavonne. O mês da Consciência Negra e o direito à História. Contemporartes: Revista Semanal de Difusão Cultural, v. IX, p. 1-9, 2018.

WITTMANN, Luisa Tombini (Org.). Ensino (d)e História Indígena. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

Intérpretes do Brasil:

ABREU, J. Capistrano de. Capítulos de História Colonial. Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 1998.

FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2001.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.

PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

VON MARTIUS, Karl Friedrich. Como se deve escrever a História do Brasil. In: Revista de História de América, No. 42 (Dec., 1956), pp. 433-458. (disponível em https://docs.google.com/file/d/0B_KmZofvEaVoSi16UHZaeGFqZlU/edit?pli=1 , acesso 27/04/2018).

VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História Geral do Brasil antes de sua separação e Independência. Rio de Janeiro: E. & H. Laemmert, 1877. Volumes 1 e 2.

Sítios eletrônicos:

Grupo de Pesquisa História Colonial e Ensino de História, Diretório de Grupos CNPq (disponível em dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/1703485550887467, acesso 28/05/2019).

Claudio Rolle. La Historia y el amor a la vida. In: La Tercera, 27/05/2019. (Disponível em https://www.latercera.com/opinion/noticia/la-historia-amor-la-vida/671834/?fbclid=IwAR0qjmksBm6qqSN9oB6_DDzTvvjaCruLyhMTlNZ96V2fFRZYo9vxcoU6T_8, acesso 28/05/2019)

 

Monalisa Pavonne Oliveira - Professora do curso de licenciatura em História da Universidade Federal de Roraima. Doutora em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2016), doutorado sanduíche na Universidade de Lisboa (2014-2015); mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (2010); Bacharel e Licenciada em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2005).

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