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O que não pode ser dito

A sua mão sobre a minha mão é uma casa de resguardo, a morada nova de deus, uma reserva de silêncio e luz. Para mim, tão mesquinho, tão perdido, tão metido para dentro de tudo, a sua presença no mundo é já um risco incandescente na noite escura, um rastro novo de possibilidade, uma salvação sem tutela.

A sua mão sobre a minha mão é uma casa de resguardo, a morada nova de deus, uma reserva de silêncio e luz. Para mim, tão mesquinho, tão perdido, tão metido para dentro de tudo, a sua presença no mundo é já um risco incandescente na noite escura, um rastro novo de possibilidade, uma salvação sem tutela.

Fico aqui,

onde as coisas se acumulam, onde cidades inteiras brotam e dão frutos da manhã para a tarde, onde o concreto deita firme sobre o solo fértil de outrora; aqui, no lugar que sou eu passando, que sou eu transmutado em paisagem, no lugar dos meus dias, das horas imensas, dos minutos e minutos a racharem um relâmpago, a extraírem do clarão um oceano inteiro de penumbra.

Vê,

que os seus olhos, de quando em quando, são a minha única chance de vislumbre, a minha única janela para reconhecer que, se há fora, estou dentro

– é preciso sair,

arrastar para diante o corpo, inundar-se do som de outras palavras, de nomes estranhos, ocos, vagos – inteiros, emprestados, circundantes.

Vê,

há qualquer maneira que escapa sempre, qualquer extremo que transborda, que não cabe em parte alguma, que flutua e vaga, que é a sua mão sobre a minha mão a esquecer…

Fico aqui

na ciranda sem fim dos pedidos e dos afazeres, nos compromissos dados ao molde, nas obrigações muito medidas, nos sorrisos de moldura, nos olhares de esquina, nos abraços de laços frouxos, nas mãos apertadas e atadas com suspeita, nos acenos de cabeça, de palma e de gesto, no resto de tudo que sobra depois do portão cerrado, do banho tomado, do jantar e da ceia, da noite querendo  – já à meia – virar o dia, querendo despencar do topo, cobrindo de vontade o travesseiro e o cobertor.

Fico aqui

com o amor,

que é como um cancro às avessas, também tão vário e mortal, também anormal, irregular, também veloz, metastático, sutil e violento. Com o mecanismo estrangeiro e misterioso de cada um, com o feitio próprio de assombrar, com os meios de esclarecer, com os passos todos em volta, os caminhos estreitos entre as estações, os cheiros povoando cada espaço, o tom específico de cada chamada, a entrada privativa de cada intimidade…

Fico

junto da espera,

dos instrumentos de fúria, da calma e do medo.

Junto das minhas coisas, dos livros, das folhas espalhadas, da tinta, das teclas, do café; junto da estante, da garrafa d’água e de um leve tremor. Fico aqui. Observando a sua feitura arredar para as bordas o desarranjo da noite, dessa força noturna que fez morada sem aviso. As suas mãos – como uma fresta de manhã no traço da janela, como uma linha segura ao pé da porta, como a única marca de lume, na casa distante, num morro qualquer. E se me perguntassem o que é o infinito, o lugar sem lugar e sem fim e sem beirada nem centro;

eu olharia pra você

e diria sorrindo

– não sei!

Lucca Tartaglia é doutorando em Letras Vernáculas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Letras (Estudos Literários) pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (2014) e graduação em Letras (Língua Portuguesa / Literaturas de Língua Portuguesa) pela mesma instituição (2013). É colaborador, como membro estudante, do Núcleo de Estudos Portugueses (NEP) - atuando na linha de pesquisa Literatura, Cultura e Sociedade - e, como pesquisador, no grupo Formação de Professores de Línguas e Literatura (FORPROLL), linha de pesquisa Estudos de cultura, linguagens e suas manifestações, ambos vinculados ao CNPq.

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