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Conceição Evaristo e a representação ficcional da mulher negra na Literatura Brasileira

Em um ensaio publicado em 2005 com o título “Da representação à auto representação da mulher negra na Literatura Brasileira”, Conceição Evaristo evidencia a ausência da mulher negra no papel de mãe nas narrativas literárias brasileiras e questiona o efeito simbólico dessa ausência. Considerando a importância da personagem na obra literária, Anatol Rosenfeld (2016) define-a como base fundamental da narrativa, pois sua caracterização produz sustentação ao papel imaginário da literatura. Neste sentido, constituída por suas ações e pelo papel social que desempenha na sociedade, a personagem contribui significativamente com o efeito mimético da obra literária, à medida que possibilita uma maior identificação e proximidade entre o leitor e o texto literário. Antonio Candido, ao tratar do romance, reconhece sua constituição a partir do enredo, personagens e ideias e afirma que a personagem é quem possibilita a adesão afetiva e intelectual do leitor por ser ela o elemento vivo do romance. Desse modo, o horizonte de expectativa do leitor é alimentado ou colocado sob questionamento conforme se dá o modo de composição da personagem.

Retomando o questionamento de Evaristo com base na leitura destes dois críticos, a ausência da personagem mulher negra como mãe na literatura evidencia dois pontos fundamentais: o primeiro é a alimentação da expectativa de um leitor padrão, isto é, branco, masculino e economicamente abastado, que historicamente associa a figura da mãe como uma mulher branca e as mulheres negras como empregadas ou objeto de desejo sexual; já o segundo é o efeito performativo do discurso literário que, ao produzir esse imaginário, naturaliza no inconsciente dos leitores mais diversos possíveis a crença de que a mulher negra é estranha ao ambiente familiar, ao negar-lhe sua maternidade. E com isso, como observa Evaristo, produz-se o efeito simbólico de apagar a matriz africana da história brasileira.

A voz que denuncia também é a mão que procura escrever outras possibilidades de ser e estar negra na Literatura Brasileira. Em 1987, Evaristo escreveu sua obra Becos da Memória no qual narra as diferentes experiências da população negra em uma das favelas de Belo Horizonte. O livro, que somente foi publicado vinte anos depois, define a relação entre experiência e imaginário como escrevivência. Conforme Evaristo, a escrevivência é o experimento de construir no texto ficcional a fusão entre escrita e vida, pois, na medida em que existe um espaço em profundidade entre o acontecimento e o discurso literário, esse espaço faz explodir a invenção. A voz que fala no texto se enuncia esfacelada e, para que seja possível a narrativa, memória e invenção se fundem e confundem-se para constituir personagens das mais diversas.

Da matéria da memória e, portanto, da experiência e da arte criativa, Evaristo compõe as mais diferentes personagens cujo caráter é inovador na Literatura Brasileira. Entre essas personagens ressalta-se a figura da mãe negra: não mais a ama de leite forçada a criar os filhos do sinhô, enquanto os seus filhos lhe eram logo cedo arrancados de seus braços e vendidos como mercadoria desde os tempos da escravidão; agora, surge em suas narrativas a mãe moradora da favela, às vezes abandonada pelo marido, outras vezes viúva do marido morto pela polícia,  ou ainda a que reúne com suas forças matriarcais toda a família em torno de si. Personagens como Vó Rita, Maria-Velha, Joana, Ana do Jacinto, Ditinha, Dora, Natalina e tantas outras crescem e ganham dimensões estéticas significativas como possibilidades diversas do ser mulher negra para além do estereótipo produzido no imaginário racista brasileiro.

A figura da mãe negra nas obras de Conceição Evaristo ganha cores diversificadas, pois, como observa Simone Pereira Schmidt, em seu texto A força das palavras, da memória e da narrativa, a escrevivência produz corpos de mulheres negras em profusão fragmentada de narrativas que faz atualizar a relação senzala-favela. Nesse sentido, em Ponciá Vicêncio essa fragmentação se evidencia esteticamente na relação entre mãe e filha: Maria e Ponciá. Como guardadora da casa e da herança cultural, Maria se posta à beira do rio, fazendo vasilhas de barro e, quando o marido chega, ela é quem decide o que ele deve fazer em casa nos dias em que lá permanece e o que fará quando retornar para o trabalho nas terras dos brancos. Maria Vicêncio constitui-se gestora que melhor encaminha os seus e garante todo seu bem-estar, estando seu marido presente ou ausente. Ponciá Vicêncio, à medida que se depara com a possibilidade de migrar para a cidade grande e tentar construir uma outra vida, faz seu percurso de forma muito diferente da mãe. Ela não quer ser mais a matriarca que constitui em torno de si uma família. Longe da sua casa, sua terra, seu rio, enfim, longe de suas raízes, Ponciá amarga a experiência de sete abortos e da companhia de um marido que não a compreende e a agride. Apenas com o reencontro entre mãe e filha e a possibilidade de retorno a suas terras e suas raízes é que Ponciá poderá cumprir o seu destino.

Também, no livro Olhos D’água encontramos uma exposição diversa de mães que cantam e encantam seus filhos. Já no primeiro conto, ao questionar qual os olhos de sua mãe, a narradora nos apresenta um percurso narrativo da mãe na luta pelo bem-estar de seus filhos. A mãe que faz da brincadeira com as filhas uma forma de alimentá-las nos momentos em que a panela está cheia de fome; a mãe que faz das nuvens algodão-doce para adocicar os lábios sonhadores de cada uma de suas crianças; a mãe que junta sua cria pelos braços para servir-lhe de proteção nos dias de fortes chuvas e reza para Santa Bárbara proteger seu barraco. Os olhos d’água de Mamãe Oxum, como rios calmos e profundos, materializam nesta e em tantas outras histórias uma diversidade de personagens femininas na obra de Conceição Evaristo como o processo de escrevivência que faz da memória e da ficção um ato de resistência de mulheres negras que foram historicamente violentadas pelo silêncio.

Professor de Teoria Literária, autor do livro de contos "Candelabro" e apaixonado por Literatura.

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