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DRUMMOND ENTRE O EU E O MUNDO

A crítica drummondiana tem reconhecido o dilema tanto no tema quanto na expressão poética de Carlos Drummond de Andrade entre o eu e o mundo. Como se travassem uma batalha existencial, o eu e o mundo se completam no poeta mineiro numa relação irreconciliável que resulta em poesia. Só para citar dois importantes críticos, Antonio Candido, em seu texto “Inquietudes na poesia de Drummond”, observa uma espécie de desconfiança entre o que diz e o que faz o poeta. Conforme o crítico, se aborda o ser, imediatamente lhe ocorre que seria mais válido tratar do mundo; se aborda o mundo, que melhor fora limitar-se ao modo de ser. Nesse mesmo sentido, Affonso Romano de Sant’anna, ao tratar do projeto poético de Drummond em sua obra “Drummond, o gauche no tempo”, propõe três atos distintos no conjunto de seus poemas: o eu maior que o mundo manifesto em “Poema de sete faces” na obra “Alguma poesia”:

 

mundo mundo vasto mundo,

Se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é o meu coração.

 

 

o eu menor que o mundo manifesto no poema “Mundo Grande” da obra “Sentimento do Mundo”

 

Não, meu coração não é maior que mundo,

Na verdade, é muito menor.

Nele não cabe nem as minhas dores.

Por isso gosto tanto de me contar.

 

 

e o eu igual ao mundo manifesto no poema “Caso do Vestido” da obra “A Rosa do Povo”:

 

Vosso pai sumiu no mundo.

O mundo é grande e pequeno.

 

No texto citado de Candido, há também uma distinção entre três momentos de inquietude do poeta: o primeiro abarca um lirismo individualista presente nas duas primeiras obras “Alguma Poesia” e “Brejo das Almas”, o segundo momento abarca “Sentimento do Mundo” no qual publica poemas com preocupações mais sociais como “Sentimento do Mundo”, “Confidência do itabirano”, “O operário no mar”, “Mãos dadas”, “Elegia 1938”, “Mundo Grande”, entre outros e o terceiro momento a inquietude entre o eu e o mundo torna-se metapoesia. Na obra “A rosa do povo” os três primeiros poemas tematizam a busca pela poesia: “Consideração do poema” “Procura da Poesia”, “A flor e a náusea”.

Cabe insistir que não se trata de abandono do  mundo quando se trata do eu, nem abandono do eu quando se trata do mundo, mas de tensão constante entre o “eu” e o “mundo”. Se no primeiro momento a lírica é mais individualista, ela o é em confronto com o mundo que parece desafiar o eu-lírico. Assim, o segundo momento, impõe de forma irremediável a tematização do mundo sem com isso anular o “eu” de modo que a obra “José” parece, num primeiro momento, ser um retorno para a lírica individualista, quando na realidade o “eu” já não dá mais conta desse fazer poético evidenciado tanto no poema “O lutador”:

 

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã.

 

quanto no poema “José”:

 

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

(…)

você marcha José!

José, para onde?

 

Se a luta vã é nossa, é para esse outro “eu” que o poeta se lança na inquietude entre o “eu” e o “mundo” como a evidenciar uma batalha existencial que não possibilita vencedor, nem vencido.

A Rosa do Povo, portanto, parece uma terceira aresta dessa tensão inconciliável entre o “eu” e o “mundo” e para o qual o poeta se volta para as próprias palavras. Desse modo, em “Consideração do Poema”, o “eu” se mostra cindido entre o que diz e o que faz:

 

Não rimarei a palavra sono

Com a incorrespondente palavra outono.

 

se, no plano do conteúdo, inicia com uma negativa ou não querer rimar; no plano da expressão, a palavra se impõe na rima entre sono e outono operada pelo adjetivo incorrespondente. É nessa percepção que em “Procura da poesia”, construindo o poema em forma epistolar, o poeta aconselha como se deve fazer poesia a partir das negativas:

 

Não forces o poema a desprender-se do limbo,

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.

 

Em “A flor e a náusea”, o poeta evidencia de forma habilidosa esses três momentos de seu fazer poético. Dividido em três partes, o poema se inicia com ênfase no “eu-lírico”:

 

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjoo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

 

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

 

Como se tivesse cindido com o mundo, o poeta percorre as ruas, evidenciando a tensão entre o ser e o mundo. Contudo, na segunda estrofe, a lírica individualista se mostra impossível à medida que o poeta e o tempo se fundem. A flor como metáfora da poesia alegoriza o deslumbramento do poeta com as palavras.

Em seu primeiro livro Alguma Poesia, publicado em 1930, a poesia produz o poeta:

 

A mão que escreve este poema

não sabe que está escrevendo

 

(“Poema que aconteceu”, AP)

 

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever

(“Poesia”, AP)

 

A inquietação de Drummond é a oscilação do poeta entre dois lugares: o canto pessoal e o canto coletivo. Para o poeta mineiro, a poesia é a crença na redenção do poeta, do homem e do mundo pela palavra.

Professor de Teoria Literária, autor do livro de contos "Candelabro" e apaixonado por Literatura.

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