• Home
  • Softpower e propagandas de guerra

Softpower e propagandas de guerra

O softpower está longe de ser ameno. Reconhecer seu valor é hoje uma forma de se proteger e de lutar no tabuleiro do jogo político internacional.

Seguindo um pouco a linha do texto que fiz sobre Tarantino e a vingança pelo cinema, vou tentar aprofundar um pouco mais na questão da guerra através dos filmes com algo mais concreto. Trata-se da Segunda Guerra Mundial e dos filmes que a antecederam e fundamentaram ideologicamente, tanto do lado do nacional-socialismo alemão quanto da democracia liberal estadunidense. Uma ligação com o presente também se faz possível ao pensarmos na briga atual da Coreia do Norte com os EUA no âmbito do softpower, como veremos.

Ultimamente reparei em uma série e em um filme no Netflix que ilustram um pouco esse tema: Five Came Back (2017) e The Propaganda Game (2015), sendo a primeira uma série/documentário referente a cinco diretores consagrados dos EUA da década de 30 e 40 que fizeram a cobertura cinematográfica da guerra; e o segundo sobre a Coreia do Norte e o que é veiculado como propaganda dela para o mundo bem como sua propaganda doméstica. Em contraponto, assisti recentemente o filme nazista de Leni Riefenstahl O triunfo da vintade (1935), que foi um marco sobre a propaganda de guerra e que teve sua resposta ideológica do lado de Hollywood, como bem mostra o Five Came Back.

O filme de Riefenstahl possui um valor histórico muito potente para os dias de hoje, pois podemos perceber como havia no período pré Segunda Guerra uma estruturação do Estado que unia muito bem o softpower e o hardpower. O filme se inicia com a chegada de Hitler em Nuremberg, onde ocorrem cerca de sete discursos para diferentes públicos, sendo eles o exército, trabalhadores, a juventude hitlerista, os líderes do partido, etc. A construção da narrativa traz muitas inovações técnicas e um planejamento de filmagem muito detalhado, tento em vista que os discursos foram filmados sobre diferentes ângulos e editados de modo a não ser monótono, utilizando os recursos visuais entre as falas. Algumas coisas chamam a atenção nesse sentido, como a cena inicial das nuvens em um plano a partir de um avião que trazia Hitler à Nuremberg que, imagino, causaria um impacto muito forte no público desse período que nunca havia visto o céu dessa perspectiva. Aliás, as cenas mostram muito bem como a mensagem deveria ser clara para o público espectador de cinema, lembrando o fato de que o filme buscava passar tanto o conteúdo dos discursos de Hitler para todos os públicos quanto uma sensação de impacto do poder dos discursos por meio da técnica cinematográfica. É assustador!

A resposta Hollywoodiana, como mostra a série Five Came Back, se deu a partir de um susto e medo de tais filmes, ou seja, o softpower nazista foi efetivo não só para o público alemão, mas para seus inimigos do ocidente. Assim, o filme Prelude to War (1942) foi uma resposta mais imediata para convencimento dos EUA para justificar ideologicamente a causa da guerra. Ademais, a comédia foi utilizada para desbaratinar o filme de Riefenstahl, valendo-se da semelhança de Hitler com o Chaplin e os irmãos Marx.

Mencionei o filme sobre a Coreia do Norte anteriormente, pois penso que ele pode nos trazer um pouco da atualidade do tema do softpower do cinema. O filme conta a história de um comandante de alta patente que era espanhol, mas se tornou coreano. Eles filmam sempre ao lado dos militares, de modo que a neutralidade que se pressupõe de um documentário é ameaçada, isso como justificativa de que há também uma propaganda má sobre a Coreia do Norte e o que o personagem principal tenta passar é de como o que falam sobre a Coreia é mentira. Mas o documentário soube lidar muito bem com esse teor coercitivo da Coreia e buscou a neutralidade ao mostrar como há na verdade um jogo de propagandas, tanto do que os EUA falam sobre a Coreia, quanto do que a Coreia fala sobre os EUA, para suas respectivas populações.

Não é novidade que vivemos sob uma hegemonia dos EUA, sendo o cinema seu carro chefe para a disseminação do softpower. O senso de justiça dos filmes de heróis americanos são compartilhados no Brasil e no mundo a partir de valores consolidados da história dos EUA. Mas o que podemos relacionar aqui, a partir desses filmes de propaganda de guerra mencionados, é de como esse lado do poder que atinge mais os corações e assim pouco podem ser mensurados, são também armas de guerra, muito potentes, aliás. O softpower está longe de ser ameno. Reconhecer seu valor é hoje uma forma de se proteger e de lutar no tabuleiro do jogo político internacional.

 

É mestrando na UFABC em Filosofia, área que também possui formação como bacharel e licenciado. Pesquisa a relação entre cultura de massa, cinema e política nos autores Siegfried Kracaeur e Walter Benjamin. Quando possível, faz fotografias e vídeos direcionadas para temas da área de Filosofia, a qual é também professor. É educador no projeto Inventar com a Diferença, que trata de cinema e direitos humanos nas escolas. Por fim, estuda Relações Internacionais na UFABC.

Deixe uma resposta