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Um esmalte de cor arco-íris

Esta coluna, escrita pelo estudante secundarista Pedro Augusto da Costa, traz reflexões sobre psicologia, sexualidade e religiosidade ancoradas em suas vivencias e inquietações acadêmicas que, por ser sua tutora, professora e amiga o incentivei a expressar por escrito para compartilhar aqui na coluna com leitores. Pedro buscou retratar não apenas a sua realidade, mas o de muitas pessoas adeptas a religiões de matrizes africanas e homoafetivas.
Boa leitura e frutíferas reflexões! 

Adolescente líquido

A adolescência é uma fase cercada de incertezas sobre a vida, sobre como funciona esse grande organismo “sociedade”, de quem sou eu e de quem é o outro, e quando começamos a construir nossa identidade, alguns valores devem ser muito bem exercitados.

Carl Gustav Jung foi um renomado psiquiatra e psicoterapeuta, responsável pela criação de uma linha metodológica dentro da psicologia ligada à compreensão de arquétipos que constituem nossa psiquê como um todo, tais arquétipos são em sua essência um padrão de comportamento. No livro Entrevistas e Encontros, ele nos apresenta o conceito de arquétipo expondo a resposta:

“Bem, você sabe o que é um padrão de comportamento. O modo como o joão-de-barro constrói seu ninho. É uma forma herdada nele, um código inato que ele aplicará. Ou certas classes de fenômenos simbióticos entre insetos e plantas. São padrões inatos de comportamento. E o homem, é claro, também possui um esquema herdado de funcionamento. Seu fígado, seu coração, todos os seus órgãos, funcionarão sempre de uma certa maneira, cada um deles obedecendo ao seu padrão” (JUNG, p. 264, 1982)

 

Jung, 1912. Fonte: Wikipédia

Padrões, padrões e mais padrões, a vida de um adolescente atualmente é cercada de paradigmas sólidos de como devem agir, digitar, falar, vestir, gostar, ser, crer e etc, e quando um adolescente começa a criar a sua persona, construções como essas são altamente levadas em consideração, para que a psiquê do individuo possa ser conservada em aspecto social. A “persona” é um arquétipo, que possui como função a forma que o individuo se adequa ao seu meio de convivência, polindo seu comportamento mediante à esfera social em que ele está inserido.
Seu nome é inspirado pelo termo romano para designar máscara. A máscara que os atores utilizavam no antigo teatro greco-romano. Portanto, ela simboliza o rosto que usamos para o encontro com o mundo que nos cerca. Jung (1982) define persona como:

“A palavra persona é realmente uma expressão muito apropriada, porquanto designava originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia desempenhar. Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva.”

Quando o conceito de persona é complementado pela visão de Zygmunt Bauman de uma sociedade fluída e confusa como foi apresentado em “Modernidade Líquida”, 2004, onde na sociedade contemporânea, emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações, inferimos que tal arquétipo torna-se cada vez mais adaptável e mais raso, transformando-se então confuso, complexo e efêmero.

Máscara Veneziana. Fonte: pt.depositphotos.com

Como supracitado pela professora Soraia, sou estudante secundarista da escola pública “E. E. E. I. Papa Paulo VI”, localizada em Santo André- SP, me chamo Pedro Augusto da Costa, exemplo clássico de um adolescente que através de estudos em cima de autores como Zygmunt Bauman, Carl G. Jung, e alguns outros autores que abrangem o ramo da filosofia, sociologia e psicologia, desenvolve um olhar crítico sobre seu estado e sobre o meio social a qual pertence, e de uma forma poética, tento expor traços da minha personalidade, que abrangem desde a luta pelo respeito aos LGBTQ+ até aos “irmãos de fé”, termo utilizado por pessoas que fazem parte de religiões de matrizes africanas.

Segundo o GGB (Grupo Gay da Bahia), que monitora dados relacionados à crimes homofóbicos, um gay morria a cada 19 horas no Brasil no ano de 2017, “Tais números alarmantes são apenas a ponta de um iceberg de violência e sangue, pois não havendo estatísticas governamentais sobre crimes de ódio, tais mortes são sempre subnotificadas já que o banco de dados do GGB se baseia em notícias publicadas na mídia, internet e informações pessoais”, afirmou Luiz Mott, fundador do GGB, à Agência Brasil. Segundo a Organização esse foi o maior número registrado de crimes em 38 anos de atuação da ONG. Entre os registrados no último ano, 194 eram gays, 191 eram trans, 43 lésbicas e 5 bissexuais.

Segundo dados do Estadão, o Brasil recebe uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas, o jornal ainda expôs que o disque 100 (telefone de denúncias dos Direitos Humanos) registrou 1.988 acusações desde 2011. Em sua maioria, as queixas são feitas por umbandistas, candomblecistas e praticantes de religiões de matrizes africanas em sua totalidade.

Escrevi um texto poético intitulado como “Oxumaré” com características de um Orixá que traz como símbolo o arco-íris e com uma ligação direta à bandeira LGBTQ+. Além de divindades do panteão Yorubá, cito outras entidades mitológicas, como “Caos”, conhecido como o deus primordial do abismo: o “nada” que deu origem á “tudo”; um outro exemplo explicito em seu texto é o do deus “Antinous”, pouco popularizado pela mídia, ele é uma divindade pagã que prega a homossexualidade para seus praticantes, hoje é conhecido como “deus gay”.

Mandala em acetato tamanho 30cm em pintura vitral

Oxumaré. Mandala em acetato tamanho 30cm em pintura vitral. Fonte: Elo 7

Oxumaré, por Pedro Augusto da Costa
“O preto e branco hoje viraram um arco-íris, antes, uma bandeira que representava em si padrões binários, hoje mudou para as cores de Oxumaré, trazendo consigo a diversidade, a alegria e a leveza de finalmente poder tirar uma máscara que assombra a sociedade desde que Caos explodiu. lágrimas escorregaram no rosto de humanos, pois o lobo do homem atacou, e sua mordida arrancou o sangue e vida de milhares de pessoas por todo o mundo. Antinous se escondeu por séculos, mas hoje está abençoando seus filhos, que um dia, diante de chutes, madeiradas e pedradas chorou, olhando para o grande mar estrelado e questionou se o Deus que essas pessoas dizem seguir realmente era feito de amor, questionou até aonde o amor de seu próprio sangue vai, questionou até quando o caule dessa tão delicada rosa seria feito de espinhos, questionou até quando ele teria que ser quem não é para poder viver em paz.
Lembre-se que você não tem culpa por ter dentro de si algo tão puro, algo que grita para desabrochar e finalmente receber a luz do sol e da lua, algo que outras pessoas enxergam como um demônio, mas quem olha da maneira certa sabe que na verdade é a essência mais pura, mais preciosa do que diamante, algo que carrega com si um brilho tão forte, tão intenso que é capaz de guiar outras pessoas que se encontram perdidas dentro de si, seja o farol do mundo, lute pela sua felicidade, lute pelo amor e sua essência, e lembre-se que você irá cair, mas se erguerá mais forte, se erguerá mostrando ao mundo do que você é capaz, mostrando ao mundo quem você realmente é.”

Sofri aversões da família devido minha orientação sexual. O meu grupo de amigas na criou uma nova moda que se baseia em pintar apenas a unha do dedo mindinho de uma cor (geralmente vermelho, por uma questão de preferência em relação a nossa ideologia política), porém em uma manhã, minha irmã mais velha percebeu a pintura na unha, algo que gerou uma confusão dentro de casa. Desabafei com a tutora, professora e amiga Soraia O. Costa que me incentivou a escrever tal situação e denominei o ocorrido de Esmalte Vermelho.

Grupo de amigas. Fonte: acervo pessoal, 2018.

Esmalte Vermelho, por Pedro A. Costa
A primeira pincelada: Sempre aquela mais sutil, não demonstra sua verdadeira cor, não fica tão perceptível perto das outras unhas esmaltadas, mas mostra que está colorida, mostra que não é uma unha como as outras, e não há nada de errado nisso, na verdade, quando você entende, vira algo belo, a cor mostra sua verdadeira natureza, traz a leveza e uma gama de enormes significados, não esconde seu verdadeiro eu, na verdade o revela.
Segunda esmaltada: A unha já começa a se identificar, e sabe que não é como as outras, sabe que sua cor agora não é uma confusão, começa a entender sua estrutura, começa a entender o significado de seu pigmento, e sabe que o mundo ainda não está pronto para receber algo tão rico de si, tão belo, leve e puro. Olhos já se voltam para essa unha, e bocas já rogam pragas contra sua natureza.
Terceira aceitação: Agora que a unha se reconhece como é, ela deixa de relutar com a realidade e finalmente se aceita, mesmo sabendo que outros olhos a verão de uma forma distorcida… Quem dera esses olhos tirassem essa venda de preconceito que os deixa cegos. A unha finaliza sua transformação passando uma base de proteção, para que nada venha e retire sua cor, pois agora a unha está feliz consigo mesma, e nada poderá mudar isso, nem mesmo a mais forte acetona.”

Me considero um ativista, defensor do movimento LGBTQ+ e também das religiões de matrizes africanas. Em um trabalho escolar, escrevi um poema manifestando apoio a religião que sigo (Umbanda), utilizando as principais características dos Orixás como forma de resistência, intitulei o poema de: “Da minha terra para a minha cor”.

Da minha terra para a minha cor, por Pedro A. Costa

Na minha terra tem tambores
Onde dança Oya
As entidades que aqui habitam
Sofreram muito lá
Até os nossos ancestrais escravos
Viraram um grande alvo
Uma flecha que não veio de Oxóssi
Apagou a luz do palco
Lá no Planalto tem muita gente
Julgando tudo o que é certo
E desviando dinheiro de tudo o que está por perto
Mas nós somos filhos de Oxalá
Me de luz, conhecimento e paz, Epá Babá
Não nos deixamos aos Eguns
Não nos desgastamos por esses uns
Mas eu clamo pela força de Ogum
Agora eu só tenho força para gritar “Kao”
Me dá força e justiça papai Xângo
Sou resistente como a pedra de meu pai
Vou a gira, faço birra e danço maculelê
Tudo isso com a energia e alegria de um Erê
Isso veio da minha raiz
Nanã minha velha vó sempre me diz
“Tenha fé meu filho
Esse mundo ainda é muito infeliz”
Mas sou bravo, sou forte
Meu brado é rígido
Meu brado é como o de um Caboclo do Norte
Sou candomblé, sou umbanda sou kimbanda até a morte
Fala de amor ao próximo
Mas o próximo apedreja
O próximo é incomum
Para nós o amor é universal
Como o amor de Mamãe Oxum
Banho de boldo, guia no pescoço
Farofa pra Exu e doce pro Mirim
Arruda pro Vovô e chupeta pro Erê
Não nos julgue pelo que a gente crê
Não negue que respeitamos você.”

 

As vezes ser diferente dos padrões adolescentes não é fácil, mas sinto que quando estou cercado das pessoas certas, ser você mesmo é uma regra e que os padrões viram alvo de piadas.

A adolescência é um fenômeno estudado por diversas linhas de conhecimentos humanos e nos trazem indagações fortes sobre a nossa sociedade e como funcionam os papéis sociais que estão em função atualmente e que entrarão em exercício em um futuro distante ou não, e colocar adolescentes para participar de discussões sobre adolescência é fundamental para que possa haver um consenso entre a realidade e a teoria em si. Paradigmas e estereótipos que dizem que o jovem contemporâneo está cada vez mais desinteressado e “rebelde” são maléficos para a compreensão de culturas, de comunidades e de aspectos que rodeiam a nossa sociedade como um todo, logo discussões sobre a juventude e de papéis sociais com os jovens se torna algo cada vez mais necessário e infelizmente cada vez menos perceptível dentro de instituições.

Agradecemos a leitura e caso queira se comunicar conosco, deixe seu recado nos comentários. 

PEDRO AUGUSTO DA COSTA
ESTUDANTE DO TERCEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO
E. E. E. I. Papa Paulo VI

Mestra em Ensino, História e Filosofia das Ciências pela UFABC. Bacharel e licenciada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Professora de Geografia e Sociologia (PEI/SEE-SP). Produtora do programa Artvismo, Rede TVT. Trabalha com audiovisual e fotografia desde meados de 2007, dirigiu dois documentários: Transformação Sensível, Neblina Sobre Trilhos (CUFSA/UFABC/MEC/2012) que aborda a história ferroviária, sobretudo a Vila de Paranapiacaba-SP e Seja Mais (UFABC/MEC/2017) que trata a respeito da Educação em Direitos Humanos. Faz parte do coletivo de ação direta e futebol Rosanegra. Pesquisa música e tenta estudar acordeon.

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