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Privilégio epistêmico e lugar de fala: nós e os outros na cena pública

 

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Clarissa De Franco[1]

            Brancos falando de pretas. Pessoas cis palestrando sobre pessoas trans. Homens discutindo machismo, feminismo, sexismo como figuras de referência. A classe média criando teorias acerca das dores e sofrimentos das famílias de baixa renda. Eventos sobre intolerância religiosa presididos por lideranças de religiões majoritárias. Gente da cidade escrevendo sobre os conflitos do campo. Nativos/as/xs falando de migrantes e suas complexas trajetórias de pertencimento e estruturação da identidade… Vemos frequentemente essas situações, em cenas públicas e privadas, muitas vezes organizadas por gente com trajetória larga de estudos, em boa parte com intenções verdadeiras de promoção de igualdade, equidade de oportunidades, combate às violências, discriminações e exclusões.

Às portas da segunda década do século XXI, há um evidente mal-estar entre as pessoas sobre quem se fala em terceira pessoa, objetos de uma relação de poder/saber – como nos lembra Foucault (1979; 2010; 2013) – que acaba por dividir ao invés de somar, contribuindo para agudizar os processos de desigualdade e exclusão. “Nada sobre nós sem nós”, lema símbolo da luta de militantes com deficiência, pode ser entoado como um hino que perpassa qualquer minoria social.

Alguns/as/xs, alheixs ao núcleo caro deste debate, questionam ingenuamente: “Quer dizer, então, que ninguém mais pode estudar experiências não vividas? Ninguém mais pode se colocar no lugar do outro e se solidarizar com a dor alheia a partir dos meios que possui? Só as minorias são um objeto “problemático” e proibido, já que em qualquer estudo se aceita – e muitas vezes tem sido até reforçada essa posição –  que se pesquise realidades distantes, em nome da neutralidade que não contaminaria os estudos?”

As perguntas que podem conduzir a um debate mais profundo acerca do tema não me parecem ser essas.  Cabe nos perguntar a todxs: “Afinal, por que falar em nome do outro? O que legitima algumas pessoas que não pertencem à determinada condição autorizarem a si mesmas a este lugar? Que mecanismo prende as pessoas de boa fé à manutenção da lógica dos lugares de poder, contra os quais elas próprias se dizem combatentes?” Estas, sim, me parecem questões mais elucidativas.

Tais mecanismos que enredam as várias pontas da estrutura social, mantendo cada qual no “lugar que lhes caberia”, pertencem à lógica da colonialidade, neste caso, em sua manifestação epistêmica, mas também sustentando exclusões/inclusões identitárias como lugares de poder. Quando alguém tem a autoridade de falar por outro/a/x, está legitimando as velhas relações entre conquistadorxs e conquistadxs. Lembramos que uma forma contundente na história da dominação é o discurso que “inventa, classifica e subalterniza o outro” (BERNARDINO-CAMPOS; GROSFOGUEL, 2016).

A despeito disso tudo, não se trata de proibir, coibir ou desmerecer discursos outsiders. Para implodir a lógica binária da colonialidade é preciso um enfrentamento múltiplo, que, ao mesmo tempo, traga empoderamento, autonomia e protagonismo aos/às/axs sujeitxs invisibilizadxs historicamente, e garanta a participação ativa de pessoas de vários segmentos e visões no debate público democrático. O que, por vezes, é conflitivo e antagônico, mas está nas raízes de uma democracia real. Que bom que o outro nos interessa (já era tempo!). Diante desse interesse – e refiro-me aos interesses genuínos – façamos, então, exercícios autocríticos para que o outro não seja apenas personagens de nossos escritos, objetos de nossas pesquisas. Que este outro possa ocupar os palanques, as mesas, os parques, as linhas, ao nosso lado.

 

Referências

 

DUSSEL, Enrique. Europa, modernidade e eurocentrismo. In: LANDER, Edgardo (Org.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americana, Buenos Aires: Clacso, 2005, p. 55-70.

DUSSEL, Henrique. 1492: El encubrimiento del otro: hacia el origen del mito de la modernidad (conferencias de Frankford, octubre 1992). Bolivia: Plural Editores, 1994.

FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Editora Loyola, 2010.

GROSFOGUEL, Ramón; BERNARDINO-COSTA, Joaze. Decolonialidade e perspectiva negra. Revista Sociedade e Estado – Volume 31 Número 1 Janeiro/Abril. 2016

 

[1] Psicóloga e Pesquisadora da UFABC, Doutora em Ciência das Religiões (PUC/SP), Pós-doutorado em Ciências Humanas e Sociais (UFABC) e Pós-Doutorado (em andamento) em Estudos de Gênero. (UCES, Argentina). Temas: Gênero e Religião (feminismo islâmico, disputas discursivas entre gênero e religião, ideologia de gênero, epistemologias de gênero e religião…). Gênero, Direitos Humanos e Políticas Afirmativas. Laicidade e Tolerância. Ateísmo e novas espiritualidades. E-mail: clarissadefranco@hotmail.com

 

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