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ORGULHO DE SER IGNORANTE

Dentre os pecados capitais, a soberba que engloba o orgulho excessivo, a arrogância e a vaidade, mereceu atenção especial do filósofo São Tomás de Aquino: um pecado tão grave e amplo que deveria ser destacado dos demais e, na verdade, estaria na raiz de todos eles.

Em nossa época secular, a psicanálise ocupou parte do espaço da teologia, mas da mesma forma, muitos psicanalistas encontram na base do sofrimento de seus pacientes a dificuldade de autoconhecimento, o que exige humildade, reconhecimento e aceitação de “fraquezas e pecados”, da própria humanidade enfim.

A reação mais comum às próprias deficiências em nosso tempo de vaidade explícita é negá-las, tentar descreve-las como vantagens, assim é que políticos em posição de destaque orgulham-se de nunca terem aberto um livro, empresários que obtém relativo sucesso afirmam que “aprenderam na vida” e que escola não é importante, tudo que possa parecer cultura é tido como ofensa aos menos “privilegiados”. A ignorância passou a ser motivo de orgulho ostensivo.

Nicolau de Cusa, filósofo e teólogo alemão, em meados dos anos 1440 escreveu uma obra até hoje atual, A Douta Ignorância, em que discorreu sobre saber daquilo que não sabemos; a relevância de saber aquilo que se ignora. Disse ele: “com efeito, nenhum outro saber mais perfeito pode advir ao homem, mesmo ao mais estudioso, do que descobrir-se sumamente douto na sua ignorância, que lhe é própria, e será tanto mais douto quanto mais ignorante se souber”. Ecoa Sócrates: “só sei que nada sei”.

Não parece ser disso que se trata, pois hoje aqueles que se orgulham de suas ignorâncias não parecem saber que não sabem, são vaidosos da ignorância em si, como se esta fosse uma qualidade de brilho próprio – ignorar doutamente exigiria um trabalhoso processo de obter conhecimento sobre as limitações que temos.

Já dizia Nicolau de Cusa que existiam dois tipos de ignorância, a ignorância ignorante, que sequer sabe que ignora, e a ignorância douta, que sabe que ignora e, principalmente, o que ignora. É do conceito de ignorância douta fundamental no paradigma da modernidade ocidental que, no afã de controlar o não sabido e superar todas as lacunas, advém o progresso e as bases de nossa civilização.

Navegando entre livros. Fonte da imagem: https://www.pololungro.edu.it/circolari-e-avvisi/356-nuovo-anno-scolastico-2018-2019.html

Assim, a douta ignorância não permite a arrogância, apenas a humildade de buscar a verdade mesmo sabendo que esta será impossível de atingir, pois aquilo além dos limites, a verdade, não nos impede o possível, ou seja, a veracidade.

A diversidade do mundo certamente nos causa incertezas e estranhezas, experiências sobre o mundo e os demais nos cobram seu preço, a moderna ciência não é passível de ser captada na sua totalidade, e a douta ignorância admite pluralidades, assimetrias, pois a diversidade das culturas humanas acarreta também uma questão política – alguns países ou regiões dentro de um mesmo país mostram-se aparentemente mais vocacionados às atividades da apreensão, seja por questões financeiras, de meio ambiente mais estável, de menor ou maior IDH.

Dominar símbolos, paradoxos, realizar conjecturas, perceber sinais, auxiliam sobremaneira o processo cognitivo, porém não eliminam o atingimento de novas fronteiras do desconhecido, todos os problemas que enfrentamos resultam em interpretar o presente com base no passado, para perguntas fortes temos apenas respostas fracas.

Assim como um saber só pode existir dentro de uma determinada variedade de saberes, também a ignorância é constituída por uma gama imensa de desconhecimentos, pois o limite da aprendizagem será sempre constituído pelo que é ignorado por nós, e quanto menos conhecemos de nossas limitações e potencialidades, menor será a consciência própria diante dos demais.

Uma novidade perturbadora nesta senda é a ressuscitada teoria da “Terra plana”, algo superado há séculos, mas a resiliência das pessoas não pode ser subestimada, quando algum prosélito for confrontado com uma das provas cabais da redondeza da Terra, o fato de que se pode chegar ao mesmo ponto viajando do ocidente para o oriente, provavelmente manterá sua sandice intacta mudando a teoria para a da “Terra cilíndrica”.

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É educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil, e assina a Coluna Educação & Cotidiano.

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