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“Não imaginávamos que existia mais fascistas do que gays dentro do armário”: o Brasil à beira do abismo.

Eri Cavalcanti

Doutor em História pela UFPE e professor da Unifesspa

 

Este texto, como qualquer outro, carrega as marcas do tempo de sua gestação. Outubro de 2018. Começo esta escrita com um profundo sentimento de angústia, de aflição e de indagação sobre os muitos “porquês” que podem explicar o cenário catastrófico que se aproxima de forma tão violenta para o País.

Durante muito tempo, usava-se a expressão “sair do armário” para se referir às atitudes em que um homossexual se revelava gay perante a sociedade. Permanecer no armário, portanto, era resultante de um conjunto de práticas por meio das quais a sociedade reprimia toda forma de expressão dos sentimentos homoafetivos. O ato de sair do armário representava romper com o silêncio. Significava tornar presente um sentimento. Era sinônimo de fazer ver; de fazer-se presente; de sair da invisibilidade; de mostra-se e marcar uma presença. Entretanto, no cenário das eleições de 2018, outras “coisas” estão saindo do armário. A cada dia, deparamo-nos com inúmeras cenas em que as pessoas se colocam como representantes de ideias antidemocráticas.

Cresce o número de pessoas que externaliza e se identifica com ideias literalmente fascistas. Elas se orgulham, até, de se autodenominarem machistas, homofóbicas, misóginas, racistas; e publicam isso. Falam abertamente que negros devem voltar à senzala. Que as mulheres devem ficar submissas aos homens. Que os gays devem ser espancados para se consertarem. Que os indígenas são preguiçosos e não devem ter direitos a terra, cultura, liberdade e vida. Nessa dimensão, poderíamos dizer que o fascismo está saindo do armário e, com ele, estamos percebendo que existia muito mais fascistas enrustidos do que imaginávamos.

Em 2005, iniciavam as minhas pesquisas sobre ditadura militar no Brasil. Há exatos 13 anos começavam os estudos sobre o período ditatorial de 1964. Quase todas as vezes que ia aos arquivos do DOPS-PE, um sentimento me fazia companhia. Certo “ar de surpresa” misturado com algumas pitadas de “indignação”. Esses sentimentos eram constantes quando me deparava com as delações publicadas nos jornais ou nos órgãos de segurança. Diversos cidadãos civis eram estimulados a delatar as pessoas do seu convívio social que poderiam ser consideradas uma ameaça à segurança do País porque discordavam politicamente dos ditadores. Também me causava surpresa perceber, nos jornais, diversas publicações narrando que inúmeras mulheres católicas estavam indo às ruas para pedir que os militares invadissem o Brasil e derrubassem os governos eleitos para impedir que o comunismo triunfasse no País.

Ao olhar aquelas reportagens e as delações feitas nos órgãos de segurança — que contribuíram significativamente para a instauração e consolidação da ditadura, e que depois foram usadas para justificar as mais horrendas torturas — eu me perguntava “como era possível?” Como alguém poderia ir até a polícia e delatar seu vizinho porque ele pensava politicamente diferente? Como poderiam entregar aos militares pessoas que apenas discordavam e defendiam projetos políticos distintos? Confesso que, em alguns momentos da pesquisa, até imaginava que essas ações ocorriam porque a sociedade naquela época era atrasada ou desinformada. Imaginava que, atualmente, jamais iria ocorrer algo parecido. Que nos tempos atuais, as pessoas eram mais tolerantes, mais bem informadas, mais respeitosas com as diferenças. Lamentavelmente, eu estava muito enganado.

Desde a reeleição de Dilma Rousseff para presidente do Brasil, em 2014, temos assistido a inúmeras demonstrações de atitudes violentas. São pessoas que desferem agressão verbal ou física como forma de lidar com atitudes e/ou pensamentos contrários aos seus. O cenário das eleições de 2018 se tornou ambiente de guerra. Uma simples acessada às redes sociais pode nos servir de termômetro para visualizar e ter uma dimensão parcial do clima de enfretamento extremo que estamos vivendo. A violência não está limitada aos espaços virtuais. Estendem-se às ruas. Está na esquina. Está na padaria. Na farmácia. Na escola.

Cada vez mais, inúmeras pessoas se sentem autorizadas a verbalizar seus preconceitos. A externar seu ódio. Colocam para fora sua ira, seu rancor. Multiplicam-se os exemplos de atos violentos contra as mulheres, contra os negros, contra os gays, contra os indígenas. Essas pessoas estão saindo do armário e demonstrando uma face de perversidade e violência que deve nos deixar em estado de alerta. Na disputa pela presidência, no cenário atual, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) apresenta um longo histórico de demonstração de desrespeito aos principais fundamentos do estado democrático de direito. Já expressou ser contrários às políticas públicas em defesa dos indígenas. Já demonstrou não concordar com que a mulher tenha salário igual ao do homem. Ele incita a violência, cotidianamente, e defende a liberalização e o uso de arma de fogo. Já demonstrou, expressamente, atitudes de preconceito a homossexuais, a negros e a migrantes. Já foi desrespeitoso com jornalistas quando discordaram dele. Os exemplos são muitos.

Por meio de seus discursos, o candidato do PSL parece demonstrar uma representação típica de um candidato fascista. Um candidato que coloca a democracia em perigo. Seus discursos, posturas e atitudes corroboram com essa interpretação. Inúmeros jornais, sobretudo da imprensa estrangeira, têm sinalizado o perigo e a ameaça que ele representa para a jovem democracia do Brasil. Em contrapartida, os principais órgãos da imprensa, no Brasil, têm feito vista grossa a essa ameaça. Alguns, como a evangélica TV Record, fechou alianças com esse candidato.

É oportuno ressaltar que não existe lugar para a neutralidade. Todos os órgãos de imprensa que se omitem estão contribuindo com o cenário de conflito e ajudam a fortalecer o crescimento das ideias fascistas no Brasil. Optar em não fazer a crítica e mostrar o perigo é ser também responsável pelas consequências dos atos de violência que crescem em solo adubado pelo ódio no Brasil nesse momento.

Os dados da votação do primeiro turno sinalizam um conjunto de questões que merece ser colocado à discussão. Como podem tantas pessoas se identificarem com as ideias expostas pelo candidato do PSL? Como é possível tamanha adesão às ideias antidemocráticas que estimulam a violência e o desrespeito? Não se tratam de grupos isolados, mas de quase 48 milhões de pessoas que, de alguma forma, identificaram-se com as ideias desse candidato.

Talvez não caiba o sentimento de surpresa. Se formos tomados pelo pesar e lamento, não podemos continuar apenas com a indignação. Talvez tenhamos que rasgar a cortina para despir alguns “elementos” da sociedade brasileira. Por que será que a imprensa internacional já sinalizou a gravidade da situação e nossa imprensa permanece quase que muda e surda? Não acredito que seja questão de cegueira. Talvez seja questão de conivência, às vezes velada, às vezes explícita. Por isso, acredito que é necessário expor a carne podre e o pus que também formam parte da cultura brasileira, sobretudo de uma parte da população que se identifica com os valores antidemocráticos do candidato do PSL.

Por que tantas pessoas estão expressando seu ódio aos gays, por exemplo? Será porque, simplesmente, o inominável candidato também destila seu ódio a esse segmento social? Não acredito. Há bastantes indícios para acreditar que, na sociedade brasileira, existiam mais fascistas dentro do armário do que gays. Há muitas razões para o “coiso” — como ficou conhecido — ter obtido tantos votos. Uma delas, certamente, é a identificação entre o que as pessoas acreditam/pensam/desejam e o que ele representa. Nesse sentido, a adesão e o voto a esse candidato expressam muitos signos e significados dos seus eleitores.

Por esse ângulo de percepção, todos aqueles que se identificam com um projeto de sociedade progressista, menos desigual e mais justa falharam em alguma dimensão. Todos nós, em certo sentido, falhamos. Não podemos negar o caráter violento da nossa cultura. Não podemos esconder o pus vivo que pulsa nas veias dos sentimentos racistas de milhares de brasileiros e brasileiras. Não podemos esconder que corre o sangue machista nas posturas de milhares de homens que ainda acreditam que o lugar da mulher é na cozinha e que estão empenhados em fazer isso acontecer. Não há como esconder que temos uma larga parcela da população que é homofóbica, que deseja o extermínio do gay e da lésbica ou de qualquer um que não se enquadre em seu modelo heteronormativo. Não podemos negar que uma grande maioria de brasileiros destila um virulento ódio às minorias socialmente discriminadas.

Pulsam nas veias de uma larga maioria de brasileiros e brasileiras o ódio, a ignorância, o racismo, o machismo, a misoginia e a homofobia. Como podemos ter ignorado por tanto tempo esses elementos que agora saltam aos montes como serpentes famintas? É muito difícil pensar na construção — e talvez na reconstrução — de uma sociedade com tamanha adesão ao fascismo. Mas é urgente. Falhamos enquanto sociedade. Falhamos enquanto cientistas, pesquisadores/professores, formados em uma ciência que ignorou demasiadamente suas relações com a sociedade para além dos seus interesses meramente técnicos e metodológicos. Mas não há tempo para choro ou lamento. Resta-nos o combate com os nossos instrumentos dentro dos nossos espaços de atuação e condições de luta. Nossa sobrevivência não está garantida. Poderemos ser destruídos como pessoas, como sujeitos. É destruição que se projeta, e não é no sentido metafórico, lamentavelmente. Destruição simbólica. Destruição sentimental. Destruição física. Destruição existencial.

Finalizo essas palavras com dor, pesar, lamento, indignação, revolta, angústia e decepção. Mas, também, com a certeza de que TUDO é movimento, que TUDO é construção e reconstrução permanente. Finalizo com a certeza de que, se abandonarmos a luta em defesa dos nossos princípios, estaremos desistindo da vida, dando de bandeja a vitória ao fascismo. Já sobrevivemos a uma ditadura militar que vigiou, controlou, puniu, perseguiu, prendeu, processou e matou seus opositores. Espero que nunca mais isso volte a acontecer, mesmo já aparecendo sinais que indicam a real possibilidade da violência tomar conta da nossa sociedade, como ocorreu com o mestre Moa do Catendê, morto à facada por ter expressado que votou no PT ontem nas eleições presidenciais.

 

Imagem publicada no Jornal Extra, edição de 08 de outubro de 2018.

Todos aqueles que estimularam o ódio e promoveram o discurso de violência tem sua parcela de responsabilidade. Todos os órgãos da imprensa que, da mesma forma, estimularam o ódio ou se calaram diante do crescimento das ideias extremistas — que pregam a violência e a intolerância — têm igualmente sua parcela de responsabilidade nesse crime e em todos outros que estão ocorrendo ou que podem vir a ocorrer.

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