• Home
  • Narrativa Científica e a Cultura Afro-brasileira

Narrativa Científica e a Cultura Afro-brasileira

O presente ensaio é uma sistematização da palestra ministrada pelo autor no II Seminário Internacional de Direitos Humanos, realizado pelo programa de Pós-graduação em Ensino e História das Ciência e da Matemática, da Universidade Federal do ABC –  UFABC, em novembro de 2017.

Narrativa Científica e a Cultura Afro-brasileira

Marcos Almeida Costa Pereira

Pós-Graduando em Educação em Direitos Humanos, Universidade Federal do ABC – UFABC, Assistente Social, Bacharelado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Consultor em Direitos Humanos da Rede RIA criança. Contatos:ria.crianca@yahoo.com.br

Ana Maria Dietrich

Doutora em História e docente da Universidade Federal do ABC – UFABC

 

Resumo

O presente ensaio é uma sistematização da palestra ministrada pelo autor no II Seminário Internacional de Direitos Humanos, realizado pelo programa de Pós-graduação em Ensino e História das Ciência e da Matemática, da Universidade Federal do ABC –  UFABC, em novembro de 2017.

A problema central do artigo é construir na reflexão sobre possíveis motivos que levaram a narrativa científica brasileira a reproduzir um discurso silencioso em relação às contribuições da cultura Afro-brasileira para áreas de conhecimentos, como Ciências Exatas e as Linguagens Matemáticas. A partir das vivências do autor na Secretaria Municipal de Promoção de Igualdade Racial – SMPIR da Prefeitura de São Paulo –SP e de uma abordagem multidisciplinar, registra-se uma análise baseada na historiografia francesa para apontar as possibilidades e limites para promoção de um olhar afirmativo sobre a cultura Afro-brasileira no que se refere às diversas contribuições dessa para a Ciência contemporânea e o pensamento matemático ocidental.

Palavras chaves: História das Ciências, Matemática, cultura Afro-brasileira e eurocentrismo.

Scientific Narrative and Afro-Brazilian Culture

Abstract

This essay is a systematization of the lecture given by the author at the II International Seminar on Human Rights, conducted by the Graduate Program in Teaching and History of Science and Mathematics, Federal University of ABC – UFABC, in November 2017.

The central problem of the article is to build on the reflection on possible motives that led the Brazilian scientific narrative to reproduce a silent discourse regarding the contributions of Afro-Brazilian culture to areas of knowledge, such as Exact Sciences and Mathematical Languages. Based on the experiences of the author in the Municipal Secretariat for the Promotion of Racial Equality – SMPIR of the São Paulo City Hall and a multidisciplinary approach, an analysis based on French historiography is recorded to point out the possibilities and limits for promoting an affirmative look on the Afro-Brazilian culture regarding the diverse contributions of this to contemporary science and Western mathematical thinking.

 

Keywords: History of Science, Mathematics, Afro-Brazilian culture and Eurocentrism.

 

 

Que dirá a seu filho, o pai? 
Que dirá para a filha, a mãe? 
Que virá dessa escuridão? 

Quero saber, mas sem matar 
o que já existe em mim. 
NASCIMENTO,1990

Introdução

Este ensaio é fruto de algumas inquietações que estão presente nas minhas memórias da infância. Essas questões que foram nascendo como se fossem respostas para diversas expressões do racismo, como por exemplo, a invisibilidade da criança negra nas cartilhas do meu ensino fundamental, ou ainda, a ausência de imagens afirmativas sobre a cultura Afro-brasileira. Mas o menino e moleque que insiste dentro de todos nós cresceu e sem perceber, transformou em agenda de luta seus ‘por ques’ da meninice. Dessa forma, tais temática acompanharam-me nas escolhas acadêmicas, na formação como arte educador e ainda no meu trabalho de conclusão de curso em Serviço Social, quando o tema escolhido foi:  Cultura e Direitos Humanos.

…nesse sentido, os elementos bibliográficos não devem ser entendidos isoladamente, mas, como produto das relações sociais das quais estive e estou envolvido, porque sou integrante, sujeito da experiência que tomarei como objeto de estudo. (PEREIRA, 2009 p.5)

Soma-se também minhas experiências profissionais, sobre tudo, em minha experiência como assessor na Secretaria de Promoção de Igualdade Racial – SMPIR, na supervisão do Centro de Referência de Promoção da Igualdade Racial – CRPIR da Prefeitura de São Paulo.

O CRPIR, é um espaço de políticas públicas, voltado para o atendimento, orientação e acompanhamento de pessoas e grupos sociais vítimas e/ou vulneráveis a discriminação racial. Entre suas atribuições, estão:  promover a articulação das organizações, coletivos e instituições como: Diretorias de ensino municipal e estadual, Defensoria Pública, Delegacia da Mulher, Delegacia de Polícia, Conselho Tutelar, Casa de Cultura, Conselho de Meio Ambiente, Ministério Público; promover a execução de  plano que efetivassem no território à promoção e defesa dos direitos, individuais, difusos e coletivos da população negra, por meio de projetos de oficinas, debates e ações culturais.

No período em que estive no equipamento, este era composto de uma equipe multiprofissional: assistentes sociais, advogados, psicólogos, pedagogos e profissionais de apoio (SÃO PAULO,2013). Entre as maiores demandas do programa estavam as atividades relacionadas à capacitação para servidores públicos, professores das redes municipais e estaduais, com destaque, para temáticas que dialogassem com a implementação da Lei Federal nº 10.639/2003, que alterou a Lei de   Diretrizes e Bases da Educação Nacional, para inclusão no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. (BRASIL,2003).

Algo que me chamou a atenção nesse período é que os cursos citados eram muito procurados, sobre tudo, por professores das áreas de história, artes e educação infantil, mas havia um certo “silêncio” nos possíveis diálogos entre a cultura Afro-brasileira e campos dos sabres ligados às linguagens da Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias (ALVIM,2014). Tal processo me proporcionou a oportunidade de levantar algumas perguntas que se tornaram problemas do meu pré-projeto de pesquisa para programa de mestrado em Ensino e História das Ciências e Matemática da Universidade Federal do ABC –  UFABC. E que compartilho no presente ensaio:

  1. Como tem sido construída a narrativa científica em relação à cultura Afro-brasileira?
  2. Qual a contribuição da cultura Afro-Brasileira para a construção da linguagem Matemática e suas Tecnologias?

A relevância de tais questionamentos considera que pensar sobre a transversalidade das linguagens   matemática e a cultura Afro-brasileira é construir conhecimento sobre a realidade da maioria das crianças e adolescentes inseridos na educação pública brasileira, uma vez que pesquisas demostram que a composição de educandos que se declaram pertencentes a comunidade afro-descentes é composta por cerca 56,4% dos estudantes. (CONSTANTINO,2006). Ainda se considerarmos que de cada dez alunos de escola pública sete não conseguem resolver as questões básicas de matemática, quais benefícios uma educação científica baseada em   diálogos auto afirmativos da história cultural dessa população pode cooperar para desenvolvendo do aprendizado científico e matemático?

Diante desses apontamentos, propõem-se refletir, no sentido fundador da palavra reflexão, que é o olhar para um objeto buscando o reflexo da nossa própria imagem, como relatado no conto da branca de neve, fazendo um exercício de procurar no espelho das narrativas científicas, os discursos, edições, e até possíveis, desconstrução de em torno da cultura Afro-brasileira.

Para tal tarefa iniciamos com o primeiro ponto: O que entendemos como ciência?  O conceito de ciência neste texto é entendido como processos históricos, acumulativos feitos com a colaboração das mais diversas civilizações. (FONSECA, 2015p. 447).  Tal perspectiva de   ciência vai na contramão dos limites impostos pelos paradigmas positivistas, que interpretam o fazer científico como a-histórico e desvinculado das tensões sociais, políticas, culturais e econômicas:

A ciência ainda é vista por muitos como um conjunto de verdades dogmáticas resultantes da observação pura e divorciada do contexto social; como uma atividade superior, e, como tal, praticada somente por seres intelectualmente superiores. (SILVA, 2008p.500).

O segundo ponto a destacar sobre nosso entendimento de ciência é que ela é fruto da cultura, resultado das capacidades tecnológicas que a humanidade teve que adquirir para conseguir interpretar e ressignificar seu meio ambiente e com isso desenvolver o empirismo e a experimentação. (ALVIM, 2014 p. 350). Passa ainda pelo reconhecimento que a ciência não seria o que é hoje se não tivesse “levado para frente” os diversos acúmulos, saberes, diversidades de racionalidades e técnicas que o humano desenvolveu no seu tempo e espaço. Isto é, os múltiplos e coloridos jeitos de construir e organizar   suas relações política, histórica, mítica e tecnológica.

A professora Doutora Maria Eduardo Moniz Santos ao fazer um estudo da ciência como cultura apontou quatro aspectos importantes a serem observados no entendimento da ciência como patrimônio cultural imaterial da humanidade:

  1. Construir uma interpretação crítica da ciência a partir da observação dos impactos da tecnologia no ambiente natural, social e humano;
  2. Confrontar diferentes contextos culturais de produção de conhecimento e diferentes modos de produção da ciência e suas conexões com a discussão de cidadania;
  3. Relacionar as abordagens de meio ambiente e sociedade e problematizar as relações ciência/cultura/ambiente;
  4. Evidenciar as dificuldades e barreiras conceituais e subjetivas que comprometem as mudanças de relação indivíduo, sociedade e natureza”. (SANTOS,2000 p. 14)

 

Leia o artigo completo

Tags:, ,
É editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora do ContemporARTES. Coordena o grupo de pesquisa do CNPQ LEPCON - Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade certificado pela UFABC em parceria com a UFV, UFJF, UFF, UFPA, USS e UFBA. É professora adjunta da UFABC. Pós-doutora em Sociologia pela UNICAMP, doutora em História pela USP com doutorado sanduíche pelo Centro de Estudos de Anti-Semitismo (Universidade Técnica de Berlim). Integrante Permanente da Pós Graduação de Ensino, História e Filosofia da Ciências e da Matemática (UFABC) Autora de Nazismo Tropical (Todas as Musas, 2012), Caça às Suásticas - O partido Nazista em São Paulo (Imprensa Oficial / Humanitas 2007) e outros.

Deixe uma resposta