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Fragmentos de um romance III

Para a nota de hoje, a terceira parte de um romance que – não faz tanto – se perdeu.

Quando te contei que o meu amor, mesmo sendo o mesmo, era outro – Você, com a doçura de sempre, tombou a cabeça de pouco e sorriu. Éramos ainda tão novas para falar daquelas coisas. Nós duas, no quintal. Nós duas, quase mudas. Eu disse que explicaria. Ela disse que se explicaria. Eu explico! Os canteiros muito bem ordenados, assegurando a matéria acessória do jardim. As ervas e as flores, os crisântemos, as orquídeas, o pé de carambola e a jabuticabeira. E nós duas, sentadas sobre a banqueta velha de madeira. Nós duas, Clarisse, e você tentando entender o que eu não sabia contar.

Também acho ela bonita.

Acontece que não era só a beleza.

Eu queria me confundir com ela, como duas substâncias sólidas que, reagindo ao encontro, perdessem a consistência e, mutuamente, se contaminando, fundissem – por um instante – as suas unidades. Era mais que a beleza. Era a sarça ardendo no solo sagrado daquela gruta e uma voz misteriosa convidando os pés a tocarem o chão puro da minha fundura inexplorada. Era um fogo que, nascendo da proximidade, tomava imenso os bosques de dentro e, de repente, os lábios sugeriam caminhos proibidos e a culpa se misturava com o mistério e algo em mim fazia com que as ondas – agora mais revoltas – se jogassem contra aquela barca leve, querendo tragá-la para o intestino do segredo mais remoto, para o caminho abissal do sigilo e das formas sigilosas. Chegava de lento a nossa mocidade e, junto com ela, o mundo se criava em nós.

Da nossa terra, surgiam

– mais eminentes –

algumas colinas e povoações, certas larguras ganhavam dimensão, certas finuras estreitavam-se. O coração, no mover secreto das placas que se deslocavam, apresentava tremores de variada força e, como rompesse – às vezes – entre as passagens subterrâneas, um vago de fogo e rocha, vulcões vinham buscar na superfície uma forma de respirar, explodindo, se espalhando, ofuscando a vista com uma densa e alta cortina de fumaça, de aromas pesados, de difícil aspiração. Foi por essa altura, minha irmã, que a vida começou a nos apresentar aquele jeito estranho de amar, aquele jeito que, vestido de outra maneira, interessado por outras medidas, me confundia tanto. Você, sempre muito troante nas suas coisas, desconcertava os rapazes, tinha-os todos na mão. São só garotos – você dizia. Acho que não gosto muito deles, Clarisse. Como dizer, minha irmã, o que não tem nome? Como te contar a minha falta de jeito, o que, até muito depois, era o meu defeito e a minha reprovação? Nós duas, ali, entre as árvores, e no pomar da nossa quase adolescência os arbustos começavam a despontar a primeira floração. Eu despertava cedo, antes que os olhos ensolarados pudessem ver a meu delito, e endireitava as pétalas, dava a elas, com um bocado de tinta, o tom da regra e moldava, de arame e barbante, a forma e a direção do caule. Assim, minha irmã, com um pouco de arte e manha, eu disfarçava de natural a minha natureza, evitando o despontar dos frutos que, cedo ou tarde, revelariam a todos a veracidade de um pomo novo. Durante muito tempo, você sabe, nas horas escuras da noite, eu tive de colher, dando a impressão, pouco convincente, de que as minhas flores eram de madre seca, de que era estéril a minha ramagem. Nós duas, Clarisse, no quintal; eu a te contar em voltas e através de outros nomes o que me parecia indizível. Você, muito aplicada e concentrada sempre, muito entendedora e muito perspicaz, na medida em que as mãos consultavam a saúde das folhas, percebia o movimento secreto da colheita e a ausência na ferida dos galhos. Nada de mal nisso – você dizia. Nada de errado. E os seus olhos confirmavam a carga colossal das palavras e o seu abraço – selo legitimador daquela segurança – acertava as pontas soltas e cerzia qualquer tontura. E você dizendo aquelas coisas desarrumadas, aquelas coisas que vinham de você, de algum lugar em você, que cresciam – sobre o trato meticuloso de uma jardineira paciente:

Em português – você dizia –

Amor é coletivo de amar.

Os amores são muitos, são tantos, minha irmã, que se déssemos uma palavra para cada um deles passaríamos a vida a dizer os nomes do amor e não faríamos mais nada a não ser nomear. E aí, se tomássemos como necessária essa campanha, que tempo nos restaria para amar? A palavra amor, como síntese complexa de muitas coisas, é o que nos dá tempo para amar. Muitos anos depois, descobrimos juntas que os gregos tinham nomes diferentes para o que nós chamamos amor. De onde vinham aquelas explicações, Clarisse? De onde, aquela certeza? O meu gosto, em via diferente, transviado, que tanto me assustava, parecia – na sua voz – o mais comum dos frutos. A família toda, os familiares todos, e as mulheres da nossa rua e as amigas da mãe. Tão diferentes. Chegamos juntas, eu – quase sempre – onde você estava, quase sempre, fazendo o que você fazia. Em que baú escondido, em que prateleira alta, você tratava de cultivar aquelas maravilhas, minha irmã? Foi através do seu gesto de cuidadora amorosa, através do seu semear, que o campo em mim foi se deixando abrir, que o sol, antes revelador da proibição, começou a iluminar, convidando para cima os brotos e as plantas recém chegadas. Foi nas suas conversas que a noite, antes acolhedora e senhora do meu assombramento, acenou traços de sossego e descanso, por mais que outras vozes viessem salpicar de duras gotas a lavoura inaugural e ainda imatura. E quando a sua doença surgiu, irmã, eu procurei, sem encontrar, o reduto antigo das suas crisálidas de luz, mas nada luzia no receio da minha falta, nada cintilava em mim que pudesse servir de conforto às suas aflições. Você, que me ajudou tanto e tanto me ensinou e tanto me acolheu, ficava agora, frente ao terror da descoberta, com o meu silêncio e a minha companhia muda. Quando as vozes começaram, você foi se calando e nivelando, lentamente, o seu silêncio ao meu. Como fossem ervas daninhas, surgiram as vozes no meio do roçado e sempre que a limpeza aparente nos comunicava o fim da tormenta, sempre que virávamos as costas –  seguras de que tudo seguiria bem – novamente, das profundezas incompreendidas da terra, uma nova onda de ramagens invadia o seu repouso. Eu não percebi, minha irmã, mas – agora – com a presença imperativa da sua distância, começo a acreditar que, quando as vozes começaram, você foi se terminando e se deixando terminar. Que lugar cresceu dentro de você, Clarisse? Que lugar era esse que eu não podia alcançar?

Lucca Tartaglia é doutorando em Letras Vernáculas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Letras (Estudos Literários) pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (2014) e graduação em Letras (Língua Portuguesa / Literaturas de Língua Portuguesa) pela mesma instituição (2013). É colaborador, como membro estudante, do Núcleo de Estudos Portugueses (NEP) - atuando na linha de pesquisa Literatura, Cultura e Sociedade - e, como pesquisador, no grupo Formação de Professores de Línguas e Literatura (FORPROLL), linha de pesquisa Estudos de cultura, linguagens e suas manifestações, ambos vinculados ao CNPq.

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