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DA FÉ CRISTÃ COMO ELEMENTO DE AGLUTINAÇÃO NO ARRAIAL DE BELO MONTE

Ronaldo dos Santos Ribeiro, de família de sete irmãos, nasceu carioca e vive no interior do Estado do Rio de Janeiro. Voltou a estudar com 49 anos para cursar História na Universidade Federal Fluminense, em Campos dos Goytacazes. É Licenciado  e Bacharel em História, tendo produzido Trabalhos de Conclusão dos Cursos voltados para o tema Canudos, como movimento de trabalhadores rurais, sob a orientação da Professora Doutora Marcia Carneiro.

O artigo apresentado é parte de sua pesquisa dedicada às análise das multifacetadas interpretações acerca do acontecido no Arraial do Belo Monte, Canudos, em fins do século XIX, tempos de transição do Império à República. Ronaldo, anteriormente, já investigou as presenças/ausências das citações do processo e da guerra deflagrada contra os caboclos de Canudos nos livros didáticos do Ensino Básico brasileiro.

 

DA FÉ CRISTÃ COMO ELEMENTO DE AGLUTINAÇÃO NO ARRAIAL DE BELO MONTE

RESUMO

Há muito, historiadores, tendo como base o livro Os Sertões de Euclides da Cunha, interpretam a Guerra de Canudos tendo como perspectiva o messianismo e milenarismo. Nesse artigo procuraremos analisar como a doutrina cristã era compreendida por Antonio Conselheiro e seu reflexo na vida e nos anseios do sertanejo.

I. Introdução

Ao refletir sobre Canudos, me reporto de forma especifica a um debate em torno da fé como fio condutor do processo que levou à implantação, organização, resistência e destruição do Arraial de Belo Monte. Um processo com importante significado religioso, o que contribuiu para sua capacidade de aglutinação no espaço e tempo daquela comunidade.

Os discursos em que os processos de bem-estar estavam intimamente ligados à uma suposta salvação traziam no seu bojo o ideal de materialização do Paraíso celeste aqui na terra. Nesse sentido, este trabalho buscará refletir sobre a religiosidade dessa sociedade em seu contexto.

É notória – mesmo reconhecendo avanços – a permanência de meios de subordinação do agricultor brasileiro quanto às relações de trabalho que, apesar das modificações nos sistemas econômicos, configuram-se enquanto formas de subordinação, ou subalternidade, mantidas com a exploração do trabalho sob uma relação pessoal, que desconsidera “obrigações profissionais”, afirmando o poder econômico como ordem hierárquica entre aqueles que detêm os meios de produção e aqueles que precisam “vender” suas forças de trabalho para garantirem seus sustentos e a sobrevivência de suas famílias. Sendo o campo brasileiro ainda permeado por práticas de exploração que parecem reproduzir as relações da escravidão, as condições de submissão do camponês, no Brasil podem ser analisadas sob a ótica da negação da cidadania liberal, absorvendo, numa visão de imposição hegemônica os aspectos de violência simbólica, como as expressões religiosas dos habitantes do campo. Acompanhando a análise de José de Souza Martins, em O Cativeiro da Terra (1986), observa-se que o capitalismo, em sua expansão no Brasil, apesar de provocar a redefinição das relações sociais, desde a substituição da mão de obra escrava por assalariada, desenvolve relações sociais não capitalistas que, paradoxalmente, são, ainda, no início do século XXI, propulsoras da manutenção da reprodução do capital.

Nessa perspectiva, deve-se levar em consideração, neste trabalho, o debate conceitual sobre a religião no seio de movimentos sociais, mais especificamente, Canudos, percebendo-o como resultado da estrutura econômica e social hegemônica no contexto da transição do Império à República, em fins do século XIX, no Brasil. Da mesma forma, contribui para esta reflexão, uso da análise de Gramsci sobre as relações infra e superestruturais, no contexto de formação do Estado de tipo Ocidental – enquanto modelo finalizado da organização política burguesa, segundo Gramsci – contribui para a análise do contexto de instauração da República no Brasil e de que forma o regime instaurado contrapunha-se ao que considerava resistência do “velho Regime”.

A história de Belo Monte traz em seu arcabouço ideológico a presença de elementos místicos e religiosos; como o Sebastianismo de Portugal, que teve reflexo em nosso país, em acontecimentos como Canudos e Contestado. Também, é notória a presença de pontos em comum entre o cristianismo primitivo e o Arraial de Belo Monte, como por exemplo, a partilha.

A chamada “revolta de Canudos” pode ser estudada a partir da concepção do cristianismo como representação social. Sendo assim, a religião teria papel fundamental, podendo ser compreendida como uma forma de controle social e político. Principalmente se levarmos em consideração como os sertanejos se viam diante da sociedade a que pertenciam.

A situação econômica, política e social do Brasil no final do século XIX e início do século XX, foram cruciais para o surgimento de movimentos inseridos numa tipificação messiânica por estudiosos e por setores sociais que assim o reconheceram. O Messianismo é compreendido como fenômeno social que traria como característica, a imagem do Messias, o Salvador. No caso de Canudos, o Deus cristão. E nesse sentido a figura de Antônio Conselheiro consolidaria a perspectiva escatológica da esperança. Ele transmitiria a Fé, seria carismático e teria uma autoridade natural. No contexto em que viviam os sertanejos (miséria, fome, seca e ausência de trabalho regular), o surgimento de alguém com promessas vindas do Céu que se realizariam na Terra, pareceriam aos sertanejos pobres, a redenção.

 

¹ O Sebastianismo trata-se da crença entre portugueses, do retorno salvífico do Rei D. Sebastião, morto na Batalha de Alcacer-Quibir, norte da África, numa cruzada contra os mouros, em 1578 (Mito do Encoberto). A volta de D. Sebastião significaria a salvação portuguesa do domínio dos espanhóis, sob a Dinastia dos Habsburgos. Desde então, D. Sebastião passaria a representar o salvador de Portugal, por extensão, do Brasil, em qualquer ocasião de opressão. O fato do episódio de Canudos conter elementos sebastianistas, os governantes republicanos o trataram como traição à Constituição de 1891, que impunha a República como Cláusula Pétrea, pois a crença envolvia a salvação por um rei.

 

A igreja não o reconhecia e nem aprovava seus métodos. O clero não aderiu, embora alguns fossem simpáticos ao que ali acontecia. Como hipótese singular, colocarei como perspectiva de análise a existência, em Canudos, de um viés superestrutural que está intimamente ligado à relação cotidiana dos homens com a religiosidade e suas implicações em decisões que tomam.

Ao reconstruir as memórias daqueles que, mesmo numa condição de subalternidade foram os produtores de uma ideia coletiva, é preciso considerar as relações de produção das idéias dialeticamente, numa concepção materialista histórica, analisando as contradições em que a transmissão de valores, enquanto ideologia, repercutem circularmente na sociedade como um todo, reverberando os aspectos religiosos compartilhados histórica e culturalmente nas sociedades, em contextos específicos ou ampliados no tempo e espaço. No caso do cristianismo rural, o fenômeno de Canudos tratado como movimento social, considerando, como aponta Luitgarde Cavalcanti Barros;

“como rotura entre a instituição da Igreja Católica – o Vaticano – e a concepção de catolicismo das baixas camadas, ou catolicismo popular, entendido aqui, na perspectiva gramsciana, como catolicismo das camadas dominadas’. (BARROS, 1988: 30).

Torna-se necessário contrapor a memória do evento particular à produzida para a versão oficial da História, tendo em vista uma percepção antropológica e diferenciada de  indivíduos que construíram o processo analisado. Nesse sentido, Le Goff escreveu;

“Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva. (LE GOFF, 1984:13).

Entende-se, neste trabalho, que quaisquer estudo, análise, teses ou pesquisa sobre Canudos devem ter como referência (mesmo que possa ser questionada), o relato de Euclides da Cunha contido em Os Sertões, considerado por muitos estudiosos, uma matriz elementar no que se refere ao processo de formação de um pensamento sociológico e histórico, de uma parte das primeiras experiências como Estado-Nação. A obra euclidiana é uma espécie de matriz conceitual para se interpretar o que foi vivenciado no interior da Bahia, enquanto testemunho privilegiado dos fatos que reinaram nos debates intelectuais de fins do século XIX e início do XX.

A obra de Euclides da Cunha contém como base a perspectiva de que a Guerra de Canudos seria o resultado do embate entre duas culturas completamente opostas: o sertão primitivo, arredio e atrasado e o litoral desenvolvido, moderno. A análise desenvolvida neste trabalho, considera a visão dos “excluídos”, do contexto popular nordestino, sua religiosidade, e principalmente, pretende deslumbrar uma perspectiva oposta da que encontramos n’Os Sertões.

Nesse sentido, me reporto ao livro Cangaceiros e Fanáticos, de Rui Facó, no qual se desenvolve uma análise que considera a existência de uma estrutura revolucionária, tendo como instrumento a religião em movimentos como Canudos, considerados pelo autor, como messiânicos. Além da perspectiva messiânica, a análise de Eduardo Hoonaert, em Anjos de Canudos, procura valorizar expressões da religiosidade popular. Nesse contexto outra questão deste trabalho, seria a análise de um cristianismo existente no interior do Brasil.

O Estado brasileiro do final do século XIX, seus entraves e conflitos, foram especialmente determinantes no que diz respeito ao surgimento de movimentos, onde a fé era o elemento principal para a real possibilidade de sobrevivência. Segundo as premissas gramscianas, o Brasil ainda estava no início de sua organização enquanto Estado do tipo ocidental. Isto significa que a sociedade brasileira ainda não estaria madura suficiente para lidar com as representações estruturais do jogo político das democracias burguesas. Nesta perspectiva, pode-se  encontrar indícios de controle social hegemônico através da religiosidade, no caso especifico de Canudos. Considerando que nesse povoado de excluídos refletiu-se a possibilidade dos seus habitantes enfrentarem as condições reais de suas existências sem perderem o sentido de mudança, o desejo de, através de seus próprios métodos, atingirem os grupos hegemônicos assentados sobre o poder político. Assim sendo, embora esta análise considere a presença de um líder, percebe-se ambigüidade na visão euclidiana, que se utiliza do conceito de submissão como elemento principal na relação entre os canudenses e o Beato Antônio Conselheiro. Penso que se assim o fosse, ao saber da morte de seu líder, não restaria nada mais por que lutar. No entanto, sabemos que mesmo assim a luta continuou, com a demonstração clara de que aquelas pessoas acreditavam na idéia ali implantada, no sentido que as suas vidas haviam tido a partir da construção do Arraial.

Quanto às teorias utilizadas nas análises acerca da religiosidade, é preciso considerar as contribuições daqueles que fundaram as análises científicas da sociedade, posicionando a religião entre as expressões sociais relevantes.

Assim sendo, é preciso apontar estas possibilidades de análises, considerando-as tão úteis como a escolhida como teoria basilar deste trabalho, a Filosofia da Praxis, apreendida e “superada” por Gramsci, no sentido em que desenvolveu conceitos que contribuem para reflexões acerca das relações conflituosas das classes que compõem o que é chamado de Estado ampliado .

Entende-se aqui que as instituições sociais comportam-se como oriundas do encontro entre indivíduo e sociedade. A linguagem como consciência real, objetiva, traz a pratica da compreensão das estruturas de cada grupo. E a cronologia dos fatos não é um roteiro bem organizado de um espetáculo exaustivamente ensaiado, pelo contrário, é a constante divergência localizada nas relações e suas conseqüências.

Canudos nos remete a pensar nas expectativas em relação a construção de um modo de agir, um jeito de encontrar respostas para as demandas daqueles sertanejos, onde os conceitos e princípios fossem idealizados. Gerados e postos em pratica por eles mesmos.

Esse demonstrativo de um processo em construção vem de encontro ao que Durkheim dizia quando se referia a grupos sociais. A coerção, o caráter exterior de fatos, ações, a passagem das histórias de gerações em gerações, são fatores que contribuem para que um grupo social seja mantido. A descrição de uma realidade social deveria  ser verificável quanto à sua autenticidade  (como realidade/verdade científica).

Assim visto, considera-se, neste trabalho, que as análises das estruturas, conforme a entendeu Karl Marx, permitem construir uma análise das disputas econômicas, políticas e sociais que constituem as múltiplas determinações que teriam como ápice o evento da Guerra empreendida pelo governo republicano que dizimou os habitantes do Arraial.

Afirmo, neste processo de análise, que Canudos não seria apenas Antônio Conselheiro e sim a denominação de um grupo social onde a fé fora utilizada como elemento crucial da pratica de uma vontade coletiva.

Entendo Canudos como exemplo de construção de uma vontade coletiva, posto que o Arraial se constituía em uma comunidade onde a fé era a base, objetivando a luta pelo direito à terra e o questionamento referente ao sistema de governo que se iniciava. Embora o propósito da comunidade de Canudos não fosse revolucionária,nem propunha rebeldia.

No entender de Gramsci, na história existem forças que atuam, tendo como parâmetro duas preposições: A primeira seria que a formação social não morre antes que estejam desenvolvidas as forças produtivas para as quais ela se propôs.

A segunda diz respeito às novas relações que não se entrelaçarão sem que tenham ocorrido condições para que isso acontecesse. De qualquer forma, ao olhar de Gramsci, a religião seria o grande obstáculo diante de uma possibilidade de reforma. Já que para ele, a fé cumpre o papel de construir através da utopia da existência de um outro mundo; onde todos pudessem ser irmãos, contradições que pudessem sossegar as massas. No sentido de compor a análise, este trabalho propõe o debate de idéias e métodos diferenciados, com a intenção de mostrar a diversidade existente naquele povoado. Uma comunidade interpretada por muitos como ignorante, liderada por um louco, e que pôs em prática conceitos sociais de indivíduos que jamais ouviram falar. Canudos foi palco da amostra mais contundente de uma pratica religiosa rudimentar, primitiva, um catolicismo bem distante da Igreja oficial. Penso que os indivíduos que compuseram essa sociedade, buscaram por uma reforma social, onde uma consciência crítica baseada em suas experiências de vida, pudesse emergir de um processo onde a autonomia fosse a condutora de sua história.

 

 

II. A FÉ COMO INSTRUMENTO DE AGLUTINAÇÃO

Tendo durante séculos confundidos em muitas ocasiões como um só; a Igreja e o Estado separaram-se, em fins do Império no Brasil, embora não se possa negar a influência da Igreja em nosso cotidiano, nem se negue a importância das bancadas católicas na República, principalmente nos seus primeiros 40 anos. Pensando assim, é que considera-se que Antônio Conselheiro e seus seguidores conseguem fazer daquele espaço esquecido, um lugar onde um cristianismo popular rompe com o catolicismo de catedrais. Trazendo na sua essência, a volta das práticas dos primeiros cristãos, e nesse sentido que Canudos é, ao meu ver,  uma grande mobilização popular socialista cristã.

Socializar através da religião é um dos elementos mais usados para se obter a adesão de um grupo de indivíduos. O cristianismo católico do Belo Monte demonstrou uma temporalidade religiosa tendo como base a realidade. O Beato Conselheiro e seu Arraial realizaram uma idéia, uma proposta diferenciada para toda a situação de penúria em que viviam os sertanejos no final do século XIX e início do século XX.

Através do conhecimento é possível delimitar a humanidade em suas práticas diárias. Esse proceder só é possível mediante a inserção do indivíduo em instituições ou grupos sociais. Assim sendo, nesse encontro entre a dinâmica rotineira e o conhecimento, constata-se o papel incisivo das instituições sociais no que diz respeito à limitação possível do conhecimento. Nesse sentido, e em certa medida, a socialização através do elemento religioso, regula o conhecimento, disponibilizando-o em doses homeopáticas, onde há uma seleção do que pode ser lido, extraído ou não.

Uma das características marcantes de Canudos foi sua resistência, comprovando a existência de um comprometimento, sem o qual, o povoado não sobreviveria.  Foi a pratica de um ideal, de uma esperança, de uma possibilidade concreta de vida, constituída na fé popular, no seu conceito e princípio.

Só o poder da fé, faria aquela gente proceder daquela forma.  Os militares republicanos podem ter destruído Canudos, materialmente. Mais seu espírito, sua atmosfera mística, divina, sobreviveu. Por várias vezes derrotou as expedições militares. Várias vezes demonstraram superioridade, tática militar e acima de tudo, alma. A batalha final, que aniquilou e incendiou Canudos foi um ato não de vitória, mais o reconhecimento de que só usando de covardia e crueldade poderia se destruir materialmente aquele espaço.

Baseando-se na pregação de Conselheiro, que dizia ser a terra pertencente apenas a Deus, os habitantes de Canudos ocuparam as terras improdutivas e abandonadas, chegando a ser a maior cidade do interior da Bahia, com cerca de 25.000.00 camponeses.

O historiador Edmundo Moniz nos descreve o que era o lugar onde o arraial foi construído:

“Canudos era uma velha fazenda abandonada com palhoça de pau-a-pique, à margem do Rio Vaza-Barris ou Ipapiranga, quando Antônio Conselheiro ali chegou em 1893. Os fieis podiam construir o seu lar, sem se sujeitarem aos caprichos das autoridades policiais nem dos grandes proprietários de terra.” (MONIZ, 1988,.43.)

Ao saber que as sagradas escrituras era a referência e a fonte de inspiração para o Beato e suas pregações, chega-se à conclusão que a experiência de Canudos fora a realização da interpretação dos Canudenses do Evangelho e não “delírio” do Conselheiro, como alguns estudiosos afirmam. O cristianismo primitivo existente em Canudos teria a intenção de “rememorar” ou realizar as Escrituras.

Considerando a instalação da Igreja Católica no Brasil como um projeto colonizador, esta participava do propósito ordenador de uma Civilização Ocidental Cristã, cujo modelo era a Europa. No entanto, não obstante esta origem, o catolicismo brasileiro se tornou peculiar diante de suas variantes regionais, em muitos casos, tragicamente ligadas as suas realidades locais. Onde as questões envolvendo política e os econômicos se tornaram fundamentais. É nesse contexto que a pratica cristã foi utilizada como instrumento de aglutinação dos sertanejos de Canudos.

A instituição religiosa católica, atravessava por uma reforma fundamental em sua forma estrutural desde  dos anos de 1860, em todo o país. Na região nordestina não era diferente. A laicização do Estado reduziu, de fato, a influência da religião na política, introduzindo o racionalismo, a soberania do poder civil (leigo), a liberdade de culto, de imprensa, e todas as demandas de um processo de industrialização irreversível. O protestantismo, junto ao processo industrial, foi acoplado como elemento propulsor de prosperidade. Como não bastasse todo esse conjunto de acontecimentos, a Igreja oficial enfrentou o cristianismo popular, o catolicismo rural, de rua, da gente comum. O cristianismo vivenciado em Canudos pode ser entendido como uma demonstração religiosa pratica, longe do clero e de suas grandes e suntuosas catedrais. Conselheiro e sua gente seguia uma rotina de preces, orações, romarias, festas aos santos padroeiros.

Considera-se, neste trabalho, portanto, que a pratica religiosa praticada em Canudos significou resistência e  propulsora da luta pela sobrevivência e pelo direito à terra. A construção de um espaço onde não houvesse explorados e exploradores.  O Arraial de Belo Monte teria sido a resposta de um povo que se via sem nenhuma perspectiva no início do século XX, fim do XIX, no sertão brasileiro.

Nesse contexto, a região do Brasil, hoje conhecida como Nordeste tinha em seu interior elementos cujas características o desenhavam como herdeiros do projeto de catequização, iniciado pela Igreja Católica, desde a colonização portuguesa. Elementos como cangaceiros, irmandades, beatos, faziam parte da paisagem onde a seca, a miséria, e o controle dos coronéis eram comuns, já que o poder central se colocava como distante não só geograficamente, mas também como presença física.

Jacqueline Hermann afirma em seu artigo Religião e Política no alvorecer da República: os movimentos de Juazeiro, Canudos e Contestado que a partir da proclamação da República, a Igreja Católica se assustou com medidas do novo regime, como a oficialização do casamento civil, o ensino público laico. Esse fator fez com que o medo de perder sua influência, despertasse sua parte crítica referente ao governo republicano. No entanto com o passar dos anos, segundo a historiadora, as duas partes chegaram a um acordo; onde o poder da instituição religiosa não foi mais questionado, tendo a Igreja aumentando o número de dioceses, seminários, em troca da diminuição das críticas a nova forma de governar.

Hermann interpreta os sertanejos e seu movimento como um grupo que fundamentava na religiosidade sua estrutura ideológica, fazendo disso uma expressão cultural. Canudos no seu entender continha um forte misticismo caracterizado em visível sincretismo, fugindo desse modo, do catolicismo romano.

A questão social e política no Arraial de Belo Monte demonstrava o vácuo deixado pelo estado em toda a região nordestina, onde líderes como Antônio Conselheiro passou a ser recipientes das demandas de uma massa desprovida de direitos básicos.

Estudiosos como Hoonaert afirmam que através de manifestações como a de Canudos é demonstrada a força do chamado “cristianismo moreno”, existente desde o período colonial.  Segundo ele:

“O cristianismo nem branco, nem preto, nem ocidental nem ameríndio nem africano, o cristianismo mestiço que se manifesta no dia a dia da vida desse país. ” (Hoonaert; 1990, p.18).

O fato é que o catolicismo vivenciado pelas camadas populares se distanciava do clero tradicional, da chamada Igreja de templo. Partindo desse princípio, procurar-se-á entender a idéia de uma religião mestiça, onde através de suas crenças o cotidiano é vivenciado de forma a arrastar multidões.

Ao se reportar à catequese e o período colonial, é preciso resgatar as intervenções das missões ou Santa Missões, como as denominava a Igreja Católica. Essas missões percorriam o interior do Brasil tendo por intenção, entre outras, a transmissão da pratica sacramental e o fortalecimento das relações entre os fiéis e a hierarquia da Igreja. Esses missionários demonstravam através de suas caminhadas, um profundo envolvimento com a vida dos sertanejos. Suas ações procuravam absorver suas culturas para agirem conforme suas necessidades. Como prática missionária católica, no estilo da expansão imperial romana, dever-se-ia conhecer os anseios da população, construindo, desse modo, uma sensação de confiança entre os fies em relação ao clero. A vida simples, e de certo modo nômade que os missionários possuíam, fortaleceu a credibilidade de um cristianismo mais próximo à realidade de quem vivia basicamente sustentado por dois pilares: a devoção e o trabalho. Sendo assim, de acordo com Honaert:

“O papel principal das Santas Missões é suscitar o sentimento de pecado e penitencia entre os que delas participam” (p.51).

Não é possível deixar de lado o crescente envolvimento social das santas Missões, já que uma proposta de catequização foi sem dúvida um motivo de integração entre as comunidades, com as construções realizadas em forma de mutirão. Dessa forma a igreja se projetava como elemento de união e comunhão.

Dentro desse contexto o surgimento de beatos e conselheiros nas caatingas e regiões mais distantes não surpreende, pois, os exemplos dos missionários deixaram o legado de levar a palavra de Deus e as obras sociais o mais longe possível.

Assim sendo, é oportuno lembrarmos o papel do Padre Ibiapina, que teve forte influência no nordeste brasileiro, inclusive sobre Antônio Conselheiro, que foi um de seus seguidores. O Padre Ibiapina era filho de um tabelião publico, estudo desde cedo o latim(Jardim CE, 1930) e as ciências eclesiásticas ( Olinda e Recife, 1823-1825).Iniciou o curso jurídico em Olinda (1825-1834) e formou-se bacharel em ciências sociais e jurídicas. Em 1835 já era juiz de direito e chefe de policia em Quixeramobim, CE. Foi eleito Deputado Geral, sendo o mais votado para a legislatura de 1834-1837.

Esse padre deu continuidade àquilo que foi iniciado pelas missões, inclusive fundando as Casas de Caridade, nas regiões mais carentes do sertão. De acordo com Monsenhor Montenegro:

“O Padre Ibiapina, vivendo no sertão nordestino, lugar de exclusão e desprezo, veio levantar o ânimo dos mais necessitados. Convivendo com os mais pobres e, com a sua cultura, valoriza a riqueza do pobre e a soberania da sua cultura, ensinado a todos o evangelho da solidariedade. ” (2004, p.63).

O Padre Ibiapina usava seu fácil acesso às famílias mais abastadas para implantar seu trabalho social. É fato que essas obras sociais não continham nenhum tipo de questionamento ou intenção de ruptura. A prática era imposta de acordo com a doutrina cristã européia: obediência em primeiro lugar, nada de perguntas. Concluo que diante de um clero distante, esporádico, as figuras dos beatos foram fundamentais para que essa política de evangelização do Padre Ibiapina  fosse colocada em prática. A oração, o trabalho e a devoção, foram elementos marcantes, senão fundamentais, para a constituição do chamado catolicismo popular. Uma diferença clara entre essa prática cristã e a desenvolvida na Europa, é de que lá esta seria mais voltada para dentro, mais pessoal. No Brasil, tinha um aspecto mais coletivo, de comunidade. Aliás, nesse contexto do sertão nordestino, o cristianismo presente tinha muita haver como o início da religião cristã. De acordo com Engels:

“O cristianismo era na sua origem, os movimentos dos oprimidos, a religião dos escravos, dos povos subjugados”.

O catolicismo social, primitivo, rural, não caminhava na mesma direção da igreja oficial. O sertanejo que rezava a ladainha, era o mesmo que empunhava um rifle, o rezador que orava por cura era o mesmo que apunhalava o seu invasor. Não havia concordância com a injustiça e exploração.

Segundo José Calazans, o Arraial não era uma sociedade sem contrastes. No entanto, a demonstração de entrega dos sertanejos deixaria explícita a total identificação dos sertanejos com a ideia, sonho e objetivo do arraial.

III. ANTONIO CONSELHEREIRO

Diante de uma realidade extremamente difícil, comunidades inteiras começaram a acompanhar beatos na esperança de pelo menos conseguirem sobreviver de uma forma digna Desse contexto surge a figura do Peregrino, conhecido como o Beato Antonio Conselheiro. O Sr.Antonio Vicente Mendes Maciel, esse era o verdadeiro nome do beato e peregrino, nascido na cidade de Quixeramobim, no interior do Ceara, no dia 13 de março de 1830 , como atesta a certidão abaixo:

“Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta, batizei e pus os Santos Óleos nesta matriz de Quixeramobim ao parvulo Antonio pardo nascido aos treze de março ano supra, filho natural de Maria Joaquina: foram padrinhos Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que para constar, fiz este termo, em que me assinei.O vigário, Domingos Álvaro Vieira ( livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, livro 11, folha 221 v”. Documento encontrado pelo pesquisador cearense Ismael Pordeus e publicado em “ O Nordeste, em 06/07/1949, Fortaleza.Apud. Calazans, 1997, p.25).

Contrariando perspectivas euclidianas, Antonio Conselheiro não era nenhum ignorante e analfabeto. O escritor Gustavo Barroso, em artigo publicado na revista O Cruzeiro em 1956, escreve:

“José Victor Ferreira Nobre informava que Antônio Conselheiro cursara as aulas de latim de seu avô, o Professor Manoel Antônio Ferreira Nobre, na cidade de Quixeramobim”.

Mesmo com dificuldades na família, Antônio consegue se dedicar a uma boa formação escolar e estuda também Português, Aritmética, Geografia e Francês. Possui uma boa caligrafia e torna-se um jovem conceituado na cidade. Em Janeiro de 1857 Antônio Conselheiro se casa.

Certidão de Casamento de Antônio Vicente Mendes Maciel e Brasilina Laurentina de Lima:

“Aos sete dias do mês de janeiro de 1857, nesta matriz de Quixeramobim, pelas oito horas da noite, depois de preenchidas as formalidades de direito, assisti a receberem-se em matrimônio e dei a benção nupciais aos meus paroquianos Antonio Vicente Mendes Maciel e Brasilina Laurentina de Lima, naturais e moradores nesta freguesia de Quixeramobim, esta filha natural de Francisca Pereira de Lima e aquele filho legítimo de Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina do Nascimento, ambos já falecidos, sendo dispensados do impedimento do terceiro grau atinente ao segundo, de consanguinidade lateral desigual; foram testemunhas José Raimundo Façanhas e Pedro José de Matos; do que para constar mandei fazer este assento que assino. O Vigário interino José Jacinto Bezerra”.

(Arquivo do Arcebispado. Quixeramobim. Casamentos Liv. 4 p.53 / Apud Ismael Pordeus in “O Nordeste”, 26.09.1949. / Arquivo de José Calasans/Núcleo do Sertão, UFBA- Universidade Federal do Estado da Bahia)

A partir desse momento Conselheiro mudaria seguidamente, tanto de cidade como de profissão; sendo em muitas ocasiões negociante, professor, advogado e balconista. Inclusive em muitos lugares o chamavam de advogado dos pobres. Em 1861, acontece o que muitos classificam como motivo maior para suas andanças pelo interior; ele é abandonado pela esposa, que foge com um componente da policia local, isto é, em Ipu, no Ceara. Abatido, ele deixa tudo para trás e vai para uma fazenda, e dedica-se ao magistério. Após alguns anos, Antônio segue para Santa Quitéria (CE) e conhece Joana Imaginária, mulher meiga e mística que esculpia imagens de santo em barro e madeira e com ela teve um filho chamado Joaquim Aprígio.

Trabalhou como negociante de varejos, percorrendo os povoados da região e de 1869 a 1871 fixa-se em Várzea da Pedra, insistindo com os negócios, mas os fracassos comerciais e provavelmente suas convicções religiosas o levaram a iniciar uma nova fase de sua vida, peregrinando por todo o Nordeste. Num dos seus discursos ele diz: “vou para onde me chamam os mal aventurados”, retomando assim uma longa caminhada pelos sertões. Alto, magro, cabelos e barba crescidos, sandálias de couro, chapéu de palha, vestido sempre com uma túnica azul clara amarrada na cintura por um cordão com um crucifixo na ponta e um bastão na mão; esse era o Peregrino.

Peregrino esse que deixou marcas em quem o conheceu, é o que mostra um trecho das memórias de Honório Vilanova, sobrevivente da Guerra de Canudos e irmão de Antônio Vilanova, um dos principais líderes conselheristas. Este antológico depoimento foi recolhido pelo escritor Nertan Macedo, em 16 de março de 1962, em Assaré (CE), e publicado na íntegra no livro Memorial de Vilanova (Macedo, 1964).

“Conheci o Peregrino, era eu menino no Urucu. Se bem me recordo, foi em 1873, antes da grande seca. Ele chegou um dia a fazenda, pedindo esmola para distribuir pelos pobres, como era do seu costume. Donde vinha, não posso me lembrar. Falava-se que dos lados do Quixeramobim, mas a origem pouco importa. Compadre Antônio deu-lhe um borrego nessa ocasião. O Peregrino disse a quantos o ouviram no Urucu que tinha uma promessa a cumprir, erguer vinte e cinco igrejas, que não as construiria, contudo, em terras do Ceará. Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos lhe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça. Era manso de palavra e bom de coração. só aconselhava para o bem. Nunca pensei, eu e compadre Antônio, que um dia nossos destinos se cruzariam com o desse homem. Uma tarde, ele foi embora do Urucu, caminhando vagarosamente, levando no braço o borreguinho que meu irmão lhe dera. Ficamos olhando a sua figura esquisita, durante algum tempo, do alpendre. Até que sumiu na estrada, não para sempre. (“MACEDO, 1964)”.

Nas suas andanças entra em contato com o sofrimento das pessoas, começa a construir cemitério, igrejas, muitos desses pedidos vindo dos próprios padres, que vem nele uma possibilidade de fazer algo que não podiam fazer por motivos eclesiais. Embora seu discurso fosse católico, a sua mística não agradava a Igreja, pois seu discurso iria contra a ordem já estabelecida. É o que demonstra o oficio do Arcebispo para a paróquia de Juazeiro ( BA).

Ofício do Arcebispo D. Luís (1882)

“Bahia, 16 de Fevereiro de 1882. –

Rvmo. Sr. – Chegando ao nosso conhecimento que, pelas freguesias do centro deste arcebispado, anda um individuo denominado Antonio Conselheiro, pregando ao povo que se reúne para ouvi-lo doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que esta perturbando, as consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párocos destes lugares, ordenamos à V. Revma. que não consinta em sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos paroquianos que lhes proibimos, absolutamente, de se reunirem para ouvir tal pregação, visto como, competindo na Igreja Católica, somente aos ministros da religião, a missão santa de doutrinar os povos, um secular, quem quer que ele seja, ainda quando muito instruído e virtuoso, não tem autoridade para exercê-la. Entretanto sirva isto para excitar cada vez mais o zelo de V. Revma no exercício do ministério da pregação, afim de que os seus paroquianos, suficientemente instruídos, não se deixem levar por todo o vento de doutrina.

Outrossim, se apesar das advertências de V. Revma., continuar o individuo em questão a praticar os mesmos abusos, haja V. Revma. de imediatamente comunicar afim de nos entendermos com o Exm. Sr. Dr. chefe de policia, no sentido de tomar-se contra o mesmo as providencias que se julgarem necessárias.

Deus Guarde a V. Revma. – Revd. Sr. Vigário da Purificação dos Campos. Luiz , Arcebispo da Bahia.”

(Arquivo do Arcebispado,Apud Manoel Benicio, 1899,p.54, Arquivo de José Calasans/Núcleo do Sertão, UFBA- Universidade Federal do Estado da Bahia).

Antonio Conselheiro peregrinou pelos grotões do sertão, levando o evangelho que ele acreditava ser a redenção daquele povo. A postura de Conselheiro está muito longe de um líder fanático, como induzia Euclides da Cunha, nos seus Sertões. Em suas Prédicas  (escritos de Antônio conselheiro encontrados em Canudos quando da invasão do militares. Em Proj. História, São Paulo, (30), p. 265-276, jun. 2005) deixou claro que tipo de Igreja queria levar aos fieis, revela em suas homilias e sermões um visão teológica consistente com os ensinamentos da Igreja oitocentista”(Levine, 1995;275).Sempre demonstrou lucidez, compreensão dos fatos, conhecimento profundo das escrituras, não tendo como intenção nenhum tipo de soberania, fosse ela terrena ou espiritual.O que de fato aconteceu foi que os sertanejos viram no beato um líder capaz de conduzi-los a um paraíso cristão aqui mesmo na terra, onde prevalecesse o respeito mutuo, a moral, os bons costumes e principalmente que através de um vida simples, dividida de forma igualitária se alcançaria a salvação da alma, que era no seu discurso, o que interessava.

Quando falamos em “cristianismo moreno”, podemos nos voltar ao que diz os viajantes estrangeiros nas suas crônicas no inicio do século XIX, segundo Hoornaert: “Os viajantes não conseguem reencontrar aqui o modelo da religião bem ordenada e alinhada que conhecem nas suas terras de origem”.

Na visão desses viajantes estrangeiros, o cristianismo praticado no Brasil não poderia ser levado a serio, pois faltava disciplina e ordenação, assim como estavam habituados

O Peregrino foi um homem que percorreu o sertão reformando e construindo capelas., cemitérios, orfanatos, açudes, estradas., enfim ele foi  um líder carismático. Carisma capaz de conduzir, e preparar cerca de 25.000 pessoas não a morrer em nome de Deus, mas viver a partir da crença de que eles não estavam sozinhos.

IV. A TERRA E SUA FUNÇÃO SOCIAL.

Pensar em espaço, terra, chão, por vezes, leva-se a dimensão da posse individual e egoística, privada.  É nesse sentido que a posse da terra sempre foi vista, pensada e praticada. Esse caminho trouxe a exclusão da maioria, condição previa para a implantação de processos visando a dominação e conquista. A função social da terra é vista como meio de garantir a hierarquia social e como manutenção de status quo, pela classe dominante. Democratizar seu uso, socializando-a com todos aqueles que nela produzem, nunca foi a intenção de quem as detém, enquanto meio de produção.

O que hoje vivenciamos é decorrente do que foi feito com as terras brasileiras desde a nossa invasão, prisão e escravidão dos povos indígenas, provocando o quase total genocídio das diversas nações indígenas brasileiras. Quem por aqui chegou determinou que todo o território pertenceria a “Ordem de Cristo”, sendo o Monarca senhor e administrador perpetuo da Ordem.

Em 1530, Martin Afonso de Souza, militar português, foi enviado ao Brail juntamente com a primeira expedição colonizadora, por João III, rei de Portugal. As cartas regias deram-lhe autorização para que ele pudesse administrar e governar. Parte de uma das cartas regia dizia o seguinte:

Dom João, por graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, d’ aquém e d’ além-mar, em África senhor de Guiné; e da conquista, navegação, comercio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia, etc. A quantos essa minha carta virem, faço saber que as terras que Martin Afonso de Souza, do meu conselho, olhar e descobrir na terra do Brasil, onde o envio por meu capitão-mor, que se possa aproveitar, por esta minha carta, lhe dou poder para que ele possa dar as pessoas que consiga levar e as que na dita terra queira viver e povoar, aquela parte das ditas terras que lhe bem parecer.

O uso do recurso da partilha da terra entre sesmeiros que deveriam seguir certas condições para manterem a posse  da terra cedida, a de produzir, foi sendo substituído por condições “domésticas” para manutenção de “direitos”, como arrendamento a outros, sem o conhecimento da Coroa portuguesa; impedimento do uso da terra por “homens de poucos recursos”, como constatou  Saint Hilaire, em sua Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, observando as condições econômicas brasileiras no trajeto que fez entre 1816 e 1822.

O manuseio da terra no Brasil teve como elemento fundamental o uso de mão de obra escrava. A colonização se consolidou com a subjugação dos índios, e a posterior vinda dos escravos oriundos do continente africano. O escravismo foi determinante na exploração do solo e sua instrumentação de enriquecimento por parte daqueles que aqui chegavam. Sistema perverso que permaneceu vivo em nossa história por alguns séculos.

Em 1850, quando da abolição do tráfico negreiro, a substituição do trabalho escravo pelo suposto trabalho livre trouxe perspectivas diferentes nas relações. De um lado os grandes proprietários de terra e de mão de obra escrava, que possuíam até aquele instante o acesso à terra de forma facilitada, já que esta era fruto de concessão do estado, ou em muitos casos ocupadas. Na esteira desse contexto, existia a figura dos pequenos proprietários, surgida nas brechas do processo em vigor.

Não obstante, a maioria dos trabalhadores rurais não tinha acesso à terra, já que a mão de obra era escravista. No entanto, o trabalho livre se consolidaria, em fins do século XIX, e assim sendo, as legislações que regulariam o acesso à terra, como a Lei de Terras de 1850, buscaria legitimar o acesso de poucos à propriedade privada da terra e a prática da “grilagem”  tornar-se-ia regular com a consolidação de latifúndios. A Lei das Terras teria a intenção de atender os interesses dos cafeicultores, que na época surgiam como os novos expoentes da nossa economia.  É relevante explicar que o trabalho livre e o escravo, durante muito tempo estiveram no mesmo plano de tempo e espaço, devido ao fato de que o processo de abolição em nosso país foi feita de forma lenta e gradual, fato.    Esse movimento teve origem na crise do escravismo em 1850 com a aplicação da Lei Eusébio de Queirós, proibindo o tráfico de escravos para o Brasil. Consolidação do movimento abolicionista ocorreu com a promulgação da Lei Aurea em 1888, assinada pela Princesa Isabel. Foram demais impactantes, as mudanças estruturais na política, no social e no econômico. Trazendo a possibilidade do surgimento de novas classes e também a perpetuação de outras, através de mudança de postura e de interesse. O advento da Republica, a Revolução industrial, os avanços tecnológicos. Dentro desse novo universo surgem relações conflitantes como a industrial e a do proletário.

A transição do sistema escravista para o capitalismo, com o advento da industrialização, não afastou a realidade latifundiária. Apenas transformou o escravocrata do passado em um produtor voltado para o mercado de tipo capitalista, visando a adequação dos seus ganhos às mudanças da sociedade. Mesmo buscando “novas formas”, a dominação continua, onde a subordinação dos pequenos proprietários, e de todos aqueles que prestam a algum tipo de serviço é exercida de maneira tal, que o coronelismo se constituí em base política.

A legalização da terra através da “compra”, ocorrida desde a criação da Lei de Terras, contribuiu para o surgimento da figura do retirante, do imigrante interno, do ex – pequeno proprietário, mantendo a concentração da riqueza, herança do período Imperial e colonial. O êxodo rural constante e recorrente desde o início da República, esvaziou o campo, inchou as cidades, refletindo o aprofundamento das desigualdades. Nos artigos da Lei de Terras ficam explicitas a intenção da criação da Lei como exclusiva possibilidade de se possuir terra, só através de “compra”. Assim sendo, conclui-se o prestigio social antes existente por questão de mérito, agora era visto por uma visão econômica.

Saliento que a questão das terras no Nordeste era diferenciada. No Sudeste a vinda de imigrantes e sua incorporação ao plantio de café, que se expandia, se tornou o motor da introdução do trabalho livre. Enquanto isso, na região nordestina, o inverso acontecia. Com a decadência da economia local, baseada na cana de açúcar, uma enorme quantidade de escravos – que era a mola mestra dessa sociedade – foram vendidos para a região Sudeste, e não teve a inserção dos imigrantes. Com isso, a substituição ocorreria, na região Nordeste, com a utilização da mão de obra daqueles que eram pequenos proprietários e quem com a crise açucareira perderam suas propriedades. Sendo assim, para sobreviver aceitavam trabalhar em troca de alimentação, ou por uma ridícula remuneração.

O início do regime republicano, teve como uma de suas características o uso da terra como principal instrumento de subjugação referente ao processo do trabalho. O pequeno trabalhador rural, por exemplo, expulso de suas terras pelas famílias comandadas pelos coronéis do sertão, e impedidos pela famigerada “lei das terras” de fazer ocupações, se viam compelidos a serem subordinados aos clãs donos dos latifúndios, ou simplesmente se transformar em andarilhos pelos sertões nordestinos. Exatamente nesse contexto que jagunços e beatos se entrelaçam no cotidiano do povo.

Essa falta de estrutura e as precárias condições de trabalho proporcionaram o surgimento do movimento operário no seio das grandes cidades. E assim como no interior, foi o instante em que surgem vestígios de um catolicismo com preocupações sociais. Pratica cristã que esteve presente de uma forma ou de outra, em todos os conflitos sociais que se desenvolveram no meio urbano e principalmente no interior do país.

A nova ordem política institucional baseou-se na afirmação de um estado burguês, onde a universalização de direitos fosse juridicamente implantada, essa é uma característica fundamental da chamada democracia burguesa. Vale ressaltar que a decantada universalização serviu de fato para alimentar acordos entre a burguesia e as oligarquias rurais, enquanto que a maioria da população continuava à margem das decisões políticas.

O cenário se tornou propicio para que politicamente e, por consequência, socialmente também, os camponeses ficassem à mercê dos coronéis, diante de uma estrutura onde quem quisesse sobreviver teria que seguir as orientações dos chefes políticos locais. A instalação de um novo regime, o republicano, não trouxe ampliação da participação popular, e nem tão pouco atendeu as demandas dessa parcela da sociedade. Pelo contrário, qualquer demonstração de insatisfação foi sempre tratada como caso de polícia, e não como legitimo desejo de buscar respostas para as insatisfações que se acumulavam.A realidade do campo no Brasil, permite-nos observar a violência elemento explicito da luta pela terra. Permanecemos estruturalmente em uma dinâmica latifundiária desigual.  É certo também afirmar que ao longo dos anos, movimentos se fizeram presente em uma constante busca de alternativas na luta pela posse da terra. A fé como instrumento de aglutinação social foi a plataforma de vários grupos engajados nesse processo. Nos anos 40/50, tivemos as Ligas Camponesas, com viés político, e nos anos 60 em diante uma presença marcante do catolicismo social, em movimentos como CPT- Comissão Pastoral da Terra, nas CEBs – Comunidades Eclesiais de Base, e TL- Teologia da Libertação. Movimentos e  construções ideológicas que teriam influência na formação do mais importante e reconhecido movimento dos camponeses sem Terra no Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o MST.

V. A VIDA NO ARRAIAL DE BELO MONTE.

Arraial de Belo Monte foi nome bíblico dado ao lugar onde sertanejo e Antônio Conselheiro fundou a comunidade, que passou a ser chamada de Canudos. E, ao nos remetermos para aquele lugar e naqueles tempos, devemos perguntar: Afinal, quem foram aquelas pessoas que durante quatro anos conseguiram fazer com que um sistema de governo se sentisse ameaçado?

É frustrante constatar que a falta de documentos e a destruição de indícios materiais de Canudos dificulta o registro historiográfico, no que diz respeito a esses atores que foram, a meu ver, os protagonistas dessa história. Diante desses fatos, cresce de importância a tradição oral, pois muitos dos relatos aqui descritos são depoimentos daqueles que viveram esses acontecimentos. Considerando os relatos enquanto fontes, como tais devem ser interrogadas, problematizadas e confrontadas com outros tipos de fontes. Dentre as fontes orais, destaca-se a de Honório Vilanova, sobrevivente de Canudos e irmão de Antônio Vilanova, um dos principais líderes conselheristas, que declarou ao escritor Nertan Macedo:

“Grande era a Canudos do meu tempo. Quem tinha roça, tratava da roça na beira do rio. Quem tinha gado, tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos, tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de rezar, ia rezar. De tudo se tratava, porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino. “

Manuel Ciriaco, antigo morador de Canudos, também descrevera, em 1947: “No tempo do Conselheiro, não gosto nem de falar para não passar por mentiroso, havia de tudo, por estes arredores. Dava de tudo e até cana-de-açúcar de se descascar com a unha, nascia bonitona por estes lados. Legumes em abundância e chuvas à-vontade.”

O Conselheiro, nas andanças pelo sertão, sempre pregava que num determinado instante o Bom Jesus mostraria a ele o lugar onde deveria construir um arraial que seria uma comunidade cristã, como a descrita nos Atos dos Apóstolos: “Entre eles nenhum necessitado havia, pois todos os que possuíam terrenos ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no ao pé do Apóstolo, e para cada um era distribuído conforme a sua necessidade”. Para alguns marxistas, Canudos reproduziria a experiência comunista dos primeiros cristãos.

Em Belo Monte, encontrava-se ex-escravos, caboclos oriundos de todos os estados que faziam fronteira, pessoas que vieram do cangaço, enfim todo aquele que estivesse disposto a conduzir suas vidas de acordo com as normas do Arraial de Belo Monte, arraial levantado em meio a vegetação da caatinga, onde existia um velho e abandonado povoado a beira do rio Vaza-Barris. Ali era Canudos, lugar que levava esse nome, por causa de uma planta que tinha o nome de Canudos-de-Pito, com o qual os antigos moradores fumavam longos cachimbos. Em andanças anteriores o beato havia conhecido o lugar.

O Conselheiro chegou na região acompanhado de muitos seguidores, e iniciou a construção de uma comunidade que, entre outras características, tinha o uso coletivo da terra como marca, ao se estabelecer. Determinou a escavação de trincheiras visando a segurança do lugar. Também as construções não seguiam uma ordenação costumeira, eram todas desconexas, exatamente para dificultar qualquer tentativa de invasão, assim como nas favelas que cresceriam nas cidades brasileiras no século XX.

A fama de Belo Monte correu os quatro cantos do sertão. Em toda a região o que se ouvia era que ali “corriam rios de leite e as barrancas de cuscuz”. Toda essa propaganda atraiu com certeza todos aqueles que não tinham mais nada a perder e que viam naquele lugar uma oportunidade para começar de novo. A comunidade crescia em um ritmo acelerado. Várias eram as ocasiões em que apresentaram a cidade de Belo Monte como uma prova de que os sertanejos eram incapazes, mas tudo nela tinha sua razão de ser, como bem demonstra Edmundo Moniz (1982). A aparente confusão das casas obedecia a uma estratégia de defesa, pois o Conselheiro sabia que o governo da República os atacaria.

A vida no Arraial era regida por normas. Segundo Galvão (2001), havia uma hierarquia seguida por todos. Em termos de segurança, a chamada “guarda católica”, comandada por João Abade, era responsável por toda a segurança do local. O comandante era conhecido como “chefe do povo” ou “comandante da rua”. Existia também um grupo de beatas que tinham em Tia Benta (responsável pelos partos que ali ocorriam) sua condutora. A senhora era, também, a “governanta” da residência do Conselheiro. Na comunidade havia escola, com professor e professora e que, segundo relatos orais, o próprio Conselheiro frequentava. Infelizmente nenhum registro dessa escola foi encontrado.

É bom ressaltar que o comércio em Canudos já existia antes da chegada dos conselheristas. Alguns comerciantes, que eram antigos moradores, também tinham pedaços de terra. Um desses moradores, devido ao seu conhecimento na região, fazia os contatos externos do arraial.

Talvez o mais influente e importante indivíduo de confiança de Conselheiro foi Antônio Vilanova. Ele cuidava da economia canudense e também era uma espécie de “juiz de paz”. Durante a guerra fazia parte do núcleo dirigente das operações militares e sob a sua guarda ficavam as armas e munições.

Os negros libertos constituíram parcela expressiva do Arraial onde finalmente encontraram “a alforria da terra”. José Calazans afirmara que:  “tantos homens de cor nos levam a supor que Canudos foi o último quilombo”.

 

VI. CONCLUSÃO.

Termino minha viagem por Canudos citando Raimundo Facó, que diz: “Ao elaborarem variantes do cristianismo, as populações oprimidas do sertão separavam-se ideologicamente das classes e grupos que as dominavam, procurando suas próprias vias de libertação. As classes hegemônicas, por sua vez, tentando justificar o seu esmagamento pelas armas – e o fizeram sempre – apresentavam-nas como fanáticos, isto é, insubmissos religiosos extremados e agressivos.”

O sertanejo criou sua religião própria, citando ainda Facó, que lhe serve de instrumento para a luta libertária. A igreja, por outro lado, estabelece uma “religião oficial”, denunciando estes “desvios” libertários das massas como ofensa aos seus dogmas, quando na verdade ofendem essencialmente o sistema de poder.

Pode-se perceber, a partir dessa análise que, em Canudos, como em muitos outros movimentos, a igreja fez o papel de polícia ideológica no meio rural, antecipando-se às forças repressivas. Tal como compreendeu Edmundo Moniz, a reforma agrária não foi implantada por conta das resistências das classes proprietárias, tanto no regime imperial quanto no republicano.

Na realidade o Brasil sempre demonstrou dificuldades de dar passos decisivos nos grandes momentos históricos. Ao separar-se o Brasil de Portugal as classes dominantes afastaram o povo da luta, em duras repressões, e por isso perdeu-se a oportunidade de liquidar o escravismo já em 1822 ou 1824, como propunha, embora dubiamente, José Bonifácio. Perderíamos duas oportunidades de modernizar a economia brasileira: em 13 de maio de 1888 e em 15 de novembro de 1889, quando não se promoveu a mais justa distribuição de terras e o controle do poder econômico e político dos latifundiários.

Canudos seria a resposta mais contundente e trágica ao mesmo tempo do povo sertanejo, que assim tentava livrar-se de uma tragédia anunciada e tida como fatalidade. Nesse sentido, não podemos negar (embora alguns o façam) que esse movimento foi um fato raro na nossa história; o único que não houve nenhuma participação de elites intelectuais, ou políticas.

Em Canudos, sua estrutura fora construída por pessoas comuns, gente do povo, imbuídos de suas próprias idéias, tendo como líder um homem que, na verdade, tinha um pouco mais de conhecimento livresco, mas que em nenhum momento se prevaleceu desse conhecimento para cometer arbitrariedades e subjugar quem quer que seja. De outra forma, não se entenderia o comportamento daqueles que mesmo depois da sua morte continuaram lutando.

A ideologia que movera os habitantes de Canudos, portanto, deveria ser compreendida a partir de uma realidade material, concreta, da experiência comum. Porém, aqueles que são responsáveis por propagar a história e sua memória, optam quase sempre pela moderação e acobertamento de facetas diferentes, preferindo transformar essa força sertaneja que nascera das suas necessidades, em expressão fanática, destacando seu discurso místico.

As questões que moviam o povo de Canudos por vezes não são priorizadas: o ímpeto de lutar, a valorização do espaço que haviam construído, a obstinação em não ceder, foram ingredientes vitais na descrição dessa utopia comunitária, sertaneja, brasileira, e que durou quatro anos e desafiou o regime republicano.

Algumas análises marxistas, por exemplo, entenderam que o líder de Canudos usara a religião como “um sol fictício”, como diria Marx, para se mover “em torno de si mesmo”. No entanto não levaram em consideração, também, que Marx critica a análise dos fenômenos religiosos deslocados da inserção dos homens nos seus contextos histórico, tal como coloca em sua crítica a Feuerbach: “Feuerbach não vê (..) que o próprio ‘sentimento religioso’ é um produto social e que o indivíduo abstrato que analisa pertence na realidade a uma determinada forma de sociedade. ”

Interpreto que os canudenses usam a religião para legitimar as suas atitudes já que a religiosidade aparece desenhada como sendo o porto seguro de seus habitantes, pois no seu entender, tendo-a a seu lado, a vitória seria mais fácil. Enxergar Canudos sobre a ótica da religiosidade, também é vê-la no âmbito da luta de classes, é enxergar a inserção revolucionaria que ali é feita, unindo seus reais interesses de classe e uma ideologia religiosa especifica, onde o ser é muito mais valioso do que o ter.

Alguns historiadores usam as prédicas de Antônio Conselheiro como justificativa para a negação de alguma referência sobre a reforma agrária de forma. No entanto são exatamente as citações do evangelho, onde a justiça social é sempre colocada, que levam a crer, que Canudos foi sim o início de uma reflexão sobre o que fazer com tanta terra desprovida de qualquer produtividade e ao mesmo tempo tanta gente vivendo de forma absolutamente indigna.

Creio que essa comunidade não foi feita de santos, ou de heróis, mas foi construída por pessoas que ao longo de suas trajetórias lhe foram retirados quase tudo. O que restou foi a fé como elo de ligação, como elemento condutor da esperança. Eles acreditaram que seria possível a construção de um espaço onde o produzido pertencesse a todos.

Ao contrário do que Euclides da Cunha acreditava; os papéis encontrados nos escombros de Belo Monte não eram apenas “pobres papéis” sem valor. Tratava-se, na verdade, de fontes para uma visão histórica da Guerra. Os textos, produzidos no calor das batalhas, reafirmam, na forma e no conteúdo, os traços culturais sertanejos, constituindo-se como um discurso de resistência. Com efeito, os versos dos canudenses e as predicas de Conselheiro assumem uma posição completamente oposta aos valores republicanos que Euclides da Cunha defendia em nome da civilização, do progresso e da cultura “superior”. Para ele não existia outros pressupostos considerados válidos, mas sim a crença religiosa rústica, o que configurava apenas como atraso e falta de cultura dos sertanejos. Assim, no seu julgamento “valiam tudo” para a demonstração de suas teses, porque “nada valiam” em termos culturais.

Considero que luta pela terra e seu uso social e justo teve seu início em Canudos, Contestado, Ligas Camponesas e em todas revoltas populares envolvendo a área rural. E como diz Galvão: “sem dúvida, a iniquidade sócio econômica que caracteriza a sociedade brasileira, na qual uns poucos possuem tudo, e a maioria não possui nada, está na raiz tanto da guerra de Canudos, como do MST”.

Ficou evidente aos meus olhos, que a Igreja; e nesse contexto trago para o mesmo tablado todas as denominações religiosas; sempre se deparou com um sério desafio; se comportar como um mero doador de esmolas, ou de fato e de direito se expor como anunciadores da boa nova de forma concreta aos pobres e excluídos, “ e proclamar o tempo de justiça do senhor” (Lc.4 18-19).

E na esteira de uma Igreja militante, deixo aqui uma bela reflexão de Dom Oscar Romero : ”O cristianismo não é um conjunto de verdades para serem aceitas, ou de leis para serem cumpridas. O cristianismo é antes de tudo uma pessoa, é Jesus Cristo, que nos ama e quer que esse amor se concretize no serviço a todas as pessoas, mais especialmente aos pobres, sofredores e excluídos” (Mt,25,31)

VII. Referencias Bibliográficas:

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Professora Doutora do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT) e do Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA). Membro do Grupo de Estudos do Integralismo (GEINT).

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