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A FORMAÇÃO DA COMPANHIA DE JESUS E A TRAJETÓRIA DE INÁCIO DE LOYOLA: ANÁLISE DA BIBLIOGRAFIA INSTITUCIONAL

Os estudos que abordam a trajetória do padre espanhol Inácio de Loyola possuem uma característica memorialista e foram recuperadas a partir de fontes disponíveis nos arquivos eclesiásticos. A Autobiografia de Inácio de Loyola resume o importante legado, destacando, propositadamente, seu desempenho como um dos principais articuladores da Companhia de Jesus, em 27 de setembro de 1540[1]. O Papa Paulo III, por sua vez, também considerou através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, a importância da organização jesuítica como plataforma estratégica que projetaria a catequização em escala global num contexto de reação do catolicismo diante da Reforma Luterana[2].

Andrius Estevam Noronha

 

Os estudos que abordam a trajetória do padre espanhol Inácio de Loyola possuem uma característica memorialista e foram recuperadas a partir de fontes disponíveis nos arquivos eclesiásticos. A Autobiografia de Inácio de Loyola resume o importante legado, destacando, propositadamente, seu desempenho como um dos principais articuladores da Companhia de Jesus, em 27 de setembro de 1540[1]. O Papa Paulo III, por sua vez, também considerou através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, a importância da organização jesuítica como plataforma estratégica que projetaria a catequização em escala global num contexto de reação do catolicismo diante da Reforma Luterana[2].

A bibliografia sobre a trajetória de Inácio de Loyola reúne uma série de memórias construídas pelos jesuítas que objetivavam legitimar um discurso de coesão para a Companhia de Jesus. A historiografia acadêmica desenvolveu pesquisas que buscavam compreender a importância desse sujeito como fundador da ordem e o propósito das obras produzidas pelos jesuítas. Os trabalhos acadêmicos tal como os de José Carlos Sebe (1982), Lívia Pedro (2008), Gabriele Rodrigues de Moura (2013), além de outros, utilizam a autobiografia do missionário para entender a instituição católica.

Na introdução da Autobiografia (LOYOLA, 1987: 05-08) da versão traduzida pelo Padre Armando Cardoso, consta que alguns dos principais jesuítas de Roma pediam a Santo Inácio a documentação de sua vida, visto que, essa medida culminaria na construção de uma memória institucional da Companhia. O fundador custou a se decidir quando e quem escreveria sua autobiografia. O missionário assistiu três missas do padre português Luís Gonçalves da Câmara e solicitou a esse clérigo a escrita e a edição da sua trajetória.[3].

A biografia produzida por Câmara foi elaborada em três fases distintas: de agosto a setembro de 1553; em março de 1555; e de setembro a outubro de 1555. O autor relata que Inácio de Loyola nasceu em 1491, no palácio de sua família, localizado no território Basco, nordeste da atual Espanha; na juventude recebeu uma educação distinta, o que contribuiu para seu ingresso no serviço militar aos 26 anos de idade; a narrativa destaca que em 20 de maio de 1521 participou da uma batalha ocorrida na praça de Plampona, capital de Navarra, sendo ferido na perna.

A conversão de Inácio de Loyola foi no final daquele ano, devido a sua recuperação e a leitura de duas obras: A vida de Cristo, de Ludolfo da Saxônia, e A vida de Santos na legenda Áurea, do italiano Jacopo da Voragine[4]. Em seguida, recuperado do ferimento da perna esquerda, decidiu ir para o monastério beneditino de Montserrat, na Catalunha, destino inicial para sua peregrinação em direção a Terra Santa, mais especificamente a cidade de Jerusalém.

A narrativa de Loyola (1987) destaca que sua inserção na vida eclesiástica ocorreu com disciplina, no qual constam atividades exclusivas da formação de um padre como uma elevada carga horária de orações, penitências, meditações e confissões diárias por quase um ano. A formação eclesiástica do fundador foi na pequena vila de Manresa, na Catalunha, situado próximo da cidade de Barcelona. Nesta cidade, em 1522, escreveu o livro Exercícios Espirituais, inspirado nas sagradas escrituras no qual apresentou uma série de instruções referentes ao crescimento do dogma de penitência cristã. Esse estudo caracterizou o redirecionamento espiritual dos fieis e, em especial, dos jesuítas, passando pelo crivo do Papa Paulo III, sendo publicada na versão final, em 1548, na cidade de Roma[5].

O`Malley (2004) enfatiza a importância dos Exercícios Espirituais na formação dos jesuítas, pois introduz um conjunto de regras que objetiva atrair novos fieis num contexto de crise do cristianismo. A obra passou a ser utilizada como a primeira experiência prática a ser feita por todos aqueles que pretendiam ingressar na Companhia de Jesus ainda no contexto do século XVI e foi o primeiro instrumento pedagógico jesuítico para adequar os fiéis a doutrina cristã e aos que queriam ingressar na ordem. Loyola utilizou esse documento como modelo de regras para sua pregação na Terra Santa tendo dificuldades de agregar apoio de várias ordens cristãs que atuavam naquela região.

Em sua narrativa, Loyola (1987) relata que partiu para Jerusalém em 1523 com a intenção de “ajudar as almas”, porém esse processo não aderido pelos franciscanos, assim o missionário decidiu regressar para a Europa onde aprimorou seus estudos. O padre participou de vários cursos nas áreas de linguística e teologia em quatro regiões diferentes: Barcelona, Alcalá, Salamanca e Paris.

Em 1524, ingressou na Universidade de Barcelona para aperfeiçoar os estudos de Gramática por dois anos e meio. Em 1526, estudou na Universidade de Alcalá para aprofundar os estudou de Teologia com duração de um ano e meio, além disso, aproveitou a ocasião para revisar Exercícios Espirituais e pregou a doutrina cristã em várias localidades. Em 1527 foi para Salamanca, onde foi preso sendo libertado em seguida, pois os juízes permitiram que ele ensinasse o catecismo desde que não discutisse a diferença entre pecados mortais e veniais até que tivesse completado mais anos de estudos.

Loyola (1987) relata que concluiu seus estudos em Paris, onde foi concedido permissão para exercer atividade apostólica, estabelecendo contato com um grupo de intelectuais que possuíam o mesmo propósito: expandir a fé Católica num contexto de emergência reformista.

Para O´Malley (2004) no período em que os companheiros de Loyola estiveram na capital francesa, identificaram o crescimento do “luteranismo”. Embora reconhecessem a importância e o impacto da Reforma na Europa, esse movimento não desempenhou influência sobre os ideais e prioridades defendidas pelos primeiros jesuítas. As causas fundamentais dos missionários, contidas na Fórmula do instituto, foram a “defesa da fé, progresso das almas na vida e na doutrina cristã”. Portanto, a pregação foi direcionada a Jerusalém e não a Wittenberg, pois a “urgência era pregar entre aqueles que não eram cristãos ou entre aqueles que podiam abandonar o catolicismo por causa da heresia” (O´MALEY, 2004: ). Essa postura pode ser percebida nas primeiras cartas escritas em Paris, que fizeram pouca referência as críticas elaboradas por luteranos ao Papa. Em 1534 esse grupo jurou lealdade ao catolicismo através de voto de pobreza, castidade e obediência nas proximidades de Paris, especificamente na Colina de Montmartre.

As teses de vários historiadores enfatizam a ideia de que a Reforma da Igreja não seria uma contraposição direta ao protestantismo. Para tanto, os principais referenciais teóricos que embasam este argumento são Delumeau (1989), Mullet (1985) e O´Malley (2004), que utilizaram a trajetória de vários integrantes da igreja nesse contexto. A pesquisa de Gabriele Moura (2013), contribuiu para a reconstrução da trajetória dos co-fundadores que ajudaram Loyola na formação da Companhia de Jesus, como Pedro Fabro, Francisco Xavier, Diogo Lainez, Afonso Salmeron, Nicolau Bobadilla e Simão Rodrigues, o quadro biográfico abaixo ilustra a rede de relações de Loyola.

Loyola (1987) destaca que o retorno a Terra Santa com seus companheiros objetivava a conversão dos turcos numa conjuntura de intensa polarização entre Ocidente e Oriente. A investida dele com seus companheiros não obteve resultados satisfatórios visto que foram perseguidos pela Santa Inquisição, sendo presos por 64 dias e depois liberados. Para que o projeto desses integrantes fosse alcançado, formou-se um grupo de estudos em novembro 1539 com o objetivo de escrever um documento que apresentasse suas intenções ao Papa. Por intermédio do Cardeal Contarini, apresentaram ao sumo pontífice a Fórmula, obra que esclareceu às autoridades católicas a proposta de vida dos jesuítas objetivando a aprovação dessa nova ordem. A intenção de Loyola era de ser atingidos por ações repressivas pela Igreja Católica que temia a falta de coesão provocada pelo reformismo no norte da Europa.

A narrativa autobiográfica de Loyola (1987) destaca que em 1541, ele foi escolhido como primeiro superior geral da Companhia de Jesus e continuou a produção intelectual que fundamentaria o engajamento da ordem. Em 1547 elaborou as Constituições, citada anteriormente, com apoio de um secretário e outros padres que revisavam as normas objetivando a estabilização e coesão da instituição. Loyola editou em 1550 uma proposta de texto preliminar que seria discutido num grupo de estudos composto pelos membros mais graduados da ordem, que viriam a contribuir com sugestões e observações. O documento final foi concluído em 1553, e promulgado e aplicado dentro das especificidades de cada província que pertenciam as Coroas Católicas, em especial a Espanha, Portugal e França que buscavam estabelecer colônias na América, África e Ásia.

Para O’Malley (2004), Loyola estava convencido da dificuldade de manter a padronização geral da ordem, apesar das Constituições tratarem de aspectos considerados estruturais. O jesuíta sugere uma análise ampla do documento e a formulação de outras ordenações adaptáveis aos lugares e pessoas nas diferentes residências, estabelecimentos de ensinos e trabalhos da Companhia de Jesus. Para o autor, estas Ordenações deveriam ser instituídas nos locais que estivessem em vigor, conforme a vontade do Superior de cada membro da ordem.

A historiografia que aborda a produção institucional dos documentos obteve um crescimento significativo a partir da abertura dos arquivos para a comunidade de historiadores. Nesse processo, o uso sistemático de metodologias que analisa essas fontes interna e externamente, permitiu compreender o funcionamento destas instituições no decorrer da história.

 

Referências bibliográficas

DELUMEAU, Jean. Nascimento e afirmação da reforma.Tradução João Pedro Mendes. São Paulo: Pioneira, 1989.

LOYOLA, Inácio. Cartas. Tradução: António José Coelho, S.J. Braga: Editorial A. O., 2006.

________. Autobiografia de Santo Inácio de Loiola. 3a edição. Tradução: Pe. Armando Cardoso. São Paulo: Edições Loyola, 1987

________. Constituições da Companhia de Jesus. Tradução e notas: Joaquim Mendes Abranches. Lisboa: Imprimatur, 1975.

MOURA, Gabriele Rodrigues de. “Señores de la palabra”: histórias e representações na obra de Antonio Ruiz de Montoya (1612-1652) 2013. 273 f. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo-RS, 2013.

MULLET, Michael. A Contra-Reforma e a Reforma Católica nos Princípios da Idade Moderna Europeia, Lisboa, Gradiva, 1985.

O´MALLEY, John W. Os primeiros jesuítas.Tradução: Domingos Armando Donida. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS; Bauru, SP: Ed. EDUSC, 2004.

 

 

 

 

 

 

QUADRO BIOGRÁFICO DOS CO-FUNDADORES DA COMPANHIA DE JESUS
Co- fundador Nascimento Falecimento Ordenamento Últimos votos
1. Pedro Fabro 13 de abril de 1506 1 de agosto de 1546, em Roma (Itália) 30 de maio  de 1534 em Paris (França) 9 de julho de 1541, em Ratisbona (Baviera, Alemanha)
2. Francisco Xavier 7 de abril de 1506, Janvier (Navarra, Espanha) 3 de dezembro de 1552, em Shangchuan (Guangdong,China) 24 de junho de 1537, em Veneza (Itália) dezembro de 1543, em Goa (Índia)
3. Diogo Lainez 1512, Almazón (Soria, Espanha); 19 de janeiro de 1556, em Roma (Itália) 24 de junho de 1537, em Veneza (Itália 22 de abril de 1541, em Roma (Itália)
4. Afonso Salmeron 8 de setembro de 1515, Toledo (Espanha) 13 de fevereiro de 1585, em Nápoles (Itália) 8 de setembro de 1537, em Veneza (Itália) setembro de 1541, em Roma, (Itália)
5. Nicolau Bobadilla 1509, Bobadilla del Camino (Palencia, Espanha) 23 de setembro de 1590, em Loreto (Itália) 24 de junho de 1537 em Veneza (Itália) setembro de 1541, em Roma (Itália)
6. Simão Rodrigues 1510, Vouzela (Viseu, Portugal) 15 de julho de 1579, em Lisboa (Portugal) 24 de junho de 1537, em Veneza (Itália) 25 de dezembro de 1544, em Évora (Portugal)
Tabela organizada pelo autor. Fonte: Notas biográficas de MOURA (2013:52), a autora utilizou como fonte primária a seguinte referência: O´NEILL E DOMÍNGUEZ, DHCJ (volume II) 2001, p. 1369, p. 2140, p. 1601, p. 4663 e p. 3390.

 

[1] Sobre a formação da Companhia de Jesus e a importância da escrita para os jesuítas ver LODOÑO, Fernando Torres. Escrevendo cartas: jesuítas, escrita e missão no século XVI. Revista Brasileira de História, São Paulo. Vol. 22, Nº 43, pp. 11-32, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbh/v22n43/10908.pdf

[2] Em relação aos documentos e bulas editadas pela Igreja Católica no contexto da reforma e a formação dos jesuítas nesse mesmo contexto ver ARNAUT, Cézar e RUCKSTADTER, Flávio M. M. Estrutura e organização das Constituições dos jesuítas (1539-1540). Maringá, v. 24, n. 1, p. 103-113, 2002. Disponível em: http://eduem.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/view/2416/1696.

[3] Em nota, o tradutor de Loyola (1987) descreveu que Câmara nasceu na capital portuguesa em meados de 1519 e faleceu em 1575; ingressou na Companhia de Jesus em Abril de 1545 na cidade de Lisboa; foi Ministro da Casa de Roma em 23 de Maio de 1553, permanecendo até Outubro de 1555. Depois da morte de Santo Inácio, Câmara regressou em 1558 para Roma, onde participou da Primeira Congregação Geral, sendo eleito Assistente da Companhia de Jesus em Portugal com exercício do cargo na capital italiana; no ano seguinte, em 1559, voltou  ao país de origem, solicitado pela Corte Real Lusitana, para se responsabilizar na educação do herdeiro do trono português, D. Sebastião. Essas informações constam na nota nº3 da Introdução de LOYOLA, 1987: 05.

[4] Em relação a influencia dessas duas obras na formação de Inácio de Loyola, podemos analisar com profundidade os trabalhos de BARREIROS, Álvaro. O livro da vida de Cristo de Ludolfo de saxônia e os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Persp. Teol. 39 (2007) 351-368, 2007. Disponível em file:///C:/Users/HP/Downloads/187-638-2-PB.pdf; e FORTES, Carolina. Os Mártires na Legenda Aurea: a reinvenção de um tema antigo em um texto medieval. In: LESSA, Fábio & BUSTAMANTE, Regina (orgs.). Memória & Festa. Rio de Janeiro: Mauad, 2005. Disponível em: http://www.pem.historia.ufrj.br/arquivo/carolfortes002.pdf

[5] Em relação ao desenvolvimento do livro “Exercícios espirituais” ver o texto de KLEIN S.J., Luiz Fernando. Exercícios Espirituais: escola de formação para a pedagogia Inaciana. In: OSOWSKI, Cecilia (org.). Teologia e Humanismo Social Cristão. Traçando rotas. São Leopoldo, Ed. Unisinos, 2000: 221-35. Disponível em: http://www.jesuitasbrasil.com/jst/pessoa/temp/anexo/1135/2590/1546.pdf no qual há uma análise de conceitos que são desenvolvidos pelo Loyola, a experiência exercida pelo padre no contexto do século XVI.

Graduado em Estudos Sociais Habilitação Em História pela Universidade de Santa Cruz do Sul (2003), mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Santa Cruz do Sul (2006) e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2012). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Amapá. Tem experiência na área de História, com ênfase em História, atuando principalmente nos seguintes temas: santa cruz do sul, elite local, ditadura militar, rio grande do sul e prosopografia.

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