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História urbana, cidades coloniais e interdisciplinaridade

José Inaldo Chaves Jr.

FAHIST/Unifesspa

 

“A cidade que conhecíamos mudou”. Esta frase, de modos variados, parece habitar as falas e as memórias das gerações. É comum observarmos os mais velhos admirados perante as rápidas transformações do espaço urbano, expressarem-se em máximas como “quando cheguei aqui, o mato cobria tudo!”, “não tinha nada, era tudo um breu só”, ou ainda “que tempo bom aquele, depois da missa, sentávamos na calçada para prosear e paquerar, mas às nove o pai mandava entrar”. Parece-nos que a ideia de cidade e o estar nela se apresentam como em um constante descompasso; nosso tempo parece ser outro e um incômodo nostálgico faz-se presente. Apesar de ser um produto humano por excelência, de modo que sua construção diária de nós depende intimamente, a cidade parece sempre fugir de nosso controle, agigantando-se não apenas por meio de seus prédios e mecânicas megalomaníacas, mas também de seus tempos, memórias e fluxos, cada vez mais velozes e fluídos. A cidade contemporânea nos deixa descompassados.

Seguindo a assertiva de Giulio Carlo Argan, “A cidade que, no passado, era o lugar fechado e seguro por antonomásia, o seio materno, [também] torna-se o lugar da insegurança, da inevitável luta pela sobrevivência, do medo, da angústia, do desespero”. Neste sentido, é possível auferirmos que, se a cidade não tivesse se tornado a megalópole industrial contemporânea, as filosofias da angústia existencial e da alienação certamente teriam bem pouco sentido e, talvez, não fossem a interpretação de uma condição objetiva da existência humana (ARGAN, 1993, p. 2012). É prosaico dizer que os ritmos e sons da cidade nos afetam em nossa existência, mexem conosco de uma maneira que nem sempre conseguimos dimensionar. Buzinas de carros, o apito do guarda, o músico e o jazz na esquina, o silêncio das madrugadas com seus habitantes peculiares. Quem conhece as madrugadas de Niterói como eu, deve recordar-se do perambular faceiro de porcos pela Visconde do Rio de Branco ou pela Amaral Peixoto. Ao raiar do dia ninguém mais sabe de onde vieram ou para onde foram aqueles animais.

Com o crescimento demográfico da experiência urbana no Brasil desde a década de 1970, não é fortuito que o campo da história das cidades e da urbanização tenha despertado o interesse acurado de uma gama de investigadores/as que encontraram verdadeira inspiração no trabalho historiográfico de nomes como Maria Stella Bresciani e Sandra Jatahy Pesavento. Mas esse não é um campo fechado e uma das marcas de nascença das histórias urbana e da urbanização tem sido sua vocação interdisciplinar, congregando, além dos historiadores, geográficos, arquitetos, sociólogos e, como acentuara Argan, até psicólogos e psicanalistas. Nesse sentido, o clássico estudo da saudosa professora Ecléa Bossi, Memória e Sociedade: lembranças de velhos, de 1979, expressou grandiosamente essa vocação ao buscar em depoimentos de idosos uma São Paulo até então invisível.

Enquanto locus privilegiado de produção e reprodução do capital, a cidade contemporânea e industrial também revela uma aposta em seu próprio poder transformador das condições de vida e moldador do cidadão, mantendo, assim, uma velha conceituação que a ela confiou um poderoso papel civilizatório, diariamente contestado por uma espécie de “barbárie endêmica” que parece nos abater no cotidiano citadino, no qual quase vemos escapar aqueles caros valores da vida urbana, que muitos se apegam com unhas e dentes, aqueles conceitualmente construídos e a nós revelados por meio de dicotomias como “arcaico versus moderno”, “velho versus novo”, “selvagem versus civilizado” e, sobretudo, “rural versus urbano”.

Aliás, no Brasil contemporâneo, a própria ideia de urbano consagrou-se graças à oposição com o rural e o agrário, categorias que escondem experiências de imbricações sociais no passado e no presente. Mais recentemente, passamos a problematizar o próprio conceito cidade, colocando-o em xeque e em comparação nas diferentes experiências históricas, fugindo das transposições contemporâneas sobre seus significados mais recuados. É sobre esta necessidade que falaremos hoje, apresentando um outro modo de “ser e viver cidade”, relativamente posicionado no tempo entre a cidade fechada medieval e a selva de pedra de nossos dias.

Sem que tenhamos em mente uma teleologia infértil ou mesmo a intenção de constituir uma arqueologia da vida urbana (os próprios limites destas páginas tornam esse trabalho impossível), nosso intuito é discutir, em alguns aspectos, a cidade colonial no Brasil e como ela reuniu, a partir de múltiplas regionalidades e agentes históricos, elementos da pragmática medieval portuguesa com os fins civilizatórios próprios da Renascença e, mais ainda, do Iluminismo. Se a cidade colonial não foi o símbolo de modernidade e regularidade que veio a ser no século XIX, especialmente nos anos da Belle Époque parisiense, londrina ou lisboeta (vide a obra do saudoso historiador da cultura Nicolau Sevcenko), nos trópicos ela representou uma das mais importantes fricções culturais com o universalismo desencantado do século XVIII, que, na centúria seguinte, estamparia a técnica de engenheiros e arquitetos desejosos por progresso e civilização em uma sociedade em vias de industrialização.

Por estas bandas, a construção de uma urbanidade mestiça, no dizer de Renata Malcher de Araújo, parece ter habitado os planos de governo do Império português que, seguindo os paradigmas da Ilustração ibérica, viu na cidade um mecanismo privilegiado de construção da centralidade régia erigida a partir de um projeto civilizatório. A tentativa de integrar os índios a este projeto, fazendo destes súditos de El rei de Portugal revelou-se um objetivo premente, mas também um sintoma das contingências de lugares aonde a norma e a prática nem sempre se congratulavam e os desenhos da urbanidade também precisavam adequar-se à paisagem.

Não por menos, a cidade colonial quase sempre foi interpretada como prova irrefutável do “desleixo lusitano”, de seu descaso com o fazer urbano que não contrariava a ordem natural, antes a ela se submetia passivamente. Embora essa interpretação encontre filiação na própria matriz historiográfica brasileira dos anos 1930, nos importantes ensaios de Caio Prado Júnior (1956), Gilberto Freyre (1933) e Sergio Buarque de Holanda, foi mesmo neste último que a crítica ao ruralismo candente – mentor do patriarcalismo e clientelismo, vícios tão arraigados na vida política nacional – encontrou sua melhor expressão, já que Holanda vinculou a construção da experiência cidadã e democrática brasileira, nos moldes do pensamento liberal originário de camadas sociais urbanas, à própria superação da atávica herança rural deixada pela colonização.

Em seu clássico Raízes do Brasil, de 1936, Sergio Buarque de Holanda apontou esse legado português e seu crônico desleixo com o urbano como causa do entrave na construção de instituições democráticas sólidas. Embora nunca tenha realizado um estudo pormenorizado das cidades coloniais brasileiras, Holanda firmou frases que marcaram (e minguaram) os estudos urbanos no Brasil:

 

“A cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência, sempre esse significativo abandono que exprime a palavra ‘desleixo’ – palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como “saudade” e que, no seu entender, implica menos falta de energia, do que uma íntima convicção de que “não vale a pena…” (HOLANDA, 2004, p. 110).

 

Apenas nos derradeiros da década de 1950, um movimento de renovação dos estudos urbanos no Brasil tendeu a relativizar a visão buarquiana da oposição urbano X rural, pendor de sua história de nossa decadente “herança rural”, como expresso em Raízes do Brasil. As pesquisas de Nestor Goulart Reis e Paulo Santos, ambas no campo da arquitetura e do urbanismo, foram pioneiras e abriram prolíficos caminhos analíticos. Estes autores propuseram uma história da urbanização que rompia com o tradicional formalismo predominante nos primeiros tempos de uma história do urbanismo, pouco afeita à irregularidade do traçado barroco.

Segundo Beatriz Piccolotto Bueno, tratou-se de incluir gente em um cenário tendencialmente estático, árido e formalista das plantas e projetos, entendendo a cidade e o território como artefatos sociais. Para Bueno, que, por sinal, foi orientada em sua tese pelo professor Reis Filho, a proposta brasiliana deste arquiteto e de seu colega Paulo Santos era a de “uma visão sistêmica que leva em conta atores, processos, dinâmicas e fluxos, redes de relações sociais, redes urbanas e suas configurações no espaço em perspectiva histórica” (BUENO, 2012, p. 19). A seu tempo, essa história da urbanização inaugurou um esforço eminentemente interdisciplinar, integrando uma plêiade de especialistas da arquitetura, da história, da arqueologia e da geografia.

Por sua vez, Paulo Santos revelou a contradição presente em nossas próprias interpretações que assinalam o sobredito “desleixo” português na obra colonizadora, reiterando o quanto é difícil conciliar o retrato descuidado e promíscuo feito “[…] com a ideia de havermos guinado essas mesmas cidades portuguesas do Brasil – Outro Preto, São João del Rei, Mariana, Diamantina, Serro, Tiradentes, Goiás Velho, Salvador, Alcântara etc. – em parte ou no todo, à categoria de monumentos nacionais” (SANTOS, 2008, p. 20). De um modo geral, na esteira dos estudos de Paulo Santos, frisamos que estas cidades americanas “conservaram, sob as mais diversas condições, o cunho inequívoco da mãe-pátria, que as características regionais não conseguiram apagar; e podem, por isso, a justo título, ser consideradas antes como cidades portuguesas do Brasil do que como cidades brasileiras” (SANTOS, 2008, p. 52).

Doutra feita, na herança portuguesa da cidade informal e irregular, como apontado por Sergio Buarque de Holanda, devemos investigar, contudo, os meios e fins de um modo específico de fazer cidade, típico da tradição urbanística portuguesa e com fortíssima presença do imaginário medieval. Neste sentido, vale lembrar, por exemplo, que “a rua ocupava no traçado medieval da cidade um lugar muito diverso do que depois da era da locomoção”, pois era transitada, sobretudo, por pedestres, compondo “parte de um tecido urbano de relações: eram os sulcos das idas e vindas diárias de seus habitantes”, como na Belém colonial de suas ruelas tão estreitas.

Uma forma específica de orientar-se geograficamente, típico da cultura portuguesa e de seu pragmatismo evidente, buscou adequar o traçado à própria necessidade do terreno. Não possuía, pois, uma aversão crônica ao regular, porém, na América portuguesa reuniu artefatos indígenas, negros e lusos para constituir um espaço urbano marcado pela funcionalidade, tanto em sua forma quanto no seu conteúdo – um desejo do território logicamente informal, diríamos, como visto na transplantação de parte da organização dos antigos aldeamentos para as chamadas “vilas de índios”, criadas no contexto do Diretório pombalino em meados do século XVIII, numa clara tentativa de conciliar o velho com o novo e, assim, reunir as melhores condições para a “civilização” dos indígenas, que de aldeados passavam à cidadãos.

Atualmente, após o resgate de uma história urbana no Brasil-colonial e superada a imagem uma irremediável separação entre o “urbano” e o “rural”, problemáticas originais tem ressaltado o papel das cidades e vilas coloniais e sua importância na colonização de um modo geral, ainda que o prisma adotado não se associe diretamente aos estudos urbanos. O papel de mercadores e homens de negócio residentes nas principais cidades da América portuguesa, destacado nas pesquisas de Júnia Ferreira Furtado (2006), para Minas, Maria Aparecida Borrego (2010), para São Paulo, João Fragoso, para o Rio de Janeiro (1992), Siméia de Nazaré Lopes, para Belém, e Clara Araújo, no caso do Recife, revelou a pujança destes núcleos urbanos e suas relações com o universo produtivo (agroexportador ou não) da colônia. Por seu turno, estudos recentes têm retirado do “limbo da história” atores importantes do mundo urbano colonial, com participação crucial nos programas da governança portuguesa d’além-mar, como foram os engenheiros militares e as elites camarárias, recentemente estudados por Beatriz Piccolotto Bueno, Maria Fernanda Derntl, e Maria Fernanda Bicalho.

A dinâmica citadina colonial tem merecido uma atenção especial por apresentar particularidades como a construção religiosa do espaço e a adoção de uma toponímica assentada nessa cultura de base experimental portuguesa, como apontaram os estudos de Murilo Marx (1988) sobre redes de capelas e freguesias na América portuguesa, e de Irís Kantor (2009) sobre a cartografia imperial. Neste sentido, destaca-se uma vinculação embrionária desta história da urbanização com a arqueologia e os estudos da cultura material, tratando a cartografia, a iconografia e o patrimônio material como fontes históricas e artefatos sociais que merecem a atenção dedicada dos pesquisadores.

A interiorização da colônia por meio de redes urbanas e caminhos que levavam conhecimento, gentes e governo aos lugares distantes também ganhou destaque, como demonstram as teses de Renata Malcher de Araújo sobre o Mato Grosso e a Amazônia colonial e Cláudia Damasceno Fonseca sobre vilas e arraias nas Minas Gerais. Especialmente nos estudos de Renata Araújo, as fronteiras da América portuguesa foram tratadas a partir dos projetos de intervenção urbanística da Coroa portuguesa para o efetivo controle do território, destacando, por seu turno, o papel protagonista assumido pelas populações indígenas nas disputas por espaços políticos nas novas vilas que emergiram no seio das reformas pombalinas em meados do século XVIII. Reflexão semelhante, muito inspirada em Araújo, também executei para o caso das “vilas de índios” na Paraíba colonial, quando tratei-as, além do enfoque para o “político”, também de um ponto de vista das relações étnico-raciais.

Todavia, é preciso reconhecer que há um enorme caminho ainda por percorrer, sobretudo com a abertura dada pelos estudos das fronteiras étnicas e culturais na América portuguesa, o que permite-nos enxergar a cidade colonial para além da clássica imagem “ícone primaz da civilização portuguesa”, abrindo espaços a outras experiências do urbano não necessariamente submetidas às relações próprias da colonização ou mesmo refratárias a estas. Ademais, uma história ambiental da cidade colonial ocupada com as múltiplas concepções da natureza, em litígio no espaço urbano e herdadas dos povos indígenas, africanos e europeus, permanece terreno praticamente inexplorado. As possibilidades seguem, portanto, infindáveis.

 

 

REFERÊNCIAS

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José Inaldo Chaves Jr. nasceu em Guarabira, na Paraíba. É professor adjunto na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, em Marabá. Possui graduação em História pela UFPB, mestrado e doutorado em História pela UFF. É autor de livros, capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve mensalmente, sempre às segundas-feiras, na coluna "Entre rios e fronteiras".

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