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A ARTE POÉTICA: DIÁLOGOS ENTRE ARISTÓTELES, HORÁCIO E LONGINO

Em sua aula inaugural sobre Poética no Collège de France em 1937, Paul Valery, ao inicia-la, começa pela retomada da palavra grega poïein, traduzindo-a para o francês le faire: fazer. Essa retomada permite lançar luz a ação que faz mais do que a ação feita para, com isso, poder explorar o ato criador. Buscando na linguagem econômica termos como valor, produção, consumidor, o crítico francês, por analogia, busca empreender sua reflexão para o ato de produção da obra literária como produto do espírito. Escapando das discussões predominantes da crítica literária, Valery chama a atenção para a existência da obra poética como ato, isto é, somente a execução do poema como tal que o torna uma obra poética. Deste modo, o autor busca compreender o processo de produção que torna uma obra em obra literária reconhecidamente como tal pelo leitor que lhe atribui o seu valor.

É nesta perspectiva que autores como Aristóteles, Longino, Horácio entre outros clássicos buscam desenvolver seus textos sobre a Arte Poética. Com efeito, sobretudo em Horácio e Longino, a primeira leitura de seus textos – Arte Poética e Do Sublime respectivamente – evidencia o tom de aconselhamento, uma vez que os textos têm destinatários específicos. No caso de Horácio, o autor latino escreve para seus amigos os Pisões, o pai e os filhos. Por sua vez, Longino escreve para o amigo Postúmio Terenciano, uma carta com 44 capítulos, no qual busca compreender quais são as fontes do sublime no discurso.

Leitor de Platão, Aristóteles, Horácio, Cícero, além dos muitos poetas, retores e historiadores que cita, Londino busca estabelecer os meios da poïein para se alcançar o sublime tanto na oratória quanto na poética. Para tanto, ele define como cinco as fontes que permitem o orador e o poeta alcançarem tal tarefa. São elas: alçar-se a pensamentos sublimados, isto é, elevação do espírito para se poder formular elevadas concepções; a emoção veemente inspirada, isto é, a emoção vigorosa e carregada de entusiasmo; o bom trabalho no uso das figuras de linguagem, tanto as de pensamento, quanto as de palavras; nobreza de expressão, e composição harmoniosa e elevada. Das cinco, as duas primeiras são identificadas como inatas ao gênio do poeta e do orador e, para tanto, ele recomenda que tal como a pitonisa, aproximando da trípode onde existe uma fenda da terra na qual exala um vapor impregnado de divindade, é fecundada pelo poder do deus, podendo oracular segundo a inspiração, assim também aqueles que queiram ter este dom, devem invejar os gênios antigos para que se possam ser inspirados por esse dom, isto é, devem ser leitores contumazes dos grandes poetas e gênios da retórica. Em relação as outras três, o autor defende que podem ser alcançadas por meio da arte. Para tanto, o autor da obra parte de qual seja o objetivo final a ser alcançado pela obra: levar o leitor ao êxtase, o que só pode ser alcançado por meio do sublime. Ao fundamentar cada uma dessas cinco fontes, o autor apresenta exemplos que evidenciem o bom uso de cada uma delas, bem como os vícios que impedem de alcançar o sublime, citando outros autores. Deste modo, enfatiza a seu destinatário a necessidade do cuidado que se deve ter no uso desses procedimentos para que o ponto principal de sua obra – a consideração do sublime – seja o tom mais elevado que desperta no leitor uma paixão genuína.

Apesar de ser o mais modesto e, portanto, o mais curto das três obras, A Arte Poética de Horácio apresenta questões relevantes para o estudo da literatura. Influenciado sobretudo por Aristóteles, o poeta latino evidencia sua admiração e defesa da tradição grega, buscando nela os princípios fundamentais que orientam a boa arte: a imitatio, a verossimilhança e a unidade. Orientando seus interlocutores a manter uma consistência na obra, o autor começa exemplificando uma pintura, cujo pintor ligaria um pescoço de cavalo a uma cabeça humana, cobrindo o corpo com penas variadas até termina-la com um hediondo peixe preto. Esta alegoria serve para mostrar qual resultado teria um livro sem consistência e, portanto, comprometendo a sua unidade. Um bom orador ou poeta, para evitar tal imagem absurda, deve saber escolher um tema que domine bem para ter condições de desenvolvê-lo. Tendo tal cuidado, o poeta pode estabelecer um encadeamento das palavras de modo que consiga garantir seu requinte tanto no uso de palavras em desusos, quanto na criação de neologismos.

Para tanto, é preciso garantir o tom próprio que compete a cada gênero. Este tom é determinado pelo ritmo apropriado que resulta da versificação própria de cada um desses gêneros. Desse modo, Horácio se contrapõe a mistura de gêneros, isto é, considera inadequado que um tema cômico, por exemplo, seja desenvolvido em versos trágicos, pois só poder promover o efeito esperado para alcançar a emoção de seu interlocutor. Ou como diz o poeta latino: devemos rir com quem ri e chorar com quem chora; se a intenção do poeta fazer com que ele chore, deve primeiramente o poeta sentir a dor primeiramente. O decoro torna-se elemento fundamental para a constituição do caráter. Não se deve dar a uma criança o caráter de um adulto, nem a um jovem um quinhão de velhice, garantindo a coerência de caráter correspondente a cada personagem. Isto exige do poeta um conhecimento sociológico e da tradição poética, sobretudo quando reedita personagens da tradição grega, isto é, deve garantir que uma personagem como Aquiles seja impetuoso e declare que as leis não foram feitas para ele ou uma personagem como Medeia construída de modo feroz e indomável conforme a tradição.

Outro elemento importante refere-se ao modo de se iniciar uma determinada narrativa  sem que se tenha a pretensão de começa-la por sua origem. Como diz Horácio, exemplificando tal orientação com a Odisseia de Homero, este não se propõe a tirar fumaça de um clarão, mas luz de uma fumaça. Com isso avança rapidamente para o desfecho da obra até arrebatar o ouvinte para o centro dos acontecimentos com se ele já os conhecesse. Esta ilusão produzida pelo que posteriormente a crítica literária definirá como in media res permite a precisão e o brilho do tratamento temático sem que que destoe o começo com o meio e o meio com o fim.

Se, em Longino, a preocupação está nas formas de composição que permitem o poeta alcançar o sublime, em Horácio, a atenção volta-se para o poeta, exigindo dele conhecimento do tema tratado, consistência nos modos de construção de cada parte da obra e domínio de procedimento que se garanta a unidade do texto.

Como observa Brandão, a poética aristotélica tem lugar de destaque entre os diferentes manuais que se produziram na era clássica. Tendo sua primeira tradução latina em 1498, a Poética passa a influenciar significativamente sobretudo o Renascimento até os nossos dias. Ao tratar da natureza da poesia, Aristóteles inicia sua obra já introduzindo o tema central: a mimesis, cujas definições percorrem seus 26 capítulos. Desse modo, para fazer a diferenciação entre o historiador e o poeta, no capítulo IX,  afirma que não se trata da metrificação, mas do fato de que o historiador narra acontecimentos, já o poeta narra coisas que poderiam acontecer e, portanto, é a verossimilhança dos temas tratados que importa na mimesis da poética. Ao tratar da Epopeia, no capítulo XXIV, o estagerista afirma que, quando plausível o impossível é preferível a um possível que não convença. Com isso, o poeta é criador de fábulas, pois ele imita ações.

Sendo a fábula matéria do fazer poético, distingue-a em dois tipos: as simples e as complexas. Nestas, a mudança da fortuna resulta do reconhecimento e da peripécia, sendo a peripécia uma viravolta das ações em sentido contrário e o reconhecimento, a mudança do desconhecimento para o conhecimento. Nas fábulas simples, a mudança da fortuna se dá sem a presença de peripécias e reconhecimento. Considerando a fábula, a alma da tragédia, esta imita as pessoas em ação. Logo, o caráter produzido pela ação é que constitui as personagens, entendendo caráter como aceitação ou recusa diante de uma situação dúbia.

Ao diferenciar a diversificação da poesia, Aristóteles estabelece dois modos de imitação: a imitação de homens melhores, superiores pelo qual se constitui a tragédia e a imitação de homens piores do que são, pelo qual se constitui a comédia. Esta diferenciação constitui um dos três elementos que definem a mimeses, isto é, o objeto, sendo que os outros dois são os meios e os modos. Os principais meios da arte poética são o ritmo, a linguagem e a harmonia. Se a distinção entre a tragédia e a comédia se dá no objeto de imitação, a diferença entre a tragédia e a epopeia dá-se no modo, isto é, o narrativo que constitui a epopeia e o dramático que constitui a tragédia. Desta forma, a tragédia tem em comum com a comédia o modo, ambas se diferenciando da epopeia e a tragédia tem em comum com a epopeia o objeto, diferenciando-se ambas da comédia. No que se refere ao meio, cada uma se diferencia entre si, pois o ritmo, a linguagem e a metrificação especificam cada um desses gêneros.

Esses pontos centrais aqui elencados que serão detalhados e exemplificados na Poética fizeram desta obra um monumento para a crítica posterior, balizando os estudos literários na busca de definir o fazer poético. Cabe observar, por fim, que a contribuição dessas três obras aqui tratadas formam um conjunto rico e fundamental, visto que se Aristóteles preocupou-se com os elementos de composição do fazer literário – o que em termos retóricos pode ser definido como logus – Horácio debruçou sobre a ética do poeta, portanto, o ethos e Longino, tratando do Sublime, enfatizou o efeito da obra literária no leitor, e, portanto, na definição retórica o pathos. Esse jogo entre o logus, ethos e o pathos, ou, em termos atuais, o fazer poético, o poeta e o leitor constituem as três colunas de sustentação da arte poética.

Professor de Teoria Literária, autor do livro de contos "Candelabro" e apaixonado por Literatura.

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