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A ESPINAFRAÇÃO DRAMATÚRGICA DE OSWALD DE ANDRADE

Oswald de Andrade é conhecido por sua proposta antropofágica no modernismo literário e que, segundo ele mesmo, se manifestou esteticamente no romance-rapsódia Macunaíma de Mário de Andrade. Mas pouco se conhece sobre sua produção dramatúrgica devido ao fato da parca presença do texto teatral no ensino da literatura e, principalmente, pelo fato de suas obras teatrais só se tornarem conhecidas no palco no final da década de 1960. A experiência do antropófago na dramaturgia, conforme ressalta Maria Augusta Fonseca, dá-se desde 1913 quando escreveu a peça não publicada A recusa.

Foi na companhia de Guilherme de Almeida que Oswald pode tornar pública sua produção dramatúrgica com duas peças escritas em francês – Mon coeur balance e Leur âme, em 1916, escritas ao estilo da belle époque com fortes influências simbolistas dominantes na época. Conforme Orna Messer Levin, em História do Teatro Brasileiro, essa produção dramatúrgica limita-se a expor sofrimentos íntimos e loucuras decorrentes da sentimentalidade ultrarromântica, bem ao gosto do público de teatro ávido por ver nos palcos suas experiências confortantes. Apesar dessa produção aos moldes da dramaturgia dominante, é a experiência da Semana de 1922 e todo seu efeito no movimento literário do período que fará com que Oswald produza uma dramaturgia na qual se manifesta uma moderna proposta que rompe com a tradição e que será definida por ele mesmo como o método da espinafração.

Sábato Magaldi, em seu livro Teatro da Ruptura: Oswald de Andrade, ressalta a radicalidade na inovação do dramaturgo, à medida que, buscando romper com a tradição, inova radicalmente a linguagem dramática. A primeira característica é o fato de ele fundir nas três peças escritas na década de 1930 consciência política e vanguardismo estético. Para tanto, mistura o estilo circense com o estilo brechtiano no modo de caracterização das personagens, conforme pode se ver em O rei da vela, sobretudo no primeiro ato em que está presente uma jaula, bem como a vestimenta da personagem Abelardo II. Com isso e como sugere o crítico, Oswald faz de O rei da vela uma crítica satírica à sociedade burguesa, na medida em que evidencia as engrenagens de funcionamento dessa sociedade. Compõe com esta peça um retrato sem retoques da burguesia brasileira, decomposta em todos os seus valores (MAGALDI, 2004, p. 159).

Já em O homem e o cavalo, publicado em 1934, o dramaturgo busca constituir um canto épico no qual, contrapondo-se à decadente sociedade capitalista, espinafrada nos quatro primeiros atos, constrói uma utópica sociedade comunista nos cinco atos seguintes e, nela, faz o julgamento do cristianismo com a presença de Cristo que é identificado no texto como o espermatozoide feroz da burguesia. E, se nestas duas peças, o autor busca evidenciar toda sua consciência política, na terceira peça, A Morta, publicada em 1937, desenvolve uma síntese estética e ideológica das duas peças anteriores. Com esta última peça, ele compõe uma invenção lírica, à medida que, utilizando da metalinguagem e da alegoria, define, nas palavras de Magaldi, o homem como criatividade, como projeto, como construção permanente – única forma de subtrair-se à lei implacável da morte. Com isso, faz dessas três obras aquilo que confessa em sua obra Um homem sem profissão como profissão de fé “tornar-se, pelo menos, casaca de ferro na Revolução Proletária.”

Seu vanguardismo estético manifesta-se sobretudo na compreensão e defesa de revitalizar o teatro aos moldes da grandeza grega e medieval, isto é, construir uma linguagem que congregasse o povo, fazendo um teatro de estádio ou arena como ampla assembleia coletiva. Tendo como modelo o teatro grego e medieval, há que se notar também uma forte influência das comunas soviéticas e, portanto, da compreensão da arte como um bem coletivo e não para agradar uma classe dominante como o foi a sua primeira experiência dramatúrgica com as peças em francês.

Nesse sentido, rompendo com a tradição naturalista predominante na época, Oswald cria uma linguagem cênica seca e incisiva, com réplicas rápidas e fluidas, dispensando os exageros e comentários supérfluos. Como pontua Levin, sobretudo ao tratar de O rei da vela, ele se utiliza de uma variedade de trocadilhos, frases feitas e chavões, formando uma sucata verbal que implode a linguagem realista carregada de teses e psicologismos já desgastada nos palcos (FARIA, 2013, p. 31). Dessa forma, a linguagem sintética substitui a naturalista que se prendia a um estilo retórico e filosofante. Ao invés disso, Oswald propõe réplicas dinâmicas ao estilo pingue-pongue, possibilitando maior dramaticidade nos atos.

Além da dramatização, os diálogos possibilitam uma caracterização melhor das personagens, pois, à medida que personagens secundárias circulam sobretudo no primeiro ato, a interação com as personagens principais funciona como um modo de oferecer o perfil das personagens centrais. É o que se vê em O Rei da Vela, quando a presença do cliente, da secretária, de Pinote e outras personagens interagindo com Abelardo I, vão oferecendo ao espectador o perfil desta personagem. Como observa Magaldi, não tendo o compromisso de aprofundar psicologicamente as personagens, Oswald compõe uma sucessão de quadros justapostos em um esquema brechtiano, produzindo um efeito cumulativo que define aos poucos o caráter da personagem. (MAGALDI, 2004, p. 75)

Outro recurso de modernização e ruptura é o processo anti-ilusionista que estabelece o distanciamento ou estranhamento que, conforme Magaldi, possibilita duas vantagens: a de simplificação daquilo que pretende oferecer ao espectador, apresentando quadros mais dinâmicos e não cansativos e a de manter viva a capacidade reflexiva da plateia. O efeito de justaposição das cenas é acompanhado muitas vezes de conversa com a plateia, como se vê no momento em que Hierofante se dirige ao público em vários momentos da peça A Morta. A metalinguagem também possibilita esse estranhamento e conduz o leitor a um efeito de espinafração, uma vez que ao se criticar, a personagem se mostra sem censura e com isso, abole as amarras coercitivas do texto. É o que se vê no diálogo entre os Abelardos, quando Abelardo II diz ser o primeiro socialista que aparece no Teatro Brasileiro.

Como observa Magaldi, por mais que Oswald desenvolva estas três peças manipulando clichês dos textos marxistas, ele o faz com um vigor sintético de forma que consegue conciliar crítica social e vanguardismo estético e apresentar um quadro de crítica social não apenas do Brasil, mas de todo o Ocidente no momento em que setores de direita estavam em ascensão em muitos países. Vê-se a influência de Ubu rei de Alfred Jay em O rei da vela e de O Mistério Bufo de Maiakóvski em O homem e o cavalo. Contudo, A morta como síntese desta investida estética de Oswald no Teatro não se liga a qualquer outro modelo, evidenciando sua originalidade. Ao mesmo tempo, nela Oswald rompe com as convenções do teatro realista e mostra nas situações, diálogos, alegorias, efeitos anti-ilusionistas o seu compromisso com a dramaturgia brasileira.

Professor de Teoria Literária, autor do livro de contos "Candelabro" e apaixonado por Literatura.

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