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ENTRE A INTERVENÇÃO E A CONSERVAÇÃO: CAMILLO BOITO E OS ASPECTOS UNIVERSAIS DA RESTAURAÇÃO.

Neste texto é apresentado o pensamento de Camillo Boito, teórico da restauração que sintetizou de maneira didática as postulações anteriores, de natureza antagônica entre conservação e restauração.

Camillo Boito. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/media/images/magazines/grid_9/d5e0_resenha230.jpg

As intervenções de restauro arquitetônico são atualmente fundamentadas em uma sólida teoria, que vem se desenvolvendo ao longo dos séculos através das contribuições de diversos teóricos. Os primeiros teóricos reconhecidos pelas suas contribuições ao campo do restauro, Violet Le-Duc e John Ruskin, apresentam visões totalmente antagônicas entre o intervencionismo e o não intervencionismo.

Nesse contexto, o primeiro teórico a buscar um posicionamento moderado, a partir das postulações dos dois teóricos anteriores, foi o italiano Camillo Boito (1836-1914). Boito sintetiza tais teorias, formulando princípios essenciais à teoria da restauração.

Em seu texto, os restauradores,  apresentado originalmente  como conferência em Turim no ano de 1884, destaca as diferenças conceituais entre conservação e restauração, chegando até mesmo a serem apontadas como opostos. Segundo o autor, conservadores são “homens necessários e beneméritos”, enquanto os restauradores são predominantemente “supérfluos e perigosos”. Desta maneira, se dirige principalmente aos restauradores, defendendo a prevalência da conservação sobre a restauração, defendendo que o restauro se restrinja ao mínimo necessário, e cunha assim seu principal preceito: A mínima intervenção.

Dessa maneira, restringindo as intervenções ao mínimo possível, faz indicações específicas às diversas artes, como evitar ao máximo acréscimos às esculturas, a menos quando rigorosamente documentados, pois estes poderiam desfigurar a obra. Sobre a pintura, era necessário saber o momento de parar, restringindo a intervenção à menor área possível, admitindo a separação entre suporte e imagem.

Porém, é sobre a intervenção arquitetônica que Boito apresenta sua maior contribuição e complexidade, se colocando de maneira crítica entre Le-Duc e Ruskin. Para Boito, Le-Duc apresentava posturas potencialmente danosas na busca por uma unidade estilística, o que poderia alterar irremediavelmente as feições dos edifícios, por outro lado, Ruskin poderia deixar os edifícios deveras abandonados, podendo entrar em arruinamento.

Para o autor, a conservação é fundamental, devendo ser realizada de forma rotineira e periódica, pois assim seria possível evitar as restaurações, mais onerosas e invasivas. Porém, Boito ressalta que as intervenções de restauro são necessárias para se preservar a memória. Para tal, aponta oito princípios que devem nortear as restaurações, evidenciando o tempo das intervenções, que difere do estado de preexistência do bem. Para tal defende a diferenciação dos materiais, o registro fotográfico de todas as etapas da obra, placas com as datas das intervenções de restauro, a exposição das peças suprimidas durante o restauro, dentre outros.

Boito preconiza a convivência de todas as fases históricas de uma edificação, pois não se deveria mais considerar o monumento em um estado original idealizado, ao considerar todas as épocas, o bem adquire valor documental, por conter em si o registro da passagem do tempo. “Milagres” são necessários para conservar os monumentos, com seu velho aspecto pitoresco, nesses casos, é essencial que os complementos, quando inevitáveis, marquem claramente seu tempo sem jamais se confundirem com as preexistências.

Cabe por fim ressaltar que Boito tinha consciência das contradições de suas postulações, admitindo que o campo do restauro ainda estava em formação.

A obra de Boito apresentou um grande passo para a teoria da restauração, visto que sintetizou as antagônicas teorias anteriores criadas por Ruskin e por Le-Duc, que respectivamente viam o restauro como ameaça ao edifício ou como oportunidade para acentuar as características do mesmo, sintetizando assim de forma lúcida os conceitos naturalmente discrepantes de conservação e restauração. Destaca-se ainda suas contribuições metodológicas para a prática, visto que o registro documental e fotográfico, o respeito às diversas fases do bem são hoje determinantes nas intervenções de restauro arquitetônico.

REFERÊNCIA

BOITO, Camillo. Os restauradores. Tradução: Paulo Mugayar Kuhl – Cotia- SP: Ateliê Editorial, 2014.

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Tiago Cunha é Arquiteto e Urbanista pelo Centro de ensino Superior de Juiz de Fora (2016) e Especialista em artes visuais (2017). Interessado por temas como preservação do patrimônio cultural e pelas relações raciais no campo da Arquitetura. Atualmente Leciona na faculdade Doctum de Caratinga, onde ministra componentes curriculares como projeto urbano, Teoria do paisagismo e teoria da Arquitetura e Urbanismo.

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