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O “Poder” do útero da Mebêngôkré Xikrin

Mirtes Almeida – FCCM

Para ser um Xikrin, o SER precisa preencher um conjunto de normas pré-estabelecidas pela sociedade Mebêngôkre. Ele deve, antes de mais nada, ser gerado no útero de uma mulher mebêngôkre (LEA, 2012), pois ele é produzido/gerado a partir de muitas relações sexuais a fim de que esse novo ser vivo vá, aos poucos, tomando forma, através de corpo e karon (espírito/alma) (a sobrevivência de um Xikrin exige essa dupla dimensão da vida). Após o nascimento do bebê, a morte, representada pela separação do corpo e do karon, é algo considerado como fácil, pois consideram que nessa fase o bebê ainda está muito mole/fraco necessitando de atenção total de seus pais e avós. Os Xikrin consideram a existência de uma forte ligação entre karon e corpo, e para que os riscos de morte do novo bebê sejam minimizados, o corpo deve ser fortalecido e bem formado de modo a melhor sustentar o karon. Portanto, é crucial que se fortaleça o corpo da criança e, enquanto ela não estiver suficientemente forte, cuidar especialmente bem, para que ela fique protegida e a salvo (COHN, 2010). Esse papel é, principalmente, dos pais e dos avós maternos e paternos.

Mas, essa produção/fabricação do SER em sujeito mebêngôkre perpassa as questões do corpo e do karon, pois ele deverá ainda, receber um nome. Esse nome é determinante na construção das relações sociais desse novo SER, pois sem ele, o sujeito será sempre uma pessoa kajkrit e kaygo, ou seja, uma pessoa comum, vulgar, falsa, que jamais alcançará o status e prestígio desejado a um autêntico Xikrin que é ser um sujeito mejx. Não diferente das demais comunidades Jê, entre os mebêngôkre Xikrin existem as pessoas que fazem o corpo físico da criança (os pais), isto é, cuidam para que o sujeito cresça forte e saudável, e as pessoas que lhe dão o nome (“familiares” no modo ocidental de pensar família e amigos formais, podendo ser representados pelos padrinhos no modo ocidental de pensar), cuidando para que esse sujeito cresça em valor/prestígio, tornando-se um sujeito mejx. Quem dá o nome são os nominadores. Esses papéis devem ser exercidos por pessoas distintas, configurando assim dois tipos de relação indispensáveis para a formação do sujeito.

E assim, o sujeito gerado na barriga da mebêngôkre Xikrin tem uma equipe responsável para desenvolver as atividades necessárias para a produção de seu corpo físico e possui, também, outra equipe para lhe dar um nome, nominação essa que é um dos pré-requisitos básicos para a construção das relações sociais necessárias à um sujeito mejx. Indivíduos de ambos os sexos possuem de 5 a 30 nomes, recebendo o nome através de vários nominadores e de diferentes gerações. Mas, o indivíduo só tem o direito de transmitir os nomes que recebeu de sua linhagem uterina materna, não tendo o direito de repassar os nomes que recebeu da linhagem uterina paterna, podendo apenas fazer uso pessoal dos nomes recebidos da linhagem paterna (LEA, 1993). A necessidade das duas equipes se dá porque, na tradição mebêngôkre, quem dá o corpo, jamais poderá dar o nome, e os papéis a serem desempenhados por essas equipes também se dão em espaços e momentos distintos (COHN, 2010).

A construção do corpo é algo a se cuidar preferencialmente dentro das habitações, enquanto o nome, que frequentemente vem acompanhado de prerrogativas rituais, permite à pessoa sua participação nos rituais, e se manifesta nas grandes cerimônias no pátio da aldeia. Os nominadores não são, portanto, aqueles que devem cuidar (prioritariamente) do corpo e do karon da criança (podemos dizer que o corpo se forma no espaço da Casa e o karon no espaço da aldeia), mas, os que lhe garantem papéis e prestígios nos rituais, e ainda, lhes insere numa rede de transmissão de identidades sociais. Segundo Cohn, para além de seus papéis sociais, os nomes sobrevivem à pessoa, mantendo-se em circulação por meio de sua transmissão (COHN, 2010).

Segundo Turner, um sujeito mebêngôkre precisa, ainda, produzir um “valor/prestígio” a sua pessoa. Todo o complexo sistema de relações mebêngôkre é orientado por essa busca de valor pessoal, (prestígio) por parte dos sujeitos homens e mulheres da comunidade. Assim, eles reproduzem seu sistema social através das cerimônias rituais, porque isso produz e torna acessível ao grupo os valores pessoais que dão às suas vidas e identidades significado e razão de ser. Mas, Turner lembra que o sistema não gera “valor e prestígio” em quantidades homogêneas para todos que cooperam com sua reprodução, o que gera pessoas e/ou grupos com valores diferenciados (TURNER, 1992).

Sintetizando essa fase de formação/produção do SER em sujeito Xikrin, a grosso modo, um mebêngôkre Xikrin só é Xikrin se nascer do útero da mulher mebêngôkre e se for cuidado seguindo conhecimentos dos quais as mulheres são as principais detentoras. É debaixo da proteção dessa Casa que as crianças vão sendo preparadas dentro das “exigências” para se tornar um sujeito mejx. E quando um sujeito homem torna-se adulto, ele deixa a habitação de sua mãe, mas permanece sob a habitação das mulheres, pois, seja como filho ou como genro, é na habitação de uma mulher que ele será acolhido por toda a sua vida. Pois, na sociedade mebêngôkre um homem não possui um lugar/habitação para chamar de seu.

Segundo Lea, na comunidade mebêngôkre, tudo é transmitido de forma matrilinear, uterina. Ela ressalta que uma coisa é a divisão sexual do trabalho, e outra coisa, é a importância simbólica do feminino e do masculino nessas comunidades. Para ela, a literatura clássica descreve as aldeias como sociedades cheias de mulheres que possuíam apenas os papéis periféricos, quando na verdade, tudo que acontece no centro da aldeia é determinado pelas matricasas (aqui podendo ser compreendido com o “poder” e “prestígio” das mulheres mais velhas da linhagem uterina que têm grande e fundamental contribuição em todas as decisões tomadas relacionadas aos filhos, casamentos, política, rituais, cisões, fusões e absolutamente tudo do cotidiano da comunidade, porque, em geral, com raríssimas exceções se tomam decisões sem levar em profunda consideração a opinião dessa mulher, pela significação de seu “prestígio” pelo “poder do utero”). Segundo as pesquisas de Lea, os mebêngôkre segmentam a propriedade, como se a aldeia fosse uma pizza: cada fatia com seu legado de nomes, prerrogativas, adornos e direito de criar com exclusividade determinados animais de estimação, que representam uma espécie de totens vivos.

Lea ressalta que um índio que mora na casa da esposa e que tenha como vizinho um irmão consanguíneo usando o mesmo cocar, vai dizer que os dois são da mesma matricasa. Daí, a Casa com maiúscula, já que a noção não é de habitação, mas de linhagem uterina e que, por isso, envolve diversas habitações, inclusive podendo ser replicadas em outras aldeias, conforme sua genealogia. Baseada em seus dados de campo, a pesquisadora acredita que a Casa é, portanto, a instituição mais importante dessa sociedade. Inclusive porque as Casas também podem ser compreendidas como uma pessoa jurídica (mais ou menos assim: você é o Paulo, mas você pertence ao quadro de cientistas do Museu Paraense Emílio Goeldi, apesar de ser Paulo, quando você está numa Banca/evento institucional, você é o Museu Paraense Emílio Goeldi, apesar de ser o Paulo) (LEA, 1993).

Para Lea, as Casas são unidades exogâmicas, cuja a identidade distintiva é substancializada metaforicamente por bens simbólicos inalienáveis que integram seu patrimônio. Saliente-se assim que, os bens herdáveis entre os mebêngôkre são bens imateriais como os nomes pessoais (grandes nomes) e as prerrogativas (nekrets). Como exemplo dessa herança de prerrogativas a autora menciona que:

  • Mulheres de determinada Casa possuem o direito de criar certos animais de estimação e que estes animais identificam cada Casa visualmente, como se fossem totens ou emblemas vivos.
  • Homens de determinada Casa possuem o direito de consumir determinadas porções de determinadas caças.
  • Ambos os sexos de determinada Casa têm o direito de fabricar e utilizar certos enfeites, desempenhar certos papéis cerimoniais e colecionar ou guardar determinados bens dentro de sua Casa.

Por isso, cotidianamente, ao mencionar um assunto referente a determinada Casa, as pessoas referem-se a ela através de um de seus principais atributos.

Entre os mebêngôkre, um sujeito não fala que pertence a essa ou aquela ‘família’, mas diz pertencer a essa ou aquela Casa, com direito a todas as suas heranças, por isso, na sociedade mebêngôkre, todos os sujeitos pertencem à Casa da mãe, por sua ligação uterina. Lea acrescenta que, quando um homem se casa e passa a se instalar na habitação de sua esposa, parte dos provimentos por ele obtidos devem ser enviados à sua Casa, ou seja, à habitação materna, suprindo sua mãe e irmãs. Por isso, quando esse homem herdou o direito de comer uma determinada porção específica de carne “bonita”, que na verdade são nekrets/heranças, ele abate o animal que lhe garante essa parte e envia esse pedaço até à Casa de sua mãe onde será cozido, e consumido por ele, idealmente dividindo com os filhos de suas irmãs, por serem eles os legítimos herdeiros de sua Casa.

A pesquisadora destaca que, tais porções hereditárias não podem ser compartilhadas com a esposa e filhos dele, ou seja, a herança é pessoal e não pode ser deixada/transmitida para ninguém que não venha de sua linhagem uterina, ainda que sejam seus filhos, pois os filhos dos homens pertencem a linhagem uterina de sua esposa, o que faz com que seus legítimos herdeiros, sejam seus sobrinhos, filhos e filhas de suas irmãs, pois herdeiro é aquele que possui ligação uterina com o sujeito. É compreensível que, depois de sua mãe, os laços mais fortes de um homem mebêngôkre sejam com suas irmãs, e se ele não possui irmãs “legítimas” as filhas das irmãs de sua mãe, ou seja, as primas paralelas matrilaterais farão o papel de sua irmã. Dentre os papéis a serem desempenhados pelas irmãs de um homem, podemos mencionar que são as irmãs do homem quem produzem seus herdeiros uterinos.

Lea esclarece que, nomes e nekrets passam exclusivamente do irmão da mãe, pai da mãe, pai do pai e ainda, da irmã do pai, mãe da mãe e mãe do pai, aos filhos dos filhos (netos), filhos da irmã para Ego masculino (sobrinhos) e filhas do irmão para Ego feminino (sobrinhas). Diante disso, Lea destaca que um homem mebêngôkre é apenas hospede habitual na habitação da esposa e jamais será chefe de família.

Permitam-me tentar simplificar o parágrafo acima, e nesse intuito, tomarei Inhok-â-ê como exemplo para pensarmos as relações de herança. A mãe do sujeito que será nominado cerimonialmente é Inhok-â-ê.

Os donos e proprietários de nomes e nekrets são: o irmão da Inhok-â-ê, o pai da Inhok-â-ê, o pai do pai da Inhok-â-ê (avô paterno da Inhok-â-ê), a irmã do pai da Inhok-â-ê (tia pater-na), a mãe da Inhok-â-ê e a mãe do pai da Inhok-â-ê (avó paterna da Inhok-â-ê), esses poderão dar seus nomes e nekrets aos seus herdeiros, aqui representados pelos filhos e filhas da Inhok-â-ê (LEA, 2012).

Os herdeiros em potencial serão: filhos dos filhos (netos da mãe da Inhok-â-ê), filhos da irmã para Ego masculino (pois serão filhos da Inhok-â-ê e, portanto, sobrinhos do irmão da Inhok-â-ê que herdarão os nomes e nekrets dessa linhagem uterina, uma vez que esse homem não pode dar os nomes de sua linhagem uterina aos seus filhos, podendo apenas deixar essa herança recebida para seus sobrinhos), filhos do irmão para Ego feminino (nesse caso a Inhok-â-ê como tia paterna dos filhos de seu irmão poderá dar para as suas sobrinhas, filhas desse irmão, os nomes e nekrets vindos da sua linhagem uterina).

Os herdeiros em potencial serão: filhos dos filhos (netos da mãe da Inhok-â-ê), filhos da irmã para Ego masculino (pois serão filhos da Inhok-â-ê e, portanto, sobrinhos do irmão da Inhok-â-ê que herdarão os nomes e nekrets dessa linhagem uterina, uma vez que esse homem não pode dar os nomes de sua linhagem uterina aos seus filhos, podendo apenas deixar essa herança recebida para seus sobrinhos), filhos do irmão para Ego feminino (nesse caso a Inhok-â-ê como tia paterna dos filhos de seu irmão poderá dar para as suas sobrinhas, filhas desse irmão, os nomes e nekrets vindos da sua linhagem uterina).

Nesse sentido, partindo da compreensão de Casa como uma instituição de extrema importância dentro dessa sociedade, podendo, inclusive ser compreendida como pessoa jurídica, segundo Lea, torna-se evidente que as Casas controlam todos os bens escassos na sociedade Mebêngôkre, entre esses bens podemos incluir os nomes bonitos que provocam/promovem/originam as cerimônias de nominação, os principais adornos rituais e cotidianos, e até, os chocalhos que detém um papel importante em todos os rituais (LEA, 1993).

Recapitulando as questões de formação do SER em sujeito, partindo das reflexões propostas por Lea, compreendemos então que, a fabricação e nutrição do ser humano é de responsabilidade de seus genitores. E a transformação desse ser humano em uma pessoa mejx, se dá através da transmissão da essência metafísica dos ancestrais aos seus herdeiros, transmissão essa, obrigatoriamente feita, apenas por pessoas mejx, que ocupem as posições já supracitadas (LEA, 2012; 2013).

Referências

COHN, Clarice. A criança, a morte e os mortos: o caso Mebêngôkre-Xikrin. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 16, n. 34, p. 93-115, jul./dez. 2010 p. 99.

LEA, Vanessa R. As ‘riquezas intangíveis’ dos Mebêngôkre. In: Jornal da Unicamp. Campinas, 09 de junho de 2013 a 15 de junho de 2013, ANO 2013, Nº 564.

LEA, Vanessa R. Casas e casas Mebêngôkre (Jê). In: VIVEIROS de Castro, Eduardo; CUNHA, Manuela Carneiro da. (Org.). Amazônia: etnologia e história indígena. São Paulo: USP-NHII; Fapesp, 1993. p. 265-84.

LEA, Vanessa R. Riquezas Intangíveis de Pessoas Partíveis: Os Mebêngôkre (Kayapó) do Brasil Central. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, Fapesp, 2012, p. 135-136.

TURNER, Terence. 1992. Os Mebêngôkre Kayapó: história e mudança social, de comunidades autônomas para a coexistência interétnica. In. Manuela Carneiro da Cunha (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Fapesp/SMC/Companhia das Letras. p. 311-338; p. 318-319.

Doutoranda em História Social da Amazônia pela UFPA, fez graduação e mestrado em História na UFPA. Em suas pesquisas buscou compreender as relações de gênero dentro das comunidades indígenas no sul e sudeste paraense. Trabalha como etnóloga na Fundação Casa da Cultura de Marabá e vem se dedicando a pesquisas sobre a saúde da mulher indígena no período da gravidez, principalmente com os povos Mebengokré- Xikrin, do troco linguístico Jê.

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