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Resenha Crítica de “A Ilha” (The Island)

Um grande laboratório situado em uma plataforma marítima produz clones humanos que nada mais são que uma apólice de seguros para seus clonados e fonte de riqueza para seus produtores.

RESENHA CRÍTICA DE “A ILHA” (THE ISLAND)

Por Sandra Salerno

Aluna especial do Programa de Pós Graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática

 

 

 

RESUMO

Um grande laboratório situado em uma plataforma marítima produz clones humanos que nada mais são que uma apólice de seguros para seus clonados e fonte de riqueza para seus produtores.

Os clones têm a finalidade de satisfazer as possíveis necessidades de seus proprietários, seja fornecendo-lhes órgãos como o coração, o fígado, entre outros ou até gerar seus filhos.

Após sua utilização os clones são descartados, mortos, e se o segurado desejar poderá contratar uma outra apólice, ou seja, contratar a produção de um outro clone.

Os clones são gerados em bolhas que funcionam como uma placenta. Quando nascem tem a aparência do proprietário na época da compra da apólice, ou seja, nascem adultos. Ainda na placenta recebem as memórias de seu clonado como se fossem suas.

Os clones são convencidos de que são sobreviventes de um vírus mortal e que estão protegidos. Suas vidas se resumem a esperar a premiação de uma loteria cujo prêmio é ir para uma ilha paradisíaca, único lugar livre da contaminação. Esse prêmio esconde seu verdadeiro destino: o proprietário acionou sua apólice e o clone será utilizado.

Tudo corre bem até que um clone começa a questionar sua vida no local. Quem lava e passa suas roupas? Por que são todas iguais e brancas? Por que sua alimentação é pré-determinada? Qual o significado de seus sonhos? …  Esse clone faz amizade com o clone de uma linda jovem com quem acaba fugindo do laboratório.

Um outro clone, mais antigo no lugar, calcula a probabilidade de ser o próximo ganhador depois de observar as variantes das premiações. O que não se confirma.

Como consequência da fuga o casal assume a vida de seus segurados.

 

 DEFINIÇÃO

Clone – um conjunto de indivíduos originários de outros por multiplicação assexual (divisão, enxertia, apomixia, etc).

Clonagem – processo de obtenção de um clone. Introdução de um fragmento do material genético de uma célula em outra que passa a possuir e a multiplicar a informação genética contida no fragmento introduzido.

Pergunta-se:

É correto fazer a clonagem de seres humanos?

É correto criar pessoas para servirem de peças para reposição quando alguma parte de nosso corpo falhar?

Até que ponto pode-se dispor da vida para controlar a morte?

 

Qual é o limite da Ciência?

Sob o olhar da Ciência o desenvolvimento da clonagem Humana pode ser a solução para inúmeros problemas na preservação da vida Humana. Discute-se muito sobre a clonagem para a cura da leucemia, para transplantes de órgãos, entre outras vantagens. Portanto, para a ciência o “céu” é o limite! A ciência deve seguir em busca da “perfeição”.

A ciência já produziu a ovelha ‘Dolly” em laboratório a partir das células de outra ovelha. Dolly teve uma vida mais curta que a de uma ovelha normal, apresentando precocemente sinais de velhice, consequência da utilização de células adultas para sua ‘criação’.

No caso de seres humanos temos a utilização de células tronco na recuperação de várias doenças, já criamos parte de órgãos, como por exemplo a pele. As pesquisas continuam avançando nesse sentido, no entanto, a possibilidade da clonagem do ser humano completo, ou seja, uma “Dolly humana”, é um tema muito controvertido que esbarra em fatores éticos, religiosos, políticos e sociais.

Segundo Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, “há diversas subáreas e vários tipos de enfoques distintos em História da Ciência. Vamos nos referir aqui a duas possíveis abordagens, uma abordagem conceitual (interna, internalista), discute os fatores científicos (evidências, fatos de natureza científica) relacionados a determinado assunto ou problema. Procura responder a perguntas tais como se determinada teoria estava bem fundamentada, considerando o contexto científico de sua época. Por exemplo: ‘A teoria de evolução de Lamarck estava bem formulada para sua época?’

Uma abordagem não conceitual (externa, externalista), lida com fatores extra científicos (influências sociais, políticas, econômicas, luta pelo poder, propaganda, fatores psicológicos). Por exemplo: se uma teoria estava bem fundamentada para sua época para sua época e foi rejeitada, o porquê da rejeição da mesma diz respeito a fatores não conceituais.

Por que a teoria de evolução foi rejeitada em sua época já que estava bem fundamentada?

Um estudo completo envolveria os dois tipos de abordagem. Entretanto, embora em termos práticos tudo ocorra ao mesmo tempo, ou seja, os processos de proposta/fundamentação e o de aceitação ou rejeição não sejam independentes um do outro, esta distinção pode proporcionar maior clareza à análise de História da Ciência. Assim é possível, para efeito de estudo, dividir o processo em duas partes e, normalmente, um estudo não conceitual deve ser precedido de um estudo conceitual bem-feito. [ ]

Assim, estudando as publicações científicas primárias, pudemos responder à primeira pergunta; ou seja, a teoria de Lamarck estava bem fundamentada para que a teoria de Lamarck fosse rejeitada, na época? Esta resposta nos leva à segunda pergunta: se não foram fatores de natureza conceitual, quais fatores então teriam contribuído para que a teoria de Lamarck fosse rejeitada, na época? Para responde-la, teremos que fazer um estudo de outro tipo, porque em geral esses fatores (políticos, religiosos, sociais, luta pela autoridade no campo, propaganda), que são chamados não conceituais (ou extra-científicos), não transparecem nos textos científicos. Para detectá-los, seria preciso estudar a correspondência de Lamarck com outros  estudiosos de sua época ou de outros estudiosos influentes que comentassem sobre Lamarck e sua teoria, ler textos que nunca foram publicados, analisar o contexto social, político e religioso da época.” (História da Ciência: Objetos, Métodos e Problemas – Ciência e Educação, v. 11, n. 2, p. 305 – 317, 2005)

  • Do ponto de vista religioso a clonagem é uma violação às leis de Deus, pois o dom da vida por ele nos é dado, e por ele nos é tirado. Criar novas vidas e dispor delas ao nosso bel prazer é pecado. A Bíblia sagrada apresenta entre os déz mandamento: “Não mataras”.
  • Do ponto de vista político e econômico a clonagem pode se tornar perigosa, por exemplo: cientista cria secretamente um clone do presidente dos EUA e este é empossado no lugar do verdadeiro… O que poderia acontecer???
  • Do ponto de vista social é desumano, pois a clonagem cria vidas que serão destruídas!!! O clonado condenará a morte o seu clone???? Qual é o valor da vida???
  • Do ponto de vista legal matar é crime previsto no Código Penal, portanto o clone, enquanto ser humano, não pode ser morto!!
  •  (Decreto Lei 2.848/40, Título I – Dos Crimes contra a Pessoa, Capítulo I – Dos Crimes contra a vida, Homicídio Simples, art. 121 – Matar Alguém: Pena – reclusão de seis meses a vinte anos. Homicídio Qualificado, § 2º se o homicídio é cometido: I – mediante paga ou promessa de recompensa, ou por motivo torpe: pena – reclusão de doze a trinta anos).
  • Do ponto de vista ético o médico faz o juramento de salvar vidas. Como poderá matar um homem para salvar a vida de outro? (Código de Ética Médica – resolução CFM 1931 de 17 de setembro de 2009 – Capítulo I – Princípios fundamentais:

I – A medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza.

II – O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.

III – Para exercer a medicina com honra e dignidade, o médico necessita ter boas condições de trabalho e ser remunerado de forma justa.

IV – Ao médico cabe zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ético da medicina, bem como pelo prestígio e bom conceito da profissão.

V – Compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente.

VI – O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre em seu benefício. Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade.

VII – O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgências ou emergências, ou quando sua recusa trazer danos à saúde do paciente.).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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É editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora do ContemporARTES. Coordena o grupo de pesquisa do CNPQ LEPCON - Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade certificado pela UFABC em parceria com a UFV, UFJF, UFF, UFPA, USS e UFBA. É professora adjunta da UFABC. Pós-doutora em Sociologia pela UNICAMP, doutora em História pela USP com doutorado sanduíche pelo Centro de Estudos de Anti-Semitismo (Universidade Técnica de Berlim). Integrante Permanente da Pós Graduação de Ensino, História e Filosofia da Ciências e da Matemática (UFABC) Autora de Nazismo Tropical (Todas as Musas, 2012), Caça às Suásticas - O partido Nazista em São Paulo (Imprensa Oficial / Humanitas 2007) e outros.

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