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AS BASES FILOSÓFICAS DO PATRIMÔNIO CULTURAL: O PARADOXO DA NAU DE TESSEU.

A prática do restauro busca algo impossível: tornar eterna uma matéria que que se degrada. Um problema complexo, que para ser solucionado é necessário que se recorra à filosofia.

Para iniciar este texto, é necessário primeiramente entender o significado de “paradoxo” para a filosofia, segundo a definição de Kleinman (2014) ‘(…) é uma afirmação que começa com uma premissa que aprece verdadeira, porém, com mais investigação, a conclusão acaba por provar que a premissa que parecia verdadeira é, na realidade, falsa. ’ (KLEINMAN,2014 p.28). Neste sentido, será explanado inicialmente o paradoxo da Nau de Tesseu e, em seguida, relacionado à problemática patrimonial.

O paradoxo foi publicado pela primeira vez na obra de um filósofo grego seguidor de Platão, Plutarco. Que descreveu uma longa viagem pelo mar, na qual durante o percurso, partes do navio foram sistematicamente substituídas, as velas, as placas de madeira do casco, até que ao finalmente aportar, toda a materialidade do navio já havia sido substituída. (KLEINMAN,2014 p.28)

A partir daí dentre outros, existe um questionamento principal: O navio em que Tesseu partiu de viagem é o mesmo em que ele retornou? “se o navio em que Tesseu começou a viagem for A e o navio em que Tesseu retornou for B, então, isso faz A=B?’ (KLEINMAN,2014 p.28).

Já o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) contribui para questão, ao questionar se, caso houvesse atrás da Nau de Tesseu um ser reciclador, que reaproveitasse as partes descartadas por Tesseu e as aproveitasse na construção de seu próprio navio, duas embarcações chegariam ao porto: uma delas feita a partir da materialidade da Nau de Tesseu e uma inteiramente de peças novas trazendo Tesseu e sua tripulação.  (KLEINMAN,2014 p.28). Como atracaram no porto dois navios, pode-se inferir que o navio do reciclador ( C ) é diferente do navio em que Tesseu atracou ( B ). Logo, pode-se questionar o que torna o navio de Tesseu efetivamente, o navio de Tesseu. Sua materialidade? Sua história? Sua estrutura? (KLEINMAN,2014 p.29)

Para tal, (KLEINMAN,2014 p.29) apresenta algumas teorias, que ainda assim discordam entre si. A primeira, a Teoria da Identidade Merológica, ‘afirma que a identidade de algo depende da identidade das partes que a compõe’, neste caso, o navio A, em que Tesseu começa a viagem, é exatamente o mesmo que trouxe o reciclador ao porto, C.  Porém, deve-se ressaltar que ele nunca esteve a bordo do navio C. como A e C poderiam ser o mesmo navio?

Para continuar na tentativa de responder a esta problemática, outro viés é possível: Pode-se afirmar que A = B, porém ambos não têm nenhuma parte em comum! Pode-se afirmar que A ≠ C, mas é preciso lembrar que a materialidade de ambos é exatamente a mesma! (KLEINMAN,2014 p.29)

Uma teoria que, apesar de também apresentar falhas, é a teoria da Continuidade Espaço-Tempo , que afirma que ‘ um objeto pode ter uma trajetória contínua no espaço-tempo, desde que a mudança seja gradual e que a estrutura e a forma sejam preservadas. Isso viabilizaria as mudanças graduais que foram realizadas no navio ao longo do tempo’. (KLEINMAN,2014 p.30)

Obviamente todo esse paradoxo sobre Tesseu e sua embarcação não se tratam meramente sobre questões náuticas, mas sobre uma temática muito maior: IDENTIDADE. O que torna a nau de Tesseu, efetivamente, a nau de Tesseu? O que torna um indivíduo quem ele realmente é? E por fim, a temática que se propõe este texto e essa coluna:  o que torna um patrimônio cultural, com todos os seus valores históricos, científicos e sociais, efetivamente um patrimônio cultural?

Após entender o paradoxo da Nau de Tesseu, percebe-se que os significados e identidades não residem exclusivamente na materialidade do barco, ou do bem em questão, mas nos processos de patrimonialização do mesmo.

Para sintetizar esta discussão, recorre-se ao autor espanhol Salvador Viñas (2003) que afirma que ‘ La restauración es el conjunto de actividades materiales, o de processos técnicos, destinados a mejorar la eficácia simbólica e historiográfica de los objetos de la Restauración actuando sobre los materiales que los componem.” (VIÑAS, 2003, p. 80, grifo nosso)

Desta maneira, deve-se reconhecer que os itens elencados para o seleto hall do Patrimônio Cultural funcionam como comunicadores de ceterminados valores e significados, e são, seja pela sua materialidade, pelos seus valores estéticos ou históricos, portadores de uma determinada mensagem. Por fim, destaca-se que ‘ lo que fundamentalmente se restaura cuando se restaura um bien no es el bien em sí, sino su valor simbólico, e su capacidade para funcionar como símbolo, y esta capacidad depende essencialmente de sus rasgos perceptibles.’ (VIÑAS, 2003, p. 80)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

VIÑAS, Salvador Muñoz. Teoría contemporânea de la restauración. Madrid: Editorial Sintesis, S. A, 2003.

Kleinman, Paul. Tudo o que você precisa saber sobre filosofia: de Platão e Sócrates até a ética e metafísica, o livro essencial sobre o pensamento humano/ Paul Kleinman; tradução de Cristina Sant’Anna.- São Paulo: Editora gente, 2014.

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Tiago Cunha é Arquiteto e Urbanista pelo Centro de ensino Superior de Juiz de Fora (2016) e Especialista em artes visuais (2017). Interessado por temas como preservação do patrimônio cultural e pelas relações raciais no campo da Arquitetura. Atualmente Leciona na faculdade Doctum de Caratinga, onde ministra componentes curriculares como projeto urbano, Teoria do paisagismo e teoria da Arquitetura e Urbanismo.

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