Winter’s blue

Contribuição da leitora Beatriz dos Santos de Medeiros.

Beatriz dos Santos de Medeiros

As vezes rio dias inteiros, e as vezes choro por dias, raramente inteiros. Começo a sentir que o outono chegou, os dias são menos quentes. Para mim, quase nunca, os dias são mais frescos ou mais frios aqui. São apenas menos quentes. Mas já posso sentir noites mais frescas quando saio do meu abafado quarto de janelas fechadas. E esses dias menos quentes seguidos por noites mais frescas movem algo em mim. Amigos formados em medicina pela Universidade Wikipedia diagnosticam o clássico Winter’s blue, mas sou obrigada a discordar dos colegas. Eu somente me vejo em um movimento que acompanha o tempo. Que estranha sensação percebi pela primeira vez, e me dei conta de sempre ter tido e nunca percebido, quando o vento menos fraco e mais frio passou por entre os meus dedos e vi que os plátanos avermelhavam sob uma luz mais dourada e menos intensa num jardim… Sorri porque tudo estava bonito, porque me sentia bem naquela tarde realmente fresca, porque não tinha preocupações a não ser a de olhar tudo de forma que eu jamais pudesse esquecer. Mas tive vontade de chorar. Tive vontade de chorar porque…não sei porque. Apenas me senti exatamente como senti aquele dia. Mais tranquilo, mais calmo, mais bonito, menos violento, menos agitado e tumultuado, mais melancólico. Já não era mais aquela claridade que cega e aquele ar quente abafado, e isso me agradava muito. O período era bom. Estava na casa da minha irmã em Buenos Aires, passeava todos os dias por vários lugares e reservava parte da tarde para sentar em um parque ou jardim qualquer e olhar, apenas isso, olhar.

Mas naquele dia, algo diferente tomou conta de mim. Estava no mesmo parque no qual jantara com a minha irmã na noite anterior e ríamos muito quando minha irmã dizia ao garçom que  ¨quedeime boracha¨. Era um parque familiar, que antes me havia trazido alegria, muitas. E por que agora trazia-me uma sensação tão melancólica, um abatimento de ânimo tão forte? Chorei. Não copiosamente. Estava tão abatida que não teria forças para isso. Havia algo naquela luz oblíqua e no tom dourado-alaranjado-avermelhado das árvores e edifícios que me trouxera uma sensação que nunca me dei o direito de reparar. Era a sensação do fim. Do fim se aproximando. Uma certa decadência da natureza que eu estava, de alguma forma, compartilhando.

Esta fora a primeira vez que observei isto tão claramente, mas certas coisas depois de aprendidas, nunca mais são esquecidas. E deste então passo por isso todo outono. O outono me alegra muito. São dias mais bonitos, mais frescos ou até frios, podemos nos vestir melhor e sair em longas caminhadas sem nos incomodar com a claridade ofuscante e o calor incômodo. Mas ainda assim, quando chega o ápice do outono, sinto-me ligeiramente abatida. Felizmente, em nosso clima tropical isso demora muito a acontecer e não acontece todos os dias. Temos semanas inteiras de sol ligeiramente mais forte no nosso outono, e sou grata por isso. Mas quando estas semanas começam a desaparecer e as amendoeiras começam a avermelhar, volto a caminhar em direção ao fim, sinto a tal decadência e o ânimo abatido surge novamente.

Então vem o fim do mês do meu aniversário e junto o inverno. Gosto muito do inverno. Por algum motivo que eu desconheço, é durante o inverno, no Rio de Janeiro, que florescem as orquídeas, os ipês e as poucas paineiras que temos por aqui. Sem falar que os bugainvilles continuam coloridos. Sou friorenta mas amo frio. Gosto de sair por aí como em pieds-de-poule e xadrezes pretos e brancos, brancos e pretos, cinzas e pretos… Gosto de usar capa de chuva. Sim, a de verdade, impermeável, tradicionalmente preta e com aquela saia ligeiramente godê. Acho que é uma roupa que ajuda a silhueta de qualquer mulher. Gosto de usar os chapéus impermeáveis ao invés do velho guarda-chuva com o qual me atrapalho toda. Os chapéus só não servem para chuvas torrenciais.

Mas o inverno… ah, o inverno! Agora sim chegamos ao fim. Apesar de todo colorido, há alguma coisa nesses meses que mexe muito comigo. Não é um ligeiro ânimo abatido, uma melancolia. É uma tristeza de fato. O fim que tentamos evitar a qualquer custo, definitivamente chega. E ele me percorre inteira, do frio no estômago ao arrepio na espinha. Há muito custo, consigo manter-me em pé, produzir, fazer minhas caminhadas, tomar conta de mim e de outras pessoas. Mas a sensação é inevitável. Principalmente, quando se para. Quando sento-me em um banco a beira mar e vejo aquele céu cinza escuro encontrar o mar grafite, é o fim. Quando vejo a chuva através da minha janela, debaixo das luzes amarelas da calçada, é o fim. E quando vejo os moradores de rua enrolados em cobertores cinzas ou azul escuro, furados, rasgados, velhos e pedindo não mais um real mas um café ou um cigarro, é definitivamente o fim.

Dia desses estava andando por uma bucólica rua de Copacabana, por volta das cinco, mas com o céu já escuro e começou a chover um pouco mais forte. O som da chuva caindo na rua, batendo nas marquises e o barulho lento do pequeno salto da minha bota apertaram meu coração e, naquele exato momento, tive certeza de que não chegaria ao meu destino, tão próximo. Parei alguns minutos, respirei, não adiantou. Curvei-me, coloquei a mão no joelho e respirei mais fundo ainda e expirei tudo que podia. Alguns minutos depois, consegui seguir meu caminho. Dia desses fui ao Leblon. Apesar do dia bem nublado, amo ver os morros de Copacabana cobertos de névoa. Fui em alegre disposição, ouvindo música, como sempre. Cheguei ao meu destino, fiz o que tinha que fazer e resolvi andar um pouco por ali. O Leblon é realmente lindo. Embora meu coração pertença a Urca, adoro quase todo o Rio de Janeiro – ou, pelo menos, o que conheço dele. Encontrei tantas orquídeas e árvores floridas no Leblon que meu coração se aqueceu. Por fim, já quase chegando ao ponto de ônibus encontrei duas ou três árvores, cheias de orquídeas e, o que mais me relaxou, penduradas na árvore, várias placas lindas, pintadas, decoradas, falando sobre amor, respeito, auto-estima, gentileza, algumas pombas brancas costuradas em algodão.

Cheguei ao ponto de ônibus. Logo subi em um. E coloquei meu MP3 Player para tocar. Estava apreciando a elegância das vitrines e o bom gosto da maior parte dos letreiros do Leblon, quando subitamente me veio o fim. Para agravar a situação, meu MP3 Player começou a tocar Frank Sinatra e em pouco tempo estava tocando My Way. Lembrei-me que um dos últimos e-mails que enviei ao meu pai, enviei a tradução desta música. Não havia, quando meu pai estava frente à morte, música que o definisse melhor. Ele havia feito tudo na vida, mas do seu jeito, ele havia andado por várias estradas e, como na letra, tinha alguns arrependimentos, mas poucos para mencionar. Havia dado passos mais largos do que podia para depois ter que voltar atrás, amou e foi amado. Eu decidira não ir ao enterro, soube que minha irmã pronunciou palavras perfeitas, principalmente, a meu favor e de meu pai, de quem eu teria herdado a erudição (que erudição?!). Comecei a sentir certo pânico no ônibus. Mesmo depois, quando Frank Vallie gritava só para mim que não conseguia tirar os olhos de mim. Resolvi pensar em outra coisa. Lembrei que tinha duas comemorações de aniversário para ir e um café com uma pessoa muito especial. Fiquei meio confusa. A chuva batia forte nos vidros, o ar condicionado estava gelado. Pensei que morrer deveria ser daquele jeito. E me demorei neste pensamento. Até me dar conta de que era só um pensamento. Voltei a pensar nas comemorações. Nas roupas, na maquiagem, nos acessórios, na hora certa para sair, as palavras certas a dizer em cada uma das ocasiões. Sim, sempre planejo tudo com antecedência para no fim dar vazão à minha espontaneidade e sair abraçando gente que eu não conheço, ignorar o aniversariante e ainda assim, manter a alegria. E então, depois de certo pânico, voltei ao meu espírito leve e divertido. Este fim seria apenas um fim, não o definitivo. Mas há muito tempo – na verdade, voltando de uma viagem à serra, ao olhar para as estrelas – perdi o medo do fim definitivo. Algumas pessoas dizem que isto é impossível, outras dizem que é falta de amor a vida. Amo muito a vida e descobri-me tê-la vivido tão bem e tão intensamente, apesar dos pesares, que estou pronta para o fim a qualquer hora. Não, isso não quer dizer que eu queira morrer enquanto uma balzaca. Na verdade, espero, firmemente, morrer aos 121 anos. Mas por que 121? Gosto do número, alguns números têm certa mágica. Para mim, 121 é destes números, traz a ideia de uma coisa que vai e volta. Como a vida. Poderia ser 232, mas acho muito pretencioso.

Beatriz dos Santos de Medeiros

Possui graduação em Artes Habilitação – História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ (2012). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Artes, Teoria da arte, Estética, Historiografia da História da arte e Filosofia da arte. Mestranda na linha de pesquisa História e Crítica da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Artes do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa sobre Arte Moderna, Historiografia e Meyer Schapiro. Escreve eventualmente no Tumblr https://ad-astra-per-aspera84.tumblr.com/ e atualmente tem trabalhado com intervenções urbanas, fotografando-as para expô-las.
E-mail de contato: beatrizsmdr@gmail.com

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É estudante de graduação de Engenharia de Gestão na UFABC e graduada no Bacharelado de Ciências e Tecnologia na mesma universidade. É co-editora, na mesma revista, desde junho de 2015. Organiza as colunas Drops Cultural, Espaço do Leitor e Radar Lepcon.

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