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REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ACERCA DA MASCULINIDADE DE TORCEDORES ORGANIZADOS DE FUTEBOL: De que maneira se constituem os parâmetros de identidade?

Lucas Ferreira Lopes

Bacharel e Licenciado em História pelo Departamento de História do Instituto de Ciências da Socidade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense.

No presente estudo, compreende- se como a identidade em si e suas identificações no sistema social que influenciam diretamente na constituição da masculinidade de torcedores organizados de futebol, visto que a própria masculinidade e virilidade frente aos comportamentos agressivos e que geram violência em inúmeras vezes em conflitos entre torcidas são formas de identidades sociais e também de gênero.
O estudo em questão também mostra que é quase impossível ou inviável entender a definição ou o conceito de identidade ou identificações de grupos sociais (neste caso as torcidas organizadas) em uma sociedade específica antes de compreender e assimilar o significado de memória histórico- cultural, e como a mesma está diretamente associada na construção da identidade de forma geral e nas identificações dos indivíduos (de forma individual ou coletiva) desta sociedade. Em outras palavras, a memória reflete em traços culturais e acontecimentos históricos que acabam por iniciar uma formação de identidade, seja nacional ou social de uma sociedade ou grupos sociais.
Dito isto, primeiramente deve-se compreender os conceitos e definições das palavras “identidade” e “identificações”, antes de debatermos e analisarmos a fundo a masculinidade e virilidade de torcedores organizados de futebol. E para reafirmar as ideias e os debates realizados acerca deste artigo sobre identidade, identificações e masculinidade em relação ao sistema social em que se encontram os torcedores organizados de futebol, é de suma
importância citar às percepções e ideologias do teórico-cultural e sociólogo Stuart Hall, pois o mesmo serviu como base para destrinchar muitas vertentes e questões neste presente estudo, principalmente e, sobretudo a respeito dos conceitos de identidade e identificações. Por sua vez, estes dois conceitos são muito relevantes neste artigo justamente porque antes de analisarmos os comportamentos de torcedores de torcidas organizadas de futebol, devemos compreender estes dois conceitos, porque os mesmos levam às questões de masculinidade,
virilidade e violência entre estes grupos sociais. Desta forma, o estudo de Hall Quem precisa da identidade? Pertencente ao livro Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais foi escrito por três autores. Dentre
estes, uma autora, Kathryn Woodward, que escreveu o primeiro capítulo e mais dois autores, sendo o segundo capítulo escrito por Tomaz Tadeu da Silva (o organizador da obra) e o terceiro capítulo, finalmente, por Stuart Hall. Assim, Hall afirma que para se compreender o conceito de identificação, deve- se perceber que o mesmo está interligado ao senso comum da sociedade, e que possui atributos em comum com grupos sociais e interação entre pessoas por um conjunto de ideologias, podendo ser em comum ou distinto, e através disto que nota- se
identificações como solidariedade, proteção e companheirismo entre integrantes de uma mesma torcida organizada, ou a rivalidade e o sentimento de agressividade e violência com outra torcida rival. Neste contexto, segue a citação:
“Na linguagem do senso comum, a identificação é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo
ideal. É em cima dessa fundação que ocorre o natural fechamento que forma a base da solidariedade e da fidelidade do grupo em questão.” (HALL, 2000, p.105). Posto isto, o conceito de identidade é sem sombra de dúvidas mais complexo e subjetivo, pois envolve muitas concepções e convicções em torno da própria cultura, etnia e até mesmo percepções políticas, econômicas e sociais de uma sociedade, dado que influenciasse e muito a construção e modelação da identidade social de um indivíduo. A identidade, segundo Stuart Hall, não pode ser considerada unificada, ímpar ou individual, pois a mesma ocorre de maneira coletiva, fragmentada e subdividida, e é através disto que constantemente ao longo do tempo a identidade individual de um indivíduo ou coletiva de uma sociedade se transforma e se modifica. Para tornar compreensível esta concepção, lê-se a citação adiante:
“O conceito de identidade aqui desenvolvido não é, portanto, um conceito essencialista, mas um conceito estratégico e posicional, isto é, de forma diretamente contrária àquilo que parece ser sua carreira semântica oficial,
esta concepção de identidade não assinala aquele núcleo estável do eu que passa, do início ao fim, sem qualquer mudança, por todas as vicissitudes da história. Esta concepção não tem como referência aquele segmento do eu
que permanece, sempre e já, “o mesmo”, idêntico a si mesmo ao longo do tempo. Ela tampouco se refere, se pensamos agora na questão da identidade cultural, àquele “eu coletivo ou verdadeiro que se esconde dentro de muitos outros “eus” – mais superficiais ou mais artificialmente impostos – que um povo, com uma história e uma ancestralidade partilhadas, mantém em comum”. Ou seja, um eu coletivo capaz de estabilizar, fixar ou garantir o
pertencimento cultural ou uma “unidade” imutável que se sobrepõe a todas as outras diferenças – supostamente superficiais. Essa concepção aceita que as identidades não são nunca unificadas; que elas são, na modernidade
tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas não são, nunca, singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicos. As identidades estão
sujeitas a uma historicização radical, estando constantemente em processo de mudança e transformação.” (HALL, 2000, p.107). Interligando a construção da identidade e identificações com a memória histórico-cultural, tem-se o sociólogo Michael Pollak em sua obra “Memória e Identidade Social”, onde nota-se que o mesmo realiza uma “ponte” entre identidade (seja social ou de outra vertente) e memória. Esta “memória” é retratada no sentido de que o indivíduo perante a sociedade é “moldado” e diretamente influenciado na construção do teu caráter e de sua
personalidade pela cultura histórica (neste caso podendo ser a memória), visto que cada sociedade é diferente de outra, com a cultura e costumes distintos. Esta construção individual ou coletiva do/s indivíduo/s é o que se entende como “construção social”. Entre outras palavras, a memória histórica e/ou social contribui para a construção individual ou coletiva da identidade de um indivíduo, identidade esta que representa este mesmo indivíduo em todas as vertentes sociais e como o mesmo se enxerga ou se considera perante a sociedade, como o
autor nos apresenta:
“Pode-se dizer que, em todos os níveis, a memória é um fenômeno construído social e individualmente, quando se trata da memória herdada, podemos também dizer que há uma ligação fenomenológica muito estreita entre a memória e o sentimento de identidade. Aqui o sentimento de identidade está sendo tomado no seu sentido mais superficial, mas que nos basta no momento, que é o sentido da imagem de si e para si. E, a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, para acreditar na sua própria representação, mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros.” (POLLAK, 1992, p. 204). Desta forma, antes de dar início à temática, não há como deixar de citar nesta parte introdutória do artigo dois sociólogos que costumam servir de base para estudos sociológicos e antropológicos referentes às torcidas organizadas e seus torcedores neste meio do futebol, que são Norbert Elias e Eric Dunning. Eles se contrapõem à ideia de que existe uma atitude natural do ser humano, pois na perspectiva e na concepção de análise de ambos, a condição humana é construída pelo próprio indivíduo, em um longo e demorado processo civilizatório desde a infância até a  maioridade. Sendo assim, na obra “A Busca da Excitação”, estes dois sociólogos afirmam que alguns meios de estudos não são suficientemente plausíveis para estudar estes processos sociais em torno destes indivíduos de diferentes grupos sociais (torcidas organizadas), e também que estes meios de estudos às vezes se precipitam e acabam afirmando ou avaliando os motivos e as causas da  violência entre torcidas organizadas de maneira errônea, uma vez que para chegar às conclusões mais próximas das causas e dos motivos para tal comportamento violento entre os torcedores  organizados, deve- se, sobretudo obter análises teóricas e práticas mais profundas, como a citação mostra:
“Em resumo, aquilo que sugerimos e que, enquanto estas explicações oficiais, aceitas vulgarmente, em termos de consumo de álcool e de violência no campo de jogo, se referem a fatores que não podem ser excluídos como
elementos de determinação do comportamento do hooliganismo do futebol, elas fracassam, todavia, no aprofundamento do problema da hierarquia das causas, isto é, quanto às razões do fenômeno. Em particular, nada
esclarecem sobre a forma como se produzem, entre os fãs hooligans, o prazer de lutar e a ênfase na capacidade de «olhar por si próprio», sobre as normas e os padrões que orientam o seu comportamento, ou sobre as razões
por que o futebol passou a constituir um dos pontos de encontro mais insistentes para exprimi-los.” (ELIAS & DUNNING, 1992, p. 364).

Em paralelo e interligado a esta abordagem, também é importante ressaltar alguns pontos relacionados à consciência coletiva, grupos sociais e percepção de violência para compreendermos as ações, concepções e decisões tomadas pelos próprios torcedores organizados, ou seja, como os mesmos agem ou se comportam diante de inúmeras situações na sociedade, tanto nos conflitos quanto até mesmo em decisões internas e políticas. Sendo assim, para entendermos melhor alguns aspectos relacionados às ações coletivas de grupos
sociais (ou propriamente de forma individual), bem como o comportamento social em si e as diferenças de sociedade para sociedade por conta de suas representações distintas (não citaremos o termo “cultura”, pois é muito amplo e abrangente, e de acordo com este assunto ficaria muito complexo), não havendo uma “natureza universal” ou padrão, e, portanto, temos a seguinte citação do sociólogo Émile Durkheim em sua obra “Representações Individuais e Representações Coletivas”:
“As Representações Coletivas traduzem a maneira como o grupo se pensa nas suas relações com os objetos que o afetam. Para compreender como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, precisamos
considerar a natureza da sociedade e não dos indivíduos. Os símbolos com que ela se pensa mudam de acordo com sua natureza.” (DURKHEIM, 1978, p. 79). Deste modo, não há como escrever ou realizar qualquer tipo de debate ou pesquisa acerca de masculinidade ou da própria identidade social de torcedores organizados de futebol sem citarmos o professor e sociólogo Carlos Alberto Máximo Pimenta, pois o mesmo possui inúmeras pesquisas e estudos sobre violência entre torcidas organizadas de futebol. E já citando o autor, a obra Torcidas organizadas de futebol. Identidade e identificações, dimensões cotidianas apresenta uma linha de pesquisa em torno da violência entre torcedores organizados de futebol, e como se dá a construção da identidade do indivíduo pertencente a
este grupo social. Pimenta aborda em seu estudo que a violência decorrente de torcidas organizadas dentro e fora do estádio de futebol, não ocorre devido ao que muitos pensam ou pelo o que a própria mídia e imprensa futebolística afirmam, que seriam justamente causas ligadas à educação e às questões econômicas, como associação de torcedores organizados com classes baixas e à pobreza. Pois, a violência em si está de fato associada com o
“esvaziamento” do sujeito social, ou seja, com a “perda” da identidade social ou com “criação” de uma nova identidade social (neste caso podendo ser também a masculinidade) que o indivíduo pertencente à torcida organizada adquiri no momento em que está com este grupo social, devido à proporções e inúmeros fatores sociais, como a citação abaixo demonstra:
“Caso seja correto entender que o aumento dos atos de violência praticados entre torcedores tem decorrência no surgimento dos “novos sujeitos”, estes predominantemente jovens (individualizados, do ponto de vista da formação
de uma consciência social e coletiva), afasta o reducionismo das explicações e justificativas econômicas, com relação à temática. A violência não é coisa exclusiva da pobreza. […]. […] A ideia, a partir da sistematização de dados empíricos, é entender a violência pela via do esvaziamento do sujeito social que, diminuído de sua capacidade de filtragem, constrói a identidade e as identificações, tendo a violência como elemento estruturante.” (PIMENTA, 2003, p. 42). Carlos Alberto Máximo Pimenta ressalta que é importante nos atentarmos às reais e
verdadeiras posições sociais dos integrantes de torcidas organizadas de futebol, pois, a polícia, a mídia e alguns órgãos públicos generalizam de forma errônea todo indivíduo de torcida organizada como “delinquentes”, criminosos, viciados em drogas ou até mesmo vândalos. Sendo que em uma torcida organizada há uma pluralidade social imensa de indivíduos que possuem identidades sociais distintas, como estudantes, trabalhadores em inúmeras profissões, entre outros. E que estão ali no momento do jogo e dentro do estádio de futebol
para torcerem juntos pelo seu time (a instituição) como qualquer outro torcedor, portanto há de se tomar muito cuidado com generalizações acerca destes grupos sociais de torcedores organizados. Deste modo, segue a citação abaixo: “É indispensável refutar, também, o argumento, policialesco e midiático, de que todo participante de “organizada” é vândalo, criminoso ou delinquente. A composição de uma “torcida” varia e há de tudo um pouco. De gente de “boa família” até “delinquentes”, segundo os entrevistados. […]. […] Paulo Serdan ao descrever o perfil dos filiados da “organizada” que faz parte reconhece que na composição de uma “torcida” participam pessoas
criminosas, viciados, estudantes, trabalhadores das mais diversas profissões, pais de família, mulheres, jovens, pois existe uma pluralidade de “agentes” que assumem diversos papéis nos “jogos” de relações sociais,
mas na arquibancada é um torcedor, um apaixonado.” (PIMENTA, 2003, p. 43). A psicóloga Túlia Cristina Ferraz de Assis em seu trabalho A Representação Social da Violência em Torcidas Organizadas de Futebol, elucida que antes de pensar ou analisar os comportamentos de torcedores organizadores de futebol, deve- se refletir que o próprio futebol como esporte (ao todo) é de certa forma praticado a violência (seja entre torcedores organizados ou não, como também entre os próprios jogadores através do contato físico dentro do campo de futebol). E isto se dá muito pela vertente da masculinidade e virilidade neste esporte iniciado na segunda metade do século XIX com os ingleses, que futuramente estes torcedores de torcidas organizadas iriam ser denominados como hooligans, apesar de que estas associações e elos sociais se modificaram ao longo do tempo chegando até os dias atuais, como é o foco deste estudo sobre torcedores organizados no Brasil. Seguindo este viés, a autora apresenta:

“No mundo  futebolístico sempre esteve presente certa dose de violência, tanto no terreno de jogo como entre os torcedores. O futebol foi criado sob valores de masculinidade, valores exacerbados de virilidade, força e sobrepujança. Porém, isso teve início na segunda metade do século XIX no continente europeu, precisamente na Inglaterra, e muitos anos passaram-se, as relações sociais alteraram-se, assim como os códigos de sensibilidade e
de conduta dos indivíduos.” (ASSIS, 2008, p.19). Apresentados os pensamentos e ideologias dos pensadores/ autores em suas respectivas obras anteriormente nesta introdução, fica explícito que o objetivo deste trabalho
seria ostentar e expor a construção de identidades e identificações em analogia como uma espécie de “ponte” com a memória histórico-cultural, justamente para se compreender e analisar os comportamentos intensos, agressivos e violentos de torcedores organizados de futebol devido à masculinidade e virilidade destes grupos sociais, como é apresentado no item 1.

1- IDENTIDADE, VIOLÊNCIA E MASCULINIDADE A RESPEITO DE
TORCIDAS ORGANIZADAS DE FUTEBOL
Neste tópico, a finalidade é assimilar e entender como a masculinidade e virilidade muito presentes em torcedores organizados de torcidas organizadas de futebol se apresenta como uma forma ou maneira de identidade e identificações. É válido ressair também, que a memória (abordada e explicitada logo a seguir) histórico- cultural influencia diretamente (ou indiretamente) nesta construção da identidade social individual ou coletiva na sociedade, e que a violência presentes em meio ao futebol por conta dos conflitos e embates destes grupos
sociais (torcidas organizadas) é claramente refletida pela identidade frente à masculinidade. Com isto, dando continuidade à concepção de Michael Pollak a respeito da memória histórica, cultural e social de uma sociedade e como esta memória contribui para a construção da identidade e o surgimento das identificações de um indivíduo (neste caso o torcedor organizado) em determinado grupo social, o historiador francês Pierre Nora em seu trabalho
Entre a História e a Memória: A problemática dos lugares apresenta uma noção de que a memória histórica e social de uma sociedade ou nação acaba por muitas vezes se perdendo e “desaparecendo” ao longo do tempo. Desta maneira, a memória frente às concepções da sociedade pode representar outros tipos de passado, entre outras palavras, representar alguns acontecimentos históricos, por exemplo, que sejam específicos e muitas das vezes moldados pelo Estado ou governo com certa finalidade, e isto influencia diretamente na constituição da identidade social dos indivíduos de uma sociedade, como aparece na citação:

“A memória, com efeito, só conheceu duas formas de legitimidade: histórica ou literária. Elas foram, aliás, exercidas paralelamente, mas, até hoje, separadamente. A fronteira hoje desaparece e sobre a morte  quase simultânea da história- memória e da história- ficção, nasce um tipo de história que deve seu prestígio e sua legitimidade à sua nova relação com o passado, outro passado. A história é nosso imaginário de substituição.” (NORA, 1993, p.28).
Jacques Le Goff, em sua obra “História e Memória”, cita Marc Bloch ao conjurar a memória histórico-cultural com a própria percepção de uma sociedade ou nação com os acontecimentos do passado e do presente, debatendo teoricamente e metodologicamente que é inviável tentar compreender o passado sem possuir uma concepção do próprio presente histórico de sua própria sociedade. Em outras palavras, o passado deve ser assimilado pelo presente, e o presente pelo passado, justamente para o indivíduo entender os acontecimentos históricos e aplica-los no seu cotidiano e se perceber como sujeito social da sua sociedade e deter-se de uma própria identidade. Sucedendo esta linha de raciocínio, tem- se a citação:
“[…] A maior parte das sociedades considera o passado como modelo do presente. Nesta devoção pelo passado há, no entanto, fendas através das quais se insinuam a inovação e a mudança. […] Marc Bloch propôs também
ao historiador, como método, um duplo movimento: compreender o presente pelo passado, compreender o passado pelo presente: “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas é talvez
igualmente inútil esgotar-se a compreender o passado, se nada se souber do presente” [1949, p. 47].” (LE GOFF, 1990, p. 224).

O autor também aponta que em torcidas organizadas de futebol é bem comum e bem presente a juventude, pois o número de indivíduos jovens nestes grupos sociais é imenso, muito por conta dos moldes sociais e culturais destas manifestações, e principalmente pela violência que os atrai. Neste contexto, os jovens “perdem” sua identidade social de acordo com seu cotidiano, adquirindo uma “nova” identidade naquele momento em específico justamente por causa de alguns simbolismos, e da sensação de adrenalina e “diversão” para alguns, isto também se dá pelas identificações que estão representadas como masculinidade no sentido de um indivíduo ser mais viril do que outro, e até mesmo de companheirismo e amizade com um companheiro no momento da “pista” (dos conflitos com torcidas rivais). Assim sendo, observa- se que:
“Ao que tudo indica, o movimento “Torcida Organizada” se sustenta em identificações que expressam  masculinidade, solidariedade, companheirismo e pertencimento. Identificações estas, além das estético, lúdico-simbólicas, que atraem jovens a tomarem parte do movimento e, em igual proporção, são acolhidas […].” “Em outras palavras, a dimensão cotidiana e cultural da violência produzida entre “Torcidas Organizadas””

Não podendo, pois,  ser dissociada da realidade social e da apropriação que a juventude faz do simbólico “pois os jovens aparecem, na maioria dos casos, protagonizando práticas diversas manifestadas no movimento.” (PIMENTA, 2003, p. 46).  Deste modo, para  Pimenta, a mídia, imprensa futebolística e alguns órgãos públicos afirmam e expõem de forma Deste modo, para ressair ainda mais a ideia de Pimenta que a mídia, a imprensa futebolística e alguns órgãos públicos afirmam e expõem de forma errônea para a sociedade que os indivíduos de torcidas organizadas são agressivos, criminosos e violentos. E isto devido à sua classe social (classes “subalternas”) e estarem ligados à pobreza, os mesmos são assim. O autor critica esta linha de pensamento abordando que não são todos os torcedores organizados que são agressivos ou utilizam de violência, pois o sistema social é muito intricado e complexo, é o que ele chama de “demarcações cognitivas”, entre outras palavras, dentro de um grupo social específico (no caso a torcida organizada) há inúmeros fatores e  tendências que geram comportamentos e atitudes subjetivas e diferentes, logo formando um sistema de identidades e identificações sociais nestes diferentes grupos como a citação abaixo apresenta:
“Para todos os efeitos, no discurso da mídia e da ordem vigente, a violência ganha corpo e rosto. Primeiro, porque quem produz a violência, no visor imaginário do senso comum, é pessoa de baixo poder aquisitivo, pobre,
negro ou mestiço e, além desses requisitos inventados, ocupa as piores localizações no espaço urbano. Segundo, porque a ordem social dominante não pode reconhecer que a violência constitui outras formas de relações
sociais, reproduzindo representações, códigos e estilos de vida próprios, às vezes até de proteção às hostilidades de nosso tempo. Por fim, porque o discurso dominante não reconhece que o indivíduo inscrito na cultura,
independentemente de classe social, faz parte de um sistema social de padronização subjetiva, as chamadas “demarcações cognitivas” que se compõem, também, de informações míticas, ritualistas e sintomatológicas,
reagindo aos estímulos de seus afetos, angústias, frustrações, entre outros elementos subjetivos que também contribuem para formar a identidade e as identificações do grupo.” (PIMENTA, 2003, p. 47).
Portanto, mesmo as torcidas organizadas como um todo não serem necessariamente sinônimo de violência ou atos do mesmo, sempre existirão torcedores organizados violentos, pois esta violência se prova “normal” e comum diante de toda e qualquer cultura em variadas sociedades desde seus primórdios até os dias atuais. Neste contexto, a forma como se apresenta é bastante variada, e entre Brasil e Argentina há algumas distinções, porém, o fato
de existirem algumas torcidas organizadas bastante violentas é uma semelhança, visto que a violência em si sempre existiu de alguma forma em todo e qualquer agrupamento humano. Completando esta ideia de semelhança entre as duas sociedades (ou melhor, entre todas as sociedades), o psicanalista Freud em sua obra “O mal estar da civilização”, afirma: “O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos devem se levar em conta uma poderosa quota de agressividade” (FREUD, 1974, p.133).
Não pretendendo generalizar para todos os homens ou indivíduos,  há uma notória diferença, segundo Freud, entre o instinto do homem e da mulher, na qual, o homem, por sua natureza, poderia ser bem mais agressivo, utilizando de forma mais explícita a violência. Embora esta afirmação possa ser confrontada com as questões culturais que impingem ao homem as características de força  violência como características de virilidade.

Então, da mesma maneira que o termo “violência” está presente na história da humanidade, o mesmo se apresenta em variadas classes e vertentes sociais. Esta violência praticada por torcedores de futebol se apresenta como um fenômeno relativamente amplo em variadas sociedades, sobretudo no Brasil e na Argentina, onde o próprio futebol como esporte  consegue deixar os torcedores muito próximos da instituição que possuem carinho e de que
gostam, em que por sua vez a representação social mostra-se adequada às condições normativas destas sociedades, por fim em alguns casos gerando a própria violência pela “rivalidade da paixão”.
O pesquisador Marcos Alves de Souza em sua obra A “nação em chuteiras: raça e masculinidade no futebol brasileiro” cita o cientista político e historiador Benedict Anderson ao afirmar que as torcidas organizadas de futebol além de ser consideradas grupos sociais subjetivos e complexos, também são consideradas comunidades, e que muitos indivíduos pertencentes a estas comunidades possuem uma mesma noção de identidade social com outros indivíduos de uma mesma comunidade (torcida organizada). Em outras palavras, um indivíduo pode se sentir mais à vontade ou possuir um vínculo social e afetivo com membros de uma comunidade específica do que em outra diferente, isto ocorre por conta da paixão pelo mesmo clube de futebol (instituição), por ser bem recebido e tratado, ou por residir perto das “fronteiras” do estádio do clube em questão, por isto este indivíduo escolhe ser integrante de uma ou de outra, e, portanto, um indivíduo ou um grupo social é submisso ou soberano a outra, justamente pelos níveis de identificações acerca da masculinidade, violência ou algumas condições sociais neste sistema social. Certifica- se esta ideia na presente citação:
“No futebol brasileiro, as torcidas das equipes possuem características de (micro-) nações, sendo frequentemente assim denominadas nas representações populares. Neste sentido, seguindo as indicações de Benedict Anderson, as torcidas das equipes de futebol são limitadas, pois também existem outras, além das “fronteiras clubistas”, de bairros, de cidades, de municípios, de Estados, de regiões ou de Nações. Isto significa que as torcidas de futebol, onde quer que apareçam, serão sempre relacionais com a identidade do torcedor derivando da definição em relação a outro. As torcidas são também imaginadas. Um torcedor de futebol não se encontra, ouve ou interage com todos os outros membros da torcida da qual faz parte, nem com os integrantes da equipe de sua preferência, mas imagina-os como pertencendo a uma mesma coletividade, uma mesma comunhão. Por fim, as torcidas são comunidades, pois são concebidas como uma profunda e horizontal camaradagem, apesar das diferenças existentes dentro delas. As torcidas são compostas por indivíduos de diferentes níveis culturais e socioeconômicos, de diferentes regiões, com graus de envolvimento emocional e material diferentes, e assim por diante. No entanto, elas não deixam de ser concebidas como uma unidade ou uma totalidade única em si próprias. Apesar de as torcidas de futebol serem “micronações” desterritorializadas, até um conceito implícito de soberania faz-se presente entre as torcidas, só que de uma forma virtual. Se definirmos soberania como a propriedade de fazer valer um conjunto de “leis” específico dentro de um determinado território, também encontraremos soberania no âmbito das torcidas de futebol. Isso em função da própria virtualidade que são os territórios de cada torcida. De certo, cada torcida possui um código de  regras que vigora em tempos específicos e/ou em determinados espaços considerados exclusivos de cada uma.” (SOUZA, 1996, p. 32). Marcos Alves de Souza em sua obra, também ratifica que os indivíduos da sociedade brasileira possuem em sua essência preceitos e concepções raciais para próprios se identificarem tanto na seleção brasileira de futebol de acordo com outros países quanto nos clubes de futebol e suas próprias torcidas organizadas, justamente porque já é algo cultural da nação brasileira associar o esporte futebol com “ser patriota” ou nacionalista, da mesma forma que há associação com a raça negra e não a branca por conta da memória histórica e social do futebol em que os negros seriam mais habilidosos e teriam mais talento do que os brancos pelos títulos conquistados. Com isto, segue a citação:
“Percebe-se, portanto, que todos estes aspectos que caracterizam a prática do futebol brasileiro são objeto de aprendizagem, culturalmente construídos, e não devem ser imputados às características ‘inatas’ e
‘racialmente’ herdadas de nossos jogadores. É a sociedade brasileira que formula e transmite qual deve ser a prática ideal de futebol para os nossos padrões, definindo quais são os valores dominantes que regem o nosso futebol, bem como a imagem da nação por ele representada. O futebol, ou pelo menos torcer por uma equipe de futebol é uma “aula de nacionalismo” que no caso do Brasil, além de substancializar-se na torcida pela seleção nacional, evoca características raciais para a sua auto identificação etnocêntrica e especializada em sua própria essência.” (SOUZA, 1996, p. 44).

Segundo Norbert Elias e Dunning em sua obra conjunta sobre torcidas organizadas de futebol, o confronto entre torcidas, bem como em alguns outros esportes, acabam exigindo esforços corporais, e isto contribui para deleitar uma necessidade básica humana, que surge acerca do sistema social e do meio em que estes indivíduos nestes grupos sociais estão inseridos. Deste modo, estes conflitos entre torcedores atendem por sua vez uma necessidade
de excitação e prazer, semelhante ao sexo. Assim, o esporte produziria uma agradável excitação de luta e combate físico, o que parece ser direcionado aos homens, portanto a identificação com a masculinidade. E nesta relação social entre homens, normalmente há a busca da vitória física, ou simbólica de um homem sobre o outro (identificação lúdica masculina), o que não acontece na relação entre mulheres, por isto a feminilidade acaba
ficando em segundo plano no meio do futebol, ainda mais quando o assunto é violência entre
torcidas organizadas.
Marcos Alves de Souza cita Elias e Dunning para reafirmar sua teoria de que o próprio jogo de futebol (esporte em si) é a representação em moldes sociais de um confronto que se baseia no fundamental e na expressão da masculinidade de acordo com algumas identificações, ainda que de uma forma que é “aceito” e “controlado” socialmente  pelos órgãos públicos, pela mídia e imprensa e pelo próprio sistema em si. No futebol, de fato, o que sucede é a violência exacerbada por conta do próprio esporte em si, e isto acaba refletindo nas próprias representações sociais dos torcedores organizados pertencentes às torcidas de clubes de futebol, e isto termina se entrelaçando com a violência presenciada nos estados e cidades (centro urbanos), e com isto, é “prato cheio” divulgando inúmeras noticias aumentando a audiência da mídia e da imprensa futebolística. Enxergamos esta ideia, conforme a citação:
“A própria violência nos estádios de futebol pode ser melhor entendida em relação com a construção da masculinidade, nas grandes cidades brasileiras. Em primeiro lugar, deve-se salientar que as confusões entre
torcedores de futebol, dentro dos estádios ou fora deles, não é exclusividade de nenhuma época ou locais específicos. A tensão mimética e o descontrole controlado de emoções que o esporte propicia, nos termos de Elias, nem sempre são controlados. A partir do momento que o futebol se presta a ser fonte de identificação, ele também corre o risco de ter, entre os torcedores, a reprodução do conflito simulado dos jogadores entre os torcedores, sob forma de violência física. Por isso o futebol é separado do tempo e espaço cotidianos, o que, mesmo assim, não impede o afloramento da violência para fora destes limites, dada a fragilidade do pacto consensual em que se
baseia qualquer espetáculo de massas. […]No campo da honra impera o direito da força. Além disso, a grande maioria dos torcedores que vão aos estádios é formada por jovens do sexo masculino, com idade entre 14 e 25
anos, ou seja, indivíduos que estão constantemente expostos às mais variadas manifestações de violência, a qual se tornou um dos assuntos da mídia que mais provocam fascínio, e que a encaram como uma forma de autoafirmação da própria masculinidade. Como as grandes cidades brasileiras vivem um processo de banalização da violência, e como a experiência do êxito no futebol exige a exaltação de algumas formas de masculinidade, inclusive por meio da violência física, a reprodução violenta de um confronto simulado torna-se, ela mesma, um espetáculo para a mídia, realimentando o fascínio que a mesma provoca entre os jovens do sexo masculino, e tornando-a, eventualmente, incontrolável.” (SOUZA, 1996, p.51).

Desta forma, Assis apresenta a teoria  de que, independente da sociedade ou do país no mundo, os grupos sociais (torcidas organizadas) concebem e utilizam da violência, sejam os hooligans na Inglaterra, os Ultras na Itália, as Barras Bravas na Argentina ou até mesmo as torcidas organizadas no Brasil, isto devido à masculinidade e virilidade frente à própria torcida e ao sistema social em que atual como forma de imposição de poder e autoafirmação, utilizando também a agressividade. Com isto:
“Nas últimas décadas, estádios do mundo inteiro têm registrado incidentes causados por torcedores agressivos. Na Europa, esses grupos são chamados de hooligans; no Brasil, de “torcidas organizadas”; e no restante da América Latina, de barras-brava. Em todos esses lugares, independente do nome que os rodeiam, esses grupos se equiparam na violência e agressividade com que atuam, centrados num mesmo ideal de  masculinidade.  político, que acarretou o início do “esvaziamento” do sujeito social, dito anteriormente neste artigo. Legitima- se esta concepção considerando que:
“(…) no período de 1960, o Brasil caminhava em passos largos na busca do desenvolvimento econômico e a cidade de São Paulo avançava no processo de aceleração urbana, porém, notoriamente desarticulada e ‘descompromissada’ com as  ‘bases sociais’. No encaminhamento das políticas públicas pelo Estado Militar brasileiro, viu-se o esvaziamento do sujeito social, no sentido coletivo do termo, e a desarticulação das relações na esfera do público, reforçando as individualizações e as atomizações dos movimentos sociais, incluindo os movimentos de jovens e transformando-os em acontecimentos ora de busca de pertencimento ora de autoafirmação, onde a violência norteia a constituição da identidade e das identificações e dimensões cotidianas, em que toma parte.” (ASSIS, 2008, p.23).  Contudo, nota-se que existem variados fatores relacionados à inclusão e a este número em excesso de indivíduos se tornando membros de torcidas organizadas. Entre estes fatores estão: noção de „pertencimento‟ daquele local, ou daquele grupo em específico, onde alguns indivíduos entram em torcidas organizadas em consequência dos laços afetivos com o clube de futebol (a instituição); amizade ou vínculo a outra pessoa; sentimento de “segurança” ou proteção de qualquer perigo ao redor da sociedade; questões relacionadas à tráfico de drogas ou criminalidade (em alguns casos somente); “instinto selvagem” como o animal irracional, onde há relação espacial (geográfica) de querer defender seu território e sua área de outro grupo inimigo ou rival, e é claro, se aventurar, confrontar e dominar outro território inimigo, de outra torcida organizada rival, no caso; questões sociais de “alívio” ou do próprio estresse gerado pela sociedade, onde o indivíduo consegue se distanciar do estresse da vida social em geral, e quando está presente naquele grupo em específico, se sente bem e apto a cometer atos de violência, por achar também que possui mais “liberdade” naquele momento, uma vez que é motivado de forma coletiva. Todos estes fatores analisados para a inclusão em excesso de indivíduos em torcidas organizadas, estão interligados às diferentes “identidades” e identificações que uma mesma sociedade ou um mesmo grupo social possui, uma vez que uma única sociedade pode possuir uma única cultura com variadas identidades e representações diferentes, e nota- se isto quando a autora Kathryn Woodward embasada nos estudos de Stuart Hall no primeiro capítulo da obra Identidade e Diferença- A perspectiva dos Estudos Culturais, afirma que há diferentes identidades em uma mesma sociedade, sendo estas relacionadas às vertentes nacionais ou até mesmo de gênero, como está presente na seguinte citação: “Observe a frequência com que a identidade nacional é marcada pelo gênero. No nosso exemplo, as identidades nacionais produzidas são masculinas e estão ligadas a concepções militaristas de masculinidade. As mulheres não fazem parte desse cenário, embora existam, obviamente, outras posições nacionais e étnicas que acomodam as mulheres. Os homens tendem a construir posições-de-sujeito para as mulheres tomando a si próprios como ponto de referência. A única menção a mulheres, neste caso, é às “garotas” que eles “namoravam”, ou melhor, que foram “namoradas” no passado, antes do surgimento do conflito. As mulheres são os significantes de uma identidade masculina partilhada, mas agora fragmentada e reconstruída, formando identidades nacionais distintas, opostas. Neste momento histórico específico, as diferenças entre os homens são maiores que quaisquer similaridades, uma vez que o foco está colocado nas identidades nacionais em conflito. A identidade é marcada pela diferença, mas parece que algumas diferenças – neste caso entre grupos étnicos – são vistas como mais importantes que outras, especialmente em lugares particulares e em momentos particulares.” (WOODWARD, 2000, p. 10). O pesquisador e sociólogo argentino José Garriga Zucal acaba concordando em alguns pontos com Elias e Dunning, principalmente no que diz respeito à questão do gênero masculino frente à violência e a luta corporal dos torcedores organizados. Portanto, nota- se esta análise em ” Soy Macho porque me la aguanto: etnografía de las prácticas violentas y la conformación de identidades de género masculinas”,  de José Garriga Zucal, onde o mesmo dá detalhes dos embates e confrontos entre torcidas organizadas rivais, e mostra que há características específicas nestes combates que utilizam o corpo como principal arma:
“Los enfrentamientos o Combates son una de las prácticas violentas en que actúan los integrantes de la hinchada. Esta es una acción de lucha corporal, peculiaridad que la diferencia de otras formas de violencia. En el combate
el cuerpo es la herramienta de lucha. Los enfrentamientos pueden tener lugar en calles, estaciones de trenes o autopistas y a pesar de las diferencias entre estos espacios posee características comunes que se repiten.
Diferenciamos dos instantes en el enfrentamiento: una primera etapa, inmediatamente posterior al encuentro entre grupos adversarios en el que éstos se estudian e intimidan mutuamente; un segundo momento, cuando se
produce el choque entre las parcialidades.” (ZUCAL, 2004, p. 4) Deste modo, ficam nítidos que alguns conflitos possuem características próprias, alguns deles também envolvem o uso de armas de fogo. Apesar disto, a maioria destes conflitos está conforme as análises teóricas e pesquisas de campo de José Garriga Zucal, diretamente associados a um determinado padrão de gênero masculino (masculinidade). Entre outras palavras, com o princípio do aguante, que por sua vez significa que para ser “mais homem do que outro” ou ser “mais forte” do que seu próprio rival de torcida organizada seria  preciso aguentar a dor física em confrontos e embates entre as torcidas organizadas, além de saber técnicas envolvendo luta corporal como diz a citação abaixo:
“Los miembros de la hinchada conciben al aguante como el principal bien simbólico que se disputa en el contexto del fútbol. Éste engloba los saberes de la lucha callejera y la resistencia al dolor de las heridas ocasionadas en
el enfrentamiento. El conocimiento de técnicas de lucha y resistencia al dolor sólo puede ser probado en la lucha corporal; componiendo un bien simbólico, que permite distinguir dos tipos de hombre. El Tano, uno de los
miembros de la hinchada rememorando una pelea contra una hinchada adversaria decía: “les demostramos quienes somos los machos, los metimos a las piñas a la cancha”. Esta frase muestra la relación entre conocimientos
de lucha y las identidades de género, el aguante es la concepción nativa que media entre estas.” (ZUCAL, 2004, p. 6). O pedagogo e sociólogo vezes nem são membros ou integrantes de torcidas organizadas rivais, é muito comum e
presente em todo o mundo, principalmente no Brasil.

2- CONCLUSÃO
Na conclusão deste trabalho, irão ser relembrados e reafirmados os objetivos e pontos principais das análises, pesquisas e observações feitas em relação à identidade (seja de gênero ou social) e identificações de torcedores organizados de futebol em seus grupos sociais (torcidas organizadas) e como através disto se constroem e se constituem as masculinidades que contribuem para gerarem a violência presentes em confrontos e embates de torcidas organizadas rivais. Sendo assim, para elucidar alguns pontos nesta conclusão citados anteriormente,
Michael Pollak em seu estudo, afirma e ressalta que a construção social (individual ou coletiva) de uma sociedade específica pode ser um processo bem árduo e complexo, e que irá exigir uma série de requisitos dos próprios indivíduos para tal mudança. Com isto, esta mesma construção social está claramente interligada à vertente da identidade, e para entendermos melhor a expressão masculinidade apresentada neste estudo, devemos antes,
entender como a identidade individual ou coletiva acerca de uma sociedade, nação, ou grupos sociais como a família, por exemplo, é construída e constituída, como na citação abaixo expõe: “Espero que esta rápida descrição da problemática da constituição e da construção social da memória em diversos níveis mostre que há um preço a
ser pago, em termos de investimento e de risco, na hora da mudança e da reagrupação da memória, e evidencie também a ligação desta com aquilo que a sociologia chama de identidades coletivas. Por identidades coletivas,
estou aludindo a todos os investimentos que um grupo deve fazer ao longo do tempo, todo o trabalho necessário para dar a cada membro do grupo – quer se trate de família ou de nação – o sentimento de unidade, de
continuidade e de coerência.” (POLLAK, 1992, p. 206). Desta forma, novamente segundo Elias e Dunning na obra A Busca pela Excitação, fica nítido que existe uma complexidade de fatores que geram e “antecipam” os confrontos e
os embates violentos entre torcedores organizados rivais e até mesmo com as autoridades. Neste contexto, não é só a intensidade da violência ou o conflito momentâneo naquele local do conflito que são causadores, mas sim inúmeras outras vertentes ou condicionalidades como afirma os autores na citação abaixo:
“a intensidade da violência no relvado pode servir como um rastilho para o hooliganismo do futebol, mas o mesmo pode verificar-se por influencia de outras contingencias, como um policiamento intenso e pouco sensato, o  desejo de vingar uma derrota imposta no decurso de uma luta realizada num jogo anterior e a ambição de um dos grupos de fãs derrubarem outro do pedestal sobre o qual os meios de comunicação o colocaram.” (ELIAS &
DUNNING, 1992, p. 363). Destarte, e segundo Marcos Alves de Souza a respeito da masculinidade e virilidade, o
próprio defende a teoria de que a identidade dos indivíduos acerca de torcidas organizadas de futebol se dá muito pelo fato destas características e aspectos estarem enraizados no senso comum e no cotidiano da sociedade, mas também na percepção e mentalidade não só dos próprios torcedores organizados, mas sim de todos os torcedores que frequentam os estádios de futebol, como também os que não frequentam, por fim perpetuando por toda sociedade e qualquer tipo de relação com o esporte futebol. Isto tudo influenciando de forma direta o
gênero feminino e masculino em meio ao futebol, pois com estas percepções sociais, a sociedade constrói uma mentalidade de que futebol é para homem ou é um esporte masculino (e que possui virilidade), excluindo muitas das vezes o gênero feminino no próprio esporte e até mesmo das torcidas dentro do estádio. Deste modo, discorre a citação: “Apesar de possuir uma grande participação feminina nas suas torcidas, e de as mulheres estarem presentes inclusive na simbolização do futebol, conforme veremos adiante, o futebol é considerado, no Brasil, como uma área predominantemente masculina. De fato, o aspecto de espetáculo ritualístico do futebol também encena um destacado drama de virilidade e de masculinidade. O confronto simulado com uma bola, entre duas
comunidades representadas por elementos masculinos, que é inclusive compartilhado pelos torcedores, constitui uma forma de ritual viril. Conforme Eco, “o futebol está para o adulto masculino como o jogo de mamãe para as meninas: um jogo pedagógico que ensina a manter seu próprio lugar”. O futebol pode ser entendido, portanto, como um dos complexos de rituais de iniciação, que abrem acesso à virilidade adulta. “É nas brincadeiras infantis de pelada (…), que o menino é socializado no futebol”.” (SOUZA, 1996, p. 46). À vista disto, Bandeira também disserta sobre esta questão da constituição e da composição da identidade frente à masculinidade ou virilidade do torcedor organizado de futebol. Assim sendo, torcedores de futebol em seu movimento de torcer nas arquibancadas
do estádio apoiando a instituição (clube de futebol) em que torcem, acabam utilizando de termos ou adjetivos que se remetem à masculinidade, e por sua vez, estes próprios torcedores reproduzem esta virilidade gerando violência em manifestações, que neste caso seriam os confrontos e embates agressivos e violentos entre torcidas organizadas rivais. Culmina então, que o próprio futebol como esporte muitas das vezes gera esta relação entre violência à
masculinidade através das reproduções sociais, como Bandeira nos mostra na citação: “Fora a relação entre futebol e violência, existe uma importante construção identitária de jogadores e torcedores de futebol relacionados à „macheza‟.  „Guerreiro‟, „lutador‟ – figuras como essas – associam-se a um tipo específico de masculinidade, que valora positivamente algumas características como a virilidade e pode acabar utilizando diferentes formas
de violência como possibilidades de manifestações desse modelo. […]” (BANDEIRA, 2009, p.68).
Conclui-se então, devido aos fatores e as análises expostas acima, que o fato da violência estar muito presente em torcidas organizadas de futebol, não é por coincidência e nem mesmo por simples acaso, é um processo muito complexo, subjetivo e que possui grande influência de variados fatores e vertentes sociais. Por exemplo, como já foi bem explicitada anteriormente, a influência “negativa” de alguns aspectos sociais e da própria memória
histórico-cultural, podem ocasionar de maneira ruim e desagradável a construção e constituição da identidade do indivíduo enquanto criança ou adolescente, portanto, gerando desigualdade, preconceito e até mesmo violência posteriormente na fase adulta. Em outras palavras, a própria memória no sentido de cultura de uma sociedade em específico pode ter uma possível ligação com o fato de a sociedade ser tão violenta e dos indivíduos (adultos)
agirem de forma agressiva, intensa e violenta, como é o caso dos torcedores organizados de
futebol e da sua masculinidade e virilidade exercida.

3- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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violentas y la conformación de identidades de género masculinas. VI Jornadas de Sociología.
Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, 2004.

 

Lucas Ferreira Lopes

Possui formação em técnico de Segurança do Trabalho no SENAC- RJ entre os anos de 2011 e 2012. Possui também graduação de Bacharel (2017) e Licenciatura (2018) em História pelo Departamento de História do Instituto de Ciências da Socidade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Atualmente é docente na Escola Municipal Clóvis Tavares pela prefeitura da cidade de Campos dos Goytacazes- RJ. Possui experiência como educador social na Fundação Municipal da Infância e Juventude em Campos dos Goytacazes- RJ, entre os anos de 2017 e 2019. Tem experiência na área de docência de História, Filosofia e Sociologia no Colégio Santos Dumont entre os anos de 2015 e 2016.

Professora Doutora do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT) e do Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA). Membro do Grupo de Estudos do Integralismo (GEINT).

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