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DANÇA TRIBAL E SENTIMENTOS EXPRESSOS PELO CORPO SILENCIADO NO CÁRCERE FEMININO

A Coluna INcontros inicia suas publicações deste ano, trazendo o artigo resultante de pesquisa e oficina de dança no Presídio Estadual de Piraquara no Paraná, autoria de Mariáh Marques Cardoso, Mestranda em Educação pela Universidade Federal do Paraná, sob a orientação da Profa. Dra. Sonia Haracemiv. Este trabalho foi apresentado no Evento ALFAEEJA em Porto Alegre (2018), no Eixo Temático Múltiplas Linguagens, Tecnologias da Informação e da Comunicação na EJA: Perspectivas Teórico-Metodológicas.

I. PROBLEMA DA PESQUISA

Muitos desconhecem a linguagem completa e complexa do corpo humano, ela é tão elaborada quanto a linguagem verbal, portanto ambas não podem ser postas lado a lado. De acordo com Feldenkrais (1977), dispor de apenas uma delas é pobreza, já que: São alfabetos distintos, de muitos modos complementares, mas incomensuráveis, isto é, um não consegue comunicar o que o outro consegue e vice-versa (p.10). O cárcere acentua as desigualdades pelas quais a mulheres vivem dentro de uma sociedade patriarcal, na qual há o contínuo exercício de controle dos corpos femininos que são trancados e isolados entre quatro paredes e grades.

Dentre os fatores que podem influenciar negativamente, está falta de espaços físicos e espaço-temporal destinados ao convívio e compartilhamento de experiências dentro dos presídios femininos. Tal configuração impede que as detentas ressignifiquem suas trajetórias pessoais. Como também, contribuem para a perda de autonomia e o corte dos laços afetivos extramuros, promovendo a “[…] violência e a despersonalização dos indivíduos” (ONOFRE, 2007, p.12 citado por MEDEIROS; KOKOTT, 2016, P.76).

As marcas que a violência deixa nos indivíduos se desenvolve e se manifesta de diversas formas ao longo da vida dos seres humanos. As memórias negativas também vão sendo entalhadas nos corpos, impedindo que a vida se manifeste de maneira positiva por conta dos traumas sofridos. Diante do silêncio, aprisionamento e controles impostos, os movimentos e esforços criativos são limitados, causando desarmonia corporal, impossibilitando-as de estarem em si e também em relação ao outro (RENNÓ, 2017). Segundo Souza (2012), os movimentos conscientes ou não, trazem uma série de significados que:

[…] surgem a partir de processos mentais, das vivências e reflexões de cada indivíduo. Exteriorizado, tal movimento expressa-se como uma genuína linguagem através do corpo, uma forma de falar. Quando esta linguagem é compreendida, compreende-se também o corpo; analisando-se o que emana do corpo, percebe-se o que o indivíduo tem a dizer (comunicar) para seus semelhantes (p.2).

Já que estes significados são adquiridos a partir das vivências do indivíduo ao longo dos anos, entende-se que as condições impostas às mulheres dentro e fora do cárcere contribuem para uma construção negativa dos mesmos. Essa violência praticada contra as mulheres dentro dos presídios é uma das mais graves, já que o próprio sistema carcerário é pensado por homens e para homens, sem tratamento diferenciado, não sendo capaz de atender às necessidades típicas femininas. Ela se desenvolve e se reproduz por meio das desigualdades sociais, opressão, abuso de força e poder, causando o isolamento e a exclusão das apenadas (MEDEIROS; KOKOTT, 2016).

No entanto, esses corpos femininos de maneira inquieta, necessitam diluir e deslocar fronteiras com o auxílio da dança, que nesse contexto serve como meio de comunicação e interação entre seus pares. Portanto a prática da dança no ambiente carcerário sob a forma de oficina de dança tribal, surge como um importante meio para que, progressivamente, as detentas tenham maior compreensão não apenas das suas capacidades físicas, mas também como da imagem que fazem de si, quer diante de seus semelhantes, como também à frente de um mundo no qual o corpo tem cada vez menos a necessidade de movimentar-se e de situar-se como um meio de expressão (SOUZA, 2012).

II. OBJETIVOS DA PESQUISA

GERAL
Desenvolver a consciência corporal feminina pela prática da Dança Tribal de forma identificar os sentimentos contidos nos corpos silenciados no cárcere.

ESPECÍFICOS

Traçar as trajetórias de vida das mulheres antes e depois de encarceramento;
Avaliar a familiaridade do corpo feminino encarcerado com a dança;
Desenvolver oficina de Dança Tribal ensinando movimentos corporais para que as detentas aprendam o repertório gestual relativo aos sentimentos de saudade, solidão, amor, raiva, medo, arrependimento, compaixão entre outros.

III. REFERENCIAL TEÓRICO

Na pretensão de contribuir para ordenação de conhecimentos produzidos a partir de estudos, nos campos da dança, corpos femininos e expressão de violência em contextos de cárcere, este capítulo busca apresentar um mapeamento de pesquisas que tratam das especificidades dos trabalhos de pesquisadores em espaços prisionais femininos.

A fundamentação teórica serve como base inicial para a compreensão e discussão do tema desta pesquisa. Busca-se estudos dos estudos dos pesquisadores consagrados, utilizando suas publicações em livros e artigos, de forma a elaborar o um caminho norteador. Considerando que estudos nessa área ainda não têm alcançado nível expressivo de produções científicas, esse levantamento torna-se essencial para análises de objetos investigativos que envolvam temáticas no campo da dança e suas expressões em presídios femininos, independentemente do ano de produção.

Foram em duas bases de dados, inegavelmente reconhecidas que as buscas foram realizadas, tais como: Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Biblioteca Eletrônica Scientific Electronic Library Online (SciELO). Foram feitos levantamentos em cada uma das bases, utilizando-se de quatro termos foram específicos, relacionando-se diretamente com o propósito desse estudo. Na busca das produções a priori foram usados os seguintes descritores: dança + cárcere; cárcere + corpo feminino; expressão de sentimentos + corpo feminino; dança + expressão de sentimentos.

Apresentação da profa. Mariáh Marques I

Foram encontrados 35 (trinta e cinco) trabalhos, cujos resumos foram lidos, o que possibilitou verificar elementos que caracterizam as especificidades e indicativos no campo da dança dentro do sistema carcerário e a relação com o corpo feminino. O mapeamento feito no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e na Biblioteca Eletrônica SciELO seguido de análises mais pontuais em relação às pesquisas que tratam da temática já mencionada anteriormente, demonstra que ainda há pouca produção sobre o tema. A maior parte dos 10 (dez) artigos encontrados no Portal CAPES tratam de temas relacionados a violência contra a mulher, que se relacionam com a força e poder de homens sobre mulheres.

Além de discursos femininos sobre a vivência de violências praticadas por parceiros íntimos, combinados com homicídio de mulheres – resultado de relacionamentos afetivos mal resolvidos que tem como consequência a violência sexual. São os diversos tipos de violências praticados contra as mulheres, multiplicadas em doméstica, sexual, obstétrica, psicológica, racial, sexual, simbólica, além das muitas opressões que as mesmas sofrem nas situações cotidianas. Por último, a inserção de psicólogos na rede intersetorial de serviços para mulheres em situação de violência.

IV. A DANÇA TRIBAL

De maneira experimental a Dança Tribal surge em 1967 na cidade de Berkeley na Califórnia – EUA, através da bailarina Jamila Salimpour. Nesse período os jovens dessa cidade situada na costa leste da baía de São Francisco demonstravam interesse na cultura indiana. Essa nova proposta de dança onde imperava as fusões de danças étnicas e dava abertura para novos experimentos foi influenciada por uma viagem que Jamila fez ao Oriente.

No período em que esteve viajando, ela teve contato com povos tribais e suas danças, aumentando sua bagagem artística como bailarina de dança do ventre. De volta aos EUA propôs criar um novo estilo de dança do ventre. O resultado foi que muitas pessoas tiveram contato indireto com a dança de Jamila, porém sem aprender a técnica (BERBARE, 2013). No incio da década de 1970 Jamilia criou a trupe Bal Anat.

A ideia do nome surgiu do desejo em homenagiar a Deusa Mãe. O significado do nome se dá por Anat, deusa e com “bal”, a palavra francesa para dança, portanto a Dança da Deusa Mãe (SALIMPOUR, 1990). Nos panfletos de divulgação do grupo era informado que os integrantes vinham de várias tribos, consequentemente dando origem à expressão “Dança Tribal” (SALIMPOUR,1990).

Apresentação da profa. Mariáh Marques II

Masha Archer foi uma das alunas de Jamila Salipour durante dois anos e meio em meados da década de 1970. Depois desse período começou a dar aulas e fundou a Companhia de Dança Clássica San Francisco que durou 14 anos. Empregou tudo o que aprendeu com Jamila, incluiu disciplina, uniformidade e um novo olhar sobre a dança. Deu uma nova roupagem tanto para os movimentos quanto para os figurinos, acrescentando uniformidade e uma nova forma de interpretar a Dança Tribal (BERBARE, 2013).

Diferentemente de Jamila, Masha se recusava a dançar em bares e restaurantes. Ela acreditava que a dança deveria ser apreciada em ambientes frequentados por pessoas que apreciavam arte, como nos eventos culturiais. Para ela a dança além de especial, merecia mais respeito e reconhecimento, visão que foi transmitida aos seus alunos e a todos que tiveram contato com a sua dança (BERBARE, 2013).

Em 1974, Masha recebe como aluna Carolena Nericcio que na época tinha apenas 14 anos. Esse processo de aprendizagem durou sete anos, após esse período ela cria o American Tribal Style (ATS), (Estilo Tribal Americano), enfatizando sua origem como uma invenção americana e não uma dança tradicional. Com seu estilo irreverente, ela atraiu muitos jovens, que apresentavam tatuagens como adorno corporal e não seguiam um padrão estético da beleza ideal. A partir daí, criou o grupo FatChanceBellyDance, cujo nome surgiu de um trocadilho feito por um amigo de Carolena.

O resultado final nos remete as “assemblages” feitas nas obras dadaístas, isto é, a estética de acumulação segundo o qual todo ou qualquer tipo de material pode ser incorporado à obra de arte (DUBUFFET, 1953). Todos os elementos e informações étnicas contidas na Dança Tribal levam a percepção de como são as diversas possibilidades de trocas culturais e também as infinitas formas que o corpo pode sentir o mundo. A dança tribal tem a intenção de unir o moderno com o ancestral quando através de movimentos e expressões o corpo tem acesso a elementos que estão vinculados aos arquétipos de outras culturas.

É como se através do movimento, experimentado nesta modalidade de dança, cada gesto possibilitasse uma atualização dos arquétipos, de culturas que de algum modo contribuíram com a nossa formação no ocidente, no convívio com o mundo contemporâneo (BERBARE, 2013: p. 14).

V. CORPOS FEMININOS NO CÁRCERE E AS MARCAS DA VIOLÊNCIA

Grande parte do sistema penitenciário feminino do país não é preparado para atender as mulheres que ali estão encarceradas. Os direitos que os homens têm são os mesmos negados às mulheres, o que revela uma violação dos direitos humanos e discriminação por parte das autoridades competentes. Diante dessas práticas discriminatórias em relação às mulheres, resulta-se a iniquidade social que é vivida até os dias de hoje.

Por analogia, segundo Danis e Solar (1998) a iniquidade social será, “resultante de práticas sociais discriminatórias, que se fundam no sexo, na raça ou noutras características de uma pessoa e isso, em detrimento dessa pessoa (p.117). Mulheres que hoje vivem em um sistema de privação de liberdade são como as mulheres ditas livres, buscam ou buscaram meios de encontrar o seu espaço em uma sociedade que levou um longo tempo para reconhecê-las como cidadãs de pleno direito.

Momento da oficina com as presidiárias em Piraquara, Paraná.

Reflexos de uma sociedade marcada por um sistema que favorece os homens como grupo social dominante, ainda atingem mulheres conscientes ou não de sua situação. A própria educação é um sistema que transmite saberes que omitem ou desvalorizam as mulheres. Através da escola as mulheres são formadas com saberes que fazem do homem a norma, onde a imagem que constroem de si é de inferioridade intelectual e social (DANIS; SOLAR, 1998). Para que haja uma ruptura na forma de pensamento é necessário mudar de paradigma, uma alteração no quadro de referência que passa pelas transformações pessoais e sociais.

As sensações vividas vão sendo impressas no inconsciente e organizadas em uma linguagem corporal especifica e individual, muitas vezes muda e impenetrável. Essa silenciação da expressão corporal é reforçada dentro dos presídios através controle dos corpos com punição física e uso de medicamentos que os deixam anestesiados. O mal-estar vai deixando de ser expresso verbalmente e através de sintomas inconscientes reverberam através do corpo, na forma de falar, andar, gesticular ou agitar-se. Os seres humanos falam a linguagem das sensações vividas anteriormente em seus corpos.

Não se sabe identificá-la precisamente, mas ela está presente em nas escolhas mais íntimas. Define por exemplo o que apreciamos como belo, o que nos dá medo, o sentimento de segurança ou que nos faz sentir prazer. Se esse corpo aprisionado foi punido, traumatizado e negligenciado, que linguagem ele irá falar? Lembrando que a linguagem das sensações estabelece nossos desejos e escolhas ao longo da vida (NASIO, 2009).

Muitas das marcas do enfrentamento das forças de interdição ao movimento de criação vão aparecendo nas mulheres que vivem em sistema carcerário. Através das práticas de dança é possível que as marcas de resistência sejam interpretadas na produção de um fazer artístico (NASIO, 2009).

VI. DANÇA & EXPRESSÃO DO CORPO

Os corpos das atuais gerações estão sendo educados de maneira a ignorar seu corpo como meio de expressão, privilegiando apenas o conhecimento abstrato e deixam de lado a capacidade que o corpo tem de sentir o mundo. Um corpo que está atrofiando atrás de monitores de computadores e de televisão. Esse corpo já não sabe mais como se articular e se mostrar diante do mundo, um mundo globalizado que ainda o quer ver, mesmo que sem o tocar mostrando a ele ferramentas onde esse corpo ávido possa expressar-se através da linguagem da dança.

Segundo Maturana (2009), é quando nos realizamos como sujeitos pertencentes a esse mundo é que nos tornamos conscientes e “nos damos conta de que nossa corporalidade nos constitui, e que o corpo não nos limita, mas, ao contrário, ele nos possibilita” (p. 53). O corpo não é somente o conjunto de órgãos ou somente o organismo material onde abriga um indivíduo (LELOUP, 2012).

Toda a imagem inconsciente do corpo se dá desde os primeiros anos de idade e permanecem por toda a vida. Tem corpos que passam por um processo de silenciação, onde as atitudes corporais já não sugerem nenhuma emoção. São corpos retraídos, que se recolhem para se sentir em segurança na fantasia de estar de volta no ventre de suas mães. Saberes quase que ancestrais deixam de ser intensificados por falta e estimulo de experiências corpóreas. Um corpo que está ficando anestesiado e que está perdendo suas funções mais básicas: a estesia do se (DUARTE JÚNIOR, 2010).

Através da dança é possível expressar, exteriorizar e traduzir a linguagem silenciosa das sensações que vão se acumulando no corpo. Esse acúmulo de sensações e histórias está presente em cada parte de nossos corpos, sendo que, “Há partes de nossos corpos que amamos muito e que talvez tenham sido muito amadas”. E outras partes que nos fazem medo, que nos desgostam, talvez porque não foram amadas ou porque foram violentadas e maltratadas (LELOUP, 2012: p. 24).

Já que a dança é uma linguagem que expressa sentimentos, então as emoções vividas podem ser definidas como tensões que se manifestam em partes do corpo. Quando esses saberes que só o corpo pode compreender são deixados de lado, se descarta grande parte dos conhecimentos necessários para uma vida mais plena.

Através da prática da dança o ser humano aprende a explorar todas as suas capacidades de movimento e espaço de forma criar maior consciência do eu e dos outros. Faz com que seres humanos se conectem com mundo e crie vínculos com as pessoas de maneira mais efetiva. Reeducando por meio da dança um corpo sensível que foi sedimentado e que já não compreende mais a sabedoria que está guardada dentro de si (DUARTE JÚNIOR, 2010).

VII. METODOLOGIA

Essa investigação científica é de natureza qualitativa, o que permite aprofundar conhecimentos acerca de fenômenos que envolvem seres humanos em seus diversos meios de atuação. Segundo essa perspectiva, o objeto de estudo é melhor compreendido no contexto em que ocorre e do qual é parte, portanto é fundamental a atuação do pesquisador no cotidiano dos atores sociais. De acordo com André (2001), Dilthey afirma que “o contexto particular em que ocorre o fato é um elemento essencial para a sua compreensão.” Um dos aspectos característicos da pesquisa qualitativa é que o problema a ser pesquisado não é reduzido apenas a uma afirmação prévia.

A investigação do problema decorre de um estudo que parte da perspectiva de todas as pessoas que nele estão envolvidas. Portanto, o problema não resulta de uma afirmação prévia e individual. Ele afigura-se como um obstáculo e sua identificação e delimitação, segundo Chizzotti (1995): […] pressupõem uma imersão do pesquisador na vida e no contexto, no passado e nas circunstâncias presentes que condicionam o problema. Pressupõem, também, uma partilha prática nas experiências e percepções que os sujeitos possuem desses problemas, para descobrir os fenômenos além de suas aparências imediatas (p. 81).

Por último, o pesquisador deve partilhar de suas experiências de forma a criar uma relação dinâmica entre os participantes. Essa relação que se torna indispensável, principalmente quando se trata de assuntos complexos, pois de acordo com Demo (2005) “É necessário, romper barreiras, ganhar confiança, estabelecer diálogo desimpedido, Muitas vezes, é preciso investir horas de “conversa fiada” para chegar-se a conversa séria”.

A pesquisa é caracterizada pelo tipo etnográfico, porque objetivamente pretende-se conhecer o cárcere por dentro “[…] um mundo cultural que precisa ser conhecido, que se tem interesse em conhecer” (TRIVIÑOS, 1987, p. 21). Trata-se de um método que tem como principal foco o estudo da cultura e comportamento de um determinado grupo social a que se pretende investigar.

Nesta modalidade cabe salientar, que há necessidade de contato real com o campo, o qual se quer conhecer, através da observação, com um olhar aguçado e instrumentalizado. Portanto, através dessa prática, incorpora-se a presença de duas realidades culturais, a das pesquisadoras e do sistema carcerário feminino.

Exercícios de preparação para a oficina de dança tribal no presídio de Piraquara, Paraná.

Segundo Trivinos (1987) esse tipo de pesquisa exige uma imersão no universo estudado, com participação ativa para compartilhar com “os sujeitos e o investigador a uma participação ativa onde se compartilham modos culturais (tipos de refeições, formas de lazer etc.)” (p. 121). Em outras palavras o autor quer dizer que o pesquisador e o pesquisado devem conviver, para que o “fenômeno estudado seja visto, sentido e vivido por dentro, com objetivo de captar e compreender significados” (TRIVINOS, 1987: p. 121). A participação do pesquisador com sua própria cultura junto ao grupo a ser pesquisado facilita sua compreensão quanto ao ponto de vista do outro, bem como a visão de mundo do grupo em seu ambiente natural.

Essa pesquisa será desenvolvida por um estudo de comportamento de corpos femininos que estão encarcerados e, a forma que possibilite as detentas expressar pela dança os sentimentos de saudade, solidão, amor, raiva, medo, arrependimento, compaixão e outros. Portanto, a pesquisa etnográfica se adequa a esse estudo pois se constitui como método antropológico, estudo do homem, “na vida social, os valores éticos e morais, os códigos de emoções, as intenções e as motivações que orientam a conformação de uma determinada sociedade” (ROCHA & ECKERT, 2008: p. 3).

Outra metodologia a ser utilizado será a da pesquisa-ação, frente à forma como os dados serão coletados em relação às vivências com a dança pelas detentas. A pesquisa-ação se dará por um conjunto de procedimentos técnicos e operativos a serem seguidos, no caso do estudo, o desenvolvimento de uma oficina de dança. Parte-se do pressuposto que ao trabalhar com as encarceradas, buscando compreender de que forma o corpo das detentas expressam sentimentos através da dança.

Assim sendo, essa metodologia de pesquisa gera um processo de ação em sua própria forma ou maneira de fazer a investigação da realidade, de forma que todos são envolvidos. Considera-se que o modo de fazer o estudo, o conhecimento da realidade já é ação de organização, de mobilização, sensibilização e de conscientização (BALDISSERA, 2001: p.8).

Essa forma de pesquisar faz com que haja maior abertura para a revisão da prática apresentada, de forma a desenvolver novas estratégias e avaliar a eficiência das mesmas. A pesquisa-ação permite aos pesquisadores, assim como as pessoas envolvidas, terem maior percepção e condições de investigar própria problemática dentro da prática aplicada, de forma crítica e reflexiva (BALDISSERA, 2001).

VIII. RESULTADOS ESPERADOS DO ESTUDO

Essa pesquisa busca através da prática da dança, na modalidade Dança Tribal o resgate e a reeducação desses corpos sensíveis e traumatizados. Voltados as detentas do Presídio Central Estadual Feminino – PCEF, Piraquara-Paraná espera-se criar via a Oficina Pedagógica de Prática de Dança Tribal condições para que as detentas adquiram consciência de seus corpos e marcas forjadas durante as trajetórias de vidas, dando voz às linguagens de corpos que foram silenciados atrás de grades e muros. Além de auxiliar na reconquista da própria confiança, da autoestima e autoconhecimento.

IX. REFERÊNCIAS

ANDRÉ, M. E. D. A. de. Etnografia da prática escolar. SP – Campinas: Papirus, 2001.

BALDISSERA, A. Pesquisa-ação: uma metodologia do “conhecer” e do “agir” coletivo. RS – Pelotas: Sociedade Em Debate, 2001.

BERBARE, J. O corpo entre concertos e consertos: um estudo sobre a dança tribal. SP – Rio Claro, 2013.

CHIZZOTTI, A. Pesquisa em ciências humanas e sociais. SP – São Paulo: Cortez 1995.

DANIS, C.; SOLAR, C. Aprendizagem e desenvolvimento dos adultos. PT – Lisboa: Les Éditions Logiques Inc., 1998.

DEMO, P. Metodologia da investigação em educação. PR – Curitiba: Ibpex, 2009.

DUARTE JÚNIOR, J-F. (2010). A montanha e o videogame: Escritos sobre educação. SP – Campinas: Papirus, 2010.

FELDENKRAIS, M. Consciência pelo movimento. SP – São Paulo: Summus., 1977.

FÉLIX-SILVA, A. V.; FIGUEIRÓ, E. S; SOARES, G. P. Teatro-menor: cartografia em arte e experimentação de mulheres em situação de cárcere. BH – Belo Horizonte: Psicol. Soc, 2014.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

LELOUP, J.-Y. O Corpo e seus símbolos. RJ – Petópolis: Vozes., 2012.

NASIO, J. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.

RENNÓ, E. Coreoterapia: terapia com dança. PR – Curitiba: CRMV, 2017.

SOUZA, J. A dança como possibilidade de ação educativa libertadora. Anais IX ANPED SUL Seminário de Pesquisa Em Educação Da. Região Sul: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, 2012.

TRIVIÑOS, A. N. S. Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais: A Pesquisa Qualitativa em Educação. São Paulo: Editora Atlas, 1987.

Fotos: Arquivo pessoal Mariáh Marques Cardoso.

Pesquisadora Responsável:
Profª Drª Sonia Maria Chaves Haracemiv
Universidade Federal do Paraná
E-mail: sharacemiv@gmail.com

Pesquisadora Principal:
Mariáh Marques Cardoso
Universidade Federal do Paraná
E-mail: mariahmarques85@gmail.com

Profa. Sonia Maria Chaves Haracemiv:

Programa de Pós-Graduação em Educação. Linha Cognição, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano.
Programa de Pós-Graduação em Educação – Mestrado Profissional. Linha Formação da Docência e Fundamentos da Prática Educativa.
Pesquisadora do Grupo de Estudos Pesquisa de Cognição, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano – Coordenadora do Projeto de Pesquisa Vozes do Cárcere – Paz e não violência em busca de um novo modelo de gestão penal.
Pesquisadora do Grupo de Estudos Pesquisa de Avaliação e Currículo – UNIRIO
Pesquisadora Cnpq no Projeto Fundamentos e Autores Recorrentes do Campo da Educação de Jovens e Adultos no Brasil: a construção de um glossário eletrônico. Coordenadora do Eixo EJA e Tecnologias do EPEJA.
Integrante do Projeto Educação em Direitos Humanos:Educação básica: ensino e formação docente, coordenado por Ana Maria Dietrich da Universidade Federal do ABC de São Paulo.
Membro da Comissão Permanente para Elaboração, Implementação e Implantação da Política Estadual de Atenção às Mulheres Privadas de Liberdade e Egressas do Sistema Penal do Paraná – PEAME.
Pesquisadora da Rede Internacional Luso-Brasileira de Pesquisa Colaborativa em Educação de Jovens, Adultos e de Pessoas Idosas – BRASILUEJA, Brasil, Portugal, Espanha e México.
Membro do GT do Observatório Social Saúde em Instituições Prisionais e Justiça Criminal
Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/1257464125778276

Mariáh Marques Cardoso:

Possui Bacharelado e Licenciatura no curso de graduação em Artes Visuais com Ênfase em Computação na Universidade Tuiuti do Paraná. Em ambas graduações foi abordado a VIDEODANÇA como tema de sua linha de pesquisa. O objetivo central das pesquisas foi o de fazer uma reflexão sobre até que ponto a relação do corpo-imagem pode contribuir para a construção poética de um trabalho artístico audiovisual e os processos criativos para a criação de uma videodança. 

LINHAS DE PESQUISA: Videodança – O corpo imagem – A imagem inconsciente do corpo – O corpo na escola através da dança – Psicanálise e expressão corporal através da dança. Desenvolve um trabalho diferenciado dentro do Centro de Atendimento Especializa ENFANCE, coordenado pela Drª Eliane Lee. Nesse centro de atendimento Mariáh atende crianças de 5 a 13 anos de maneira individual uma vez por semana. Com essas crianças é desenvolvido toda a parte de expressão corporal, buscando acessar o inconsciente de cada um e trabalhando as imagens do corpo: a do corpo que a criança vê e a do corpo que a criança sente.

 

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Izabel Liviski é professora e fotógrafa. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), escreve a coluna INcontros desde 2009 e é também Co-Editora da Revista​ ContemporArtes.​ Contato: bel.photographia@gmail.com

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