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Os limites das pessoas

O texto de hoje convida a pensar sobre limites: respeitar os próprios , o do outro, e traz poemas sobre ocasiões em que tais se confundem, para o bem do amor, e das canções dor-de-cotovelo! Música de Lupicínio Rodrigues.

O aprendizado deste ano foi reconhecer limites.

Do outro. Também os meus.

Como é difícil admitir que a gente não pode, sempre, se aprofundar tanto quanto gostaria. Eu que sempre quis ir mais fundo, achando que só na profundidade os vínculos seriam significativos.

Mas não.

Percebo agora que não.

Porque também tenho limites. Nem sempre posso permitir que o outro entre, e, entrando, que se aprofunde.

Não sei se porque me torno uma “senhoura”, ou se apenas porque já não tenho a mesma fé na vida, ando cautelosa, tomo cuidados. A questão é que não posso mais abrir mão dos meus limites. Ainda que não sejam compreendidos. Ainda que para alguns desavisados, isso desperte alguma mágoa (por desconhecimento, falta de vivência de levar para o pessoal uma restrição que não é voluntária).

Têm vezes que mergulho fundo, mas já não é sempre. Posso sentir prazer no rasinho, ondas até o joelho, ou até, apenas, a molhar-me os pés.

Foi só assim que o respeito ao limite do outro se aperfeiçoou.

Me considero mais feliz. Parece que a maturidade (bem-vinda) se avizinha.

Pra vocês, um poema de Mário Benedetti, escritor uruguaio. Um poema que fala também de limite. Talvez, com mais razão se poderia dizer que fala sobre o não-limite. E é claro que isso tem haver com amor!

Depois, um poema meu. Fiquem até o fim, e comparem!

Beijos a todos e bom domingo!

 

Falo da tua solidão

 

Falo da tua infinita solidão

disse o fulano

queria entrar à força na tua memória

me apoderar dela

desmantelá-la desmenti-la

despojá-la de seu último reduto

 

tua solidão me aflige/me alucina

disse o fulano com doçura

queria que nas noites me desejasses

sentisses saudades

me recebeces sozinha

 

mas acontece que/

disse calmamente a sicrana/

se tua bendita solidão

se funde com a minha

já não saberei se sou ti

ou tu terminas sendo eu

 

qual das duas será

depois de tudo

minha solidão legítima?

olhando-se nos olhos

como se perdoassem

se perdoando

 

adeus

disse o fulano

 

e a sicrana

adeus.

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amor-feijoada

 

está tudo estragado

depois que você passou a corda no meu pescoço

e laçou minhas pernas

– eu que era um novilho ingênuo

e trotava sem medo –

algum ingrediente azedou

e fez de nós um mexidão indigesto e mal cheiroso

está tudo estragado

o cozido já não presta

tornamo-nos asquerosos pedaços de animal pululando na panela fumegante

e um pedaço ou outro da gente

se conecta por pontes de gordura

e se beija

mas está tudo estragado

os pedaços já se perderam

e não se sabe mais se esta orelha é sua

se aquele rabo é meu

nossas línguas ferventam juntas

e nossas fibras se confundem

tornamo-nos uma imensa feijoada azeda

numa panela de barro velho

prestes a espatifar no piso de vermelhão.

 

Ouça esta canção e entenda com o coração o que não está dito.

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Lári Germano é autora dos livros "Cinzas e Cheiros" e "En plein air - ao ar livre". Conheça e adquira os trabalhos no site www.larigermano.com. Lári escreve também na página pessoal do Facebook e nos Instagrams @lari poeta e @lariprosaetrova . É compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud, Twitter e Youtube. A foto do logo é assinada pelo fotógrafo Fernando Pilatos www.fernandopilatos.com.br.

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