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O futuro do choque no cinema

Hoje, nos deparamos com a questão: será que o aumento tecnológico do cinema trouxe um aumento proporcional da “experiência de choque”?

Uma das principais questões que se debate hoje sobre o cinema comercial é quanto à sua relação com cortes rápidos. Essa estética ficou marcada em filmes de ação e sofreu um aumento crescente e gradual nos últimos anos. O corte, ou a montagem no cinema como um todo, tem um fundamento conceitual, cunhado por Walter Benjamin, que traz uma constelação de ideias sobre a experiência do espectador no cinema e suas implicações na formação da percepção estética. Hoje, nos deparamos com a questão: será que o aumento tecnológico do cinema trouxe um aumento proporcional da “experiência de choque”? Veremos o exemplo do óculos virtual.

O conceito que Walter Benjamin propõe é elucidativo sobre dois pontos de vista: (a) sobre a natureza da experiência do sujeito moderno, que passou a conviver com demais indivíduos em massa; e (b) sobre o novo status da obra de arte e da criação artística, agora permeada pela reprodução técnica. Ambos pontos remetem para uma revolução tecnológica que coincide com o sistema econômico capitalista e industrial. Assim, o cinema e a fotografia se apresentam para Benjamin como novos meios técnicos que mudam a relação do artista com a criação e a relação do espectador com a obra de arte. No caso do artista, há uma perda significativa da ideia de genialidade, isso se soma à relação com a obra de arte pelo espectador, que também é outra: não há mais um valor de culto sobre a obra, tais como as pinturas, esculturas e construções da Idade Média, mas sim um valor de exposição: tal como os próprios filmes, que chegam a diversos cinemas em vários locais do mundo.

Em meio a esse pano de fundo, a ideia de choque se complementa no cinema com a montagem: “A obra de arte ganhou uma qualidade tátil. Com isso, fomentou a demanda pelo cinema, cujo elemento da distração é sobretudo de natureza tátil, baseado fundamentalmente nas mudanças de locais e cenários, atingindo o espectador na forma de choques sucessivos.” (BENJAMIN, W. 2012, p. 29). A mudança de locais e cenários corresponde para Benjamin um importante elemento trazido com a montagem, que se difere de outras obras artísticas puramente visuais. O choque traz algo tátil, remetendo a uma tentativa já desbravada pela vanguarda do movimento dadaísta, atingindo o espectador que antes apenas contemplava uma pintura, para agora ser passivo na sucessão de imagens e localidades em sua experiência. Tal como o choque que o sujeito moderno sofre ao se deparar com uma multidão, sem conseguir se afixar em um rosto ou um elemento significativo, o choque do cinema impele o sujeito a se condicionar pelo que lhe é exposto, como Kracauer já identificara antes mesmo que Benjamin: “Os aparatos dos grandes cineteatros têm um único fim: manter o público amarrado ao que é periférico para que não se precipite no vazio. Nestes espetáculos a excitação dos sentidos se sucede sem interrupção, de modo que não haja espaço para a mínima reflexão.” (KRACAUER, S. 2009, p. 346).

A partir dessas ideias fica o desafio de se pensar na atualidade como o choque se manifesta nas obras, caso considerarmos esse conceito ainda válido para a obra de arte contemporânea. Penso que podemos analisar a questão à luz de uma revolução que cada vez se consolida mais: a do mundo virtual. Nesse ponto, uma criação recente que se fez foi a dos óculos virtuais. Estima-se que esse dispositivo atinja o público cada vez mais, e que traga novas experiências sensitivas e possibilidades de choque.

Tive a experiência de utilizar óculos desse tipo em 2016, para um console de vídeo game. Tratava-se de uma demonstração de suas funções em que, ao entrar na realidade virtual, perdi completamente a sensação do que estava antes ao meu redor, como se espera.Minha experiência foi a seguinte: lembro de uma sala com um painel que eu deveria acionar para entrar em uma fase. Nessa sala havia um piso transparente em que o chão levava a um buraco profundo; por isso o instrutor me aconselhou a não olhar rapidamente caso tivesse uma alta tendência à vertigem. Ao entrar na fase, fui reconhecendo o lugar aos poucos. Estava na proa de um navio afundado, em que podia andar em um pequeno espaço. A experiência consistia em olhar ao redor, no fundo do oceano, e ver os seres marinhos que passavam muito próximos a mim. O clímax dessa experiência foi quando uma baleia imensa passou e pude ver todos seus detalhes. Senti medo pela impressão de que o rabo dela fosse bater em mim e,  no final, retornei para a tela preta inicial do jogo que trouxe o fim da experiência imersiva. Quando retirei os óculos estava de volta à sala em frente ao console.

Não é a toa, caso o leitor não tenha percebido, que esse relato parece com o de um sonho. A sensação é parecida. Queria ressaltar uma diferença bastante significativa dessa sensação com o cinema: embora o cinema já tenha sido comparado tantas vezes com o sonho e que sua representação também gere a “perda da realidade”, com os óculos virtuais se trata de uma realidade em que se pode movimentar, mexer a cabeça para todos os lados e mesmo assim continuar preso nesse mundo virtual. Essa diferença substancial me parece ser o que causa um novo choque, uma ruptura sensitiva do espectador, não mais controlado pelos choques da montagem do cinema, mas por uma experiência autêntica de outras realidades. O artista cria um mundo de códigos 0 e 1 em que ele é o arquiteto e controlador das infinitas possibilidades. O lastro com a realidade já não é necessário, não importa saber de que maneira consegui me encontrar no fundo do mar e ver esses seres marinhos, ou se estou vendo qualquer tipo de ser inexistente na realidade.

Fica assim aberta uma nova gama de possibilidades a serem interpretadas com esse novo aparato da arte. O controle pelo choque passa a ser contínuo, como um plano sequência interminável, movido pela representação virtual. Assim como Benjamin e Kracauer pensaram nas possibilidades e conseqüências políticas dessa nova estética, penso que a simples conclusão que uma rápida reflexão como essa me faz tirar é a de que o centramento no indivíduo atingiu outro nível: o choque com as massas é substituído pelo choque dessa outra realidade; a experiência do cinema não é mais coletiva. Só eu posso ter acesso a essa experiência particular, pois tudo depende da escolha do que vejo. Seria esse o fim da sociedade das massas do século XX?

Referências

BENJAMIM, W. Benjamim e a obra de arte: técnica, imagem e percepção. Tradução: Marijane Lisboa e Vera Ribeiro – Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

KRACAUER, S. O ornamento da massa. São Paulo: CosacNaify. 2009.

É mestrando na UFABC em Filosofia, área que também possui formação como bacharel e licenciado. Pesquisa a relação entre cultura de massa, cinema e política nos autores Siegfried Kracaeur e Walter Benjamin. Quando possível, faz fotografias e vídeos direcionadas para temas da área de Filosofia, a qual é também professor. É educador no projeto Inventar com a Diferença, que trata de cinema e direitos humanos nas escolas. Por fim, estuda Relações Internacionais na UFABC.

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