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MONTEIRO LOBATO, patrono da literatura infantil brasileira?

Luciano Fortunato

Nenhum autor de livros para crianças foi tão bem sucedido em ridicularizar e inferiorizar o povo negro. O Sítio do Picapau Amarelo é quase uma catequese racista. Todos os personagem negros são caricaturas. Há até o resgate da lenda do Saci, que associa o negro ao demônio. Os livros do Sítio são lixo cultural. Seu autor, um homem que apoiava a Ku Klux Klan e lutou pelo “clareamento” do Brasil, participando ativamente de sociedades de eugenia. Abaixo, um “belo” trecho de um livro com personagens do Sítio:

“Afinal as duas velhas apareceram – Dona Benta no vestido de gorgorão, e Nastácia num que Dona Benta lhe havia emprestado. Narizinho achou conveniente fazer a apresentação de ambas por haver ali muita gente que as desconhecia. Trepou em uma cadeira e disse:
– Respeitável público, tenho a honra de apresentar vovó, Dona Benta de Oliveira, sobrinha do famoso Cônego Agapito Encerrabodes de Oliveira, que já morreu. Também apresento a Princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel
na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura”. (LOBATO, 1959, p. 234)

Há alguns anos fiquei chocado ao ler (em fac simile, na Revista Bravo) as cartas racistas de Monteiro Lobato, onde ele lamenta com um amigo cientista nos Estados Unidos a falta de uma Ku Klux Klan no Brasil e que a culpa do atraso do Brasil é dos negros. Esse era o pensamento não só do nosso querido escritor, mas também de parte da ciência daquela época, que defendia a eugenia. Precisamos entender as circunstâncias do dito, evitando o anacronismo, sempre que possível. Particularmente, sou contra a retirada de seus livros, por serem eles parte integrante da formação cultural brasileira. Sou contra qualquer censura de qualquer obra: mesmo da parte racista da obra de Lobato, um autor, sim, racista, o que hoje é fato notório. Acho, aliás, que é preciso entendermos como pensavam as “grandes mentes” da cultura nacional, para assim melhor compreendermos o fenômeno do racismo, que persiste.

É editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora do ContemporARTES. Coordena o grupo de pesquisa do CNPQ LEPCON - Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade certificado pela UFABC em parceria com a UFV, UFJF, UFF, UFPA, USS e UFBA. É professora adjunta da UFABC. Pós-doutora em Sociologia pela UNICAMP, doutora em História pela USP com doutorado sanduíche pelo Centro de Estudos de Anti-Semitismo (Universidade Técnica de Berlim). Integrante Permanente da Pós Graduação de Ensino, História e Filosofia da Ciências e da Matemática (UFABC) Autora de Nazismo Tropical (Todas as Musas, 2012), Caça às Suásticas - O partido Nazista em São Paulo (Imprensa Oficial / Humanitas 2007) e outros.

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