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William Faulkner, um poeta

Leia a contribuição do leitor Rodrigo Conçole Lage na coluna Espaço do Leitor.

Contribuição do leitor Rodrigo Conçole Lage

Rodrigo Conçole Lage

A maior parte dos leitores brasileiros tem contato com a obra de um escritor estrangeiro por meio de traduções, o que não inclui os de língua portuguesa. O grande problema é que, pelo modo como o mercado editorial brasileiro funciona, a publicação das obras completas de um autor, mesmo nacional, raramente acontece. Com isso, o conhecimento da obra é um tanto quanto fragmentário e parcial.

Com isso, vemos coisas como o fato de que, mesmo sendo muito lido e estudado no Brasil, a maior parte dos livros de poesia e crônica de José Saramago não terem sido publicados no Brasil. Ou o fato de que as editoras tendem a preferir publicar uma coletânea de poesia em lugar traduzir um livro integralmente. Sem contar o fato de que muitos livros e autores, por mais importantes que sejam, nunca serão traduzidos.  

Nesse sentido, a obra de William Faulkner é um grande exemplo desse processo de seleção, que dá preferência a alguns gêneros em detrimento de outros. Se, por um lado, temos um grande número de romances (de qualidade variável no que diz respeito à tradução), sua produção contística e quase que totalmente desconhecida. Já seus roteiros de cinema e sua produção poética nunca foram publicados no Brasil.

No que diz respeito à produção poética de Faulkner ela está reunida em seis livros, sendo que dois deles foram lançados postumamente. A maior parte deles foi escrita, e publicada, na juventude. Muitos deles vão ser publicados inicialmente em revistas estudantis universitárias. São eles: Vision in Spring (1921), The Marble Faun (1924), This Earth, a Poem (1932), A Green Bough (1933), Mississippi Poems (1979) e Helen, a Courtship and Mississippi Poems (1981).

Faulkner publicou seu primeiro poema no dia 6 de agosto de 1919, o “L’Apres-Midi d’un Faune“, cujo título foi copiado de um poema de Mallarmé. Essa prática de utilizar o título do texto de outro poeta vai estar presente em outros trabalhos. Apesar de sua produção estar concentrada principalmente no período universitário a sua intenção inicial era continuar atuando como poeta. Tanto é que seu último livro saiu em 1931.

Mas, por diversos fatores, ele acabou enveredando por outros caminhos. Ela não se destaca por sua originalidade. Pelo contrário, alguns críticos identificam em sua obra a forte presença do pastiche e até do plágio. Em sua produção poética, vamos encontrar a presença de “ecos, de A. E. Housman, William Butler Yeats, T. S. Eliot, e Conraid Aiken aos Românticos, os Pré-Rafaelistas, os Decadentes, e os simbolistas” (BLEIKASTEN, 2017, p. 68, tradução nossa).

 

Além disso, alguns de seus trabalhos são, por exemplo, adaptações de poemas de Mallarmé e Verlaine. Outros nomes presentes são o de François Villon, Baudelaire, Keats, Shelley, Wordsworth e Algernon Charles Swinburne. Sendo que a “descoberta de Swinburne foi decisiva no estágio inicial de sua breve carreira poética” (BLEIKASTEN, 2017, p. 69, tradução nossa). Assim, não podemos ler sua produção poética sem ter em mente essas ligações.

Talvez pelo fato de ser, em sua maior parte, a obra de um jovem poeta ela não desperte maior interesse. E, talvez, venha a decepcionar muitos leitores que, por conhecer seus romances, possam vir a esperar encontrar grandes inovações formais ou grande originalidade no conteúdo. Contudo, isso não é motivo para se deixar de ler a sua obra ou a de qualquer outro escritor. Para concluir, encerraremos este artigo com um de seus poemas:

 

After Fifty Years

William Faulkner

 

Her house is empty and her heart is old,

And filled with shades and echoes that deceive

No one save her, for still she tries to weave

With blind bent fingers, nets that cannot hold.

Once all men’s arms rose up to her, ‘tis told,

And hovered like white birds for her caress:

A crown she could have had to bind each tress

Of hair, and her sweet arms the Witches’ Gold.

 

Her mirrors know her witnesses, for there

She rose in dreams from other dreams that lent

Her softness as she stood, crowned with soft hair.

And with his bound heart and his young eyes bent

And blind, he feels her presence like shed scent,

Holding him body and life within its snare.

 

Bibliografia:

BLEIKASTEN, André. William Faulkner: A Life through Novels. Bloomington: Indiana University. Press, 2017.

FAULKNER, William. After Fifty Years. Disponível em: <https://www.poetryfoundation.org/poems/53984/after-fifty-years>. Acesso em: 10 fev. 2018.

 

 

Rodrigo Conçole Lage – Graduado em História (UNIFSJ). Especialista em História Militar (UNISUL). Professor de História da SEEDUC-RJ. Tem artigos e resenhas publicados em revistas acadêmicas do Brasil e do exterior nas áreas de história e literatura. Tem publicado também traduções em revistas acadêmicas brasileiras com destaque para as das peças de teatro de Jacinto Benavente. Publicou vários artigos no Jornal Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte de Araruama-RJ. 

E-mail para contato:

rodrigo.lage@yahoo.com.br

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Estudante do terceiro semestre de Jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. Estagiária no curso de Educação em Direitos Humanos na Universidade Federal do ABC e editora-assistente nas Revistas Contemporartes e Contemporâneos.

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