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A propaganda do Regime Nazista

Heloisa Coli Bizzoto 

Vanessa Carolina 

Pedro Henrique Rocha Saraiva

Discentes Universidade Federal do ABC

Ana Maria Dietrich

Historiadora e docente Universidade Federal do ABC

Durante o  III Reich (1933-1945), o Partido Nacional Socialista da Alemanha desenvolveu suas atividades guiando-se por princípios racistas, anti-semitistas, nacionalistas e autoritários. As atrocidades cometidas pelo regime nazista eram de conhecimento público, tanto da população alemã quanto da opinião pública internacional, como apontou Lenharo. A propaganda foi parte essencial do nazismo, possibilitando que o regime conquistasse o apoio e a simpatia das massas. Em seu livro “Minha Luta”, Hitler revela a importância dada à propaganda:

“[…], sempre me interessou vivamente a maneira por que se fazia a propaganda da guerra. Eu via nessa propaganda um instrumento manejado, com grande habilidade, […]. Compreendi, desde logo, que a aplicação adequada de uma propaganda é uma verdadeira arte, […]” (HITLER apud Pereira, Wagner, 2008, P. 44)

A propaganda nazista esteve presente nos diversos aspectos do cotidiano do povo alemão, incluindo a arte, a educação, a arquitetura, o cinema e até mesmo os esportes. A dimensão social pela qual se estendeu o regime nazista é compreendida através do contexto de crise econômica vivida pelo povo alemão na época, da violência e a repressão impostas à sociedade, e também através da propaganda, que seduziu e fidelizou muitos cidadãos alemães.

“O Triunfo da Vontade”(ilustração 1 e 2), filme produzido em 1934 e dirigido pela cineasta Leni Riefehnstal(ilustração 3), revela a essência da propaganda nazista. Neste documentário, o Ministro da Propaganda, Joseph Goebels, afirma que “pode ser bom possuir o poder baseado na força, mas é melhor ganhar e segurar o coração das pessoas”. A motivação para esta pesquisa envolve a compreensão da força da propaganda nazista nesta missão bem elucidada por Goebbels, que pôde conquistar grande apoio popular nas décadas de 30 e 40 apesar da triste ideologia racista e higienista e de todos os horrores cometidos.

Totalitarismo, antissemitismo, propaganda do terror e características do fascismo

Numa perspectiva de compreender as bases do desenvolvimento abundante de material de propaganda no regime nazista se faz indispensável citar o pensamento da filósofa política alemã, Hannah Arendt, sobre antissemitismo e totalitarismo. Em “A Origem do Totalitarismo”, Arendt retoma as origens do antissemitismo como correlatas à formação dos Estado-Nação na Europa, tal desenvolvimento traz consigo a eclosão dos primeiros sinais de nacionalismos que pouco a pouco se mostram cada vez mais contrários à característica essencialmente cosmopolita dos judeus e além de também nutrir uma constante desconfiança com o caráter mais restrito que os grupos judaicos e de sua cultura em geral possuem (ilustração 4).

Para Arendt, o advento do Imperialismo retirou o domínio dos judeus do ramo de financiamentos, pelo qual ficaram conhecidos. Tal fato teria obrigado grande parte da comunidade judaica a se especializar em diversas ocupações, sobretudo de profissionais liberais, no início do século XX. Dessa forma, quando não eram vistos como exploradores devido à prática de empréstimos bancários, eram vistos como culpados pelo desemprego dos “reais” alemães. Resumindo, qualquer que fosse a mazela em questão, as chances de que os judeus fossem culpados era grande, ou seja, o antissemitismo ressurge com força em situações de crise de representação e estabilidade nacional, sendo por isso usado exaustivamente nas propagandas ideológicas nazistas.

Além disso, o momento histórico entre o final do século XIX e primeira metade do século XX estava muito influenciado pelas teorias racialistas, como a idealizada por Gobineau, que afirmava que a miscigenação seria a desgraça de uma civilização, e que somente a eugenia poderia elevar a humanidade. Junto a essas ideias, a destruição, a instabilidade dos estados europeus, os centenas de milhares de apátridas, após a Primeira Guerra Mundial, foram fatores que lançaram grande parte da Europa no totalitarismo, no caso de uma Alemanha humilhada, afundada em dívidas tal tendência foi ainda mais potencializada. Por fim, devemos relembrar a ideia de totalitarismo de Hannah Arendt, para a pensadora um regime totalitário seria baseado na dominação total através de uma ideologia e da propagação do terror e do medo como instituição e mantenedor do poder, isolando os indivíduos e retirando qualquer força para agir contrariamente. O terror é então, sem dúvidas, o principal instrumento de propaganda nessas condições em que um grupo seleto tentar destruir toda e qualquer ameaça ao seu status de líder.

Ademais, devemos mencionar também o trabalho do historiador e cientista político brasileiro, Francisco Carlos Teixeira, acerca das características do fascismo. Primeiro de tudo deve-se evitar a visão de que o fascismo seria um acidente histórico restrito ao período entre guerras, segundo muitos autores tal ideia é equivocada, já que o fascismo pode ser visto como um fenômeno da sociedade, além de uma época e um lugar específico. Mesmo que existam aspectos essencialmente ligados a certos países, como o caso do nazismo na Alemanha, a universalidade do fascismo enquanto fenômeno se mantém.

Teixeira faz uso da definição de fascismo de Wolfgang Schieder para elucidar melhor tal universalidade e a vastidão conceitual do fascismo:“…se reconhece como fascistas movimentos nacionalistas extremistas de estrutura hierárquica e autoritária e de ideologia antiliberal, antidemocrática, e antisocialista .” (Schieder apud Teixeira, 2002, pg. 118). Portanto, é característico do fascismo a construção da imagem do Estado como responsável pela união e estabilidade nacional e como sendo o único apto a reerguer moralmente um povo, detentor máximo de poder , além também da necessidade da canalização de todo esse poder à imagem de um líder supremo que sintetize a ideia de uma pacto nacional. Vale ressaltar que os movimentos fascistas procuram se apresentar como uma terceira via, isto é, avessa tanta ao liberalismo quanto ao marxismo.

Por último, Teixeira destaca a busca de um inimigo da nação e os pretextos medíocres usados pelo regime nazista e aceitos também pela população alemã que levaram a perseguição não só dos judeus, mas também dos comunistas, ciganos, homossexuais, negros e estrangeiros. Uma das motivações de intolerância além das características cosmopolitas, dos idiomas diferentes, das relações com partidos políticos , era a de que todos esses grupos fossem formadores de associações em que os indivíduos partilhavam de muita cumplicidade entre si e que poderiam estar conspirando contra o regime e à unidade nacional alemã. Ou seja, tudo que parecesse antinacional era objeto de perseguição e ódio, é nessa perspectiva que o grande volume de propagandas nazistas foi idealizado e disseminado por toda Alemanha, sendo esse o foco escolhido de nossa pesquisa.

A propaganda política no regime nazista

Como bem colocado por Pereira, a propaganda política consolidou-se com os avanços tecnológicos dos meios de comunicação, entre as décadas de 1920 e 1940. Em qualquer regime a propaganda política é utilizada como um instrumento de sedução, em busca de adesões políticas. O diferencial dos fascismos em relação aos demais modelos é a censura ou o monopólio dos meios de comunicação, que permite que o Estado obtenha, além do controle da força física, o controle também da força simbólica (ilustração 5).

Bortulucce aponta que a estética nazista é moldada de forma simples e dirigida às massas, com mensagens de fácil compreensão e que despertam emoções e sentimentos, envolvendo a dicotomia entre o amor eo ódio. A força da propaganda nazista estava também em atuar sobre a auto-estima nacional, que à época estava fortemente abalada pelo contexto de grande crise econômica e da derrota na 1ª Guerra Mundial.

As ideias estavam presentes no cotidiano popular em várias maneiras distintas, sendo repetidas diariamente. A propaganda passava pelos estandartes, pelos hinos, pelos uniformes militares e até mesmo pelas saudações. Os símbolos adotados pelo regime nazista também eram de grande importância: a suástica representa fonte de vida e a águia com asas levantadas representa a força e o poder idealizados pelo regime.

Até mesmo o militarismo representou um importante elemento estético. O uniforme e toda a pompa militar reforçaram a imagem de força e poder que o regime nazista buscava passar para a população. Na arquitetura, desenvolveram-se grandes projetos, que visavam construir uma Alemanha gloriosa (ilustração 6). A arte se dividia entre as representações de Hitler e seus oficiais, as representações de importantes momentos do III Reich e as artes clássicas, com o aspecto de perfeição tão apreciado pelo regime nazista. I

A imagem do Führer era muito importante e tratada com cuidado, sendo este representado principalmente pelo fotógrafo Heinrich Hoffman (ilustração 7) e a Leni Riefehnstal. Sobre isto, Bortolucce demonstra que

“Hitler posiciona-se nos palcos e palanques com o corpo ereto, a voz forte, o gesto enérgico, e no, entanto, controlado. […] Sempre ocupa uma posição privilegiada no plano da filmagem e no enquadramento fotográfico; a câmera se detém nele e nunca se apressa, em nenhum momento do espetáculo.” Bortolucce, 2008, p. 62-63

Propaganda política aplicada ao cinema

Um dos principais veículos de propaganda nazista foi o cinema. Pereira aponta que desde a 1ª Guerra Mundial já havia se iniciado o interesse pela propaganda política através do cinema e que até mesmo a ascensão de Hitler estaria fortemente relacionada a essa mídia. É importante destacar que o cinema foi um importante instrumento político não só para os fascismos, mas também para os regimes democráticos.

Conhecer o cinema nazista é essencial para a compreensão da propaganda política desenvolvida nesse período, uma vez que esse foi o veículo de comunicação que recebeu os maiores investimentos governamentais. A relação do Führer com o cinema já existia antes mesmo de sua chegada ao poder:  A Universum Film Aktien Gessellschaft, mais conhecida como Ufa, através de Alfred Hugenberg, veiculava cinejornais que contribuíram para a construção da imagem do nazismo e do próprio Hitler, contribuindo para um bom desempenho do partido nas eleições.

Esse fato revela que, desde o início, o regime nazista já conhecia o poder de mobilização das massas contido no cinema e refletido na intensa produção do período: foram 1350 filmes desenvolvidos nos 12 anos do III Reich. Nem todas as produções cinematográficas do período eram propaganda política clara: muitos apresentavam características ideológicas bastante sutis e passavam como forma de entretenimento.

Os filmes desenvolvidos nos anos 30, por sua vez, eram bastante partidários e patrióticos, como objetivo de atrair a juventude para a militância nazista. Os ideais nazistas eram vistos de forma maniqueísta, como uma disputa entre o bem e o mal. Para construir a imagem do inimigo, os judeus eram representados de formas depreciativas, muitas vezes associados a insetos e animais parasitas. Outros povos também foram representados de forma negativa, como os polacos, tchecos, russos e até mesmo os ingleses, após a guerra. É importante destacar que essa representação do inimigo ocorria também em filmes de entretenimento, de forma sutil.

Algumas produções nazistas se destacaram tanto por sua qualidade cinematográfica quanto pela demonstração nacionalista nelas contidas. O Triunfo da Vontade e Olympia, ambas da cineasta Leni Riefenstahl, são as mais conhecidas do público. O Triunfo da Vontade, de 1935, foi o último a exaltar o Fuhrer de forma direta e tinha o objetivo de representar o 6º Congresso do Partido Nazista, realizado em 1934 em Nuremberg. Ainda assim, parte de suas imagens não são do Congresso pois foram encenadas, de maneira a mostrar uma forma de organização perfeitamente bela. Olympia, estreado em 1938, foi realizado com o propósito de ser um documentário dos Jogos Olímpicos de Verão de 1936, sem que deixasse de exaltar o regime nazista. Ainda assim, exalta o regime nazista e seus ideias, de forma a demonstrar a força e a beleza da sociedade ariana.

O filme “Der Ewige Wald” (A Floresta Eterna), de 1936, foi construído como uma propaganda ideológica da necessidade do Espaço Vital, essencial na ideologia nazista, ao demonstrar de forma lúdica a relação entre o povo alemão e a terra na figura da floresta. O filme ainda mostra a civilização alemã como uma raça superior, que se perpetuará pela eternidade.

Uma das histórias mais interessantes é  do filme  “Ich klage an“ (Eu acuso), de 1941, que revela que o cinema servia também como uma espécie de termômetro popular para o regime nazista. Esse filme teve como objetivo testar a reação nacional frente a uma proposta de lei que autorizava a eutanásia, uma vez que parte da política higienista do regime nazista se voltava também contra deficientes físicos e portadores de doenças incuráveis. A comoção em torno da morte da protagonista indicou que a sociedade não aceitaria esse tipo de lei, de forma que essas atividades foram desenvolvidas clandestinamente.

Mesmo durante a 2ª Guerra Mundial, o cinema manteve sua importância, representando fonte de informação e de entretenimento. Eram apresentados cinejornais de guerra, os Die Deutsche Wochenschau (Noticiário Alemão), com imagens das batalhas enfrentadas pelos militares. Os documentários militares eram claras propagandas políticas e considerados educacionais para os alemães. Os filmes ficcionais passavam-se no contexto da guerra e realizavam a propaganda política de forma um pouco mais discreta. Os filmes históricos, por sua vez, exaltavam o passado alemão como uma forma de energizar o povo alemão e motivá-los para a guerra.

Um dos últimos filmes nazistas produzidos foi o histórico Kolberg, de 1945, que retratava a resistência do povo alemão na cidade de Kolberg, durante o período napoleônico. O filme recebeu muitos recursos e contou com muitos atores, já colorido e considerado uma super produção. Realizado entre 1943 e 1944, teve seu lançamento em Janeiro de 1945. Essa é a parte mais interessante, uma vez que, nesta data, a guerra já estava praticamente perdida: o Eixo havia colapsado e estava cercado pelos aliados, que já estavam fortalecidos desde 1944.

Essa circunstância reflete bastante a essência da propaganda e a importância da imagem no regime nazista, que sempre procura exaltar o povo alemão, a raça ariana, as produções nacionais e a história representada nos grandes feitos do passado. A propaganda nazista, presente do cotidiano popular de tantas formas diferentes e com tanta intensidade, foi essencial para que o partido nazista obtivesse tanto apoio popular e propagasse sua ideologia de forma tão expressiva nos 12 anos em que estiveram no poder.

 

 Conclusão

A principal contribuição desta pesquisa é a exposição, de forma simples e bastante ilustrada, da extensão da máquina da propaganda nazista, que permeava todo o cotidiano da sociedade alemã. Estimular o leitor a pensar quais os impactos das ações nazistas em contraposição à sua forma de fazer arte, cinema, arquitetura e até mesmo fotografia na contemporaneidade é fundamental para refletir sobre a responsabilidade popular e a força das ideias.

Como foi observado, a presença dos símbolos na escala de prédios e a ideologia por trás de um filme manipula a opinião pública de forma até mesmo surpreendente. Estas lições, já conhecidas um século atrás, são utilizadas na atualidade de forma massificada, portanto permite que façamos mais do que relembrar a história, permite repensarmos nosso cotidiano e nossa realidade.

É de fundamental importância frisar que a propaganda, tal como conhecemos contemporaneamente, não foi criada pelos Nazistas, mas  neste regime ela é massificada, instrumentalizada e universalizada com grande potência, possivelmente favorecida também pelo

fascismo e pela monopolização dos meios de comunicação.

Desta maneira, não se fala de Nazismo sem citar a propaganda, que foi parte da base estruturante do regime nazista, que dominou a Alemanha de 1933 a 1945. Todavia, mais que a dimensão atingida pelos instrumentos para manipulação social, este regime é a prova histórica que mecanismos de manutenção da democracia nos meios de comunicação são fundamentais para não se conduzir sociedades inteiras à regimes violentos, racistas, higienistas e totalitários, como foi o regime nazista.

 

6. Referências Bibliográficas

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<https://www.ushmm.org/wlc/ptbr/article.php?ModuleId=10005141> Acesso em 12 de outubro de 2017.

[1] LENHARO, Alcir. Nazismo: o triunfo da vontade. São Paulo: Ática, 1986. p. 7-11. v. 94.

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É editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora do ContemporARTES. Coordena o grupo de pesquisa do CNPQ LEPCON - Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade certificado pela UFABC em parceria com a UFV, UFJF, UFF, UFPA, USS e UFBA. É professora adjunta da UFABC. Pós-doutora em Sociologia pela UNICAMP, doutora em História pela USP com doutorado sanduíche pelo Centro de Estudos de Anti-Semitismo (Universidade Técnica de Berlim). Integrante Permanente da Pós Graduação de Ensino, História e Filosofia da Ciências e da Matemática (UFABC) Autora de Nazismo Tropical (Todas as Musas, 2012), Caça às Suásticas - O partido Nazista em São Paulo (Imprensa Oficial / Humanitas 2007) e outros.

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