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Blade Runner (parte 2)

Um ser que corre sobre a lâmina entre a escravidão e a autenticidade

Fiz minha lição que prometi no último texto: fui ver ao Blade Runner 2049 na semana passada, após ter visto a segunda versão do diretor de 1982. O resultado dessa experiência é o que analisarei a seguir, sob a ótica do filme anterior, lembrando principalmente os pontos que havia colocado sobre a fotografia. Contarei brevemente a continuidade da história para nos alocarmos no pensamento sobre o mesmo.

A ideia desse novo filme traz duas questões importantes que pouco vi nas críticas sobre o filme: a tentativa de se criar uma continuidade da história contada no primeiro filme, o que, ao meu ver, foi feito com muito sucesso; e a pitada do diretor Denis Villeneuve que consegue conduzir o filme salvando o estilo antigo e adicionando à temática que mais lhe interessa que é o ciclo renovado a partir do nascimento e suas implicações éticas.

Voltamos, portanto, à história do “corredor da lâmina”, como seria a tradução literal do título em inglês. Ela conta a vida de um novo tipo de replicante que tem a função semelhante à do antigo Deckard, a de caçar androids. A diferença consiste na mudança tecnológica dos novos replicantes, eles são construídos e programados tendo em vista a obediência aos humanos. Os antigos tinham certo prazo de validade de 4 anos que os impedia de qualquer humanidade e justamente por isso poderiam ser detectados pelo policial. Os novos convivem com os humanos, vivem e trabalham como os mesmos, mas são (quase) completamente obediente a estes.

Na cidade de San Diego, colheitas, favelas, poluição e muita chuva ambientam o ano de 2049. O oficial K, que muda seu nome para Joe, descobre uma ossada embaixo de uma árvore rara que traz uma revelação para si, bem como para dois outros setores da sociedade: a delegada da LAPD, chefe de K, que vê um risco para os humanos caso descubram essa ossada, e a nova companhia que produz os replicantes, a Wallace Co., que vê na ossada a descoberta de uma nova possibilidade de reprodução de escravos replicantes.

Mas o que há de tão especial nesse objeto descoberto por K? Ao ser investigado por um processo de análise 3d que faz referência aquele feito por Deckard sobre as fotografias no filme antigo, ele revela uma replicante que deu a luz a outro ser. Essa revelação de um “milagre” é o que move a história do conhecimento de K sobre seu passado e do seu encontro com Deckard, que se escondeu até aquele momento para permitir a vida de sua filha, oriunda das ossadas de Rachel.

Essa escolha da continuação da história me parece ser muito feliz ao colocar um novo elemento que é o convívio dos replicantes com os humanos, na condição de serem escravos obedientes, bem como os limites da tecnologia de androides, que são impossibilitados de se auto reproduzirem, sendo essa a maior ambição de Niander Wallace, dono da empresa do mesmo nome.

Mas além disso, o elemento que destacamos do filme anterior, a fotografia, parece ter agora um outro papel, também revelador dos tempos atuais. A tecnologia futurista para a época, pensando o primeiro Blade Runner, era o zoom fotográfico, bem como o scanner. Não havia fotografia digital, mas um misto do anlógico com o digital, como mostra a famosa cena da descoberta do ambiente dos replicantes por Deckard. Além disso, a fotografia tinha um importante papel da memória, pois era ela que revelava um fato do passado do replicante que poderia até confundir sua mente de que é um humano, como foi o caso da Rachel.

K em frente a uma propaganda da Joi, imagem do filme Blade Runner 2049

No novo filme, a evolução tecnológica é um espelho do nosso tempo presente do digital. Isso se mostra muito bem na relação amorosa que K tem com a Joi, um holograma de uma esposa/namorada que vive com o agente. Inicialmente esse holograma está preso por um dispositivo no teto e depois, com uma novo aparato que K compra de presente para ela, a torna mais livre a partir de uma melhora na técnica e no software. Tal holograma se molda a partir das vontades de K: é um software que substitui qualquer relacionamento real por um perfeito, mas ilusório. Em uma das cenas mais belas, a meu ver, o holograma se mistura com uma prostituta a qual K tem relações “reais”.

O significado desse vida pós trabalho que o replicante leva o coloca na busca de uma sensação real, justamente após um processo de conhecimento do seu passado que se dá com a própria ajuda do software Joi. Não seria distante pensarmos nessa relação amorosa projetada para o futuro com o filme em nossa atual situação a respeito do papel da pornografia e salas de chat na internet que assumem esse papel entre o real e o fictício e que omite uma experiência autêntica.

Um ponto significativo que serve para compararmos os dois filme é a diferença da memória pela fotografia da memória criada artificialmente. Quando K busca entender a autenticidade da sua memória do passado em que ele foge de meninos carecas e esconde um cavalo de madeira que sonhou, ele se depara com Stelline, sua irmã, que tem um papel para a própria empresa Wallace de ser a criadora das memórias, pensando em todos os mínimos detalhes das situações vividas. Essa menina que é filha de Deckard com Rachel vive isolada para que a própria empresa para quem trabalha, ou mesmo qualquer humano, não saiba quem ela é. Contraditoriamente, é a própria Stelline que cria as memórias dos replicantes, o que seria a própria prisão dos mesmos. Mas ela também pode dar pistas para sua liberdade, como foi o caso das memórias de K que ela se emociona ao reconhecer. A questão que perturba é: como pode essa pessoa que fica isolada do mundo ter conhecimento dos detalhes para criar outras memória? Propositalmente, uma pessoa sem experiências verdadeira é que poderia criar as falsas experiências dos replicantes. Aqui penso que o filme traz justamente o detalhe da experiência de K como a própria e única experiência autêntica de sua irmã e nesse sentido K seria especial, como diz a própria Joi.

Sob esse ponto de vista a memória continua agindo como um tema fundamental do filme, mas o seu lastro com o real parece estar cada vez mais difícil, uma vez que os próprio replicantes entraram no mundo da simulação e do virtual. Talvez seja justamente para dificultar a autenticidade de o autoconhecimento que os replicantes são permitidos de ter acesso aos prazeres e ilusões dos humanos pois já não importa a autenticidade da experiência.

Deixo como final esse pensamento renovado que o filme apresenta sobre nossas ligações com o mundo virtual e suas implicações na dualidade da escravidão e da autenticidade. Novamente, como o replicante que morre na última cena do primeiro filme, K morre olhando para o céu e sob a neve, em um momento de iluminação: mesmo não tendo encontrado a verdade que suspeitava de seu passado — a de ser o filho de um humano com uma replicante –, o que traria uma nova forma de experiência, o replicante atinge sua iluminação ao reconhecer o seu caminho como um sacrifício feito para que a própria irmã tenha a possibilidade da liberdade, mesmo com riscos, como um ser que corre sobre a lâmina.

É mestrando na UFABC em Filosofia, área que também possui formação como bacharel e licenciado. Pesquisa a relação entre cultura de massa, cinema e política nos autores Siegfried Kracaeur e Walter Benjamin. Quando possível, faz fotografias e vídeos direcionadas para temas da área de Filosofia, a qual é também professor. É educador no projeto Inventar com a Diferença, que trata de cinema e direitos humanos nas escolas. Por fim, estuda Relações Internacionais na UFABC.

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