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Ciberfeminismo: a saída para o desacordo entre bruxas essencialistas e feministas cansadas

 

Cá estamos, diante de inícios, prenúncios de possíveis encontros. A coluna Deusas, Human@s e Ciborgues é inaugurada sob a responsabilidade de transitar por temas que nos sacodem enquanto seres humanos, as fronteiras que nos definem, diferenciam, demarcam posições políticas, morais, ideológicas, sexuais, fronteiras que falam sobre o quanto de humano há em nossos exemplares humanoides e suas culturas hibridas e robóticas. Sim, esta é uma coluna feminista, peneirada pelo olhar de uma pesquisadora de religiões, que atua nas fronteiras entre religião, ciência, gênero e saberes que transitam e insistem em não ocupar um lócus previamente estabelecido.

Vez por outra recebemos anúncios de eventos sobre Círculo de Mulheres do Sagrado Feminino, acompanhados de impressões silenciosas leigas: “isso parece coisa de bruxa moderna que venera a Lua e a natureza.” As impressões não são de todo equivocadas. O Sagrado Feminino é um movimento de caráter espiritualista que busca o empoderamento e a conscientização das mulheres sobre si mesmas, seus ciclos, sua conexão com a natureza, as figuras femininas e deusas de referência.

Como um movimento de empoderamento feminino, tudo indicaria que fosse saudado pelos feminismos militantes, uma vez que há grandes pautas maiores em comum, como busca por visibilidade das mulheres e ocupação de lugares de reconhecimento e poder, luta por igualdade de condições ou equidade no gênero, luta pelo fim da violência de gênero, entre outras. No entanto, há uma torção de nariz entre muitas feministas para as mulheres (ou bruxas) dos Círculos Sagrados, a ponto de uma feminista de renome na academia, chamada Donna Haraway, afirmar que prefere ser um ciborgue que uma deusa, já que “o ciborgue não é parte de qualquer narrativa que faça um apelo a um estado original” (2013, p. 38). Seu “Manifesto Ciborgue” (2013) mostra como os hibridismos humano/máquina estariam na base das transformações identitárias de gênero que desafiam um imaginário ideal normatizador das subjetividades.

Para compreender melhor esta tensão, vamos a uma diferença estrutural nas perspectivas de ambos os lados. Enquanto as bruxas do Sagrado Feminino retomam os ciclos naturais e a essência do que seria ser mulher, por meio da conexão e conscientização de arquétipos femininos como as deusas, as feministas militantes, os “queer”, LGBTs e grande parte da linha de Estudos de Gênero rejeitam tais categorias, por conta da essencialização do que é ser mulher. Estes últimos grupos apostam na desconstrução do ser mulher, ser homem, ser transgênero, ser homossexual, ou ser outra coisa, que não seriam realidades ou verdades internas, e sim, construções inseridas na historicidade, na linguagem e nos processos culturais. deixando de ocupar centralidade e localidade definidas. Tais formulações seriam móveis, dinâmicas, marcas do percurso não-linear de identidade. Este feminino trans, um feminino que transita, borra e desafia fronteiras do que é ser mulher, e fronteiras de gênero de modo mais amplo, coloca-se, diante da perspectiva de um feminino sacralizado, como um desafio. Afinal, a sacralidade do feminino estaria na vagina? Na menstruação? Na intuição? Na maternidade? Em que reside o feminino que se pretende sacralizado?

Como as fronteiras entre sagrado e profano atuam também nas fronteiras corporais, o corpo e o exercício do que associamos à sexualidade podem tornar-se elementos de expressão de binômios como pureza e pecado, natureza e cultura, human@s e animais, human@s e máquinas. Conforme já apontamos em texto anterior (2017), as transformações corporais envolvidas em identidades trans borram e de certa forma agridem estas definições de fronteiras, já que transformar o corpo pode ser interpretado como negar ou macular uma obra divina ou uma essência divinizada. Sagrado e profano, neste caso seriam contidos um no outro, permeáveis. Algo que desafia a construção cognitiva de sagrado, como um elemento que se diferencia do profano.

A tensão envolvendo as perspectivas de natureza e cultura é uma expressão da artificialidade construída por meio de categorias duras e não correspondentes às múltiplas realidades. Opor estas duas instâncias é negar que uma está contida na outra, já que faz parte da natureza humana produzir cultura, e talvez se possa dizer que também faz parte de nossa cultura produzir naturezas. Tal oposição presente em parte das narrativas sagradas é reforçada pela ideia de que o natural advém do divino ou da espiritualidade maior e que haveria um natural dado sobre o que é ser homem e mulher.

Tal dicotomia entre natureza e cultura ocupa também os espaços científicos, como é o caso dos diferentes discursos entre as ciências naturais e as humanas/sociais. Olhadas a partir de um ponto de vista leigo, as disputas discursivas das ciências em torno do gênero poderiam contaminar a percepção pública sobre o tema, gerando ou reforçando contradições importantes. De um lado, as ciências naturais reafirmam “naturezas” biológicas do pênis e da vagina e eventualmente atuam na patologização médico-psiquiátrica de expressões de gênero, e por outro lado, as ciências sociais atestam padrões de constructos sociais nas identidades de gênero.

Nesse sentido, o ciberfeminismo (ou tecnofeminismo, na linguagem de Judy Wajcman, 2004), que basicamente chama atenção para a relação entre os papeis de gênero e a tecnologia, pede pela apropriação das mulheres do universo ciber. Não se pode pensar o feminismo e a emancipação feminina hoje sem as redes sociais, os aplicativos e sem a ocupação dos espaços da ciência e tecnologia. Tal chamado de Donna Haraway (2013) e Judy Wajcman (2004) é uma busca de conexões na luta feminista, tão plural e por vezes conflitiva, como no caso aqui citado entre Sagrado Feminino e feminismos políticos. Nexos, conexões, redes, assim as mulheres nos unimos e nos conscientizamos umas às outras de aspectos da luta desconhecidos para as partes. Cada ponta da luta é apenas expressão da luta maior, que é a defesa da possibilidade de existir em uma vida plena, psicologica, social, profissional, amorosa, corporalmente. Uma vida sem violências, sem invisibilidades, sem opressões. Sendo bruxas, deusas, ciborgues, com ou sem pênis, trans, não-binárias, homossexuais, religiosas, ativistas, diretoras, donas de casa. Solidariedade, mulheres, é tudo que temos.

 

 

 

Clarissa De Franco é psicóloga e pesquisadora da UFABC, doutora em Ciência das religiões, com pós-doutorado em Ciências Humanas e Sociais. Atua com Direitos Humanos, Gênero, Religião e Políticas Afirmativas. É aquariana, esperançosa e metida a ser humana no melhor sentido da palavra.

 

Bibliografia:

Franco, Clarissa De. (2017) As disputas discursivas entre gênero e religião. Revista Senso. Disponível em: https://revistasenso.com.br/2017/12/26/disputas-discursivas-no-debate-entre-genero-e-religiao. Acesso em janeiro de 2018.

Haraway, Donna. (2013). Manifesto Ciborgue. Em: Tadeu, Tomaz. (org.) Antropologia do Ciborgue. As vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

Wajcman, Judy. (2004). Technofeminism . Cambridge: Polity Press.

 

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