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Na câmara escura

Essa história é mais velha que a história dos tempos de glória do velho bufão e quem não sabe de cor essa história refresque a memória e preste atenção: não sou eu quem repete essa história, é a história que adora uma repetição…

Assim foi que,

como seu pai antes dele e como o pai do seu pai,

o mago adentrou a câmara escura. Era comum, entre os membros da Ordem, que os filhos, pouco antes de tornarem-se pais, criticassem os postulados, dogmas e premissas de seus antecessores. O mago, então, apoio seu cajado milenar – herança de família – no canto do cômodo, pousou sobre a mesa o punhal, retirou da bolsa algumas moedas e uma taça, abriu o pergaminho e começou a tomar notas sobre a imagem projetada na parede.

Passado algum tempo,

entrou na câmara, deixando a porta entreaberta, outro mago, que, observando o primeiro, disse: _ Tolo! Olha e vê que, na imagem, tudo está posto de cabeça para baixo, que a cabeça, assim descrita, é, na verdade, os pés; que as pernas são, dessa forma, os braços e os braços, as pernas.

Dizendo isso, fez apoio na mesa, ergueu-se, prendeu, com o próprio cinto, a perna esquerda a uma das vigas e dependurou-se, a fim de reconhecer, na imagem, a visão real do mundo, a forma exata de cada coisa em seu lugar.

Pouco depois,

enfiou-se, pela greta da porta, uma borboleta e, atrás dela,

um louco e, atrás dele,

um cão.

O animal, com os dentes enterrados na bota do recém-chegado, puxava para trás as pernas que prosseguiam firmes. Fascinado pela dança liberta da borboleta, o louco não dava atenção. Até que, por ocasião do escuro, os olhos do louco se desencontraram da borboleta e ele se pôs a observar os magos, que mal notaram, a princípio, a sua presença.

Foi de um lado para o outro,

girou em torno do homem dependurado,

contornou o mago que, compulsivamente, tomava notas.

Arrastou a mão sobre a parede e viu uma parte da imagem projetada sobre a palma. Caminhou até o furo por onde a luz entrava. Fez, com os dedos, algumas figuras na imagem que se formava e, ao perceber que os magos reagiam com espanto aos vultos, soltou uma larga e estrondosa gargalhada.

Tendo se recuperado, tentou conversar com um dos presentes e disse:

_ Mago da cadeira, o que os seus olhos de mago veem?

E o mago da cadeira respondeu:

_ Que o mundo é parte da estrada, que o corpo é morada passageira, que a vida é estar a caminho.

O louco admirou-se, ponderou por alguns instantes e foi perguntar ao segundo mago:

_ Mago da viga, o que seus olhos de mago veem?

E o mago da viga respondeu:

_ Que o mundo é a estrada inteira, que o corpo é residente, que a vida é o caminho.

O louco parou, pasmado, coçou a cabeça e voltou a encarar a imagem. O cão puxava-lhe as calças, mordia-lhe, desesperadamente, os calcanhares, mas nada parecia fazer diferença.  Aos poucos, sua fisionomia foi mudando, passou de estupefato para colérico e de colérico para iracundo, de iracundo para revolto e de revolto para melancólico e, por fim, olhando da parede para o furo e do furo de volta para a parede, deu um suspiro profundo e disse:

_ Minha sabedoria já há muito se acumula, igual a uma nuvem, ela se torna mais quieta e mais escura. Assim faz toda sabedoria que um dia deve parir um relâmpago.

Tomou nas mãos o cajado do primeiro mago, posicionou-se na frente do furo por onde entrava o feixe, voltou-se para o cão e berrou:

_ Não, não e não! Para estes homens de hoje não quero ser luz nem chamar-me luz! Eu quero cegá-los! Quero vazar seus olhos com o relâmpago da minha sabedoria!

E, dizendo isso, golpeou a parede até colocar toda câmara abaixo.

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Lucca Tartaglia é doutorando em Letras Vernáculas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Letras (Estudos Literários) pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (2014) e graduação em Letras (Língua Portuguesa / Literaturas de Língua Portuguesa) pela mesma instituição (2013). É colaborador, como membro estudante, do Núcleo de Estudos Portugueses (NEP) - atuando na linha de pesquisa Literatura, Cultura e Sociedade - e, como pesquisador, no grupo Formação de Professores de Línguas e Literatura (FORPROLL), linha de pesquisa Estudos de cultura, linguagens e suas manifestações, ambos vinculados ao CNPq.

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