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Uma análise da historiografia urbana brasileira

ANDRIUS ESTEVAM NORONHA

Esse artigo pretende compreender alguns apontamentos teóricos abordados em pesquisas, voltadas para o campo historiográfico e focado no debate do espaço urbano brasileiro. Essa discussão nos remete a refletir sobre a dinâmica das transformações, crescimentos, sentidos e funções que as cidades brasileiras  passaram com as intervenções feitas, tanto pelo Estado quanto pelas distintas classes sociais em seus respectivos espaços de sociabilidade. O resultado foi avaliar as várias manifestações que contribuiram para explicar o processo socio-espacial e o projeto político de cada grupo de interesse dentro e fora do Estado.

O crescimento e a proliferação das cidades marcaram profundamente a história europeia no século XIX o que instigou a nova historiografia refletir sobre a dinâmica desse processo. Há uma relação estreita entre a história da cidade latino-americana e da cidade europeia, pois parte importante da elite que foi treinada para exercer a gestão pública tem conexão com as correntes difundidas num contexto de ascensão política da burguesia. Deve-se destacar que a Engenharia e a Medicina passaram a integrar o escopo estratégico de formulação e execução de planos pilotos que visavam a melhoria da circulação dos espaços urbanos da Europa e posteriormente a América Latina.

De acordo com Ronald Raminelle (1997), a historiografia que aborda o caso brasileiro apresenta como problemática a dimensão social do planejamento urbanístico das cidades em duas perspectivas: a primeira, pautada na ocupação desordenada do espaço urbano sem consultoria especializada e legislação. Além disso, aproxima a realidade social herdada do sistema colonial escravista uma vez que o saneamento era de responsabilidade dos negros escravizados o que tornou tardio o planejamento urbano; a segunda, marcada pelo processo de modernização no final do século XIX, inspirada nas reformas urbanas levada a cabo por Georges Eugène Haussmann em cidades como Paris e posteriormente Londres, Viena, Amsterdã, Nova Iorque, Boston, entre outras.

De acordo com José D’ Assunção Barros (2007), a Revolução Industrial contribuiu para inserir a organização do espaço urbano como pauta estratégica de políticas públicas do Estado Nacional gerenciado pela burguesia. A decadência da nobreza (voltada para o espaço rural) e a ascensão da burguesia (voltada para o espaço urbano) inseriu uma nova agenda programática a luz do novo centro de poder social e político da sociedade ocidental. Isso levou a reordenação do espaço e a configuração do que se desejava como a “cidade ideal”, cabendo aos governos, viabilizar propostas higienizadoras e soluções para a vida urbana apoiados na Engenharia e Medicina.

Esse processo ganha dimensão no século XX, no qual vivenciou um acelerado processo de urbanização, sobretudo, nos países emergentes como Brasil, Argentina, Chile, África do Sul, Índia, China entre outros. Surgiram as megalópoles que interligavam várias cidades que foram infladas com o acelerado processo de industrialização. Em virtude dessa dinâmica, às antigas funções administrativas, políticas econômicas e culturais da cidade foram incorporadas a outras mais recentes como redes mundiais de trafego de informações, de capitais e de pessoas.

Em virtude dessa mudança, a cidade colonial tornou-se um entrave à modernidade forçando a elite política brasileira da I República a aderir aos novos padrões de planificação urbana. Desse modo, houve a necessidade de por abaixo seus cortiços e ruas estreitas para que fosse reconstruída e alargada, despejando assim, sem qualquer política de integração, os pobres para regiões periféricas.

Para Raminelle (1997), a historiografia brasileira, por um longo tempo, definia os estudos sobre a cidade dentro do padrão de análise vinculada ao âmbito econômico com forte influência da Geografia e Sociologia. Alguns historiadores brasileiros do início deste século se dedicaram aos estudos de Werner Sombart (1902), Max Weber (1905) e Henri Pirenne (1962) com o objetivo de procurar um modelo teórico que permitisse caracterizar a cidade como um espaço econômico e autônomo em relação ao campo.

Para Roberto Luis Monte-Mor (1981), a cidade é o maior espaço de comando e articulação da economia capitalista em dimensão global e compreende como centro de poder socio-cultural, econômico e político que produz e faz o espaço urbano regional. O autor aborda vários elementos que permite a reflexão sobre a evolução do pensamento historiográfico brasileiro relacionado ao espaço urbano. Reforça os elementos da influência europeia na formulação de políticas públicas específicas para a gestão do espaço urbano centrando na análise segregacionista de evolução.

Para Capistrano de Abreu (1907), a cidade colonial foi um mero aparelho administrativo ou um meio caminho entre os engenhos e os centros europeus de comercialização do açúcar. Todo o processo de saneamento era atribuída ao escravo, fator que teria impacto no processo de urbanização acelerada no século XX. Assim, como na Europa aristocrática, o espaço urbano brasileiro do período colonial foi deixado de lado. Somente com o advento da I República e a formação da burguesia brasileira é que o espaço urbano foi revitalizado, mas ainda predominava o seu caráter aristocrático e segregacionista.

Sérgio Buarque de Holanda (1984) defendia uma posição semelhante, quando ressaltava a presença avassaladora do campo sobre a cidade. Os centros urbanos brasileiros, “nunca deixaram de se ressentir fortemente da ditadura dos domínios rurais” (HOLANDA, 1984: 58). Os processos de independência, iniciado com a vinda família real portuguesa, em 1808, e a inserção do país ao mercado internacional, promoveram uma série de mudanças nas cidades brasileiras. Ao longo do século XIX, sofreram transformações profundas na economia como as Leis de Terra de 1850, a abolição da escravidão de 1888 e diversas reformas variadas de cunho liberal que consolidariam a República.

Em relação a Lei de Terras, o impacto dela foi determinante para a consolidação da desigualdade social no país e consequentemente do espaço urbano. Até a existência dessa lei, as terras devolutas eram de quem trabalhasse nela, assim, a elite brasileira, se preparando para o inevitável processo de abolição da escravidão, estrategicamente, impediu o acesso da população pobre a terra. Com a abolição, a maioria dos negros são jogados para os cortiços urbanos que seriam demolidos nas reformas urbanas da I República, forçando a buscarem os morros para a ocupação em favelas em zonas periféricas.

Para Romero as modificações foram consideradas em duas perspectivas: a primeira ditada pelo modelo europeu, denominada “desenvolvimento heterogêneo”; a segunda, foi o resultado de alterações da estrutura interna, do funcionamento da cidade e, sobretudo, da relação entre os diversos grupos sociais. Nas últimas décadas do século XIX, o “desenvolvimento heterogêneo” foi explicado a partir das principais alterações no perfil urbano das cidades latino-americanas. A segunda fase da Revolução Industrial, iniciada a partir de 1840, forçou a inclusão destas sociedades no mundo capitalista. Não é a toa que foi a partir desse processo que a pressão sobre a escravidão caiu com mais força no Brasil e no sul dos EUA. As burguesias aceitaram, então, a ideologia do progresso, realizando o “desenvolvimento heterogêneo” da cidade em detrimento do “desenvolvimento autônomo”.

Por fim, a historiografia brasileira também salientou as reformas urbanas e a politização do espaço público que sofreu processo de segregação social onde é possível observar a ocupação da população rica, da classe média e da população pobre.

 

Referências

 

ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial, 1907.

BARROS, José D’Assunção. Cidade e história. Petrópolis: Vozes, 2007

Monte-Mór, R. L. (1981). Do Urbanismo à Política Urbana: notas sobre o caso brasileiro.Unpublished manuscript, Belo Horizonte.

PIRENNE, Henri. As cidades na idade média. Lisboa: Europa-América, 1962.Original: Les villes au moyen Age.Bruxelas: 1925].

RAMINELLI, Ronald. História Urbana. IN Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia. 5ª Edição. Editora Campus. Rio de Janeiro. RJ. Brasil.1997

Romero, José Luís. Latinoamérica: las ciudades y las ideas. México: Siglo XXI, 1976.

Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, Rio de Janeiro, 1984, pp. 41-58

SOMBART, Werner. Ursprung undWeses der Modernen Stadt. In:SOMBART, Werner. Der ModerneKapitalismus. Leipzig: Duncker und Humblot, 1902.

WEBER, Max. The City. New York: Free Press, 1958. [Original: 1905].

 

Graduado em Estudos Sociais Habilitação Em História pela Universidade de Santa Cruz do Sul (2003), mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Santa Cruz do Sul (2006) e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2012). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Amapá. Tem experiência na área de História, com ênfase em História, atuando principalmente nos seguintes temas: santa cruz do sul, elite local, ditadura militar, rio grande do sul e prosopografia.

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