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Dunkirk sob a luz do Brexit

(…) do mesmo modo que um filme futurista maximiza os riscos e aflitos da sociedade que se vive ao descrevê-la em outro tempo, um filme de ficção do passado contamina seu teor histórico a partir do seu próprio presente.

O mais novo filme de Christopher Nolan que foi lançado neste mês, Dunkirk, teve grande sucesso nos cinemas, o que o colocou no ranking dos filmes mais vistos sobre a Segunda Guerra. O filme foi polêmico quanto ao seu conteúdo histórico, ao mesmo tempo em que foi inovador na proposta estética e nos recursos técnicos. Por esses motivos, a sua importância simbólica no atual contexto do Brexit apresenta um crivo interessante para se pensar o que ele representa.

A história do filme remete à batalha de Dunquerque em 1940, último território da Europa continental que os aliados tinham domínio e que tentavam conter o avanço do nazismo. O filme retrata o momento da tentativa de fuga dos soldos nessa região francesa de modo fragmentado em três espaços temporais: o primeiro é da perspectiva de um soldado, que busca resgate juntamente com outros 400 mil britânicos; o segundo é dos pilotos de avião, que representam a pequena força que a Inglaterra enviou para a disputa nessa batalha; e o terceiro é o dos civis que se propuseram a ajudar no resgate dos soldados com seus barcos particulares.

A fragmentação temporal é sincronizada em relação ao clímax de cada sequência, a fim de gerar a tensão crescente de cada tempo paralelo dessas três situações que acabam por se juntar, ou entrar em sincronia, no desfecho do filme. A brincadeira com o tempo do filme é recorrente na obra de Nolan, vale mencionar os filmes Amnésia (2000), A origem (2010) e Interestelar (2014), que em suas particularidades mostram a habilidade do diretor nessa forma de narrativa não linear. No caso de Dunkirk, a fragmentação temporal pode também gerar o risco do recorte feito para a representação. Trata-se de uma fragmentação também representativa, visto que exclui importantes atores na batalha como o exército indiano e os negros oriundos de colônias britânicas e francesas, bem como a omissão de uma questão que ainda intriga os historiadores: por quê Hitler não atacou definitivamente os soldados que esperavam resgate em Dunquerque?

Podemos dizer que os fatos históricos foram deixados de lado. Como o próprio Nolan afirma: “Não quis me prender nos assuntos políticos. O problema também não é quem são, serão e de onde vêm os personagens. A única questão que me interessava era: Eles sairão dali?” (EL PAÍS). A suposta isenção de assuntos políticos ou de representação já são por si só escolhas de um ponto de vista sobre a história. Quem são aqueles que “sairão dali”? A pergunta que o filme se afasta é justamente a que mascara sua escolha histórica e traz consequências para o significado do filme.

No contexto do Brexit, opção de saída da União Europeia por parte da Inglaterra, o filme veste a roupagem do nacionalismo que decorrente do plebiscito popular. A questão do resgate de soldados britânicos é o ponto central que mobiliza os cidadãos comuns da ilha para se aventurarem em uma missão militar como forma de ajudar seus compatriotas em guerra. O inimigo que conhecemos historicamente pelo nazismo é apenas um inimigo “sem nome”, dado que o filme não simboliza, nem representa soldados nazistas, diferentemente de tantos outros filmes de guerra que se valem de uma imagem maligna do inimigo. Em suma, é o sentimento de medo no último contato com a Europa continental que fragiliza os britânicos. Tal sentimento é o objeto do filme por excelência, e desse modo ele se enquadra perfeitamente na aflição que motivou o Brexit.

Do mesmo modo, o resgate empreendido pelos civis para retirarem os britânicos que ainda estavam no continente, bem como a missão dos aviadores que escolheram ir ao limite da capacidade de voo determinada pela gasolina, são exemplos do nacionalismo expresso no filme. Talvez não seja possível fazer um filme de guerra que não seja nacionalista, mas pela escolha da batalha específica e pela narrativa que omite os a descrição dos participantes, o filme se torna um nacionalismo puro. Assim como “O resgate do soldado Ryan” (1999), maior sucesso de bilheteria de filmes sobre a Segunda Guerra, Dunkirk expressa uma ligação essencial entre os civis e seu papel sentimental na guerra. Faz-se necessária a representação de tais civis, que pelo protagonismo da branquitude e omissão de negros, se mostram, no limite, racistas.

Curiosamente houve omissões históricas muito importantes feitas no filme. O Royal army indiano foi completamente apagado da batalha, mesmo tendo sido fundamental para a contenção e para a logística da volta do britânicos. Também não vemos em nenhum momento negros ingleses. Isso é uma contradição, tendo em vista que havia colônias britânicas espalhadas pela África devido à dimensão imperial da Inglaterra desse período. Podem objetar: “mas trata-se de uma obra de ficção, não de um documentário de guerra. É aceitável a imprecisão histórica”. Eu responderia que meu ponto não é esse, mas que justamente na ficção que encontramos a relação atual que se faz em um filme: do mesmo modo que um filme futurista maximiza os riscos e aflitos da sociedade que se vive ao descrevê-la em outro tempo, um filme de ficção do passado contamina seu teor histórico a partir do seu próprio presente.

Sendo assim as escolhas do filme não devem ser lidas como gratuitas. Elas apontam para uma narrativa particular que considera a nação britânica fundada sob determinada composição racial e simbólica. O significado das imagens que se criam do passado pela ficção corroboram para o posicionamento presente. Por isso é de grande valor hoje estar atento às representações e tomar consciência delas para o que representam no contexto atual. Faz-se necessário assumir um compromisso com a história nesse sentido, caso contrário as afirmações do tipo “o holocausto não existiu” ou a mais recente no Brasil “nazismo é de direita”, irão sempre voltar com força de verdade e se valer de uma nova narrativa histórica  para tanto.

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É mestrando na UFABC em Filosofia, área que também possui formação como bacharel e licenciado. Pesquisa a relação entre cultura de massa, cinema e política nos autores Siegfried Kracaeur e Walter Benjamin. Quando possível, faz fotografias e vídeos direcionadas para temas da área de Filosofia, a qual é também professor. É educador no projeto Inventar com a Diferença, que trata de cinema e direitos humanos nas escolas. Por fim, estuda Relações Internacionais na UFABC.

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