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Blade Runner (parte 1)

O fato mais marcante sobre o filme é o papel da fotografia.

Coloquei-me o desafio de rever o filme Blade Runner, o clássico de sci-fi de 1982, para somente assim, com o olhar contaminado pela obra original, ir ver no cinema a nova versão: Blade Runner 2049, de Dennis Villeneuve. No presente momento acabo de rever o mais antigo e relembrar de algumas leituras sobre ele, como a de David Harvey em “Condição pós-moderna”, e gostaria de apresentar aqui, inicialmente, essa minha revisitação ao filme clássico antes de ir ver e escrever sobre o novo em cartaz nos cinemas.

A história já é conhecida: um Blade Runner (caçador de andróides), é convocado pelo departamento de polícia de Los Angeles no ano de 2019 para conter quatro replicantes que, após um motim no espaço, roubaram uma nave e voltaram para a terra com a finalidade de encontrarem seus criadores. A história, portanto, envolve a perseguição de tais replicantes pelo caçador Deckard, interpretado por Harrison Ford, e o desdobramento da busca para a extensão da longevidade da vida dos andróides, que são programados para durar apenas quatro anos.

O filme, acima de tudo, é uma representação de uma época. Essa é a leitura que viemos fazendo nesses artigos sobre cinema, baseados nas obras do Kracauer e Benjamin, até então. Nesse sentido, sob a leitura de alguns aspectos representativos do filme, chamam a atenção os aparatos técnicos que compuseram o imaginário do filme sobre um futuro. Em nossa posição privilegiada, do ponto de vista da proximidade com 2019, o ano que o filme retrata, podemos dizer que poucas coisas se mantiveram desse ideário futurista. Há luzes neon, fábricas que emitem chamas, carros voadores, prédios muito altos, chuva intermitente, e tudo em um ambiente muito escuro e caótico. As roupas comuns são pesadas e escuras. A arquitetura é uma fusão do clássico greco-romano, maia, egípcio, com alta tecnologia (comandos de voz, elevadores super rápidos, comunicação por vídeo). Pouco disso se concretizou, mas serve para nós, por mais contraditório que pareça, como um arquivo histórico referente ao tempo de 1982.

Diferentemente de Harvey que aponta o filme como um ótimo exemplo pós-moderno, dada a perspectiva da acumulação flexível do capital e a compressão do tempo e espaço, enxergamos o filme de Ridley Scott como um retrato  do receio da era digital que ainda era inexistente no momento de sua produção.

O fato mais marcante sobre isso é o papel da fotografia.

Deckard é especialista no método de distinção dos androides dos humanos, por meio de uma série de perguntas feitas aos replicantes que têm suas respostas analisadas em concomitância com leitura de seus olhos. Em certo momento, a personagem Rachel, uma replicante mais sofisticada (que vive com o próprio dono da Tyrell co., criador dos replicantes), passa por tal questionário e após bastante tempo é desvelada como androide. Inconformada, ela busca respostas na casa de Deckard, carregando consigo uma fotografia dela com sua mãe, a qual Deckard explica ser apenas um implante de memórias da filha do do Tyrell colocada nos robôs.

É também por meio da fotografia que Deckard encontra pistas sobre os replicantes “maus” que estão em sua mira. Em uma tela que permite dar zoom na foto por meio de comando de voz, Deckard descobre detalhes de que uma das replicantes procuradas está em processo de morte, perdendo sua pele. Tal cena que faz referência ao “Blow-up” de Antonioni, mostra a importância da fotografia: os replicantes que vieram confrontar seu criador humano tiraram sua própria fotografia, isso pois a mesma serve como uma forma de memória e o retrato de um fato verídico vivido. No limite, Deckard só se diferencia de rachel e demais replicantes pela quantidade de fotografias que carrega de sua infância em cima de seu piano.

Nesse ponto podemos enxergar a consideração que o filme faz sobre a fotografia, que nos tempos futuros há um retrocesso da memória e, por isso, é justamente a fotografia que pode ser um lugar autêntico das lembranças. Isso se dá também em um âmbito mais complexo sobre a psicologia humana. A curta vida dos replicantes é o que impede eles de serem humanos, pois é justamente pelo acúmulo de memórias que se dá a ética e a possibilidade de que os androides adquirirem humanidade. Essa mesma possibilidade é a que faz com que a relação de Rachel com Deckard possa acontecer, mas não sem antes ele impor comandos para que ela obedeça, como Harvey apresenta sob uma leitura freudiana.

Se pensarmos nos tempos atuais, o chamado mundo virtual que ainda não era incipiente no período do filme, e por isso foi pouco explorado, é justamente o rastro da fotografia que garante certa legitimidade para diferenciarmos perfis fakes de verdadeiros. O papel da imagem, de modo geral, é ainda um papel atrelado à memória e à autenticidade.

Os elementos que apontei sobre o filme indicam uma forte relação com a imagem e com a visão de mundo do futuro permitida somente por aquele tempo em que o ele foi produzido. Sem me alongar, espero ver o novo Blade Runner 2049 sob essas mesmas lentes e tentar compará-los levando em conta esse intervalo histórico de 35 anos.

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É mestrando na UFABC em Filosofia, área que também possui formação como bacharel e licenciado. Pesquisa a relação entre cultura de massa, cinema e política nos autores Siegfried Kracaeur e Walter Benjamin. Quando possível, faz fotografias e vídeos direcionadas para temas da área de Filosofia, a qual é também professor. É educador no projeto Inventar com a Diferença, que trata de cinema e direitos humanos nas escolas. Por fim, estuda Relações Internacionais na UFABC.

One Comment

  1. Bel disse:

    Parabéns, Gabriel.
    Excelente análise do papel da imagem nesse icônico filme!
    Abraço grande,
    Bel

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