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Entre Judith Butler, Angela Davis e Dorothy Stang

O ambiente da Faculdade de História (FAHIST) da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) é um ambiente pequeno. Tratam-se de turmas de apenas quarenta estudantes, que entram uma vez por ano. Os primeiros alunos e alunas iniciaram seu curso em 2014, então só vão terminar as disciplinas e se formar ao longo do ano de 2018. A convivência, desta forma, entre discentes e docentes é talvez mais próxima que em outras faculdades e universidades. Não é incomum que os professores conheçam alunos e alunas pelos nomes e saibam, por vezes, os interesses de pesquisa de muitos. Diferente de outras universidades públicas – ou pelo menos da visão que se tem das mesmas – o perfil sócio-econômico de grande parte dos alunos e alunas da FAHIST não permitiria jamais que frequentassem cursos em instituições de ensino superior privadas.

Nesse ambiente, que às vezes parece quase íntimo, iniciei minha primeira experiência de docência em uma instituição pública, em 2016. Mal havia iniciado meu primeiro semestre, representantes do Centro Acadêmico Dina Teixeira me consultaram sobre a possiblidade de dar um treinamento em terminologia e questões feministas. Naquele momento eu era a única mulher do corpo docente da FAHIST. Atribuí o convite a esse fato. O encontro foi marcado para um sábado a tarde, algo que me pareceu ser um erro operacional, posto que imaginei que os estudantes iriam preferir aproveitar as praias de rios daquele início de verão (do verão amazônico, que engloba os meses de julho a setembro).

Fiquei bastante surpresa com a quantidade de alunos e alunas, que apareceram para me ouvir falar sobre feminismo num sábado de sol.  Admirei-me, ainda, quando percebi que estavam presentes quase todas as alunas que eu imaginava que não tinham obrigações familiares. Impressionei-me também com a quantidade de alunos. Enfim, foi uma tarde de surpresas agradáveis e de questões mais difíceis do que eu havia me preparado para responder. Eu já tinha iniciado as aulas há algumas semanas, mas esse “treinamento”, como chamaram, foi o que mais marcou o início da minha vida em Marabá. A partir daquela tarde, comecei a observar mais cuidadosamente aspectos do envolvimento político dos estudantes. Percebi rapidamente que um número grande deles se vinculava a diferentes movimentos sociais, como o Movimento Sem Terra, bem como outros movimentos camponeses do estado do Pará, e o Levante Popular da Juventude (ligado ao Partido Socialismo e Liberdade, PSOL). Grande parte dos alunos e alunas da FAHIST que são engajados politicamente se filiam a movimentos e idéias de esquerda.

Antes de ser professora de História das Américas no sul do Pará, quase toda a minha experiência docente tinha sido no contexto de universidades e faculdades privadas na cidade de São Paulo. Quase sempre atuando em cursos de Direito ou Comunicação. Minha trajetória, desde a primeira experiência em 2008, tinha envolvido debates acalourados sobre as questões de políticas afirmativas, por exemplo. Se, em 2008, grande parte de meus estudantes de direito eram contra qualquer tipo de cota (e muitas das alunas se sentiam desconfortáveis em se dizer feministas); em 2015, todas as minhas salas de Comunicação na FIAM-FAAM tinham alunas e alunos negros que a despeito de não participarem de qualquer programa de ação afirmativa, mostravam-me novas problemáticas sobre sua luta cotidiana contra o racismo e o machismo. Como mulher branca, em um espaço urbano privilegiado em São Paulo, aprendi especialmente com minhas alunas negras que se empoderavam, faziam suas transições capilares e desabrochavam suas lutas a cada semana de aula.

Desde 2014, o contato com muitas e numerosas turmas de estudantes me permitiram acompanhar os diferentes debates sociais. Esses debates, que iam se amplificando pelas redes sociais, culminaram nos movimentos que fez com que o ano de 2015 fosse proclamado o ano das mulheres na internet e o início da primavera feminina. Foi na companhia de muitas dessas alunas que pude fazer parte de passeatas feministas na Avenida Paulista, geograficamente muito próxima aos meus locais de trabalho e de residência.

Quando me mudei para Marabá-PA, eu vinha dessa experiência de imersão na primavera das mulheres que tomava minha vida cotidiana de assalto. Ainda não era possível saber como a primavera das mulheres tinha mudado as vidas das jovens universitárias para quem eu lecionaria no Pará, ou quais as especificidades do engajamento político nessa região do país. As questões feministas que mobilizava minhas alunas paulistas, que vinham, frequentemente de lugares sociais menos privilegiados, tinham dificuldades em acomodar sua mobilização política com os expedientes de seus empregos. A grande maioria delas precisavam de horas de deslocamento para frequentar as aulas e, obviamente, também prescindiam das mesmas horas para chegar as marchas de mulheres que pudessem por ventura participar fisicamente. Em suma, minhas alunas paulistas estavam mobilizadas politicamente e atualizadas nos últimos debates digitais de gênero. Proporcionalmente poucas, contudo, conseguiam participar dos centros acadêmicos, coletivos, ou das marchas da Avenida Paulista (ou da região do Centro de São Paulo, como foi o caso da Marcha das Mulheres Negras de 2016).

Quando cheguei ao campus da Unifesspa para oferecer o “treinamento” em questões feministas naquele sábado de sol, esperava apenas aquela minoria de alunos e alunas que se dedicam com mais afinco ao movimento estudantil nas universidades públicas. Encontrar a maior parte daqueles que frequentavam meus cursos regulares pareceu talvez algo “normal” de uma faculdade pequena. Qual não foi minha surpresa que para além de estarem atualizadas com as últimas terminologias, as alunas da Unifesspa, já tinham acumulado discussões profundas sobre ações afirmativas e queriam de mim outro tipo de contribuição. Queriam, por exemplo, explicações de apoio para ler a obra de Judith Butler. Queriam também saber o que eu tinha de traduções de Angela Davis para lhes emprestar. Estava dentre as minhas capacidades apenas ajudar na leitura da Judith Butler e, felizmente, em pouco tempo saíram as traduções de “Mulher, Raça e Classe” (2016) e “Mulheres, Cultura e Política” (2017) de Angela Davis. Mas sobre as lutas sociais do sul e sudeste do Pará eu sabia apenas o que tinha aprendido nas disciplinas de geografia agrária na Universidade de São Paulo (USP), no início dos anos 2000. Sobre as questões que marcavam as lutas das alunas da Unifesspa eu não sabia quase nada.

Até me mudar para Marabá, casos como o do massacre de Eldorado de Carajás (1996) ou o assassinato da freira estadunidense Dorothy Stang, em Anapu (2005), chegavam a mim pela cobertura da grande imprensa. A vida na mesorregião do sul do Pará, entretanto, mostrou-me que os assassinatos de camponeses acontecem cotidianamente e apenas alguns ganham cobertura nacional, como foi o caso do recente massacre de Pau D’Arco, em maio 2017. A precariedade do respeito aos direitos humanos, atinge diferentes grupos rurais e urbanos todos os dias, sem que se noticie quase nada em escala nacional. Ficamos sabendo pelos estudantes e colegas que militam e acompanham diferentes movimentos sociais. E as notícias sobre os assassinatos são mais frequentes do que eu jamais poderia antecipar.

Passados quase dois anos aqui, percebo que muito da ampla mobilização política dos estudantes da FAHIST é, por vezes, uma questão de necessidade. Nossos alunos e alunas estão sempre presentes nas passeatas (cruelmente longas, em estradas descampadas e sempre sob altas temperaturas). Estão também sempre entre os primeiros a unir suas vozes ao grito dos oprimidos, que marca o início das passeatas e alguns outros atos públicos. Um grande número deles utiliza as semanas de férias para participarem de vivências em diferentes assentamentos ligados ao Movimento Sem Terra. Outros muitos se vinculam ao Levante Popular da Juventude e frequentam seus encontros para discutir diferentes questões do atual momento político. Aqueles alunos e alunas que não se identificam com as agendas políticas de movimentos já consolidados, fundam ou participam de coletivos feministas ou ligados às questões LGBT.

Nesse breve período vivendo em Marabá, testemunhei alunos e alunas da FAHIST participarem e liderarem ocupações e greves contra o atual desmonte do estado. Percebo, atualmente, que não estão mobilizados politicamente apenas porque escolheram o curso de história, mas por que enxergam a mobilização política como uma das poucas alternativas mudança ou mesmo de manutenção de alguns dos poucos ganhos políticos recentes. Em uma região cuja presença do estado se dá frequentemente apenas pela via da violência, a vinculação aos movimentos sociais pode ser uma alternativa de sobrevivência.

 

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Graduada em Direito pela PUC-SP (2001-05) e em História pela USP (2002-06), Desenvolveu as pesquisas de mestrado e de doutorado no Programa de Pós Graduação em História Social da USP. Com apoio Fapesp, realizou estágio internacional na Yale University (2010-11), como Visiting Assistant in Research. É, atualmente, Professora Adjunta da Faculdade de História (FAHIST) da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). Também é coordenadora da Pós-Graduação Lato Sensu " Ensino, Educação Histórica e Direitos Humanos" da FAHIST-Unifesspa.* Ministra cursos nas áreas de História das Américas, Históriado Brasil e História do Direito (na Faculdade de Direito - FADIR). Tem experiência de pesquisa em Arquivos Nacionais e Internacionais, em especial nos Estados Unidos e Reino Unidos. Os temas de principal interesse estão relacionados à Escravidão e Abolição, Diversidade e Tolerância, Relações de Trabalho e Migrações, Relações Raciais e de Gênero. Líder do grupo * Raça trabalho e poder: africanidades, identidades negras e ideologias na história da Amazônia* -RTP – AINIHA/Cnpq por onde desenvolve o projeto “Circulações Atlânticas, raças, trabalho e migrações em perspectivas transnacionais no século XIX”.

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